Leah - I See You
49 Capitulo 49 - E.U.T.E.A.M.O
Notas iniciais
Demorou apenas alguns dias para que a agenda de mamãe e Charlie coincidisse novamente, assim o jantar estava marcado para essa noite sem falta. Ao longo que os dias passaram, Der voltou a ser o mesmo alegre e divertido meu Derick de sempre, o episódio da bebedeira sendo mais uma marca fortificante em nossa ligação. Sentir a energia boa que dele voltava a exalar aos pouquinhos fez um bem danado ao meu coração, que sempre aproveitava e se agitava quando via a felicidade nos olhinhos bonitos de meu imprinting. Porém, nem com a vida voltando a entrar nos eixos, consegui acordar de bom humor. Minha cabeça estava estourando em uma enxaqueca chata demais para que eu pudesse aguentar sem me irritar.
—Bom dia, querida. O café já está pronto. — Mamãe cumprimentou, toda sorridente. Fiz uma careta, já exausta pela tonelada de sorrisos na minha cara logo de manhã.
—Dia. — Murmurei, indo atrás da cartela de aspirinas. Bom dia para quem, na verdade?
—Está com dor? Não faz bem para o seu estomago tomar remédio antes de se alimentar. — Orientou cuidadosa, mas a ignorei, enfiando o comprimido na garganta e ajudando a descer com café puro. -Me ajuda a prender meu cabelo de novo? Quero fazer um penteado preso hoje, acha que vai ficar bom?
—Hm, sim. — Confirmei, me sentando a mesa e encarando a parede, sem realmente ver alguma coisa.
—Charlie e Billy vão pescar depois de amanhã, vou fazer macarrão com queijo e bolo de carne no jantar para preparar vocês para a montanha de peixe que virá semana que vem. — Tentou fazer gracinha, rindo com ela mesma.
—Domingo não é a festa surpresa de Jake?
—Sim, por isso mesmo Billy vai pescar para que Jacob não desconfie.
Mordi uma das torradas da cestinha a minha frente, rolando os olhos.
—Jacob já sabe disso tudo, não sei para que esse nhe-nhe-nhe todo. Pelo amor!
Ela me mediu cuidadosamente, erguendo uma sobrancelha.
—Alguém acordou do lado esquerdo hoje em, o que foi? Não se embolou com Derick no seu quarto essa noite?
Bufei, me segurando para não revirar os olhos de novo só porque o movimento me causava ainda mais dor.
—A gente não se embola no meu quarto a noite, mãe, meu deus, para com isso! E ele dormiu aqui, sim, se a senhora quer saber. Eu só estou com dor de cabeça.
Sua testa se enrugou em preocupação.
—Você não reclamava de dor já fazia algum tempo, a cura não está ajudando?
Esfreguei a lateral de minha cabeça, massageando para ver se obtinha alguma amenização.
—É só uma dor de cabeça, já, já passa. Não é porque me transformo em um lobo gigante que não vou ter enxaqueca, mamãe.
Ela se deu por satisfeita, voltando a tagarelar sobre as expectativas sobre ter todo mundo reunido na mesa. Novamente, eu e Seth fomos usados de escravos para que nossa humilde residência ficasse com o brilho de uma mansão, enquanto a bonitona preparava o jantar e se emperiquitava. Seth, aproveitando da distração de nossa mãe, me atualizou sobre os assuntos do bando e o clima entre Jake, Sam e os vampiros, já que eu não tinha comparecido à reunião mais recente, além de me dar detalhes demais sobre o seu último encontro com uma tal Julie da turma de matemática que eu escolhi não prestar tanta atenção assim.
O dia todo se arrastou sem muitas animações, a dor me acompanhou em cada minuto só apaziguando quando renovava a dose de aspirina por conta de nosso metabolismo acelerado. Depois de me banhar e ajudar mamãe a soltar seus cabelos dos grampos, sentei no sofá, esperando pela hora que finalmente conseguiria relaxar. Felizmente, não precisei aguardar tanto.
A campainha soou dez minutos mais cedo do que o combinado e a essência que saiu por debaixo da porta denunciou a chegada de meu imprinting antes mesmo de poder vê-lo. Destranquei a porta em velocidade recorde e a abri, nem dando tempo para que meu Rick dissesse algo, pulando em seus braços.
—Você chegou, finalmente. Está atrasado. — Resmunguei contra seu pescoço, não resistindo ao beijar sua pele. Ele riu suavemente em meu ouvido, me apertando mais em seu abraço.
—Você disse as oito, não que eu devia vir direto para cá depois do serviço, amore.
Dei de ombros, fingindo não ligar para sua explicação, ainda não o soltando de meu enlace. O cheiro dele era tão bom, fazia a inquietação passar. Queria me agarrar a seu cangote e não soltar nunca mais.
—Tá tudo bem? Como passou o dia? — Perguntou, realmente interessado. Assenti, sem respondê-lo de verdade. O dia tinha sido demorado, agitado e estressante, estava irritada com tudo, tudo mesmo, e nada, além de sua presença, era capaz de me acalmar.
—Estou bem agora.
—Estava com dor? Está cheirando a analgésico.
Nada passava por seu detector, era incrível.
—Estava com dor de cabeça e uma azia infernal. Tomei umas doses de remédio, mas ainda não passou. Acho que vou tomar outra.
—Não faz bem ficar tomando remédio assim. Depois do jantar a gente deita e eu fico te fazendo carinho até a dor passar, ou até você adormecer, o que vier primeiro. O que acha? Será que ajuda?
Beijei sua bochecha e depois, quando nos afastamos um pouquinho, selei seus lábios, o cumprimentando decentemente. Era tudo o que eu poderia desejar, Derick e eu sozinhos em meu quarto abraçados e esquecidos do mundo.
—Ajuda muito! — Sussurrei, enrolando meus braços em sua nuca para puxá-lo para outro beijo, mais profundo dessa vez, estava com saudade. Ele suspirou, retribuindo do jeitinho gostoso dele e segurando minha cintura com uma mão.
—Leah! Pare de namorico na porta e deixe Derick entrar direito antes que Charlie chegue! — Minha mãe estourou nossa bolha, gritando da cozinha. Der riu e me empurrou suavemente porta a dentro para que pudesse entrar.
—Não escuta ela, não. Está animada demais para ser razoável. Vem, senta aqui.
Realmente não liguei se pareci bruta o arrastando até o sofá e o jogando nele de qualquer jeito, me aconchegando a seu peito logo depois. Seth riu abafado, parcialmente concentrado no jogo de beisebol que passava na TV.
—Sempre tão delicada. — Suspirou de maneira teatral, mas me agraciou com um carinho entre o maxilar e a orelha mesmo assim. -Boa noite, Dona Sue. — Cumprimentou para a voz que murmurinhava coisas aleatórias no cômodo ao lado, sendo respondido quase imediatamente. -E aí, cara? — Fez um toque infantil com uma mão só com meu irmão.
—Ainda bem que você chegou, não aguentava mais a cara de merda dessa menina! — Agradeceu debochado, me fazendo rosnar em sua direção. Onde o respeito aos mais velhos se encaixava naquela ocasião?!
—Ela estava mal humorada? Não se comportou hoje, bene mio? — Provocou diretamente a mim, erguendo uma sobrancelha.
—Não fala assim comigo, seu idiota! — Grunhi, me afastando o suficiente para acertar dois tapas, um em meu irmão ridículo e o outro em meu namorado ridículo.
Der riu, passando seus braços ao meu redor, limitando meus movimentos enquanto eu me debatia, e beijando singelamente minha boca. Franzi os lábios em uma linha fina, não cedendo assim tão fácil. Minha ação só o fez rir mais, selando minha bochecha quatro vezes seguidas.
