"Rzhavy; Pech; Semnadtsat; Rassvet; Dobroserdechnyy; Vozvrashchenie domoy; Nayomnik; Odin; Gruzovoy vagon..."

Gotov podchinya sya!

Uma vez que o soldado invernal fosse ativado, ele não hesitaria ou recuaria até que sua missão estivesse concluída.

Ele tampouco precisava de detalhes: um nome e um rosto era mais que suficiente para definir o alvo. Não interessava qual buraco da Europa precisasse revirar para isso. Ainda que aquela maldita mulher de aproximadamente sessenta anos, cabelos claros, olhos cinzentos e um pacote roubado estivesse fazendo-o de idiota há semanas.

Uma agente da maldita S.H.I.E.L.D. A mais habilidosa que tinha encontrado até então.

Em geral, o soldado não costumava ficar tanto tempo em campo — não que se lembrasse, pelo menos— mas aquela mulher em específico era muito mais esperta do que estava acostumado a lidar.

Ele conseguia se lembrar do dia em que seu parceiro de campo mencionou alguma coisa sobre ela ter invadido uma base de operações da Hidra, em algum lugar entre a Romênia e a Rússia e ter conseguido fugir com algum item valioso que nem fez questão de perguntar o que era (ninguém diria, de qualquer maneira). Claro, aquilo tudo tinha sido momentos antes do idiota ter sido morto pela própria mulher, sabe Deus como, no que ele acreditava ser o sul da França.

Passaram-se três dias desde então. E nada daquilo importava mais, o soldado acabaria com a perseguição em breve.

Em menos de cinco minutos, a agente se encontraria com um intermediário americano — que o próprio soldado tinha dado cabo, há exatas duas horas— em um luxuoso bar, dentro de um hotel chique em Genebra.

Pelo breve interrogatório, o soldado tinha descoberto que aquela agente iria despachar o pacote para o tal intermediário, que, por conseguinte, o entregaria para a base da S.H.I.E.L.D em Nova Jérsei.

E o soldado não poderia permitir aquilo.

Dito isso, entrar no maldito bar não havia sido um desafio, mas quando enfim conseguiu encontrar a agente sentada em uma banqueta, tomando o que acreditava ser uma dose de uísque, percebeu que havia algo de errado naquele lugar.

— Uma dose de gin com limão, por favor — ele murmurou a senha para o barista, que prontamente deixou o pedido e saiu discretamente até os fundos, como se soubesse o que estava prestes a acontecer. Esperto, o demônio.

Cuidaria dele mais tarde. Tinha um peixe maior para pescar antes.

O soldado então aproveitou a oportunidade e sentou-se ao lado da mulher. À primeira vista, não havia nada demais nela. Era uma mulher comum usando um blazer e calça de alfaiataria pretos; no colo, um medalhão com uma pedra azul brilhante se destacava das roupas e os cabelos estavam presos em um coque bem apertado. Ao notar a presença dele, contudo, deu uma risada seca e o encarou, como se fossem velhos amigos.

— Achei que gostasse mais de vodca — e sem o menor senso de autopreservação, ela aproximou-se de seu ouvido, sussurrando: — se bem que... você não é meu intermediário, não é mesmo soldat?

A forma como a palavra soldado saiu de seus lábios, em russo, o deixou em alerta. Ela sabia sobre a missão, sabia quem ele era. E se ela sabia, era bem provável que houvesse mais agentes da S.H.I.E.L.D espalhados pelo prédio.

— Veio aqui para me matar e roubar o "pacote", suponho — continuou a agente, tranquilamente enquanto entornava o resto do uísque, uma das mãos fazendo um gesto de aspas — tenho direito a uma última bebida pelo menos?

Ele permaneceu em silêncio, observando atentamente seus movimentos, refletindo sobre qual seria a forma mais rápida e discreta de matá-la antes que os agentes da S.H.I.E.L.D aparecessem.

— Estamos sozinhos, soldat. Nada de S.H.I.E.L.D. Pode relaxar — continuou ela — se bem que... você não consegue fazer isso, consegue?

Ele trincou os dentes. Não precisava fingir. O disfarce tinha ido para o inferno mesmo.

— Onde está o pacote?

A agente sorriu.

