SERENA DEU UMA BOA OLHADA para o grande relógio sobre o banner do Capitão América. Quatro e cinquenta e cinco da tarde. Faltavam apenas mais cinco minutos até fim do expediente. Ela suspirou. Havia sido um dia particularmente cansativo aquele e, por uma sequência de fatores.
Primeiro: teve de impedir três adolescentes idiotas de quebrar um maldito de vaso grego de mais de cinco mil anos; em seguida, precisou prestar queixa contra uma senhora cleptomaníaca que havia tentado roubar um conjunto de talheres particularmente raros de uma mostra temporária da monarquia da Latvéria; e, quando achou que o pior já havia passado, perdera mais duas horas e meia arquivando uma pilha enorme de documentos no subsolo, onde a circulação de ar — e o pó — era terrível. Tudo isso depois de uma reunião interminável sobre as próximas exposições do museu, a qual Serena tinha pegado no sono depois dos cinco primeiros minutos — em sua defesa, aquele power point era realmente cansativo. De qualquer forma, ela estava exausta e mal via a hora de ir embora daquele maldito museu.
Bom, talvez maldito fosse um pouco exagerado. Mas a verdade era que Serena não era a maior fã de seu ambiente de trabalho.
Não, aquilo não era verdade. Ela odiava aquele trabalho.
E havia sido assim desde o primeiro dia, meses atrás. Depois que voltara daquele estalo que acabara com metade da humanidade. E com os sonhos de Serena.
Sem patrocínio; com a bolsa esportiva cortada; cheia de dívidas; com zero perspectivas de futuro e presa em um mundo desesperançoso onde nada mais fazia sentido, Serena se agarrou ao primeiro emprego que encontrou pela frente. Mesmo que a vaga para assistente na curadoria do Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque não tivesse nada a ver com sua — pseudo — formação ou áreas de interesse; mesmo que Erika Jones, sua supervisora, fosse a pessoa mais arrogante que tinha conhecido na vida; mesmo que ficasse do outro lado da cidade e o salário nem fosse tão bom assim.
Depois daquilo, a vida continuou para ela. Teve de continuar.
Quando terminou de checar as exposições uma a uma, encerrou a bilheteria, liberou os funcionários e tudo mais, Serena concluiu que museu estava em ordem. E já estava prestes a pegar a bolsa e ir embora de uma vez antes que os alarmes soassem, quando se deu conta de que havia um cara no fim do corredor parado, encarando um dos uniformes do Capitão América.
Serena engoliu o palavrão prestes a fugir pela garganta e suspirou. Nem era tão surpreendente assim encontrar alguém àquela hora no museu, admirando aquele homem. Por alguma razão que Serena não conseguia entender, de todas as exposições, a dos Vingadores era a mais popular. Não era incomum pessoas passando horas e mais horas ali, apenas lendo os banners ou assistindo os vídeos dos totens de novo e de novo. De relance, enxergou uma imagem do Capitão América resgatando uma mulher, em 2012 e suspirou. Tudo bem, ela entendia um pouco, sim.
Super-heróis, pessoas mais poderosas da terra e tudo mais.
Mesmo assim...
— Desculpe senhor, mas o museu vai fechar em cinco minutos e... —Serena avisou ainda no final do corredor, após respirar fundo, com um sorriso simpático — Oh, sargento, é você — outra vez, quase completou.
Ele virou na direção dela.
— Coisinha, o que faz aqui?
Ela levantou uma sobrancelha.
— Bem, eu trabalho aqui. E você?
O sargento não respondeu. Ao invés, voltou a encarar os banners. Serena pensou em lembrá-lo outra vez de que o museu estava para fechar, mas ele parecia entretido. De qualquer forma, não tinha como enxotá-lo dali, ao menos não sem ter de lidar com a fúria de Erika. Ela suspirou. Nem sua simpatia forçada ou sorriso torto pareciam o bastante para chamar a atenção dele, que sequer piscava enquanto encarava um a um, os manequins expostos, como se aquilo fosse a coisa mais interessante do mundo.