—Ela está sensível esses dias, eu me esqueci. Desculpa, amore. Não faço mais. — Me encarou, esperando por seu perdão. Rolei os olhos e voltei a relaxar contra seu corpo, aproveitando dos beijinhos em meu rosto, não conseguindo mais bancar a difícil.
—Para de chamego do meu lado, por favor! Eu estou sozinho, sem ninguém, nada, necas, já faz um século! Nem sei mais beijar na boca, tem teia de aranha em partes minhas escondidas...
—A gente já entendeu, seu fingido. — Interrompi seu monólogo nojento, fazendo uma careta. -Mas você saiu semana passada com a menina lá da sua sala, o que você tá falando?! Você tá andando demais com Embry, não estou gostando disso, não.
Seth gargalhou, nem tentando sustentar seu papel de encalhado.
—Que mané Embry, eu sai ontem com o Allan. Ele é um mentor e tanto, me ensina muito sobre as gatinhas. — Mexeu as sobrancelhas para cima e para baixo, em mais uma palhaçada. Rolei os olhos. Derick o acompanhou na risada.
—Vou ter uma conversinha com Al, meu irmãozinho é pequeno demais para isso. — Ameacei, sorrindo com sua cara de tédio.
Charlie chegou não muito tempo depois, parecendo deslocado e sem ar ao nos ver sentados na sala.
—Boa noite. — Soltou meio engasgado, os bigodes dando um ar sério ao rosto não tão envelhecido. Rick e Seth responderam cordialmente, eu o medi dos pés à cabeça, refletindo sobre seu comportamento. Tão nervoso para um jantar? Vi o movimento de seu pomo de adão quando ele engoliu em seco, sentindo o peso de meu olhar. -Eu vou... é... sua mãe, ãhn... vou na cozinha ver a mãe de vocês.
—Vai lá. — Seth permitiu mesmo que ele já tivesse andando em direção à cozinha, querendo ser hospitaleiro.
Rick me cutucou, requerendo minha atenção.
—O homem está quase morrendo, dê algum crédito a ele, amore. — Pediu, beijando meu queixo para tornar mais apelativo.
—Eu já estou dando. Ele está caminhando normalmente com as duas pernas, não está?
Ele me deu um olhar que tentou ser repreensivo, mas acabou por ter amor demais, anulando a bronca.
—Só estou dizendo para pegar leve com ele, sim? É importante para sua mãe.
—Eu sei. — Admiti, um tanto contrariada. Der beijou meu bico, me puxando para a cozinha quando minha mãe anunciou que o jantar estava servido.
Dona Sue, como sempre, sentou-se na cabeceira com Charlie ao seu lado e começou a servir seu prato. Sorri agradecida quando Rick me serviu refrigerante e um silêncio confortável caiu sobre a mesa, sendo quebrado apenas para algumas frases idiotas de Seth e elogios de meu imprinting ao tempero de mamãe. Até que de repente:
—Eu e Charlie marcamos a data do casamento no cartório! — Ela revelou, sorrindo grande, nos olhando com expectativa. Meu garfo cheio de comida caiu de minha mão com um barulhinho chato. Seth bateu palmas animado. Der arregalou os olhos e se encolheu um pouco em sua cadeira quando o olhei, atônita. Seu conselho sendo esquecido momentaneamente.
—Vocês o que? — Mais sibilei do que inquiri, na verdade. Minha têmpora pulsando tanto pela enxaqueca incessante quanto pelo susto.
—Nós... Ahn, marcamos a data do casamento. — Mamãe repetiu, o sorriso amarelo dançando nos rostos dos dois noivos.
—E marcaram para quando?
—Hm, primeiro, eu quero dizer que não foi uma coisa impulsiva. Nós pensamos muito em como ficaríamos e o que iria mudar com o casamento. Nós pesamos as nossas dividas, o que temos guardado na poupança, como isso iria interferir na nossa rotina e tudo mais. E só aí chegamos nessa decisão.
—Quando?
—Para o começo de março. — Abri a boca, estupefata. Quatro meses. Um casamento na porcaria de quatro meses! Ela, percebendo meu estado, se apressou para voltar a falar: -Eu sei que é muito rápido e que precisam digerir a notícia, mas... tudo bem? A decisão final é toda de vocês, se acharem que é muito cedo, que devemos esperar mais, se... se é melhor continuar do jeito que está. Fica tudo na mão de vocês.
Encarei-a, espantada demais para manter a compostura. Minha mente estava em branco total, paralisada.
—A decisão final tem que ser da senhora, não sou eu, muito menos Seth, quem vai casar com ele. — Rebati, não querendo ser grosseira, mas não conseguindo reduzir a acidez do tom. Charlie se remexeu na cadeira, desconfortável. Rick colocou a mão em minha coxa, claramente me pedindo cautela. -Já conversaram com a vampira?
—Já, sim. Semana passada. Ela aceitou bem, está até querendo começar os preparativos. Queríamos falar com todos você juntos, mas... — Foi o pai da sanguessuga quem se voluntariou a me responder.
—Vampiro nenhum, vegetariano ou não, entra no nosso território. É, eu lembro das leis da tribo, Charlie. Acho que se recorda bem quem são e no que se transformam os filhos da sua noiva. — Deixei a breve ameaça no ar, sentindo uma satisfação nova ao vê-lo afrouxar o colarinho de sua blusa social. -E também não nos sentiríamos confortáveis na casa dos Cullens para um jantar, sejamos francos. — Completei, estalando os dedos.
—Eu estaria confortável. — Seth deu de ombros, os olhos negros brilhando para mamãe.
—Cala a boca porque ninguém te perguntou. — Dei um tapa em sua cabeça em repreensão. Rick segurou o riso de um modo falho demais.
Respirei fundo, clareando a cabeça. Março foi o mês que meu pai morreu, que eu me transformei, que toda essa loucura começou. Eu entendia o porquê de ela escolher esse mês em específico, o termino de um ciclo, o começo de outro. O começo da vida que ela queria trilhar. Eu queria vê-la feliz, assim como ela queria a nossa felicidade. E eu já sabia que alguma hora iria ser concretizado esse noivado, que ela ia se casar novamente e seguir sua vida do mesmo jeito que nós seguimos. Não era justo mantê-la presa à memória de papai, à dor de perdê-lo. Mesmo que doesse vê-la com Charlie, ele nunca poderia substituir o que papai foi para nós, todos nós, e ele sabia disso. O mais importante era isso, ele sabia. Charlie não queria entrar no lugar vazio que meu pai deixou, ao invés disso, ele criou um lugar novo para ele de mansinho no coração de minha mãe e... ele a fazia feliz. Não tinha como ir contra isso quando o relacionamento deles a fazia tão bem.
-Pelo menos é em março, né? Muita coisa pode acontecer até lá, a gente se vira. — Suspirei, voltando a pegar o garfo e comendo do macarrão com queijo agora um pouco frio em meu prato. Mamãe soltou o ar com delicadeza, parecendo aliviada.
—Isso é uma aceitação ou... — Charlie pigarreou, buscando o olhar de mamãe. Dona Sue assentiu, o riso crescendo em seus lábios de um jeito bonito de se ver, parecido com aquele de anos atrás quando a família toda se reunia.
—É o máximo de uma aceitação, acredite.
O noivo/marido de mamãe assoviou, relaxando contra o estofado da cadeira. Não pude segurar o sorrisinho que saiu por sua postura.
—Ahn... parabéns? — Rick comemorou/perguntou, rindo quando o acertei uma cotovelada nas costelas.
—Obrigada, Derick. Espero que até lá tudo esteja resolvido. — Mamãe agradeceu, o vinco de preocupação tomando um pouco de seu sorriso.