— Então você consegue falar, que interessante. A Hidra andou afrouxando suas rédeas ou está se rebelando, soldat? — ela fez uma careta — não, esse nome não combina com nem um pouco com você. Posso chamá-lo apenas de James, Sargento Barnes?

Algo em seu estômago se revirou. Aquele nome parecia... familiar.

— Não sei do que está falando — ele devolveu, tenso.

Mate-a. Mate-a. Mate-a.

A ordem perfurou seu corpo com a dor de milhões de agulhas quentes.

O soldado sentia aquela costumeira necessidade biológica de acabar com a missão de uma vez. Só que ao mesmo tempo, algo estava impedindo-o, como se seu corpo estivesse chumbado no chão.

— Você é melhor que isso, sabia? — ela continuou. A voz soava sincera — alguém como você não deveria ficar à mercê deles.

Na medida em que as palavras saiam de sua boca, ele sentiu uma estranha tontura consumindo-o.

Que merda estava acontecendo?

— Cale-se — o soldado ordenou, embora sua voz estivesse bem menos ameaçadora que o normal.

Ele sentiu a visão anuviando por um instante.

Imagens estranhas piscaram em sua mente. Pessoas que não conhecia. Lugares que nunca tinha visitado. Ele estava sendo envenenado. Provavelmente havia algum tipo de droga na tubulação, concluiu o soldado.

Não seria a primeira vez.

— Finalmente começou a se lembrar do passado, James? — murmurou a agente, com um sorriso de raposa enquanto ele massageava as têmporas. O nome escorria feito veneno de seus lábios.

— Pare de me chamar assim — o soldado sibilou.

— Por quê? É seu nome.

Mentiras. Ela estava tecendo uma teia de mentiras para enganá-lo. Desviá-lo de sua missão, maldita fosse.

—Nunca ouvi esse nome antes.

Ela apertou as sobrancelhas.

— Ah, você ouviu sim — rebateu a agente — mas o forçaram a se esquecer disso. Assim como o forçaram a acreditar que é uma arma perigosa. E lamento muito por isso.

Ela o encarou com aqueles olhos acinzentados brilhantes, com um sorriso cínico que o fez se sentir estranho outra vez.

— Você não sabe de nada sobre mim — ele rosnou, feito um cão acorrentado.

— Estava prestes a dizer a mesma coisa — retorquiu a agente — diga-me: como é não se lembrar o próprio nome? Esquecer tudo a respeito do país pelo qual tanto lutou ou quem são seus amigos? Ao menos saberia dizer quem foi Steve Rogers?

Mate-a. Mate-a. Mate-a.

Naquele instante, o soldado se deu conta de que aquela agente não era um ser humano comum. Ela tinha alguma habilidade. Talvez não um super soldado, mas algo parecido.

A porra de uma bruxa, quem sabe?

Era a única explicação para que suas besteiras mexessem tanto com sua cabeça.

No entanto, ele sabia muito bem que isso poderia acontecer. Sabia que seus inimigos, desesperados para sobreviver, diriam qualquer coisa para enganá-lo.

E era por esse motivo que não podia questionar ordens ou dar ouvidos para aquela merda. Ele era o Soldado Invernal. Uma arma.

E armas não conversavam com o inimigo.

Cansado de ouvir, o soldado enfim se livrou das amarras da bruxa e a atacou. Ela não teve tempo nem de piscar.

Segurando-a pelo pescoço com a mão esquerda, a mão de metal, ele tirou a agente do chão, como se não pesasse nada. A forma mais simples, rápida e silenciosa de acabar com aquilo.

Ela, contudo, não gritava ou tentava se libertar. Não. Aquela mulher continuou encarando o soldado de uma forma perturbadora, como se apenas aceitasse seu destino. Ele ficou atordoado por um instante. A agente o encarava sem medo algum, quase como se pudesse enxergar por trás de seus olhos. A bem da verdade, parecia até que ela estava sentindo pena dele.

Ninguém jamais o olhou daquela forma.

— Queria poder ajudá-lo, James — disse, firme demais para alguém que deveria estar sufocando — queria mesmo, mas não posso. Não posso arriscar. Ela... ela precisa de mim.

Ele apertou mais. A agente finalmente começou a perder o fôlego.

— Seu futuro é sombrio... — a agente continuou falando, seus olhos sequer piscavam— mas não perca as esperanças. Um dia... um dia, as coisas vão melhorar.

Ele fechou os olhos.

