Left Behind
2 O sorriso do estranho.
Notas iniciais
–Cara! –Ele grita
–Hã? –Resmungo apenas escutando a sua voz
–Cara! Acorda! –Ele grita mais alto
Meus olhos lentamente se abrem, dando lugar a uma imagem embaçada de um homem falando bem em cima do meu rosto. A medida que minha visão vai ficando mais nítida noto que um rapaz de olhos azuis, cabelos assanhados e com o rosto um pouco sujo me apoia em seus braços no chão.
–Quem é você? –Questiono admirado com o que estou vendo
–Quem eu sou? –Ele indaga – Eu sou o cara que você ia atropelando! –Ele grita e só então me joga de seus braços
–Está louco? –Questiono batendo minhas costas no chão
–Louco? Eu estou louco? –Ele indaga se levantando – Por que você ia me atropelar?
–Você quem entrou na frente do meu carro! –Rebato ainda sentindo dor nas costas
–Não, nada disso! –Ele indaga se abaixando e pegando um pau de madeira – Você me viu e ia me atropelar!
–Hey! –Digo me levantando assustado –Abaixa isso!
Ele está me encarando com o pedaço de tronco, enquanto eu tento me defender com as mãos, no entanto ele parece estar bem irritado.
–Você quer o mundo só para você é isso? –Ele grita erguendo o pau
–Não! –Grito arregalando os olhos – Cara, abaixa isso! Eu não ia atropelar você!
–Sim, você veio em minha direção! –Ele grita
–Eu ia me matar! –Grito
–O que? –Ele indaga confuso
–Eu ia me matar, por justamente não querer ser o único no mundo todo! –Digo
–Você é louco! –Ele grita
–Você que é louco, está parado na minha frente com um pedaço de tronco, pronto para me bater! –Grito
E só então ele bate com força o tronco na minha cabeça.
–Ai! –Grito assustado
Uma das piores dores que já senti na vida invade o meu corpo, levo uma de minhas mãos até a cabeça e a massageio rapidamente enquanto esse maluco apenas me encara.
–Des-desculpa. –Ele gagueja me encarando
–Desculpa? Desculpa? –Digo ainda massageando a cabeça – Você é louco, não sei por que estou perdendo meu tempo com você!
Digo essa minha última frase e só então viro de costas, indo novamente até o meu carro que está sendo invadido por uma fumaceira terrível.
–Me encontre em Lima, Ohio! –O cara grita atrás de mim
–O que? –Questiono me virando novamente
–Eu vi essa pichação de alguém e decidi vir até aqui, com alguma esperança de quem a fez ainda estivesse vivo. –Ele diz largando o tronco no chão
–Foi eu que fiz. –Digo respirando fundo e cruzando os braços – Em qual estado você a viu?
–New York. –Ele responde se aproximando
–E como veio parar aqui? –Questiono o encarando
–Vim de carro, porém ele bateu há algumas horas daqui. Tive que vir caminhando o resto do caminho. Me desculpa se fui meio grosso, mas fiquei assustado.
–Entendo. –Respiro fundo
–Acho que nós começamos com o pé esquerdo.
–Concordo. –Digo o observando
–Kurt Hummel. –Ele diz estendendo o braço
–Blaine Anderson. –Digo apertando a sua mão
[...]
Estamos os dois ao lado do meu carro que ainda solta fumaça. Um silencio se segue e nenhum de nós fala uma palavra sequer, é bem estranho eu encontrar uma pessoa depois de um ano e meio tendo contato apenas com bolas e amigos imaginários.
–Acho que foi alguma coisa aqui dentro. –Digo abrindo o capô do carro
–Veja o carburador. –Kurt responde
–Eu sei mexer em carros ok? Meu pai me ensinou quando ele pensou que eu me tornaria... –Interrompo e ele me encara
–Se tornaria? –Hummel questiona curioso
–Amante de carros. –Minto
Na verdade, me pai me ensinou a mexer em carros pois tinha certeza de que eu viraria hetero por isso. Bom, não funcionou.