—Tudo o que podemos fazer é nos preparar e manter a fé. — Der complementou, beijando minha bochecha com carinho. Assenti, concordando. Manter a fé.
—Falando em preparação, como andam os treinos? Você não foi na última reunião da tribo. — Mamãe perguntou, instigando Derick a se explicar pela ausência. Cruzei os braços, de repente muito irritada, agora com a criancice de Sam.
—Ele teria ido se Sam tivesse o convidado para participar. Vocês sabem que ele não pode comparecer sem um convite de alguém do conselho.
—Jake ficou falando por horas sobre você não ter ido. — Seth informou, a testa franzida em preocupação. -Ele não gostou nada.
—Problema é dele! Sam pensa que não sei o que ele está fazendo desde que o ego dele começou a ser pisoteado?! Eu não vou colaborar para a exclusão do meu imprinting e do bando dele só por causa de uma rixa infantil. Eu estarei onde Derick estiver, somos um pacote, Sam aceite ou não. Fim de papo. — Sentenciei, dura.
—Eu te disse que iam implicar, deveria ter ido... — Rick começou, mas parou sua frase quando dirigi meu olhar para ele, nervosa.
—Mas ele disse que discutiria coisas ligadas a proteção da tribo, Leah. E realmente não foi uma reunião tão importante. — Meu irmão tentou interceder por Sam, não entendi direito o porquê.
—Você acha mesmo que não tem problema quando há uma reunião com todos os alfas da tribo e o aliado na guerra contra os sanguessugas não é convidado para participar? Justo aquele que está treinando de bom grado todas as bundas peludas dessa porcaria de tribo! Ele é um idiota dos grandes! Se eu fosse Derick já teria me mandado e deixado todo mundo aqui à mingua, ele deveria agradecer!
—Leah,...
—Rick, para! Ele ainda tá fazendo a cabeça deles! Isso não é justo!
—Eu sei, amore. Mas, isso logo passa. Não instigue meu lobo nessa de sentir raiva do seu ex, por favor. Ele já está bastante animado.
Não queria, mas o riso conseguiu uma brecha por entre meus lábios cerrados.
—Para de gracinha. — Reclamei, voltando a me encostar à cadeira. -Enfim, já que tocamos nesse assunto, seria muito legal com o genro da senhora se conversasse com os outros membros do conselho sobre as ações ridículas do alfa de La Push.
A palavra “alfa” saiu com tanto veneno que até eu me assustei, mas ninguém realmente ligou para a entonação implicante.
—Não prometo nenhuma melhora, mas vou ter uma conversinha com Sam. — Aceitou, firme. Sorri, feliz que pelo menos Sam iria sair com um puxão de orelha.
O resto do jantar passou normalmente sem grandes conversas ou abalos. Charlie dormiria em casa e ficou tão envergonhado com as piadinhas maliciosas de Seth que subiu quase correndo para o quarto de minha mãe. A louça ficou toda para mim, já que meu irmão já tinha lavado na noite anterior, e Derick se ofereceu para ajudar, secando e guardando ao passo em que eu enxaguava.
Mamãe se despediu de nós com um beijinho em nossa bochecha e subiu calmamente. Seth ainda ficou na sala quando eu e Der fomos para meu quarto, largado no sofá apenas com a claridade do celular iluminando suas feições. Eu sabia que ele só estava esperando todo mundo dormir para poder se encontrar com a tal menina na esquina de casa já que não estava tão tarde assim e não haveria escola no dia seguinte.
—Estou tão cansado! Essa semana foi cheia demais. — Meu imprinting suspirou, se aconchegando aos meus lençóis, desarrumando a cama toda. Deitei-me ao seu lado, empurrando-o um pouco para que ele parasse de se espalhar e coubéssemos ali. Sem dúvida, era mais confortável quando dormíamos em sua cama, embora fosse igualmente gostoso. -Me faz uma massagem, Principessa.
—Só nos seus sonhos. — Rolei os olhos, não dando tanta atenção assim aos dedos carinhosos alisando minha coxa desnuda pela abertura do short curto de pijama. O riso cafajeste deu as caras.
—Ah não, Principessa. Nos meus sonhos você faz bem mais que isso, acredite. — Encarou-me sugestivo, o carinho subindo uns bons milímetros acima em minha pele.
—Tem tido sonhos eróticos comigo, é? Não sabia que meu gentleman tinha esse caráter oculto. — Comentei, fingindo desinteresse, mas um pouco mexida por dentro. Derick sempre deixava claro que me amava, que me tinha em seu coração, porém sempre era uma nova massageada em meu ego quando admitia que me desejava no sentido carnal.
—Ah, bene mio, você nem imagina o que passa pela minha cabeça quando você aparece com essa gostosura toda. — Arqueou as sobrancelhas, dando ênfase à sua frase. -Se você continuar me afetando desse jeito, não vai dar outra, vou ser obrigado a te beijar pela eternidade!
Sua cantada idiota acabou com todo o clima pervertido no quarto, me fazendo gargalhar com uma facilidade impressionante.
—Por favor, não me puna com esse castigo horrível! Você é muito malvado! — Dramatizei, abraçando seu pescoço ainda com resquícios de riso nos lábios. Ele riu comigo e me beijou, lento e gostoso, sem pressa nenhuma para findar o contato.
Conversamos, e nos beijamos, em minha cama por muito tempo desde as mais variadas trivialidades do mundo até o comportamento idiota de Sam e o que faríamos se Al continuasse caindo nas implicâncias de Paul. Não conseguimos chegar em um consenso e minha cabeça voltou a latejar, me fazendo franzir as sobrancelhas pelo incomodo. Der reparou, como sempre, e nos cobriu com o edredom fofinho, nos preparando para dormir. O carinho sutil em minha barriga por baixo da blusa leve me arrepiou naquele conhecido nervoso bom.
—Agora, descanse. Amanhã é sábado e eu tenho o final de semana inteirinho de folga, então vamos treinar.
—Treinar? Pensei que iriamos aproveitar sua folga para ficarmos juntos. — Resmunguei, incomodada. Der riu e abafou minha irritação com um selinho demorado.
—A gente vai ficar junto, só nós dois o dia inteiro, mas antes vamos treinar. Faz tanto tempo desde a última vez que nem lembro mais em que pé você está. Quero ver como suas habilidades melhoraram.
—Allan disse que eu estou tão boa que já posso te derrubar. — Brinquei, rindo de sua cara desacreditada.
—Essa eu tô pagando para ver, Principessa. — Ele implicou, virando-se de frente para que eu pudesse me apoiar em seu peito. Seus dedos foram rápidos em acariciar meu cabelo, num afeto calmo e relaxante. Suspirei, já sentindo os olhos pesados, a dor diminuindo aos poucos. -Ti amo, bene mio. Buonasera. (Te amo, meu bem. Boa noite.)
—Boa noite, amor. — Murmurei, sonolenta.
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Acordei com um balançar na cama, o farfalhar dos lençóis me assustou um pouco fazendo com que arregalasse os olhos de uma vez, piscando preocupada, paranoica de repente. Meu sonho tinha sido estranho, colorido demais, amarelo demais, angustiante demais, com uma sensação incessante de que alguma coisa estava errada, e essa desinquietação acabou me acompanhando após acordar. Tinha algo a ver com outra realidade, ou outra vida, era estranho. Apalpei o corpo parcialmente deitado ao meu lado, checando.
—Amore, sou eu. Tá tudo bem. — Der me acalmou, acariciando minhas costas. Relaxei instantaneamente contra o estofado macio, sentindo-me segura, embora estivesse um pouco confusa.
