Leah - I See You
2 Capitulo 2 - Doce Perfume
Notas iniciais
Deitada em minha cama, sentindo o tempo passar pela luz que esmorecia brevemente pela janela, encarava o teto com tanto afinco que minha testa se franzia em concentração. Os olhos azuis banhando meus pensamentos, intrigando meu coração. Sentia que os conhecia... Sabia que o conhecia. Algo em meu peito me dizia que aquele sonho, aquela coisa mais parecida com uma lembrança do que uma questão fisiológica, não era só fruto da minha imaginação.
Sinceramente, eu não era tão criativa assim.
Aquele homem existia. Aquele lobo existia.
Existia tanto que quase conseguia sentir o toque em minha pele, só a lembrança do modo como ele me olhava, todo aquele carinho, fazia minha tez se arrepiar. Minha loba chorava, inquieta.
Tudo mexia comigo de uma forma tão inexplicável, mas como isso poderia ser real? Como podia ser possível? Era esquisito, mais do que o normal para mim. Era tão atraente.
Nunca levei meus sonhos como um aviso, ou alguma premonição, como meu pai e os ensinamentos da aldeia pregavam. Eles sempre foram normais, afinal, não havia interpretação. Mas agora, se eu nunca vi o dono daqueles olhos, como sonhei? Se nunca o vi, como tenho essa sensação de completude esquentando meu coração ao lembrar do pelo dele em contato com o meu enquanto lobos? Como conseguia sentir com exatidão a doçura de sua presença que enchia meu coração de... afeto? O azul bonito de seus olhos era tão quente e acolhedor, me encarava de forma tão doce e protetora. Nem quando namorava com Sam sentia aquele amor todo somente em uma troca de olhares.
Senti meu coração se apertar ao pensar nos olhares de Sam. Virei de bruços, enfiando a cabeça no travesseiro e soltando um grito abafado de frustração. Depois de tudo, conseguia enxergar que nada daquilo nem chegava perto de amor, pelo menos não o amor romântico, o que ele sentia por mim. Era apenas desejo carnal junto com a amizade que sempre tivemos. Algo frívolo, facilmente descartável.
Descartável como eu, aparentemente.
E isso era o que mais machucava. Não era por ser trocada por minha prima, nem por ter me sentido inferior, ou por ele ter me deixado sem mais nem menos, apesar dessas razões doerem também, havia algo pior. Ele havia mentido para mim. Mentiu seu amor por mim, me fez juras e mais juras que nunca se cumpriram, me despedaçou sem nem olhar para trás. Ainda doía e sentia que iria doer pelo resto da minha vida.
Minhas lamentações foram interrompidas quando Seth apareceu na porta, batendo rapidamente como um idiota barulhento, entrando sem permissão e dizendo:
— Leah, a mamãe chegou e está te chamando para a sala. Ela disse que quer falar com todos nós.
Bufei, levantando e colocando no rosto a mesma expressão indiferente de sempre, esquecendo por alguns instantes dele e de daqueles olhos, e desci as escadas com Seth à minha frente. Mamãe e Charlie estavam sentados no sofá com a TV desligada. Eles pareciam tensos, principalmente Charlie. Assim que nos viu, ela deu um sorriso largo de felicidade pura e falou animadamente:
— Charlie tem algo para falar com vocês.
O rosto de Charlie ficou avermelhado e seus olhos se arregalaram um pouco. De longe, consegui ouvir o barulho de seu coração bombeando com mais força do que o normal, sua jugular pulsava com vigor, expondo o movimento em seu pescoço. Ele pigarreou e mexeu na gola de sua camisa nervosamente antes de dizer de modo rápido, como se quisesse arrancar o curativo de uma vez:
— Bem, eu... Gostaria de... Pedir a mão da mãe de vocês em casamento.
Vi Seth paralisar, parecendo analisar a frase e digerir o que foi dito, e depois de alguns segundos soltar uma espalhafatosa gargalhada. Rolei os olhos, enfadada.
— Veio pedir a nossa permissão? Cara, que coisa antiga! Quantos anos você tem?!
Não pude deixar de sorrir por sua fala. Mamãe e Charlie soltaram um audível suspiro de alivio e logo após um sorriso animado, dando as mãos em um aperto carinhoso.
— Para quando é o casório? — Indaguei séria. Charlie arrumou a postura novamente.
— Ainda não decidimos, Leah. Mas será logo, logo. — Ele respondeu com um sorriso calmo nos lábios... Ou o que deveria ser um sorriso calmo.