Mate-a. Mate-a. Mate-a.

Quem era aquela agente?

Mate-a. Mate-a. Mate-a.

Por que ela o chamara por aquele nome?

Mate-a. Mate-a. Mate-a.

James. Quem diabos era James?

Mate-a. Mate-a. Mate-a.

Por que de repente o soldado começou a questionar tudo?

Mate-a. Mate-a. Mate-a.

Por que o mundo estava girando tanto?

— Cale a maldita boca — ele cuspiu as palavras, perdendo o controle de vez. Ela era a culpada. Ela estava tentando confundi-lo, desviá-lo da missão. Bruxa desgraçada — onde está o pacote?

Ela deu um sorriso complacente e o soldado se deu conta de que aquele tempo todo havia sido enganado. O pacote nunca esteve ali. A agente estava comprando tempo.

— Bem longe do seu alcance. Longe do alcance da Hidra — ela arquejou — quando voltar batendo o rabo para seu mestre, passe a mensagem. Diga que... que a agente quatro o mandou ir se foder — ela cuspiu, sorrindo ainda mais — boa sorte, James. Você vai precisar.

Aquilo foi a última coisa que saiu da boca dela, antes que o brilho sufocante em seus olhos se esvaísse de vez.

Crack.

✧❄✧

QUANDO BUCKY BARNES ABRIU OS OLHOS, ESTAVA EM SEU APARTAMENTO OUTRA VEZ.

Ele sentia o corpo tremendo e a adrenalina correndo feito fogo em suas veias, como se tivesse acabado de voltar de uma maratona. Era um pesadelo, apenas a porra de um pesadelo. Que, na verdade, era uma memória. Outro pedaço da história do Soldado Invernal; outro assassinato a sangue frio.

Crack.

O estralo do pescoço da mulher ainda ecoava em seus ouvidos. Ele respirou fundo mais algumas vezes, tensionando os músculos e recobrando os sentidos. Era seu corpo. Ele tinha o controle. Não a Hidra. Não o Soldado Invernal. James Buchanan Barnes estava no controle.

Naqueles sonhos, porém, Bucky era um mero expectador.

Ao mesmo tempo em que estava presente, era incapaz de controlar o próprio corpo, exatamente como era naquele tempo. Ele arfou. Os pulmões imploravam por ar. A pele ardia em brasa.

Quis gritar; sentia a bile subindo na garganta, mas acima de tudo, queria que aqueles malditos pesadelos parassem.

— Pesadelos — murmurou, sórdido — quem dera fossem apenas pesadelos.

Bucky sabia que merecia aquilo, no entanto.

Precisava daquilo para que se lembrasse de que, se não fosse pelo Soldado Invernal, se não fosse por ele, aquela agente ainda estaria viva. Todos estariam.

Também não era como se Bucky soubesse o nome dela, seus objetivos ou o que tinha tomado da Hidra para começo de conversa. Eles jamais diziam, não podiam correr o risco de humanizar demais o soldado. E depois daquela missão, depois que ele tinha se livrado da mulher, o que aconteceu em seguida, também não conseguia se lembrar direito.

A agente tinha deixado o Soldado Invernal completamente transtornado e instável. Tão confuso que, imediatamente, os cientistas da Hidra apagaram suas memórias e o mandaram de volta para a criogenia.

E aquela mulher... ela havia descoberto a identidade do Soldado Invernal. Como? Quem era ela?

Ele tentou revisitar a memória, mas a cabeça martelou. Não havia mais nada. Sendo sincero, ele sequer conseguia lembrar da aparência dela, apenas detalhes vagos de um rosto maduro e olhos penetrantes. Era como se a realidade e seus pesadelos acabassem se misturando tanto que sequer conseguiria distinguir onde o Soldado Invernal terminava e Bucky Barnes começava.

E, francamente, ele não gostava de ficar revirando aquela merda toda.

Quando se levantou do chão, meio zonzo, percebeu que ainda não anoitecera. Ou já era outro dia. Às vezes, perdia um pouco a noção de tempo.

Bucky então olhou para o caderno repousado na estante da sala, um dos poucos móveis que já estavam na casa quando se mudou, assim como a televisão, que deixava ligada para abafar seus gritos e não assustar a vizinha.

Ao abrir, notou que a lista gigantesca de nomes da lista de reparações ainda estava ali. Alguns riscados. A maior parte, não.