—Onde está indo? Você tá de folga, Rick. — Amassei sua camisa, segurando-o colado ao meu corpo. Ele riu, se livrando de meu aperto com delicadeza.
—Vou para casa, ok? Tenho que tomar um banho e ver os meninos. Pode dormir mais um pouco ainda tá cedo, te espero lá na campina mais tarde. — Der sussurrou, beijando minha bochecha como despedida. -Me manda mensagem quando estiver saindo.
—Tá bom. — Concordei, não conseguindo mais manter meus olhos abertos.
Depois de sua saída ainda consegui dormir por umas boas horas até o falatório na rua de minha casa começar. Não tomei café antes de sair, meu estomago estava com uma sensação esquisita, mas deixei café e leite sobre a mesa junto a alguns ovos com bacon para Seth caso ele sentisse fome. Mandei uma mensagem avisando que já estava a caminho e Rick me respondeu com um emoji ridículo de coração rosa.
Não me preocupei em me transformar para chegar mais rápido ao nosso local de encontro. O clima estava bem frio, avisando a chegada de dezembro e a neve que sempre acompanhava o mês. Dentro da mata, seguindo pelo caminho no modo automático, ouvi levemente o som das passadas de um lobo não tão longe de mim. Algum irmão de tribo na ronda, ou Joe mesmo fazendo sua corrida matinal. Estalei os ossos das mãos quando já pude começar a sentir o cheiro bom de meu imprinting junto ao odor da vegetação e lama úmida.
Avistei Rick mais a frente e corri até ele, pulando em seus braços quando fiquei perto o suficiente. Ele me segurou com a firmeza de quem já sabia a muito tempo que eu estava chegando.
—Você, realmente, ama pular em mim, Dio! Bom dia, bene mio. Como está sua cabeça? — Um dos braços que me dava estabilidade para continuar em seu colo saiu de seu lugar só para acarinhar meu couro cabeludo, procurando por algum ponto de incomodo. Beijei sua boca, já sentindo falta de seu gosto.
—Eu pulo porque sei que você sempre vai me pegar. Minha cabeça não está doendo, bom dia. — Sussurrei entre selinhos, rindo quando ele me deu um tapinha na bunda após morder seu lábio inferior com mais força do que o necessário. Estranhei quando olhei ao redor e não encontrei os fiéis companheiros de meu imprinting.-Onde estão os meninos?
—Em casa. — Respondeu simplesmente, me descendo de seus braços.
—Por quê? Eles não iam treinar com a gente? Klaus e Al disseram que vinham. — Inquiri, desconfiada com a súbita mudança de planos.
—Porque precisam arrumar a bagunça que está aquele lixão. — Ele deu de ombros de um jeito teatral demais. Não me enganou nem um pouquinho.
—Ah é? E por que você não está lá ajudando?
Derick, Derick, o que você está aprontando que não pode me contar?
—Porque eu sou o alfa e essa é uma das vantagens do cargo.
—O que está me escondendo? — Interroguei, sem paciência para o joguinho.
—Não estou te escondendo nada, Principessa. Por que acha isso?
—Porque você não está me olhando nos olhos e parece nervoso, alfa. O que está tramand...
—Pelo jeito que você falou ontem, eu sabia que você esqueceria que dia é hoje. — Ele me cortou, conseguindo o que queria ao ter minha atenção voltada a sua frase, esquecendo o assunto anterior.
—Você é idiota ou o que? Hoje é dia 27, sábado, a gente conversou ainda ontem sobre isso. Nada de importante.
—Tem certeza disso? — Der apertou os olhos para mim. Fiz uma careta, confusa.
—Claro que tenho. Hoje é sábado!
—Não isso. — Abanou com as mãos, dispensando minha resposta. -Sobre ser importante.
Pisquei, não entendendo. Não era seu aniversário, fevereiro ainda estava longe, o meu já tinha passado, Niklaus fizera em agosto, o de Jake só seria amanhã, Allan e Joe só ano que vem, então o que? Quebrei a cabeça pensando e pensando enquanto sentia seu olhar cínico sobre mim, não conseguia lembrar o que aconteceu num dia 27. Então, meus olhos caíram no anel cintilando pela luz do sol em meu dedo e tudo fez sentido. Era isso? Nosso aniversário de seis meses oficiais? Ele realmente se lembrava de algo tão trivial assim? Não era como se eu não me importasse com a data, mas não a achava tão enfática, na verdade. Para ele, porém, parecia sim ser algo digno de comemoração. Troquei o peso de uma perna para outra, um pouco acanhada.
—Você quer dizer... o nosso aniversário?
Ele assentiu, um tanto incomodado.
—Eu sabia que você não lembraria, mas essa sua cara é uma surpresa, na verdade. Eu sei que é um pouco bobo e que não é uma marca tão grande de tempo assim, mas... são mais de seis meses com o amor da minha vida... achei que seria legal fazermos alguma coisa. Depois do treino, é claro.
—Eu... — Abri a boca, estupefata. Nem quando estava sério com Sam ele tinha feito algo semelhante em nossos aniversários, e eu também nunca realmente liguei. Pela falta de sentimentalismo real nos meus relacionamentos anteriores, passei a não dar tanta atenção assim a isso. Agora, no entanto, observando a expressão cautelosa de meu imprinting, percebi que talvez devesse começar a me atentar mais aos detalhes. Der é um romântico incurável e a minha parte seca demais em alguns casos pode ser motivo para uma magoa nascer e eu não queria isso. Nunca!
—Estou me sentindo um pouco idiota agora. Acha demais? Posso cancelar tudo, sabe. Fazemos o que for confortável para você. Eu só... pensei que você ia gostar. — Ele tentou se explicar, ficando nervoso e atrapalhado nas palavras. Deu para perceber que, apesar de tentar esconder, ele havia ficado um pouquinho desapontado.
—Não! Não cancela! Eu quero... seja lá o que você planejou. Eu quero, Der! Eu não pensei que você iria querer comemorar qualquer coisa, eu só... estou surpresa. — Me afobei toda, querendo tirar aquele desconforto de dentro dele.
—Então, não estou forçando a barra, né?
Sorri com carinho, acariciando sua bochecha antes de puxá-lo um tantinho para baixo para poder selar seus lábios, me sentindo agradecida e amada. Muito amada.
—Não, Der. Eu amo o seu ritmo, está tudo bem.
—Que bom. — Ele sorriu também, me devolvendo o beijo estalado. -Então, depois do treino nós temos um encontro marcado em Port Angeles.
—Oh, Port Angeles. Vou precisar usar um traje de gala? — Provoquei, ganhando um revirar de olhos e um sorriso meigo cheio das covinhas que tanto amava.
—Só se quiser. Você é linda independente do que está vestindo. Agora, para de me enrolar e vamos começar.
—Sim, alfa! — Fiz uma saudação de soldado, debochando de sua cara só de implicância. Der negou com a cabeça e me lançou um de seus pesos de areia, já mandando que eu começasse com o aquecimento. Meus músculos reclamaram só com a menção do início dos exercícios.
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Depois de ter dado quarenta e cinco voltas ao redor da campina sem usar da força do lobo como auxilio, de treinar a mira com as facas e o alvo de madeira, e de ter feito as infinitas flexões e saltos do seu cronograma, era hora da luta corporal. Minha parte favorita. Entretanto, ao contrário do que imaginava, não consegui me sair tão bem quanto estava acostumada com Allan e Joe.
A dor do impacto no solo duro reverberou por todos os meus ossos e saiu por minha boca em um gemido abafado, ele me derrubou novamente. A quarta vez desde que começamos. Os olhos azuis brilhando naquele símbolo estranho. Já estava acostumada a manter a conexão com minha loba visível, mas sempre era uma dificuldade convencê-la a ficar por muito tempo.
