Leah - I See You
5 Capitulo 5 - Em meio ao caos a luz se encontra
Notas iniciais
Acordei com a luz solar indo direto no meu rosto. Brilhante, amarela, quase fluorescente, um belo dia, ora vejam só. Abri um dos olhos, ainda meio sonolenta, o feixe entrava pela brecha da cortina exatamente em minha direção, como uma piada do universo. Sol contínuo? Em Forks? Que milagre! Mas... Por mais incrível que possa parecer, para atazanar ainda mais minha paz tão instável, não era só o sol que havia mudado. Surpreendentemente, sentia-me bem, com energia, ansiosa. Aquele aperto no peito quase sumindo, mas ainda presente. Sentia-me diferente, o que era estranho.
Desconfiada, levantei-me, troquei de roupa, arrumei meu quarto, fiz minha higiene matinal e desci para tomar café. Seth e mamãe já estavam lá embaixo.
— Filha, o que aconteceu? Fiquei preocupada. — Ela exclamou assim que botei os pés dentro da cozinha.
— É, mana. Você sumiu por um tempão. Mamãe quase chamou uma patrulha para te procurar junto com o Charlie.
Dei de ombros e, enquanto me sentava, suspirei. Minha loba estava animada. Por que ela estava assim? Pensei em que dia da semana era, que dia do mês. Algum aniversário, alguma época importante para lobos, alguma festividade? Que porra era essa?
— Precisava ficar sozinha, organizar meus pensamentos.
Mamãe me olhou com preocupação estampada no rosto.
— Leah, você... Está diferente.
Sinceramente, gostaria de falar que ela estava errada, que estava vendo coisas, talvez resmungar alguma má-criação, mas estava começando a ficar preocupada. Poupando-me de respondê-la, Seth falou animadamente:
— Hoje aqueles caras vão chegar, não é?
— Que caras? — Indaguei, espetando uma salsicha com um garfo para ocupar alguma parte do meu cerebro.
— Ai, Leah, sério? Qual é?! Como assim "Que caras?"! Os franceses, ingleses... Sei lá! Os outros lobos.
— Italianos. — Corrigi-o, levando café quente à boca. Meu estomago se alegrou com isso.
— Isso! Isso ai! Os italianos! Eles vão chegar hoje. Não é um máximo? Outros lobos! Estou louco para encontrar com eles, tenho tantas perguntas!
— O que tem de mais nisso? São estranhos, vindos de uma terra estranha, com sanguessugas estranhos atrás deles. — Rolei os olhos, embora estivesse um pouco animada também. A voz reverberando pelo meu subconsciente. Finalmente, conheceria ele... eles.
Ele me olhou como se eu tivesse o ofendido.
— Vai me falar que não tem nenhuma perguntinha? Que não está nem um pouco curiosa? Que não quer saber mais um pouco sobre Derick e seu bando?
Claro que tinha perguntas. Claro que tinha dúvidas e pontos de interrogação fervilhando em minha mente. Claro, também, que queria conhecer o rosto do dono daquela voz levemente rouca com aquele sotaque fofo e... enfim, mas Seth não precisava ficar sabendo.
— Não, não tenho. Sabe qual é o seu problema? — Perguntei olhando-o gozadora. — Você é um crianção, moleque.
Ele fez uma careta engraçada.
— E você é muito chata, sua velha.
Rosnei ameaçadoramente, ganhando uma piscada divertida em troca.
— Chega vocês dois! — Mamãe disse com uma autoridade digna de alfa. — Não sou obrigada a ficar ouvindo dois lobos rosnando entre si o dia todo! Comportem-se!
— Desculpe, mamãe. — Eu e Seth murmuramos em uníssono.
A expressão repreendedora se foi e uma carinhosa apareceu em seu rosto.
— É muito legal e tudo, Seth, mas as coisas não são tão simples assim. E se os sanguessu... — Segurei uma risadinha. — Digo, e se os vampiros vierem atrás deles e consequentemente atrás de vocês? O que vai acontecer? São muitas coisas em jogo e que devem ser pesadas com cautela.
— Acha que não damos conta de um bando de emos mesquinhos? Poupe-me, mamãe. Assim, a senhora me ofende.
Seth assentiu concordando com minha indignação.
— A situação é diferente daquela outra vez. Não haverá vampiros aliados para ajudá-los.
— Apesar de gostar dos Cullens, nunca precisamos de ajuda de vampiros para nos protegermos. Se eles vierem, estaremos preparados e com mais lobos na matilha contando com o bando de Derick. — Seth disse suavemente, o brilho animado ainda nos olhos.
— Não acho que os sanguessugas iriam nos virar as costas se houvesse guerra. Nós os ajudamos uma vez, eles nos devem. Além de que eu acho pouco provável que a monstrinha deixe Jacob se machucar. Se ela quiser, todos os Cullens lutam.