Raynor, sua terapeuta, realmente acreditava que aquilo era uma coisa boa. Uma distração. Uma forma de redenção. Algo que o impedia de enlouquecer de vez, quem sabe.

Talvez fosse o único ponto em que concordavam.

Não que Bucky gostasse daquela porcaria de terapia, mas, de novo, não era como se ele tivesse alguma escolha.

E, mesmo levando em conta que se perdesse uma sessão, por qualquer motivo, acabaria em uma prisão de segurança máxima do governo —onde, a bem da verdade, deveria estar desde o começo —, era uma punição generosa. Generosa até demais, considerando tudo o que tinha feito nas últimas décadas. Todas aquelas vidas. Todo aquele sangue em suas mãos.

Toc toc.

No entanto, ele sabia toda a generosidade do governo só poderia ser atribuída a Steve, que depôs ao seu favor e praticamente implorou por anistia a Bucky.

Steve. Como desejava a presença do amigo naquele momento.

Sabia que era um maldito egoísta por desejar aquilo, mas tudo seria tão mais fácil se pudesse tê-lo por perto. Sentia falta da cumplicidade. Dos conselhos. Ou, simplesmente, da companhia.

Deus, Steve teve fé em Bucky quando ninguém mais tinha, nem ele próprio. Mais que isso, Steve se enfiou em uma merda gigantesca para ajudar Bucky. Para protegê-lo do controle da Hidra, do governo e de Zemo. Não havia palavras que pudessem expressar sua gratidão pelo que o amigo tinha feito.

Toc toc.

Mesmo assim, desde que Steve tinha partido, depois que ele escolhera Peggy e sua antiga vida, Bucky se sentia como se todos tivessem seguido em frente, exceto ele.

Se bem que... era exatamente o que tinha acontecido.

A garota bruxa tinha sumido do radar; o garoto aranha voltou para o Queens e sua vidinha de adolescente; os outros Vingadores estavam espalhados pelo mundo com suas respectivas famílias; aquele maldito guaxinim e seu bando de esquisitos se enfiaram de volta em qualquer que fosse o buraco do espaço de onde saíram; e Sam... bem, Bucky esperava não ter de vê-lo de novo tão cedo. Não depois do que havia insinuado naquela manhã.

Capitão América... ele. Que piada.

Ele sentiu vontade de arremessar aquela porcaria de caderno até o outro canto da sala quando percebeu que estava sozinho em uma época em que nada fazia sentido, se afundando em autopiedade e pensamentos conturbados. Não passava de um cretino miserável, cuja coisa mais próxima de uma família que restava era um caderno com um pilha de nomes para assombrá-lo pela noite e a sombra de Steve Rogers.

Talvez fosse a hora de reconsiderar a prisão federal.

Toc toc.

Bucky sentiu os músculos do ombro tensionando. Há quanto tempo estavam batendo? Estava tão distraído assim?

— Olá? — Disse alguém, do outro lado da porta.

Ele sentiu o corpo entrando em estado de alerta e deixou a autopiedade de lado. Tinha alguém ali.

Por um instante, Bucky cogitou a possibilidade de as batidas serem do outro lado do corredor — sua audição aguçada poderia pregar peças de vez em quando — mas imediatamente descartou a hipótese. Em três meses, a coisinha que morava do outro lado, apesar de ser naturalmente barulhenta, nunca recebia visitas, o que ele agradecia imensamente.

A última coisa de que precisava do som de risadas e bebedeira na calada da noite. Ou algo pior. Parte do pacote de super soldado, o fazia ouvir muito mais do que gostaria e seria extremamente desagradável escutar qualquer coisa além do barulho insuportável da televisão ou dos copos de vidro que o maldito gato dela vivia derrubando.

— Tem alguém aí? — a voz chamou outra vez.

Era sua porta. Definitivamente estavam batendo em sua porta.

Sua reação instintiva foi simplesmente levantar a guarda e olhar para o armário onde escondia uma arma, embora a condicional o proibisse.

Apesar de que, quem quer que estivesse atrás da porta, estava só e Bucky poderia lidar com a situação sem chamar a atenção dos outros moradores do prédio.

— Oláaaaaaaa?

Era uma mulher, obviamente. E não muito alta, ele observou, pela maneira que batia na porta. Mesmo se estivesse armada, Bucky poderia contê-la sem problemas.