—Se Allan te acha boa para me derrubar, então vou ter que começar a monitorar os treinos que ele rege.
A voz dele ficava tão gostosa rouca daquele jeito, o comando alfa implícito em cada silaba sem ser realmente uma ordem ou uma reação às emoções, só por estar conectado com seu alfa. Fiz um bico, frustrada, escondendo o arrepio que desceu.
—Não estou dizendo que está mal, só que pode melhorar. Será que te tiro a concentração, amore? — Tentou remediar sua crítica, piscando para mim.
—Hahaha — Sibilei, levantando de novo e batendo a terra da calça legue. Derick acompanhou o movimento, encarando por tempo demais minhas coxas. Ri e soquei seu ombro, o trazendo de volta à realidade. -Sabe, você pode apreciar à vontade e tudo mais, mas não agora no meio do meu treinamento, por favor.
—Desculpe, te juro que é o lobo. — Der riu aquele sorriso cafajeste, de lado, todo cheio de gracinha. Literalmente, senti minha loba ronronar, rendida. Traidora.
—Claro que é. — Revirei os olhos.
—Preparada?
Assenti, me preparando para o golpe... que veio mais rápido do que eu pretendia. Quando vi, já estava no chão com Derick me imobilizando. Seu peso forçava o meu corpo para baixo, interrompendo o fluxo normal de oxigênio e deixando minha respiração mais difícil. Vi seu rosto tomado por um sorriso leve, daquele de quem sabe exatamente seu ponto fraco e adora usá-lo contra você.
—Está me punindo por ter esquecido nosso aniversário? — Grunhi, irritada, fingindo estar desapontada comigo mesma, relembrando dos movimentos de Nik e Allan quando eles lutam. Allan é grande, maior que Klaus e mais musculoso, assim Nik precisa usar de sua agilidade e fluidez para que possa escorregar das garras de Al. Da mesma forma é comigo e Der. Ele é muito maior que eu, então devo deixá-lo pensar que ganhou para que possa sair. Além de que ele também não resiste quando faço bico.
—Claro que não, Principessa!
—Então, por que estou errando tanto?
—Sabe o que eu percebi que te falta? Equilíbrio, as meninas geralmente aprendem isso no ballet ou na ginástica. Você passou tempo demais sendo uma moleca. Agora, isso reflete nos seus movimentos.
—O que você disse?! — Inquiri, partindo para cima dele assim que vi sua pose relaxar, como Joe já havia me ensinado, conseguindo o prender em um mata leão com as pernas muito bem presas em seu quadril.
—Você bate feito garotinha! — Ele nos rolou no chão. Tive que ignorar a dor em minhas panturrilhas pelo impacto para poder rolar e ficar por cima dele. Era a minha vez de o imobilizar.
—Uma garotinha está te fazendo comer terra, alfa. — Me vangloriei, adorando a expressão de derrota dele.
—Não estou comendo, não!
Conseguiu escapar novamente, nos rolando de novo e me tendo presa, porém sua guarda baixou, pensando que eu, enfim, desistiria. Aproveitei o momento para aplicar a defensiva que Allan instruiu e o prendi entre minhas pernas, virando de novo o deixando entre meu corpo e o chão. Ele grunhiu quando apertei seu rosto contra as folhas secas e puxei seus braços com mais força para trás. As duas batidinhas rápidas e erradicas que sua mão deu como pode em suas costas finalizou o treino. Pelo menos uma vez eu tinha ganhado. Soltei-o quase saltitando.
—Eu ganhei!
—Argh, meus parabéns, você ganhou de forma justa. — Ele me parabenizou, sorrindo para mim apesar de sua mão massagear um ponto em seu ombro dolorido. Me adiantei, abraçando-o pela cintura, arrependida pela força usada.
—Machucou? Não quis puxar tanto. Desculpa.
—Está tudo bem, amore. Não tem que pegar leve comigo, quero te ter segura, bem treinada, pode me usar de saco de pancadas o quanto quiser. Eu até que gosto de apanhar de mulher bonita. — Ele deu de ombros, como se tivesse acabado de dizer que choveria em Forks. Gargalhei de sua frase, selando sua bochecha e limpando a terra de seu rosto.
—Idiota. — O carinho no tom anulou totalmente o sentido do xingamento. -Vamos voltar, nossa noite vai ser linda!
—Tendo você nela, Principessa, ela vai ser deslumbrante!
—Para de me cantar, vamos logo. — Murmurinhei, afetada pela sinceridade em sua frase e envergonhada.
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Foi uma noite diferente. No momento em que entrei em minha casa no intuito de me aprontar para o encontro surpresa de Derick, já tinha alguma coisa diferente no ar. Não sei se foi por finalmente usar a banheira e os sais para um banho demorado, se foi por escolher aquela roupa do fundo do armário já a tanto tempo sem disposição para ser usada devidamente, se pelo cabelo solto agora sem a chateação por ele ser curto demais, ou se foi por realmente gostar do conjunto no espelho, por aprovar, reconhecer a mulher, a imagem, que me encarava de volta pelo reflexo. Só sei que ao descer as escadas, já pronta e cheia de expectativas, não era mais aquela Leah de meses atrás. E era muito bom me sentir assim, livre das amarras do passado, leve para o futuro.
—E aí? Como estou? — Perguntei nervosa. Meu estomago estava gelado, cheio de borboletas se movendo para lá e para cá, como se eu nunca tivesse saído antes com Rick. -Está muito simples? Derick disse que íamos sair a Port Angeles, mas não disse onde de verdade.
Dona Sue me avaliou da cabeça aos pés, o riso brilhante crescendo em seus lábios conforme aprovava minha aparência. O scarpin preto em meus pés combinava perfeitamente com o vestido midi preto básico e um pouco justo junto a minha jaqueta de couro inseparável. O vestido era bonito, gostava do jeitinho bom que ele caia em meu corpo – era um dos poucos que realmente aprovava em mim – e realçava minhas curvas. Era uma ocasião especial e eu queria estar vestida como tal, mas sem parecer demais. Fiquei ainda mais nervosa com a ausência de uma resposta.
—Está demais? Acho que vou trocar essa jaqueta... eu uso ela em toda ocasião que aparece, ele pode achar que estou muito básica, ou que não me importo.
Mamãe balançou a cabeça em negação.
—Está linda, minha filha. Muito linda! E.. colocou os brincos que seu pai te deu. — Ela se aproximou, colocando uma mecha fujona para trás de minha orelha, observando o brinco mais de perto. Encolhi os ombros, encabulada. Não pensei que ela notaria tão rápido. -Depois de todo esse tempo.
—É um jantar importante. Queria que ele estivesse comigo, que tivesse conhecido Rick.
Ela sorriu, concordando.
—Ele teria aprovado. Derick te faz feliz, te faz viver. É tudo o que queríamos para você, o seu sorriso de volta.
Sorri também, simplesmente por não conseguir parar de sentir essa felicidade explodindo em meu peito, essa libertação.
—Então, já estou pronta.
—Só acho que deveria ter colocado aquela sandália vermelha e um batom mais rosado.
Ri, negando. Estava demorando até. Sabia que ela não fazia por mal, só queria me incitar um pouco mais de feminilidade... talvez, inconscientemente, buscando mais daquela Leah garotinha iludida de anos atrás. Mas, eu não era mais aquela menina. E Derick havia me ajudado muito a perceber que não tinha nada errado em mudar, em assumir verdadeiramente quem eu sou nas mais numerosas variáveis existentes, me aceitar na minha própria diferença.
—Eu gosto assim. — Respondi, alargando ainda mais meu sorriso ao ouvir a campainha soando. Ajeitei meu cabelo no espelho da sala e corri até a porta, abrindo-a.