–Já disse, tente o carburador. –Kurt diz me empurrando de lado – Não disse? –Ele debocha
–Ok, me desculpa. –Falo levantando as mãos –Onde aprendeu a mexer nisso?
–Meu pai era dono de uma oficina...bom, era. –Ele muda rapidamente de expressão
–Ele também... –Digo abaixando a cabeça – Olha, vamos mudar de assunto, também estou sem família.
–Eu não fiquei triste, acho que já me acostumei a ficar sem ele. –Kurt mexe em alguns cabos –Não era muito fã de carros, mas as vezes ele pedia ajuda e eu acabei aprendendo.
–Isso é bom. –Digo sorrindo – Mas me diga, o que você fazia em New York?
–Eu estava tentando entrar na universidade. –Ele me encara – Acho que não deu tempo.- E só então ele dá um sorriso
Seus olhos se iluminam por trás do rosto um pouco melado e seus lábios se esticam em uma perfeita forma que liga de uma orelha até a outra. Nunca vi um sorriso tão sincero, um sorriso que parece ter sido dado depois de tanto tempo de sofrimento.
–Pronto. –Ele diz fechando o capô
–O que? Mas já? –Questiono assustado pela rapidez
–Sim, vamos testar. –Ele diz abrindo a porta para mim, no entanto ele para e encara o meu carro por dentro
–O que foi? –Questiono guiando meus olhos em direção aonde os seus estão e logo descubro o que ele olha.
–Por que diabos você tem várias bolas com vários rostos dentro de seu carro? –Ele recua para trás um pouco assustado
–Não é nada demais, eu apenas não tinha com quem conversar e fiz rostos nas minhas bolas...
–Você conversa com bolas? –Ele questiona dando passos para trás
–Eu não sou louco ok? –Digo abismado
–Você quase me matou, está com um cabelo batendo quase nos ombros e uma barba tão grande que dentro de alguns dias vai tocar no chão. –Ele se afasta mais – E ainda, conversa com bolas?
–Kurt, eu não sou louco. –Digo me aproximando – Olha, meu cabelo e barba estão assim por que passei cinco meses andando por todos EUA a procura de pessoas. E sim, eu converso com bolas.
–Ok. –Ele se assusta e arregala os olhos azuis – Acho que fiz uma má escolha em seguir o aviso.
–Kurt. –Digo, mas ele se afasta –Kurt! –Grito e ele para de andar – Seguinte, não vou te obrigar a nada, mas se quiser me encontra estarei nas mansões há uns 5 quilômetros daqui ok?
Ele apenas faz que sim e se afasta rapidamente me deixando mais uma vez sozinho. Reviro meus olhos e respiro fundo, bato duas vezes na minha cabeça e não poderia estar mais irritado. Por que diabos eu tinha que trazer essas malditas bolas comigo? Ou melhor, por que eu tenho que parecer um louco quando na verdade não sou?
Entro no carro e bato minha cabeça no volante umas cinco vezes antes de tomar uma vergonha na cara.
–Viram o que fizeram? –Questiono olhando para as bolas – Eu vou furar todas vocês! Eu era o único e agora que encontrei outra pessoa que está passando pelo mesmo que eu, ele se assusta e foge, por conta de vocês!
Continuo encarando elas, e me dou conta de que eu realmente estou conversando com bolas. Volto a agarrar o volante e dou ré, virando o carro de posição e agora sim seguindo meu caminho mais vez até a minha casa.
Ao chegar na minha mansão, entro na casa com a maior cara emburrada que possa existir, chuto alguns moveis e algumas latas, deixando tudo cair pelo chão. Esse lugar está completamente desarrumado e eu não estou com a menor vontade de ajeita-lo.
Vou direto até a cozinha e abro todas os armários onde deixei as minhas compras emprestadas. Pego alguns salgadinhos, algumas cervejas e algumas jujubas. Carrego tudo comigo até a área externa e me sento no quintal. Fico observando o morro que leva ao restante de várias outras casas que parecem bem pequenas daqui onde estou.