A menos que tivesse algum tipo de poder e... se bem que aquela voz, ele a conhecia de algum lugar.

Ou talvez estivesse pensando demais, o que também era provável.

— Sabe, eu sei que você está aí dentro — a mulher protestou, com menos paciência — e é bem rude ignorar as pessoas desse jeito.

Ele queria ignorar, mas o som de seus pés batendo impacientemente no chão, feito um esquilo hiperativo estava irritando-o. E ela continuava batendo.

Uma. Duas. Três vezes.

Merda, até a respiração daquela mulher parecia afobada.

— Porra, você ganhou — Bucky resmungou ao vestir a jaqueta que estava jogada no chão, andando a passos largos até a porta — o que quer?

Quando ele abriu a porta, no entanto, a mulher parada na porta com a mão levantada e pronta para bater outra vez paralisou. O que o irritou ainda mais.

— Ah, então você está em casa. — disse ela, esticando os lábios — como vai sargento?

— Coisinha.

Ele deveria saber.

— O que você quer? — ele emendou.

— Doce como sempre.

Ele não respondeu. Não tinha presença de espírito o bastante para fazê-lo.

— Você está bem? — ela emendou.

— E por que não estaria?

Ela respirou fundo e o encarou. Faíscas explodiam de seus olhos castanhos. Seu nariz pequeno estava arrebitado e ela era tão baixa que Bucky precisou se curvar um pouco para enxergá-la direito. Era como encarar uma boneca de porcelana de tão frágil.

— Você parecia nervoso mais cedo, vim checar se está tudo bem.

Bucky não disse nada. Ela continuou falando:

— É por causa do — a coisinha olhou para os dois lados, como se alguém fosse aparecer e ouvir a conversa — assalto?

Ele esticou os lábios.

Então era por isso.

A bem da verdade, Bucky não estava nem um pouco bem. Mas aquilo nada se relacionava com o assalto.

A conversa com Sam o atormentava. Assim como o pesadelo de momentos antes. Tinha ainda investigação sem saída que estava fazendo e... cacete, seu cérebro estava à beira de um colapso. Não seria capaz de processar mais nada naquele instante.

A preocupação da vizinha, sobretudo.

— Não.

— Está zangado comigo? — ela murmurou.

— Se importa com isso? — Bucky respondeu, fingindo estar bem mais calmo do que realmente estava. Sua voz até soara sincera.

Tão sincera, que a coisinha piscou, como se não esperasse por aquilo.

— Claro que não — ela rebateu — mas é que... arg. Esquece.

E as bochechas dela mudaram para um tom de vermelho que o lembrou de morangos recém-colhidos no pomar, embora talvez fosse por causa do prato fumegante em suas mãos. Mas até que era engraçado a forma como ela estava sem graça.

— Não estou zangado com você. Um pouco impressionado com sua falta de bom-senso, mas não irritado.

Ela então apertou os olhos.

— Então por que fugiu de mim como se estivesse prestes a roubar o museu?

Bucky emudeceu.

No corredor, ele observou que a porta ao lado estava aberta e que ela usava o que parecia um pijama, com um par de sapatos esquisitos e enormes em seus pés. Seu olhar era de resignação, como se estivesse mesmo preocupada com o que acontecia com ele. Como se fossem amigos de longa data. Ele torceu o nariz. Era só o que faltava.

Mas, para seu crédito, aquela coisinha até que tinha razão.

Fugir não havia sido uma escolha inteligente. No entanto, não teve outra opção, porque naquele momento, no museu, Bucky teve certeza de que ela o tinha reconhecido.

Não como seu vizinho, mas como o... como o maldito Soldado Invernal.

A forma como ela alternou o olhar entre ele e o banner, tão estranha, tão curiosa... não fazia ideia de como ela reagiria se descobrisse, tampouco teria como saber se suas palavras sobre James Buchanan Barnes eram reais ou mera falácia de uma funcionária do museu, deslumbrada com uma projeção dele que sequer existia de verdade.

Ele não arriscaria, de qualquer forma.

Porque ainda que não fosse mais um criminoso procurado e não tivesse motivo algum para se esconder das pessoas, sabia que muitos ainda se assustavam quando descobriam a terrível verdade. Quando se davam conta de quem ele havia sido e do que era capaz de fazer ou quando notavam seu braço esquerdo de vibranium. Bucky odiava a forma como os olhares mudam. Com medo. Como se a qualquer momento ele pudesse sair matando todo mundo. Como se ele fosse um demônio. A pior parte era que, no fundo, era verdade.