—Pronta para a... — Engasgou no meio de sua fala, os olhos ternos me escaneando inteira. -Wow! Você tá... nossa!
—Espero que isso seja um elogio. — Brinquei, rindo quando mesmo me inclinando para beijar sua bochecha, Derick continuou lá parado, a boca aberta.
—È um complimento, credimi. (É um elogio, acredite em mim) — Murmurou, embasbacado. Bati em seu ombro, toda feliz pelo enaltecimento. -Non ho parole. Sei sensazionale! (Não tenho palavras. Você é sensacional!)
—Obrigada, Rick. Você também não está nada mal. — Encenei uma imparcialidade inexistente, sorrindo grande quando ele puxou uma mecha do meu cabelo de leve como punição. A calça jeans estilo destroyed um pouco justas nas coxas torneadas dele era um pecado, a camisa social azul escuro de botões tornava seus traços mais marcados que o normal. Reprimi o suspiro encantado, apaixonadinha. Seus olhos pousaram na jaqueta em meus ombros e cintilaram um pouquinho mais.
—Sono contento cheti sia piaciuta, sembridavevro uma ragazzacattiva. (Estou feliz que você gostou, realmente parece uma bad girl) — Provocou, parecendo se recuperar de seu choque, entrando quando dei espaço.
—Você conhece bem o imprinting que tem, Der. Eu amei!
—É muito estranho ele conversando com você na língua natal, cara. Eu não entendo nada!
Seth, fuxiqueiro como sempre, nem parecia constrangido por ficar ouvindo a conversa dos outros.
—Não é para entender mesmo. — Respondi, mostrando a língua de modo infantil. Meu irmão nem ligou, mais interessado no toque de mãos com Derick.
—Vamos? Já chamei a nossa carona. De acordo com o aplicativo, o carro chega em cinco minutos.
—Já estou pronta. Guarda no seu bolso junto com a sua, por favor? Não tenho bolsos. — Pedi, já entregando minha carteira em suas mãos sem esperar pela resposta.
—Voltam hoje? — Mamãe apareceu, encostando-se na divisória da cozinha.
—Hm, acho que sim, né? — Olhei para Derick inquirindo sobre seus planos. Ele se balançou nos pés, acanhado.
—Não teria problema Leah dormir lá em casa, não é, Dona Sue? Eu tenho planos para mais tarde. — Minha mãe o encarou, rígida, acusando com o olhar. Derick tremeu na base. -Não esse tipo de plano, eu juro! É uma surpresa completamente inocente!
—Ah, sério? — Fingi desapontamento, ganhando uma cotovelada implicante em minha barriga de meu imprinting medroso. Gargalhei por seu temor infundado, empurrando-o em direção a saída.
—Até amanhã, mamãe. Pare de assustar meu namorado, por favor. Se cuide.
—Se divirtam, mas não muito. Te amo, filha.
—Tchau! — Acenei da porta, trancando por fora.
Derick tinha uma expressão boba na face, todo derretidinho me olhando. Franzi as sobrancelhas, não entendendo.
—Qual foi? Tá me olhando com essa cara de panaca por quê?
—É a primeira vez que você me chama de meu namorado na frente das outras pessoas. — Ele confessou, enrolando seus braços em minha cintura, me deixando pertinho.
—Ah, com certeza não é a primeira vez. — Discordei, mas só porque estava constrangida com o detalhe percebido. Eu realmente nunca havia o nomeado como meu namorado para outras pessoas, mas não por vergonha ou algo assim... era mais profundo porque Derick era tão, tão, tão mais que meu namorado! Aquele pequeno título humano não era nada comparado ao que meu imprinting era para mim.
—É, sim. Você sabe. — Insistiu e segurou meu maxilar, aproximando meu rosto do seu. O azul de seu olhar parecia brilhar em uma cor nova, todo amoroso e envolvente. Caí nas suas graças quase imediatamente, meu coração retumbou alto. -Sua pupila dilatou, que bonitinho.
Belisquei seu braço, rolando os olhos. Claro que tinha dilatado, era difícil permanecer normal quando tinha um Derick daquele a minha frente, mas não retruquei, fazendo pressão para baixo em seu pescoço para que nossos lábios pudessem se encontrar. Ele mordeu de leve meu lábio inferior, tomando posse de minha boca com a certeza de que seria muito bem recebido. Escondi uma risada quando sua mão escorregou de minha lombar até minha bunda, não fazendo nada, só a descansando lá. O peso de sua mão em minha pele era excitante.
—Você disse que não gostava de vestidos. — Apontou, levemente distraído. Seus lábios resvalavam nos meus de acordo com cada palavra proferida.
—Eu disse. — Concordei, não resistindo ao impulso de selar sua boca e todo espaço de pele ao redor dela. -E não gosto. Mas, desse eu gosto. E você parece gostar também.
Sua mão, que ainda se mantinha em minha bunda, deu uma apertada suave no local, só para provocar.
—Eu gosto do que te faz bem. Mas, não estou reclamando nem um pouco agora. — Sorriu de canto, contradizendo toda sua linguagem corporal ao me beijar com uma doçura quase desconcertante. -Você é linda, amore.
Uma buzina não tão longe nos despertou de nossa bolha, infelizmente. Fiz uma careta, não querendo quebrar o momento, porém Rick não pareceu compartilhar de meu desagrado, ainda deixando dois selinhos rápidos em meus lábios antes de nos dirigir ao veículo do outro lado da calçada.
O carro tinha cheiro forte de lavanda artificial e fazia meu nariz coçar, Der também ficou incomodado, mas sorriu gentil ao motorista e respondeu educado quando ele fazia algumas perguntas pelo caminho. Eu me aproveitei de sua atenção desviada para me encostar em seu ombro, observando como sua mão ficava ainda mais bonita com os anéis de prata de adorno. Havia um anel em específico que me chamava a atenção e não era de agora. Tinha o brazão dos Abbado, como meu imprinting já havia me mostrado antes, e com uma armação bruta, forte, quase grosseira. Sempre me perguntava sobre o significado dele, se era uma herança de família, se tinha algo a ver com o posto de alfa, mas nunca me lembrava de questioná-lo sobre.
Felizmente, a viagem não durou tanto quanto eu achei que duraria, mesmo assim me assustei quando paramos no meio do centro da cidade.
—Onde nós vamos? Por que paramos?
—A gente vai andando daqui. — Revelou, sorrindo sapeca e pagando o motorista antes que eu sequer pensasse em pegar minha carteira de seu bolso.
—O que? Por quê?! — Reclamei, claramente com preguiça de andar a pé por aquela cidade lotada. A confusão de odores do lugar me deixava um pouco enjoada, além de que os saltos eram uma merda em caminhadas.
—Não é tão longe, Principessa. Relaxa, você tá comigo. Aproveita o clima.
—Que clima? Lixo, poluição, meu pé dentro desse scarpin um pouco bambo, pessoas que eu não ligo e cheiro ruim? — Dei passadas mais pesadas e lentas, consequentemente diminuindo seu ritmo também, o toc-toc do salto em contato com o asfalto começou a ser irritante. Foi a vez de ele rolar os olhos.
—Não. Você e seu imprinting andando juntos ao luar indo para um encontro romântico. — Reformulou meu ponto de vista, entrelaçando nossos dedos. -Não acha melhor assim?
Segurei o risinho no canto dos lábios, virando o rosto para o céu, de propósito desencontrando seus olhos.
—Não.
Ele riu sonoramente e andou de forma um pouco mais lenta, ficando fácil para acompanhá-lo.
—Tá bom então.
