Leah - I See You
1 Capítulo 1 - Não crie expectativas!
Notas iniciais
Acordei com uma luz forte incomodando meus olhos, resmunguei um pouco sozinha, indignada que havia esquecido de fechar a porcaria da cortina. O dia raramente ensolarado direcionava sua iluminação diretamente ao meu rosto. Já estava de manhã, podia ouvir os passarinhos cantarem, seria até um dia bonito se eu não tivesse acordado desse jeito. Mal amanhecia e eu já sabia que seria um esplêndido dia para se viver.
Abri os olhos, encarando o teto em um tédio rotineiro. Até os raios solares pareciam tirar uma com a minha cara. Levantei-me a contragosto, fiz minha higiene matinal, arrumei minha cama e desci para a cozinha. Mamãe já estava preparando o café, usava um scrub vinho que combinava lindamente com sua pele. O cheiro de bacon e ovos que impregnava o cômodo fez meu estomago roncar e revirar. Mamãe quando me viu abriu um largo sorriso. Quis retribuir, mas meu rosto não seguiu meus comandos, acabando por sair algo mais parecido com uma careta.
— Filha, acordou tarde hoje. Sente-se, o café já está pronto. Tive que fazer outro, Seth acordou primeiro que você.
Ela começou a cantarolar alegremente enquanto se virava para a pia, ligou o rádio e começou a balançar os quadris no ritmo da música. Franzi as sobrancelhas, estranhando todo aquele bom humor.
— Onde Seth foi? — Perguntei aleatoriamente, enquanto enchia meu prato e procurava uma xícara.
— Ele foi na casa da Emily. Você sabe que ele não é de ficar parado aqui sem nada para fazer, ainda mais em dia de folga.
Resmunguei apenas um "Hm" em resposta. O silêncio confortável se instalou, sendo interrompido apenas pelos suspiros esporádicos e anormais dela e a música irritante e genérica do rádio.
Dona Sue suspirava uma vez, e outra, soltava risinhos com seus pensamentos longe, muito longe daquela cozinha. Fiquei curiosa, afinal o que diabos estava acontecendo?
— O dia não está bonito hoje, Leah? Todo ensolarado! O céu azul perfeito! — Exclamou alegremente, olhando o céu pela janela da cozinha. De longe, pela janela, dois passarinhos passaram voando em ziguezague entre si, como um casal. Pisquei, em choque. Eu havia acordado na porcaria de um comercial de margarina e ninguém havia me dito?
— Okay, fale logo o que está acontecendo. — Murmurei com uma careta quando a ouvi suspirar pela enésima vez. Mamãe me olhou com confusão fingida em sua face. Até Seth se safaria melhor.
— O que quer dizer?
Rolei os olhos, sem paciência para joguinhos. Até parece que ela queria mesmo esconder o que estava a alegrando tanto.
— O que aconteceu? Por que esses risinhos e suspiros todos? Tá feliz demais para quem vai trabalhar hoje ainda.
— Não sei do que está falando, filha.
Encarei-a ironicamente com a sobrancelha arqueada. O jeito como ela se movia, o brilho nos olhos que não se apagava, o coração que eu conseguia ouvir trotando no peito junto à vermelhidão suspeita em suas bochechas, a denunciaram mais do que todos os suspiros juntos.
— Vai me dizer que Charlie a pediu em casamento?! — Joquei zombeira, rindo da possibilidade.
Sua expressão espantada me fez deixar escapar um sorriso genuíno e pequeno dessa vez. Fiquei surpresa com a coragem de Charlie dando as caras, mas já esperava que acontecesse em algum momento.
Mamãe abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Quando finalmente conseguiu falar, disse em tom desconfiado:
— Quem contou a você?
— Então quer dizer que é verdade? Era só um palpite. — Confirmei, dando de ombros. — Por que não nos contou? Aquele cagão só fez o pedido ontem, foi?
Suas bochechas coraram ainda mais e seu olhar se tornou envergonhado, preferindo encarar os pés da mesa do que a mim.