Mesmo que não fosse nada demais.
Aquelas roupas eram apenas réplicas de baixa qualidade dos uniformes originais, que ficavam em outro museu, em Washington. E mesmo assim, ele encarava aquelas roupas com tanto afinco que Serena começou a encará-las também. Ao lado do Capitão América, estavam expostos alguns trajes dos integrantes do Comando Selvagem, o que também não era nada demais, embora, até onde sabia pelo menos, fosse um grupo de soldados de elite que praticamente desmembram a Hidra durante a segunda guerra.
As placas ao lado, marcavam os nomes dos soldados respectivamente: Dum Dum Dugan, Jim Morita, Gabe Jones e James Buchanan Barnes. As roupas não mostravam rostos, mas logo acima deles havia um banner ilustrativo.
Serena olhou para os homens um a um, se demorando no último, que estava, o canto direito. James Buchanan Barnes, era o nome dele. E o único que conhecia — um eufemismo, obviamente — mesmo antes de trabalhar no museu.
Para seu crédito, a maioria conhecia. Era uma história muito famosa nos Estados Unidos, não havia quem não soubesse da trajetória de James Barnes. O melhor amigo de infância do Capitão América, que continuava vivo e jovem, como se não tivesse nascido em meados dos anos vinte. Um soldado condecorado e herói de guerra e, como se não bastasse, o homem ainda era um Vingador.
Só que nenhuma dessas era razão pela qual o homem era tão famoso.
Na verdade, a razão pela qual a grande parcela das pessoas o conhecia, sequer era heroica ou grandiosa como o esperado de um oficial como ele. Isso porque, ao contrário do Capitão América, James Buchanan Barnes tinha um passado terrivelmente trágico.
Em 1945, no final da guerra, Barnes havia sido dado como morto. O próprio Capitão América acreditava nisso, segundo os livros de história. Mas aquele homem não estava morto, não de verdade. Algo muito pior tinha acontecido. O pobre soldado havia sido capturado pela Hidra, que não fora completamente desmembrada como igualmente diziam os livros. E, durante as sete décadas que se passaram, fora manipulado a fazer coisas inenarráveis. Naquele tempo, James Buchanan Barnes havia se transformado no terrível Soldado Invernal, o maior e mais letal assassino da Hidra.
Serena conhecia a história com mais detalhes do que gostaria de admitir a qualquer um, embora culpasse a Netflix e os Podcasts históricos pelo feito. Sabia que ele tinha sofrido algum tipo de lavagem cerebral — embora não fizesse ideia do que isso significava na prática — ao ponto de não saber a diferença entre seus aliados ou inimigos. Ou quem era de verdade. E ele passara décadas daquela forma, como um robô. Mais de setenta anos, sendo mais específica. Era muito tempo. Tempo demais tomado de uma forma vil e covarde. Pela Hidra. Ela arfou.
Hidra.
— Impressionante, não? — Serena ciciou depois de um tempo, muito mais para si mesma do que para Bucky, que ainda jazia parado ao seu lado — a história, eu quero dizer.
Ele então virou um pouco a cabeça, como se finalmente notasse a presença dela e a encarou com curiosidade, em silêncio.
— Sabe — Serena continuou falando e manteve o tom de voz baixo, como se estivesse contando um segredo — a maior parte das pessoas que vem aqui, idolatram esse cara — por alguma razão, ela olhou outra vez para o manequim trajando a farda azul-escuro de James Barnes, antes de completar: — o Capitão América, claro. É até engraçado.
Ela esperou por algum tipo de reação ou resposta dele. Mas tudo o que recebera foi um longo — e constrangedor — silêncio, enquanto o sargento continuava a encará-la daquele jeito estranho dele. Por que ele tinha que ser assim? Serena ficou incomodada. Detestava ser ignorada daquele jeito.