— Eu não aguentaria perder os dois. Eu... Não aguentaria. Não quero que nada aconteça com vocês. — Mamãe balançou a cabeça negativamente, um semblante preocupado no rosto.
Seth a abraçou carinhosamente.
— Não se preocupe, Dona Sue. Iremos te obrigar a ouvir nossos rosnados por muito tempo. Mesmo quando se casar com Charlie, ainda vai ter que nos aguentar. — Exclamei sorrindo levemente.
Incrivelmente, não foi tão difícil sorrir hoje. Eu me sentia anormalmente entusiasmada.
— Okay, eu já vou indo. — Seth disse se levantando. — Isso está muito estranho, Leah sorrindo, mamãe preocupada atoa, e, cara, pessoas novas!
— Onde vai, querido?
Ele já estava saindo pela porta quando respondeu:
— Vou pra casa do Sam. Vou com ele buscar os estrangeiros no carro do Jared.
Mamãe assentiu sorrindo. Terminei de tomar meu café, ajudei mamãe a arrumar a casa e, enquanto ela descansava na sala, fui lavar as roupas. Lavar roupas é bom, te ajuda a pensar, a botar seus pensamentos em ordem. Quer dizer, é bom para quem quer pensar, quem quer botar seus pensamentos em ordem, o que não é o meu caso. Se eu parasse para pensar, iria ficar lembrando de coisas tristes, deprimentes, como no Sam, ou na Emily, ou o quanto é dolorido e chato a felicidade de todos. Para! Chega! Esqueça isso! Já está na hora de esquecer tudo o que aconteceu, esquecer como eles esqueceram. Pelo menos finja que nada aconteceu, Leah. É melhor, muito melhor.
— Leah, querida, o almoço está pronto.
Nem havia percebido que já era de tarde. Andei até a cozinha, coloquei uma generosa quantidade de macarronada e me sentei. Mamãe veio logo depois e se serviu também.
— Seth vai comer na Emily? — Perguntei entre uma garfada e outra.
— Vai, ele já avisou. — Ela suspirou alegremente. — Sabe, eu e Charlie decidimos deixar o casamento para daqui um ano... Ou dois.
Levando a mão ao peito dramaticamente, exclamei fazendo gracinha:
— Ele está enrolando a senhora?! Quer que eu dê um jeito nele, Dona Sue?
— Não! Leah, céus, não! Ele... Ele não está me enrolando. Nós decidimos esperar um pouco. — Mamãe pareceu horrorizada.
A olhei desconfiada. Tinha alguma coisa ali.
— E por quê?
— Ora, não somos mais jovenzinhos, já esperamos muita coisa, podemos esperar mais essa. — Ela corou fofamente.
— Mas, por esse motivo mesmo é que deveriam se ajeitar logo. Já não são mais jovenzinhos. — Ri de sua face chocada.
— Está me chamando de velha, Leah Clearwater? — Colocou as mãos na cintura em uma pose de raiva fingida. Quando ia responder e implicar mais, o telefone tocou. Mamãe foi atende-lo.
— Alô?
— Tia Sue? — Emily sussurrou do outro lado da linha.
— Olá, Emily. Aconteceu alguma coisa?
— Tia, eu preciso... Preciso de ajuda. — Sua voz era fraca e gaguejante. -Estou mal e Sam saiu com os garotos, as meninas foram ao shopping e estou sozinha.
Uma expressão de apreensão tomou conta do rosto de mamãe.
—Claro, querida, estamos indo para aí.
—Rápido. — Murmurou antes da linha ficar muda.
—Calma, Dona Sue. É apenas um mal-estar. — Disse tentando acalmá-la, já que ela andava de um lado a outro da sala sem parar.
—Não, Leah. Não vou chegar tão rápido. Estamos a pé, lembra?
Bufei e me levantei indo em direção à porta.
—Eu vou ver como está a Senhorita Meiguice. Irei, com certeza, chegar mais rápido que a senhora.
Mamãe sorriu agradecida.
—Tudo bem, filha. Obrigada.
Passei pela porta e andei em direção a floresta, tirei minhas roupas e me transformei. Corri rapidamente até a casa de Sam, me vesti e fui até a porta. Bati uma, duas, três vezes e ninguém atendeu. Estranho!
Bati novamente e nada, tentei escutar algo lá dentro e escutei a respiração sossegada de alguém. Decidi entrar e ver o que estava acontecendo, quase tive um treco quando vi Emily caída no chão da sala. Corri até ela e a sacudi levemente.
—Emily! Meu Deus, Emily! — Exclamei quase me descontrolando. Quase. A sacudi mais forte. –Vamos, Emily. Acorde!
O que eu faço?! Levá-la ao hospital? Não, atravessar a reserva e meia cidade carregando Emily até o hospital não seria muito legal. Então, o quê? Levá-la ao doutor Sanguessuga? Pode ser, talvez ele a atenda. Tentei pegá-la no colo, mas ela estava molenga demais.