Durante uma boa caminhada seu olhar me acompanhou de tempo em tempo, sempre fixo e intenso. Comecei a ficar vermelha, tanto de vergonha quanto de irritação.
—Para de me olhar assim, está me fazendo corar feito uma idiota! — Exclamei, constrangida demais para que pudesse remediar o tom. Ele riu, já muito familiarizado com meu temperamento.
—É difícil parar de olhar para uma coisa tão bonita, amore. Fico hipnotizado.
Me encolhi ao seu lado, sentindo meu rosto inteiro ferver. Um carro passou com muita velocidade perto do acostamento da calçada fazendo um barulho esquisito, fingi que não vi o ato cuidadoso de meu imprinting ao trocar de lugar comigo, colocando-se como uma barreira entre a avenida e eu.
—Para de ser meu crush literário clichê, está me matando assim!
—Eu não sou clichê!
Soltei uma leve gargalhada por sua voz indignada.
—A gente é cheio de clichê! Parece que saímos de algum livro adolescente sobrenatural.
—Não somos, não!
—Pois então me diga uma coisa clichê que ainda não fizemos.
—A gente nunca... a gente nunca... a gente nunca se beijou na chuva.
Arregalei os olhos, inconformada que ele tinha esquecido. Der se esquivou de um casal que vinha em nossa direção desatento em uma discussãozinha qualquer, a gola de sua camisa se desarrumou um pouco com o movimento rápido, deixando visível parte de sua clavícula marcada. Ergui minha mão, ajeitando-a no lugar de novo, apesar de estar bastante inclinada a deixar daquele jeito mesmo.
—Claro que já beijou! Aquele dia no parque de diversões, você me beijou na chuva, não foi?
—Claro que não, foi embaixo de uma daquelas paradas de ônibus, eu acho. Não me lembro.
—Certeza?
—Não, mas eu acho que não foi na chuva, não.
Dei de ombros, balançando sua mão na minha.
—Bom, a gente já brigou na chuva.
Ele suspirou, me puxando para mais perto dele, passando seu braço por meus ombros. Uma turma de adolescentes passou por nós fazendo algazarra, deviam ter mais ou menos a idade de Seth e a leveza de suas expressões me fez pensar que meu irmão era novo demais para ter a responsabilidade de ser o protetor da tribo daquele jeito. Era bom saber que mesmo com as adversidades ele conseguia ainda ter aquele pique adolescente e a inocência de criança.
—Não me lembra disso, não, Principessa. — Rick enfim falou, me despertando dos devaneios.
—Mas foi um clichê! A gente brigou na chuva, todo filme clichê tem alguma briga na chuva entre os protagonistas. O problema foi que você não foi atrás de mim depois, né.
—Você pode parar de jogar isso na minha cara em toda oportunidade que surge, por favor? Você me perdoou ou não, Dio mio?!
—Claro que perdoei! — Por conta dos saltos, não precisei me esticar tanto para alcançar sua bochecha e beijá-la. -Mas é engraçado te ver todo bravinho.
—Eu não fico bravo, só não gosto dessa recordação em específico. Gosto muito mais de lembrar o jeitinho que você sorriu pra mim depois que conversamos, do abraço gostoso de reconciliação. — Ele estreitou o aperto ao meu redor, como para demonstrar o que falava. -Ai, Principessa, eu sou caidinho por você!
—Claro que é, eu sou incrível! — Me gabei para disfarçar a vermelhidão de minhas orelhas.
—É, é sim. — Concordou, os olhos amorosos. Sorri, sentindo o coração explodindo de tanto afeto.
—Ainda vai demorar muito?
Ele riu, me guiando para virar à direita na calçada. O fluxo de pessoas ali naquele pedaço do caminho era bem maior, com indivíduos indo e vindo às duplas e aos grupos.
—Na verdade, não. Espero que goste daqui. Nós chegamos! — Apontou para o ponto brilhante que destoava na avenida movimentada. Parei, boquiaberta.
A fachada do restaurante era linda, iluminada, nunca tinha ido a um lugar como aquele. Os tons leves de creme e palha se mesclando ao branco e gelo, as trepadeiras nas paredes e a porta grande de madeira com cristais realçava o charme italiano do lugar. O cheiro da massa boa estava tão forte que de fora se percebia. Meu estomago roncou em apreciação.
—Derick! — Exclamei, impressionada.
—Você sempre diz que ama o tempero italiano demamma, então pensei que talvez gostasse de algo assim. As recomendações são as melhores na internet.
—É lindo!
Der apertou minha mão com um sorriso leve, nos dirigiu à entrada e depois para a hostess que atendia um outro casal à nossa frente. Havia uma fila enorme de pessoas esperando de um lado do balcão, Rick nem os olhou, indo com passadas confiantes até seu objetivo. Deduzi que aquelas pessoas esperavam por um encaixe ou algo parecido, mais atenta ao uniforme requintado dela e dos garçons com bandejas que passeavam pelo grande salão mais a frente que denunciava quão requintado era o lugar.
—Em que posso ajudá-lo? — Ela perguntou, o sorriso hospitaleiro demais para o meu gosto. Fingi que não percebi o obvio interesse dela, mais preocupada em examinar cada detalhezinho do arco detalhado na parede e dos quadros dispostos em molduras finas.
—Temos uma reserva. Derick Abbado. — Respondeu, os olhos curiosos espiando por cima da prancheta que ela deixava sobre a mesinha, sem nem reparar nas encaradas desejosas, ou sendo discreto o suficiente para não demonstrar que reparou.
Ao ouvir o nome seu sorriso deu uma pequena vacilada e eu vi quando seu olhar caiu para o adorno discreto em meu dedo anelar. Isso me fez pensar que Derick estava muito do solto andando por aí sem um anel no dedo. Ele gostaria se eu o desse um anel também?
—Sr e Sra. Abbado, claro. Já vou encaminhá-los à mesa de vocês. — Parecendo ligeiramente decepcionada, mas não triste ou enraivecida, ela voltou com o sorriso gentil ligeira como um flash, não se deixando abater pelo crush desmoronado. Pensei em corrigi-la sobre o sobrenome, mas deixei para lá ao ver o sorriso encantador de Derick. Por que ele tinha que ser tão fofo e bonito daquele jeito? Não podia julgar a moça, qualquer um que olhasse para o sorriso lindo e os olhinhos brilhantes se apaixonaria na hora!
A hostess nos direcionou a uma mesa perto da janela de vidro imensa no canto do salão. Fiquei tão embasbacada, hipnotizada pela luz das estrelas e da lua que refletia no vidro, que nem reparei quando ela nos deixou a sós. O ambiente aconchegante e quentinho não estava cheio, entretanto também não estava vazio. Havia uma quantidade razoável de pessoas, casais na verdade, nas mesas espalhadas. Puxei minha cadeira quando Der puxou a dele, sentando-nos um à frente do outro. Mal pude pensar em abrir a boca que um garçom se materializou ao nosso lado, oferecendo dois cardápios para cada um de nós, um de vinhos e derivados, outro dos pratos oferecidos.
—Boa noite, sejam bem vindos ao BellaNotte, já estão prontos para pedir?
Derick me olhou, esperando por minha resposta.
—Ainda vamos decidir, obrigada. — Disse por nós dois, os olhos presos na infinidade de massas diferentes no papel fino, dando mais atenção ao meu estomago resmungando do que à minha vontade de encher a cara.
—Quando estiverem prontos, é só chamar. — Se despediu com um aceno de cabeça discreto, saindo tão rápido quanto chegou.
Estava salivando de vontade de comer tudo o que aparecia nas letrinhas brilhosas até meus olhos esbarrarem nos preços ao lado. Fechei o cardápio tão afobada que Derick me encarou confuso. Meu deus!