—Então, qual é seu favorito? — Ela insistiu.
Ele franziu o rosto.
— O quê?
Um sorriso jocoso escapou de seus lábios.
— A maioria das pessoas que vem aqui, fica falando desses caras sem parar, os Vingadores — disse ela, apontando para o banner — e os tratam como se fossem times da NFL.
Quando Bucky lentamente inclinou a cabeça, como se fosse a primeira vez que pensara a respeito, Serena se permitiu observar melhor seu rosto. Algumas mexas do cabelo escuro e comprido parcialmente coberto por um boné não a deixavam enxergar claramente, mas ela viu a barba dele. Uma barba mediana, que cobria boa parte do rosto e, debaixo dela, notou que havia uma marquinha bem no queixo. Ela apertou os olhos. Por um breve momento, teve a impressão de que Bucky lembrava alguém. Mas quem?
— Bom, não levo esses detalhes a sério, de qualquer forma — Serena continuou falando, provavelmente porque aquele maldito silêncio constrangedor que pairava entre os dois a irritava profundamente — acho que quando se passa tanto tempo em um lugar como esse, detalhes bobos, como qual Vingador é mais legal, acabam perdendo um pouco o sentido.
Ele fez um barulho estranho com a boca.
— Você, por acaso, não é uma dessas pessoas que não gosta dos Vingadores, é?
Ela levantou uma sobrancelha.
— Não foi o que eu quis dizer. É só que isso — disse ela, apontando para a exposição vermelha e azul espalhafatosa — parece exagerado demais para mim. É só uma pessoa. Uma pessoa incrível, admito, mas... uma pessoa.
— Hun.
Bucky parecia incomodado, que novidade.
— Quero dizer, olhe para esse cara — sabe lá por que, ela se sentiu obrigada a concluir a linha de raciocínio — como é possível alguém ser tão perfeito?
Serena então apontou para o Capitão América, como se quisesse provar seu ponto. O Capitão América era a epítome da perfeição. Ele era bonito. Muito, muito bonito. Tinha a moral, ética e todas aquelas merdas de patriotismo tão intricadas que parecia ter saído de uma daquelas propagandas antigas de recrutamento do governo.
Soava tão... falso.
Houve outro silêncio. Longo e constrangedor, silêncio. Até que o sargento repuxou os lábios como se ela tivesse contado uma piada.
— Então seu problema é com o Capitão América? — disse ele, a voz grave ecoando em seus ouvidos — por que todos parecem ter problemas com o Capitão América hoje em dia?
Serena quis revirar os olhos. Bucky era do exército, é claro que se ofenderia. Era bem provável que adorasse Steve Rogers como se fosse uma divindade. Talvez fizesse uma oração ao Capitão América enquanto hasteava a bandeira no apartamento todas as manhãs.
—Eu não disse isso — disse ela — não precisa ficar tão na defensiva.
— Mas foi o que pareceu — ele devolveu, encarando-a com afinco — confie em mim, as histórias sobre ele não são exageradas.
De novo, seu tom era o de alguém profundamente ofendido.
— Tenho certeza de que não são — Serena murmurou, com a mesma expressão de deboche dele — e sei que ele deve estar agora mesmo ajudando uma velhinha a atravessar a rua ou trazendo a democracia a algum país pequeno e cheio de petróleo por aí.
Bucky esticou os lábios no que poderia ser um sorriso adorável, se não fosse por seu tom irritante e complacente.
— E ainda diz que não tem problema com o Capitão América.
— Não tenho problema algum com o Capitão América.
— Mentirosa.
Não adiantava discutir com ele, Serena concluiu. O sargento deveria ser mais uma daquelas pessoas sem um pingo de senso crítico. Então tentou quebrar o gelo, falando:
—Digamos que eu não sou o tipo de garota que aprecia o tipo bom moço dele — e deu uma piscadela.