— Estou de olho em você Charlie! Não vá pensando que irá enrolar minha mãe, pois não irá mesmo! — Seth exclamou teatralmente levando as mãos aos olhos e depois a Charlie. Mamãe riu sonoramente enquanto Charlie fingia uma expressão de medo, embora me olhasse pelo canto dos olhos. Sendo um policial experiente, ele sabia que o silêncio era mais perigoso.
Depois de muitas conversas, gracinhas da parte de Seth e coraçõezinhos saindo dos olhos do casal de noivos, me despedi de todos e subi até meu quarto. De lá, enquanto o céu dava lugar à luz das estrelas, ouvi eles falarem animadamente sobre os preparativos do casamento, Charlie dizer que a sanguessuga havia aceitado muito bem sua decisão, mamãe dar um tapa em meu irmão após uma piadinha sem graça sobre a noite de núpcias e muitas outras fofocas que não tinham importância. Os bochichos foram parando depois de um tempo e só conseguia escutar o vento balançar as folhas das arvores lá fora, Seth roncar alto em seu quarto, mamãe suspirar tranquilamente e a respiração suave de Charlie que vinha do quarto dela (que eu, educadamente, fingia não ouvir).
Não conseguia dormir, apesar de sentir a mente cansada. Meus pensamentos ficavam me levando a todo momento a certo par de olhos azuis. Sentia meu corpo inquieto, parecendo incomodado, ficava me mexendo de um lado a outro na cama, sem conseguir relaxar. Parecia que havia bebido duas jarras de café forte.
Rosnei, jogando o lençol fino para o chão, e me levantei não aguentando ficar parada naquele quarto. Fui até a cozinha e bebi um copo d'água. Liguei a TV, mas não consegui me concentrar o bastante em nenhum canal, então subi ao meu quarto novamente e troquei de roupa. Talvez uma caminhada noturna me faria relaxar o bastante para pelo menos algumas horas de sono de qualidade.
O frio não era incomodo, era agradável. Não precisava de blusas quentes pela minha temperatura um tanto elevada. Andei pela reserva sem saber para onde exatamente, seguindo meus instintos e deixando minha loba me guiar enquanto a lua cheia brilhava no céu, raramente, sem nuvens. Deixei que ela me levasse para algum lugar onde não precisaria por um sorriso animador nos lábios e falar "Não se preocupe, eu estou bem", onde não precisasse guardar todo o redemoinho.
Quando percebi, estava quase na praia. Caminhei por mais alguns minutos e me sentei na areia macia e úmida na beira do mar. O cheiro da maresia e o barulho das ondas quebrando foram me acalmando aos poucos até que me peguei deitada, observando as poucas estrelas visíveis. Não queria gritar, não queria chorar, não queria me sentir triste, não queria que as pessoas pensassem que era fraca, desejava apenas ter um pouco de paz, apenas um minuto sem esses sentimentos, um minuto sem...
Suspirei, respirando fundo, sentindo um aroma diferente no ar. Meu coração acelerou automaticamente, minha loba uivou dentro de mim, feliz, reconhecendo aquele perfume que não era mar, nem árvore, mas tinha em si toda a maresia e madeira que me acalmava. Era algo potente e quase afrodisíaco, com toques de terra molhada e limão. Masculino e forte, gostoso demais. Porém, tão rápido quanto veio, ele se foi, assim como minha loba que se aquietou e esvaiu, como se já tivesse encontrado o que procurava com tanto afinco. Ergui a cabeça tentando saber de onde aquele aroma vinha, mas nada encontrei.
O cheiro havia feito com que a inquietação passasse, mas deixou um vazio em meu peito. Parecia que havia parte de mim faltando. Precisava sentir aquilo de novo. Precisava sentir de perto... E algo me dizia que o dono dos olhos azuis estava envolvido naquela coisa maluca e psicótica que me acontecia.
O que estava acontecendo comigo, afinal?! Sonhando com pessoas que nunca vi, sentindo cheiros que não existem... ancestrais, será que estava enlouquecendo?
Dei meia volta e marchei em direção a minha casa, agora sem toda aquela lentidão. Já estava quase amanhecendo. Havia ficado mais tempo na praia do que havia pensado. Entrei silenciosamente pela porta da frente, a sala estava quieta, todos dormindo do mesmo jeito de quando tinha saído. Fui ao meu quarto e me deitei. Após alguns minutos consegui, finalmente, dormir. Mas, infelizmente, dessa vez sem sonhos.
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