–Eu Blaine Anderson, louco? –Digo abrindo os salgadinhos – Eu não sou louco. –Levo um punhado até a boca – Seria louco se falasse sozinho. –Falo com a boca cheia – Mas eu apenas falo com bolas.
Um silencio se segue e mais uma vez alguns pássaros passam pelo céu.
–E quem é aquele? –Questiono em voz alta – Kurt Hummel, que engraçado, mal chega e já quer se achar melhor que eu, concertando carros, dizendo que sou louco e que queria matar ele. –Olho para cima e grito – Quando eu pedi um homem, eu queria alguém que fosse ao menos legal! Que não me chamasse de louco!
–Então você pediu um homem? –Escuto a voz do Kurt atrás de mim
–O que? –Questiono assustado deixando os salgadinhos caírem no chão
–Esse lugar está um chiqueiro. –Ele diz se aproximando
–O que faz aqui? –Pergunto ainda assustado
–Você disse que se eu mudasse de ideia, era para te encontrar aqui. –Ele se senta ao meu lado –Arranjei outro carro e vim, vi o seu estacionado aqui na frente, portanto foi mais fácil de achar a casa.
–Não pensei que mudaria de ideia tão rápido. –Digo limpando minhas mãos
–Você e eu somos os únicos, pelo menos até agora, temos que nos unir. –Ele respira fundo –Apesar de que eu não faço a menor ideia do que fazer agora.
–Somos dois. –Respondo rindo
–Sabe. –Ele inicia – Quando soube a respeito do vírus não vou negar que fiquei completamente assustado, e só de pensar que o governo sabia de tudo me fez sentir ódio. Eu poderia ter salvado meu pai, mas não.
–Você não teve culpa. –Digo
–Sim, eu tive e ainda sinto raiva de mim por isso. –Ele respira fundo e passa os dedos pelo cabelo – Se eu não tivesse inventado de descer até a lavanderia do meu prédio, há uns cinco andares abaixo do subsolo talvez eu estaria morto.
–Como soube da notícia?
–Na lavanderia tinha uma televisão pequena que estava transmitindo tudo ao vivo. Fiquei preso por uns três dias, apenas eu, uma máquina de lanches e roupas cheirando a lavanda.
Não consigo evitar de dar uma gargalhada com isso. Mesmo com uma coisa tão seria ele não parece se abalar.
–Mas me diga, e você homem das cavernas? Se escondeu em alguma caverna? –Ele dá mais uma vez o seu sorriso
–Não. –Digo o encarando – Fiquei preso no meu porão. Ninguém estava em casa, nem minha mãe, nem meu pai, nem meu irmão.
–Sinto muito. –Ele me olha atentamente
–Mas eu estou realmente bem, veja só, algumas horas atrás eu estava sozinho conversando com bolas, e agora estou conversando com um estranho. É um avanço.
–Podemos não falar a respeito das bolas? –Ele diz arqueando as sobrancelhas
–Ok. –Digo em concordância – Pelo menos não temos mais engarrafamentos e os animais sobreviveram.
–Você só está piorando a situação. –Ele dá uma risada
–Eu sei, só estou tentando amenizar o fato de que nós somos os únicos e que agora não fazemos ideia do que fazer. –Respiro fundo – Já sei. Por que você não se muda para cá? Vai ser legal ter um colega de casa.
–Não sei... te conheço só faz algumas horas. –Ele diz mordendo os lábios e não sei porque não consigo evitar de olhar isso
–Seguinte, vamos do início. Você quer conhecer a minha casa?
–Se eu quero conhecer a casa de alguma família já morta, na qual você se apossou? –Ele repete rindo e se levantando – Claro.
Me levanto juntamente com ele e sendo assim vamos os dois caminhando para dentro da casa. Entramos e ele começa a olhar todos os moveis em seus pequenos detalhes, ele parece ser um tipo de cara curioso.