Ele então a olhou de um jeito diferente. Com interesse, erguendo uma de suas sobrancelhas grossas, de uma forma que Serena achou particularmente debochada.
— É mesmo? E qual seria o seu tipo, coisinha?
Ela não respondera de imediato. Levou uns instantes até que seu cérebro processasse a besteira que acabara de dizer a Bucky, ou no quão idiotas e sugestivas suas palavras tinham sido. Para o vizinho ainda por cima. Antiético pra cacete, Serena. Parabéns, pensou. Às vezes tinha o péssimo hábito de falar antes de pensar.
Ele deu outro daqueles sorrisinhos complacentes. Serena sentiu a cor sumindo do rosto. Depois voltando, em escarlate. E depois, em roxo. Então, para se poupar da vergonha, desviou o olhar, na esperança de que ele não percebesse que seu rosto estava a um passo de entrar em combustão.
Ironia ou não, ao fazer isso encontrou o manequim do Soldado Barnes novamente, à direita do Capitão América. Bem acima da farda, havia uma foto meio apagada dele em sépia, mas dava para ver que o homem tinha uma expressão séria, enquanto segurava um fuzil. Ela se sentiu estranha. Havia algo nele, algo que não conseguia explicar, mas que a impedia de desviar o olhar. Algo... familiar
— Sério? — disse o vizinho ao lado e, assustando-a. Por um breve momento, esquecera-se dele.
— O que foi?
— Na sua concepção, um assassino é melhor que o Capitão América? — continuou ele, e ainda que sua voz soasse perfeitamente normal, Serena sentiu como se estivesse zombando dela.
—Você está colocando palavras na minha boca— rebateu ela — e ele não é um assassino.
—Não?
—Não — Serena respondeu, muito rápido.
Não? Não, não era.
E de repente, se tornara advogada do diabo.
Bucky a fitou com curiosidade, como se Serena tivesse falado o maior dos absurdos. Ele então deu um passo à frente e, ela se lembrou da diferença de altura entre os dois. Não era como se ela não estivesse acostumada — Serena sentia como se a maior parte das pessoas do mundo fossem maiores do que ela — só que a postura dele transmitia tanta imponência que a fazia se sentir estranha e desconfortável. A pior parte era que o babaca percebera e parecia gostar de vê-la assim. É claro que ele gostava, se lembrou. O cretino adorava fazê-la se sentir inferior. Seu sorriso sonso se alargou na medida em que ela tentava ajeitar a própria postura, e empinava o nariz em uma tentativa patética de não parecer intimidada por aquela geladeira ambulante.
— O que você sabe sobre esse homem, afinal? — Bucky murmurou.
— Apenas que não teve culpa do que aconteceu — ela respondeu olhando diretamente em seus olhos — foi a Hidra.
Ele cruzou os braços.
— E o que sabe sobre a Hidra?
Serena não respondeu. O que sabia sobre a Hidra? Que eram monstros sem um pingo de apreço pela vida humana? Precisava de mais do que aquilo?
— Que diferença isso faz, coisinha? Obrigado ou não, ele continua sendo um assassino — Bucky emendou, como se soubesse de tudo sobre o mundo.
Houve mais um silêncio. Serena não sabia ao certo como responder aquilo, não conhecia o Soldado James Barnes, afinal. Talvez seu vizinho arrogante estivesse certo e ela fosse uma tonta ingênua. Não tinha a menor razão para acreditar na inocência de um desconhecido.
Mas ela olhou para o banner outra vez e sentiu o peito apertando.
— Você não entenderia — ela murmurou — mas eu sei que ele é um homem inocente. Há provas na internet, se não acredita em mim.
Bucky deu-lhe um olhar enervado, como se tivesse falado um absurdo.
— E o que a faz ter tanta certeza de que ele é tão inocente assim?
— Ah, eu não tenho — ela devolveu — não tem como eu ter certeza de nada, na verdade. Mas prefiro ter um pingo de esperança na humanidade de vez em quando. Deveria tentar, sargento.