— Não sabia qual seria a reação de vocês. É difícil contar algo assim. Ainda mais depois... Depois de tanto tempo.
Dei o melhor de mim para que meu sorriso saísse animador. Não queria que ela ficasse cabisbaixa logo agora que estava voltando a sua vida normal.
— Conte-me como aconteceu.
Seu olhar encabulado deu lugar ao de felicidade extrema, brilhante como o sol que irradiava lá fora. Admirava a forma como mamãe se tornava altamente transparente quando feliz. Era bom vê-la feliz. Quase fazia parecer que éramos uma família feliz.
— Ele foi tão tímido! Foi simples, mas encantador. Um jantar a luz de velas, música lenta e... Leah, ele se ajoelhou!
Sua empolgação era quase palpável, mas foi impossível não comparar o pedido de Charlie ao de meu pai. Sempre gostei de ouvi-lo contar como foi pedir a mão de mamãe. Algo simples, sem muito recurso, sem toda a música lenta e os joelhos no chão, mas eu, particularmente, adorava o romantismo da simplicidade dele.
— A senhora merece ser feliz, mamãe.
Ela sorriu meiga, mas logo a preocupação tomou conta de seu rosto de repente. Podia ouvir as engrenagens em seu cérebro girando e as paranoias começando a rondar sua mente.
— E Seth? Acha que ele aprovará?
— Tenho certeza que vai. Afinal, é de Seth que estamos falando. Mas, se ele não aprovar, irá se entender comigo!
O sorriso largo voltou a seus lábios.
— Obrigada, filha. Você sabe que todo o seu apoio é muito importante para mim, porque... Bem... Depois de seu pai, eu... Eu...
A interrompi quando percebi que ela iria chorar. Controlando a tristeza, as lágrimas, o luto persistente e todo o redemoinho que se mostrava altamente furioso dentro de mim, levantei-me e entrelacei suas mãos nas minhas. Apesar de molhadas, suas mãos delicadas estavam quentes, o anel novo e bonito brilhava em seu dedo anelar.
— Sempre estaremos juntas. Mesmo que eu pareça um pouco distante, ou mesmo azeda, como eles dizem. Prometo ser forte por nós três, prometo não deixar que nada interrompa a felicidade de vocês.
— Mas... E a sua felicidade, Leah?
Balancei a cabeça em negação enquanto dava-lhe um pequeno sorriso conformado. Leah e felicidade em uma mesma frase não combinavam em nada. Já havia aprendido aquilo do jeito mais difícil.
— Não se preocupe comigo, Dona Sue. Preocupe-se com os preparativos de seu casamento e lembre Charlie que ele ainda não veio pedir nossa permissão.
Ela acenou com a cabeça afirmativamente, seu sorriso voltando intacto, apesar do vinco de preocupação permanecer em sua testa.
Após esse momento de novidades, terminei de tomar meu café e me sentei na sala para assistir TV. Acabei adormecendo no meio de um filme clichê sobre uma nerd que se apaixonava pelo popular que também se vê, misteriosamente, apaixonado por ela. Ouvi minha mãe dizer que ia para o trabalho no hospital de Forks e que só voltava a noite, apenas murmurei um "Tá" sonolento antes de cair em um sono pesado, a ronda da noite passada havia sido entediante e longa demais.
O sonho que ganhava forma em minha mente era diferente dos outros. Meus sonhos, desde que me transformei em loba, sempre eram relacionados ou com a matilha, ou com papai, ou com sanguessugas emos encapuzados.
Mas, esse... Esse não. Esse era diferente.