Ele era sim um demônio.

— Não estava fugindo de você — ele disse.

— Não estava?

Céus como era insistente. Era melhor quando ela o evitava.

— Estamos bem, coisinha — garantiu.

Serena o encarou como se duvidasse dele.

No entanto, não disse mais nada.

— Mal-entendido esclarecido — disse ele, com a mão na porta — boa noite.

— Ei espera— ela retrucou, segurando a porta — não foi por isso que vim.

Foi preciso de muita presença de espírito para que Bucky segurasse o palavrão que estava preso em sua garganta.

Não rosne para as pessoas ou vai assustá-las, dissera Sam certa vez. E a terapeuta. E Steve.

— Claro que não — murmurou ao invés.

— Perdão?

Será que se rosnasse, ela iria embora?

A ideia era tentadora. O que saiu de sua boca, no entanto, foi:

— Só diga o quer de uma vez.

— Trouxe bolo — ela quase cantarolou, como se fosse uma fadinha da floresta.

Talvez aquela coisinha tivesse amizade com os ratos do metrô e as pombas do parque. A ideia quase o fez rir.

Mas o cheiro era muito bom, Bucky tinha de admitir. Não se lembrava da última vez que havia provado comida caseira na vida. Ou qual havia sido sua última refeição decente.

— Estou vendo — disse ele, complacente.

Talvez tenha sido aquele prato de uramakis de atum com Yori na última semana...

— Não seja tão antipático, seu grosso — ela devolveu, apertando os lábios — eu moro sozinha e fiz demais. Pensei em dividir. Você sabe, um acordo de paz.

— Por quê?

A coisinha piscou algumas vezes.

— Por que o quê?

— Por que me trouxe comida agora? — disse ele. — É meio suspeito, não acha?

Ela fez uma careta, como se estivesse profundamente confusa. E ofendida.

— Já disse, quero melhorar nossa relação.

— Não sei se acredito em você.

A coisinha levantou o nariz de um jeito extremamente pedante. Como se aquilo o intimidasse.

— E o que mais seria, seu maluco?

Ele cruzou os braços.

— Talvez você esteja tentando me enganar.

— Não faço ideia do que responder— ela o olhou como se realmente o achasse louco — tenho comida sobrando e quis dividir com meu vizinho babaca. Por que seria tão estranho assim?

— Porque não somos amigos — Bucky insistiu — você sequer me conhece.

Ela deu um sorrisinho.

— Isso não é verdade — disse — agora que ando reparando em você, tenho a impressão de que o conheço de algum lugar.

Bucky ficou pálido. A ligação do braço esquerdo começou a formigar.

— Você é modelo? — ela emendou.

— Não.

— Fisiculturista?

— Também não.

— Cantor?

— Tenho cara de Frank Sinatra?

— Não — ela admitiu, sorrindo ainda mais — mas poderia ser do Black Sabbath.

Bucky evitou perguntar o que diabos era Black Sabbath. Em partes porque não sabia ao certo se queria ouvir a resposta.

— E o que isso tem a ver? — Bucky desconversou — a questão aqui é que não confio em você.

A coisinha semicerrou os olhos.

— E o que você acha que vou fazer, sargento? Te envenenar?

Bucky sentiu o rosto esquentar. Era bem possível que, de fato, estivesse agindo feito um maluco paranoico. Só que aquela coisinha que o encarava com uma expressão irritantemente condescendente era apenas uma civil, jamais poderia entender seus motivos.

Ela nunca esteve em uma guerra; jamais precisou fugir da Hidra e tampouco era uma espiã que não podia confiar nem na própria sombra. Talvez para alguém como ela, realmente fosse maluquice. Ainda assim, ele não poderia simplesmente descartar a hipótese. Não depois de tudo que havia sofrido nos últimos anos.

Depois de tanto tempo em silêncio, a expressão dela raivosa se anuviou, imediatamente substituída por uma careta de escárnio.

— Espera aí, você está falando sério? — uma gargalhada escapou de seus lábios — ai meu Deus, você me pegou. Estava mesmo planejando te dopar e vender seu cabelo no mercado negro.