— Disse a garota que odeia o Capitão América.
— Ter senso crítico é diferente de odiar — ela contrapôs.
Ele fez uma careta.
— Está me chamando de ignorante?
— Isso é você quem está dizendo isso, não eu — Serena respondeu, com o nariz empinado. Era sempre divertido contrariá-lo — o fato de ser verdade, é uma coincidência feliz.
Ele torceu o nariz.
— Qual o seu problema, coisinha?
Ela o encarou. Mas não respondeu.
— Você não tem o menor senso de autopreservação — emendou o sargento.
— Algumas pessoas diriam que é meu charme.
— É burrice — Bucky corrigiu, endurecendo o rosto — isso vai acabar te matando um dia.
Ela esticou os lábios.
— Agradeço o conselho, sargento — e piscou.
— Não foi um conselho — contrapôs ele — é um aviso.
Ele a encarou pela terceira vez e Serena reparou que seus olhos eram frios feito gelo. Gelo azul e penetrante, como o lago do parque nas noites frias de inverno e agitados como um mar revolto. Encará-lo era como encarar um abismo de tundra. E tinha algo a mais, algo que não conseguia entender, mas que a deixava profundamente curiosa, como se aquele homem fosse um quebra-cabeças.
Ela abriu a boca. E fechou. E abriu de novo. Mas não sabia ao certo como responder aquela provocação. Ele deu um passo para frente. A maldita sensação de familiaridade preencheu Serena outra vez, na mesma intensidade em que se afogava em seus olhos penetrantes.
— Sabe, sargento, você me lembra uma pessoa— ela pensou em voz alta — mas eu não consigo me lembrar quem.
Os olhos dele quase saltaram da cara.
— Não lembro não — sua voz, porém, era contida.
— Tem certeza? — Serena insistiu — porque estou com essa sensação há um tempinho.
— Sim.
— Mas eu acho que...
Ele não a deixou continuar.
— Você disse que o museu estava prestes a fechar, não disse?
— Bem, sim. Mas isso não responde minha pergunta.
— Não vou te atrapalhar mais — Serena sentiu a acidez em sua voz — boa tarde, coisinha.
Será que havia dito algo de errado?
— Ei, espera — ela quase gritou — sargento, volta aqui.
Mas ele a ignorou, deixando o salão em seguida, como se fosse um criminoso procurado em quinze estados. Serena até que tentou acompanhá-lo, chamando-o algumas vezes, só que ela o perdera de vista assim que atravessara o primeiro corredor do pavilhão. Existiam exatamente três saídas e sabia que jamais o alcançaria antes que deixasse o museu e saísse direto para a avenida, onde mais uma centena de pessoas estariam caminhando naquele exato momento.
Serena suspirou e achou melhor deixá-lo de lado. Estava cansada demais para aquilo, de qualquer maneira.
✧❄✧
Cerca de quatro horas mais tarde, Serena estava em sua cozinha, usando seu pijama favorito — uma camiseta larga com estampa de gatinho, shorts gastos e seu inseparável par de crocs com pins de Star Wars — enquanto tomava uma generosa xícara de matcha, encostada na ilha de mármore da cozinha. No forno, podia ver a massa de um bolo recém colocado para assar, já começando a tomar forma e espalhando seu aroma doce pela cozinha.
Ela pensava em nada e tudo ao mesmo tempo.
Havia sido um dia cheio aquele. Céus, estava tão, tão cansada... precisava de férias. Uma semana em Bogotá a deixaria novinha em folha.
Serena quis rir do pensamento.
Como se tivesse dinheiro para sair do país. Mal o tinha para sair do bairro. Mas, pensando bem, quatro semanas longe do museu seriam muito bem-vindas. Suas últimas férias foram há... Deus, ela sequer lembrava.