—Emily, me ajude! Vamos, não consigo sozinha.
Parecendo me escutar, ela passou seus braços por meu pescoço e se manteve mais firme. A carreguei até a barreira da floresta e parei.
—Eu sei que podem me ouvir. Emily não está bem, podem ajudá-la?
Em questão de segundos Edward, Bella e Carlile apareceram do outro lado.
—O que aconteceu? — Papai Sanguessuga perguntou interessado.
—Ela ligou lá em casa, disse que estava passando mal e quando cheguei ela estava lá, desmaiada. Eu não poderia sair a carregando por aí, seria estranho.
Carlile sorriu suavemente.
—Claro, Leah. Fico feliz que tenha me procurado. Vamos, vamos até nossa casa.
Com certa dificuldade, consegui caminhar mais um pouco com Emily nos braços. Ela nem havia aberto os olhos ainda. Fiquei desconfortável em entrar naquela casa cheia do aroma adocicado de vampiro. Não pude evitar torcer meu nariz. Com o canto do olho, vi Edward rir.
—Leah, é bom revê-la. — Esme falou maternalmente, com um sorriso doce. Assenti afirmativamente.
—O que aconteceu com ela? — Perguntou preocupada, apontando em direção a Emily.
—É o que vamos descobrir agora, querida.
Segui o doutor até uma salinha branca, parecida com um consultório, mas menor. Coloquei Emily na cama que estava lá e me sentei, enquanto o via examiná-la.
—Vou coletar um pouco de sangue só para confirmar o diagnóstico. Tenho quase certeza.
Assenti novamente. Ele saiu, depois de espetá-la com uma agulha enorme, e me deixou lá sozinha. Estava tentando definir se a cor da parede era branco gelo ou branco gesso, quando senti Emily acordando. Ela abriu os olhos sonolenta, piscou algumas vezes e depois pulou, como se tivesse se assustado.
—Leah, onde estamos?
—Na casa dos Cullens. Você desmaiou e tal. — A olhei indiferente.
Ela se levantou de repente e quase caiu. Fui até ela e a sentei novamente.
—Nós vamos ficar aqui até o doutor dizer o que você tem. — Decretei seriamente. Sua boca se abriu em protesto, mas fui mais rápida. –E nada de "mas", senhorita. Está decidido.
Se deitou resmungando protestos, como: "Parece até o Sam falando", "Não posso fazer nada", "Não sabia que Betas tinham o tom alfa também". Rolei os olhos para aquilo. Após alguns minutos que se arrastaram, Carlile abriu a porta com seu habitual sorriso calmo.
—Vejo que acordou, Emily. Como se sente? — Perguntou, ao mesmo tempo em que testava as pupilas dela.
—Me sinto bem, apenas um pouco enjoada.
—É normal nos primeiros meses de gravidez. — Disse simplesmente.
Meu corpo se tencionou. Gravidez? Ela está gravida?
—Eu estou gravida? É verdade mesmo? — Exclamou ela com os olhos marejados.
—Parabéns, mamãe!
Um nó se formou em minha garganta e quase senti as lágrimas chegarem. Gravidez. Gravida. Um filho de Sam. Emily gravida. Por que o espanto, Leah? Você sabia que isso ia acontecer. O imprinting é para isso, não é? Procriação. A formação de uma raça forte. Uma coisa que você não pode dar a ninguém, pois é defeituosa. Engoli a vontade de chorar e a angustia torturante em meu peito e sorri para Emily.
—Parabéns, Emily. — Me virei a Carlile. -Obrigada por tê-la atendido.
—Não foi nada, Leah. — Ele sorriu tristemente agora, parecendo perceber que era dolorido para mim.
—Vamos, Emily. Tenho que te levar para casa.
Passei pela porta, acenando em despedida, apenas por educação, para os que estavam na sala e comecei a caminhar. O cheiro das árvores me acalmava na medida do possível.
—Leah, espere. Não consigo andar tão depressa.
Diminui o passo fazendo com que andássemos lado a lado. Era uma coisa incomoda. Ela transbordava felicidade, sorria para o nada e eu estava mais para baixo do que nunca.
Mas, quando estávamos à alguns passos da casa deles, senti um cheiro diferente, porém não desconhecido. Era bom... Não, era maravilhoso. O mesmo do dia da praia. E, sem querer, senti meu corpo relaxar e uma sensação de segurança me tomar.
Emily correu em direção à porta, saltitando de felicidade. Sabíamos que havia pessoas lá dentro, pois as vozes altas podiam ser ouvidas do outro lado da floresta.
A segui em silencio, tentando juntar os cacos do meu coração e entender o porquê daquele cheiro me atrair tão facilmente, até que entrei pela porta e senti meu mundo parar.
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