Eu me via sorrindo, meus olhos brilhavam enquanto me divertia com a companhia de alguém. Me sentia em paz, completa! O sol quente beijava minha pele, sentia a grama macia tocando minhas patas, o cheiro de terra molhada que me rodeava. Eu corria em forma lupina, mas não estava sozinha. Tinha alguém comigo... Um homem, outro lobo. Nós brincávamos, corríamos, nos acariciávamos, e eu me sentia tão feliz que meu peito queimava em uma explosão de sentimentos fortes. Seu toque era como um acalento, um beijo gentil. Sempre que meus olhos iam de encontro aos seus, um sorriso imenso se abria em meus lábios, uma sensação de lar, de pertencimento. Era automático, praticamente rotineiro, era confortável. Percebi, com um horror novo e inquietante, que o que eu sentia era amor. Daqueles amores domésticos, amor permanente. A Leah do sonho não tinha medo desse amor. Que contradição.
Tudo estava bem em nossa pequena bolha de felicidade, até que o sonho mudou sua vibe tão rápido que quase não pude acompanhar. Ele, o homem desconhecido, se aproximava, só que me via cada vez mais longe. Conseguia ver seus lábios mexendo, um pouco amedrontados, me chamando em uma língua estranha que eu não reconhecia direito, não ouvia direito.
Principessa.
Queria respondê-lo, de alguma forma acalmar sua agonia que era o que me agoniava. Porém, as imagens foram ficando cada vez mais embaçadas, distorcidas até que acordei em um sobressalto.
Seth estava ao meu lado e eu sabia que tinham sido seus cutucões idiotas que haviam me tirado daquele pedacinho de paraíso apenas por implicância infantil. Felizmente para ele, não consegui me concentrar o bastante nele para me irritar, ainda estava presa no torpor, perdida nos sentimentos do sonho, daquela Leah que era desconhecida para mim. A Leah feliz. Meu coração batia tão rápido quanto um carro de fórmula um. A marca daquela voz que não pude ouvir, no olhar daqueles olhos, queimava feito brasa em minha mente, na minha pele. Olhos azuis profundos, lindos, sorrindo para mim.
Seth me cutucou novamente, parecendo empenhado em me azucrinar.
— Que droga, Seth! — Rugi raivosa, focalizando o rosto do idiota à minha frente quando ele decidiu me cutucar em outro lugar.
— Vamos, Leah! Acorde! São três da tarde! — Seu sorriso animado me irritou ainda mais. Se não fosse por ele ainda estaria sonhando. Ainda estaria lá. Poderia fingir só mais um pouquinho que aquela felicidade era minha.
— Não interessa que horas são, seu bastardo! Me deixe dormir!
O sorriso ridículo dele aumentou. Ah, como eu queria quebrar todos aqueles dentes alinhados! Mamãe nunca devia ter pago aquele aparelho odontológico.
— Então vá dormir em seu quarto, sua velha, e deixe o sofá livre! Quero assistir TV!
Grunhi e me levantei nervosa, jogando uma almofada felpuda em seu rosto enquanto me dirigia a meu quarto. Bati a porta do cômodo com força ao entrar. As perguntas girando em minha mente, apaziguando a raiva e me deixando com um sentimento confuso no peito.
Parecia... Parecia saudade, mas saudade do que?
Quem era aquele homem? Quem era o dono daqueles olhos? Eu o conhecia? Por que eu havia sonhado com ele? Por que me sentia daquele jeito? Por que estava sorrindo? Por que aquele sentimento batia tão vivo dentro de mim? Por que persiste em mim? Por que a visão do azul de seus olhos fez minha loba se agitar tanto, gostar tanto?
Haviam lendas em nossa aldeia, lendas que citam sonhos e que nossos ancestrais conseguem nos comunicar através deles. Conseguem nos avisar sobre perigo, fartura, conselhos... Sobre amor.
Mas, seria possível? Será que... Não! Pare! Não fique criando expectativas. Você sabe que isso apenas te machuca! Ninguém iria querer ficar com uma pessoa como eu, com o fim de uma linhagem, uma mutação genética idiota.
— Finais felizes não foram feitos para você, Leah. Acostume-se! — Repeti e repeti a mim mesma enquanto olhava pela janela de meu quarto. Talvez de tanto repetir, com insistência, meu coração acreditasse e acabasse de uma vez com aquela esperança persistente e idiota de um dia sentir felicidade completa novamente.
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