Ele torceu o nariz.

— Não faça parecer um absurdo.

— Desculpe sargento, você tem toda a razão — ela limpou uma lágrima que escapou dos olhos — é perfeitamente razoável achar que estou tentando te matar com um pedaço do meu bolo de frutas vermelhas. Mesmo que eu more aqui há o que... nove meses? E que já estivesse no prédio bem antes de você?

Ele suspirou.

Colocando dessa forma, talvez estivesse certa. Não faria o menor sentido que aquela coisinha irritante de um metro e meio fosse uma ex-agente da Hidra atrás dele ou algo parecido. Não teria como ser. Alguém como ela jamais seria tão ardilosa.

A menos que fosse uma farsa muito bem montada e...

— Quer saber, foi uma ideia idiota mesmo — ela murmurou, repentinamente parando de rir — vou deixar o bolo com o senhor Nakajima. Isso se ele não alegar que estou tentando matá-lo de diabetes. Vai saber.

...Ou talvez ela estivesse certa e Bucky estava apenas agindo feito um imbecil. E seu olhar era tão triste e magoado, que o fez se sentir um grande idiota insensível.

De novo, não estava errado.

Ele era um grande idiota insensível e que com certeza não deveria fazer amizade com a vizinha, mesmo que ela só estivesse fazendo aquilo por se sentir em dívida com ele. E, merda, aquela coisinha era o tipo de ser humano doce e ingênuo que esperava o melhor das pessoas e Bucky não merecia a amizade de alguém assim.

Mas, por algum motivo ainda mais idiota, ele se sentiu mal em ser tão rude com a pobre mulher que apenas quis ser agradável com o vizinho escroto.

— Espera — ele murmurou, antes dela se virar — eu... eu aceito o bolo, se ainda quiser.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Ah é? E não está mais com medo de eu ter trocado o fermento por cianeto?

Ele esticou os lábios.

—Vou correr o risco. Além disso, você não seria tão esperta assim.

Ela revirou os olhos.

— Ah, cale a boca, sargento.

Mesmo assim, ela estendeu o bolo. Bucky aceitou.

— Bem, fico feliz que nos entendemos — ela disse, animada de novo — quer dizer, somos vizinhos. Gosto de ser amiga dos meus vizinhos.

A coisinha estendeu a mão e deu um sorriso que a fazia parecer a bruxa boa do norte. Mas Bucky ficou tenso. Amigos. Não, aquilo seria demais.

Ele não podia fazer amizade com ela.

— Podemos ser amigos, não podemos? — ela repetiu, os olhos grandes e castanhos brilhando.

Não, não podiam. Nunca.

— Até mais, coisinha.

Ele tentou fechar a porta pela segunda vez, mas ela o impediu.

— Ah, pelo amor de Deus, sargento! — Serena praguejou, com os dedos segurando o batente — depois disso tudo, não vai nem me responder?

Ele forçou um sorriso. Definitivamente não estava habituado a lidar com pessoas.

— Prometo que não vou mais reclamar do volume da televisão — se obrigou a responder, apenas porque não queria dar falsas esperanças a ela — assim está bom para você?

— Bom, agora que você falou, você podia parar de implicar com meu gato e... — Assim que percebeu que ela estava afastada o bastante, Bucky bateu com a porta na cara dela.

A paciência dele tinha limites.

— Boa noite, coisinha.— ele agradeceu através da porta — obrigada pelo bolo.

— Babaca — ele ouviu a voz abafada dela retrucando com batidas irritadiças na porta de carvalho envelhecido — você é um babaca, sabia? — e se afastou, com passadas largas e enervadas.

Ele riu. Era, de fato, um babaca e se ela fosse esperta, não voltaria a tentar interagir com ele.

Quando a coisinha bateu com a porta do outro lado do corredor, Bucky virou o rosto. O relógio da parede marcava seis e meia da noite. Estava completamente sozinho outra vez. O canto escuro da sala onde largara o cobertor era deprimente. Ele respirou fundo, deixando o aroma do bolo de frutas impregnar o ambiente. Parecia fofinho e delicioso, tanto que sentiu o estômago roncar.

Envenenado ou não, concluiu que valia o risco.

Bucky respirou fundo outra vez quando se sentou no chão, ao lado do cobertor. Até que tinha sido divertida a conversa, pensou.

E o bolo era realmente bom.