–O que é aquilo? –Ele questiona indo em direção a mesa
Corro rapidamente, passando na sua frente e o impedindo de passar pelo simples e único motivo que de a segunda parte das minhas compras estão aqui. Ou seja, as revistas pornôs.
–Não é nada. –Digo assustado
–Serio, me deixa ver. –Ele diz tentando passar, mas eu derrubo tudo no chão –Isso são revistas?
–Sim, são. –Digo o impedindo novamente de passar – São revistas pornôs ok?
–Pornôs? –Ele arregala os olhos –Nossa, então quer dizer que além de homem das cavernas e louco você ainda é pervertido?
–Eu não sou pervertido. –Digo levando as mãos a cintura –Será que você pode parar de me apelidar?
–Seguinte, não vou negar que estava com vontade de me mudar para cá, talvez a comunicação seria melhor, mas acho que vou ficar na casa aqui ao lado. –Ele diz com o mesmo sorrisinho assustado de antes
–Kurt, qual é! –Digo irritado
–Olha, eu não quero viver em uma casa com o homem que rouba várias revistas pornôs, com várias mulheres peladas na capa.
Há! Ele não conseguiu ver que são homens! Nunca me senti tão aliviado. Não quero que o único homem que assim como eu teve o azar de ser deixado, não fale comigo por que sou gay.
–Então você vai ficar na casa ao lado? –Questiono
–Sim. –Ele diz se afastando –Bom... talvez você devesse dar uma arrumada aqui nessa casa.
–Vou pensar nisso. –Digo
Seguinte, eu odeio quem me manda fazer as coisas e o Kurt não vai ser uma das pessoas que fará isso. Ele pode ser um pouco maluco, talvez irritante até agora, isso eu até posso aguentar, mas nada de pessoas querendo mandar na minha vida.
–É sério, aqui está fedendo... –Ele me encara – E não é a única coisa a feder.
–Por que você não se muda para a casa ao lado? –Digo o empurrando – Pode deixar que da minha casa eu cuido.
–Ok. –Ele diz se virando de costas. — Foi um prazer. Espero que goste de mim como vizinho.
–Só espero que não seja um vizinho barulhento. –Brinco ainda lhe empurrando
–Claro que não sou. –Ele rebate
[...]
–O que você está fazendo? –Grito da janela do meu quarto
Kurt está em plena noite batendo com um martelo gigante, que a proposito não faço a mínima ideia de onde ele arranjou, em um bueiro que liga a um esgoto.
–Estou tentando trazer água! –Ele grita
–Não pode fazer isso amanhã? –Grito de volta
–Não! –Ele grita fazendo mais barulho ainda
–Meu deus! –Sussurro levando as mãos até os ouvidos
–Blaine! –Ele grita
–O que é? –Questiono
–Onde você toma banho? –Ele grita
–Eu? –Questiono assustado
–Sim, já que não temos água queria saber onde você toma banho!
–Tecnicamente eu ainda não tomei banho desde que cheguei aqui, mas eu estava planejando fazer isso assim que tivesse a oportunidade.
–Você não tomou banho? O que? –Ele grita assustado
–Kurt, isso não vem a questão, por que não vai dormir? Amanhã você vê isso!
–Não! –Ele grita – Não sou um porco que nem você!
–Mais apelidos. –Resmungo em voz baixa -Ok! Eu vou dormir, vê se faz o mesmo!
Ele não me responde e volta a bater com força no bueiro, reviro meus olhos e me deito na cama. Me cubro e fico olhando para o teto.
–Olha o problema em que você me meteu. –Digo olhando para cima – Mais uma vez eu repito, será que não poderia ter trazido um homem menos irritante? Que não me desse apelido? Ou que me escutasse? Ou melhor... por que me trouxe logo um hetero? Ok, eu não sei bem se ele é ou não, mas nunca vi um gay saber tanto de mecânica.
Mais uma vez Kurt bate com força do lado de fora.
–Quer saber? Amanhã descubro se ele é gay ou não. Agora acho melhor eu ir dormir...também acho bom eu parar de falar sozinho. Bizarro Blaine, bizarro.
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