Poderia ir a Coney Island andar naquela montanha-russa que tanto gostava. Ou passar o dia todo olhando para o teto e...
Um estampido de algo caindo no chão ecoou em seus ouvidos. Serena procurou por James, deduzindo que o gato poderia ter quebrado outro de seus copos, mas o felino estava perto de seus pés.
Não, o barulho viera de outro lugar. O apartamento de Bucky, logo percebeu.
Bucky. Depois de três longos meses se evitando e trocando farpas, tinham se encontrado duas vezes no mesmo dia e agido feito pessoas civilizadas. Ou quase isso.
E, antes, ele estava... estranho.
Quer dizer, talvez o vizinho fosse estranho. Não o conhecia direito. Não tinha como ter certeza de como era normalmente. Mas... é, ele estava estranho sim. Principalmente quando fugira dela, como se fosse uma bruxa.
Será que estava com raiva dela? Será que ele a achava tão insuportável? Mais importante, por que estava dando tanta importância para o que Bucky pensava ou deixava de pensar sobre ela?
Só que Serena estava sim curiosa; curiosa sobre ele e sobre quem a lembrava. Passara o trajeto todo de metrô revirando memórias e rostos em busca do lugar de onde poderia conhecê-lo, mas não encontrou nada, o que era bem frustrante.
— Acha que seria muito estranho ir até lá de uma vez e perguntar de onde o conheço, James?
Dito isso, o gato deu um miado entediado e esfregou seu corpinho peludo por entre suas pernas.
— Acho que você tem razão — murmurou — é estranho sim.
Bizarro, melhor dizendo.
Não eram amigos. Bucky sequer gostava dela. Era melhor deixá-lo em paz.
Com um suspiro cansado, Serena colocou a xícara na bancada e virou-se na direção do forno, tentando voltar à realidade. O cheiro doce inundou o apartamento. Era divino. Aquela era sua receita favorita de todas: o bolo de frutas vermelhas coberto com crumble caseiro que costumava fazer com Isabel quando era mais nova.
O bolo era uma mistura do azedo da fruta, o doce da baunilha, o crocante do crumble e aquilo tinha gosto de infância, embora não conseguisse reproduzir a receita com a mesma perfeição de Isabel. Se fechasse os olhos, Serena conseguiria sentir a presença da avó ao seu lado, falando sobre o quanto gostava de cozinhar para as pessoas que amava.
Serena sentiu uma lágrima escorrendo. Sentia tanto a falta dela.
A morte de Isabel era um corte aberto em seu peito que nunca cicatrizaria. Uma ferida invisível escondida debaixo do medalhão frio que tinha encontrado na garagem cheia de cacarecos que ela deixara de herança.
Ainda se lembrava da última vez em que se viram. A última memória que Serena tinha de Isabel Valente era dela apoiando-a no esporte como sempre o fizera. E, depois... não tinha ideia do que tinha vindo depois.
A pior parte disso tudo era que Serena não estava presente quando Isabel tinha partido, apenas sabia que fora um tempinho depois do estalo. Não fazia ideia das circunstâncias, tampouco o que havia acontecido de fato.
Tinha sofrido muito? Estava sozinha ou em um hospital? Jamais saberia. E isso acabava com ela.
Serena então enxugou aquela lágrima solitária e desligou o forno. O bolo estava pronto. Tinha cheiro de mirtilo, framboesa, morangos e especiarias e tomara conta do apartamento, mas ela tinha perdido completamente o apetite.
Foi quando, através da parede, ouviu de novo o som de alguma coisa caindo — uma cadeira, quem sabe — embora estivesse meio abafado, graças ao som da televisão ligada no que parecia com um jogo de futebol. Bucky sempre deixava o volume alto demais, mesmo que reclamasse das sessões de filmes de Star Wars dela e... arg. Ele era um maldito hipócrita.
Mas ela olhou para o bolo, depois para a parede. E era uma ideia muito, muito idiota, mas...
— Por que não?
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