—O que foi? Não gostou da comida? — Moveu a cabeça para o lado, uma expressão fofa no rosto.
—É claro que eu gostei da comida, o que eu não gostei foi da facada bem no meio do meu rim! Você viu o preço desses pratos?!
—Amore, relaxa. — Dispensou minha preocupação. -Pode pedir o que quiser, não se preocupe.
—Não me preocupar? Onde foi que você arranjou dinheiro para me trazer aqui, seu quebrado? — Inquiri, realmente perturbada com o alto custo daquela saidinha. Ele riu, fingindo ler a cartela de vinhos com atenção.
—Ah, me poupa, eu tenho meus contatos, sabia?
Cautelosa, voltei a segurar o menu, pensando se tinha dado alguma indireta sem querer, se havia falado algo que o fez se sentir obrigado a me trazer em um lugar tão caro.
—Eu não preciso de nada disso, você sabe, não é? Não me importaria se nosso encontro fosse em uma barraquinha de crepe em Forks mesmo, ou no bar da esquina de casa. Você não tem obrigação nenhuma.
—Eu tenho a obrigação de te fazer feliz. — Jogou num tom suave, aproveitando-se do modo como suas palavras me afetavam.
—Mas... — Tentei argumentar, mas ele foi mais rápido, voltando a falar:
—E eu sei que você ficaria feliz comendo pão com ovo num bar, Leah. Eu só queria proporcionar um encontro memorável de verdade. Nossos encontros sempre acabam em desastres, quero que esse seja uma memória boa.
—Já é uma memória boa só por estar com você. — Declarei, fugindo de seus olhos quando eles se tornaram carinhosos demais, acanhamento pintando minha face.
—Também é para mim. Então, aproveite. Peça o que quiser, coma o que quiser, beba o que quiser, a noite é nossa. — Permitiu, se esticando todo para retirar uma mecha de meu cabelo da frente de meu rosto. -La mia deadegliocchi a mandorla. (Minha deusa dos olhos amendoados)
—Você ainda lembra desse apelido? Não me chama assim faz décadas.
Flashs do começo de nossa relação pipocaram minha mente. O rosto de Derick na primeira vez que nos encontramos, o sotaque carregado me chamando na ronda, o sorriso cafajeste que me ganhou de primeira sem nenhum esforço.
—Eu me lembro de todos os apelidos que já te dei, Perdizione.
Sorri, feliz pela lembrança.
—Eu gosto desse.
—La mia Perdizione admitiu que gosta de ser chamada assim, finalmente. No começo, você dizia odiar meus apelidos. — Dei de ombros por sua provocação, não querendo me comprometer. -Gosta mais do que Principessa?
—Não. Principessa é o meu preferido! — Admiti, quente pelas memórias de nós embolados no meio da campina na floresta, o apelido escorrendo pelos lábios bonitos como mel. Pelo modo como ele riu, acariciando meu pé com o seu por debaixo da mesa, Der também tinha as mesmas boas recordações. -Amo quando me chama assim.
—Eu também amo quando me chama de Rick. Sabe quando você me chamou assim pela primeira vez? — Ele perguntou, a intensidade de seu olhar me mantendo cativa. Neguei com a cabeça, curiosa. -Na primeira noite que dormimos juntos na sua cama. Você se abraçou ao meu peito e suspirou o apelido. Você disse que eu era o seu Rick.
—Que mentira! — Reclamei, duvidosa da veracidade de sua informação. -Você bem queria que eu tivesse caído aos seus pés quando nos conhecemos, seu ridículo.
Ele se inclinou para frente, apoiando seu rosto nas mãos. Instigada por seu ar convencido, imitei sua posição, sem quebrar o contato visual.
—Nós dois viramos dois patetas quando nos conhecemos, amore. A diferença é que você conseguiu resistir por mais tempo.
Revirei os olhos, implicante. Era uma verdade? Claro que era, mas isso não queria dizer que ele podia sair se gabando por aí. Ainda tinha meu orgulho intacto!
—Diga por você. Eu não fiquei pateta.
Ele soltou seu sorriso debochado, arqueando uma sobrancelha. Senti vontade de socar seu rostinho lindo.
—Dava para ouvir seu coração batendo rápido igual a um carro de formula um do outro lado de Forks, bene mio. Somos um, lembra? O que eu sinto, você sente.
Dei de ombros, colocando o cabelo atrás da orelha.
—Se for assim, então escolha logo seu prato e pare de tagarelar já que deve estar faminto igualzinho a mim.
Seus lábios se repuxaram para um lado, provocante.
—Ah, eu estou faminto, mas acredito que não da mesma coisa que você.
—Alexander! — Nem vi quando atirei o guardanapo perfeitamente dobrado em seu rosto, indignada. Ele riu sonoramente. -Se comporta, idiota!
Rick levantou as mãos em um sinal de trégua, jogando o guardanapo de volta para mim.
—Tudo bem, vou me comportar, prometo. — Piscou um dos olhos, galanteador. Balancei a cabeça, ainda em negação por sua cara de pau. -Já sabe o que vai pedir?
Fiz um bico, voltando a olhar para os nomes no cardápio. Eram tantas opções diferentes, todo tipo de massa com nome chique, pratos finos que eu não sabia nem soletrar e fartura a preço alto, que eu não sabia nem por onde começar.
—Hm, acho que sim, mas você pede para mim? Eu não sei falar esses nomes direito. — Pedi, abusando da manha só pelo prazer de vê-lo suspirar por mim.
—Claro que peço, amore. O que você quer?
—Esse. — Apontei com o dedo em cima do nome difícil no cardápio e ele concordou, sorrindo para mim, sendo o bobo de sempre, e chamando o garçom com um aceno rápido.
—Posso anotar o pedido de vocês?
—Para ela um Fesa Di Vino e Risotto Di GamberettiConLimone Di Sicilia, para mim, Polpo Arrosto Provenzale e Ravioli Ricotta e Spinaci. — Falou simplesmente, feliz por poder dialogar, mesmo que pouco, em seu idioma materno sem ver caretas. O homem anotou tudo pacientemente, já familiarizado com os nomes nos cardápios.
—A bebida? — Inquiriu, profissionalmente.
—O que acha desse, Principessa? — Der se aproximou de mim com o catálogo nas mãos, questionando minha opinião. Minhas bochechas queimaram um pouco pelo apelido carinhoso ser proferido na frente de um desconhecido, mas disfarcei dando de ombros. Percebi como seu dedo sutilmente escondeu de meus olhos o valor da bebida. Suspirei, resolvendo não teimar mais com o valor.
—Eu não conheço muito bem as diferenças, os vinhos que bebi praticamente foram todos do litrão do mercadinho que Billy trazia no dia de ação de graça e os que você trazia para casa. Pode escolher, me surpreenda. — Pisquei brincando, ganhando um sorriso de orelha a orelha em troca.
—Pode trazer um AntinoriSolaia 94, obrigado. — Ele decidiu por nós dois, o homem sorriu, provavelmente aprovando, e andou com destreza por entre as mesas.
Observei as pessoas ao nosso redor. Casais elegantes com colares de pérolas e ternos finos, casais simples com o sentimento forte exalando por cada poro ou riso sussurrado, casais que não se olhavam nos olhos enquanto a vela em suas mesas requintadas derretia sob o calor do fogo. E imaginei qual seria a reação delas ao saberem que entre os clientes, escondidos sobre a camada de normalidade ali presente, havia dois transmorfos de lobo gigante que protegiam a região de vampiros centenários. A expressão tomada de horror da granfina à nossa direita me fez soltar um risinho muito mal contido.
Der levantou uma sobrancelha, curioso. Balancei a cabeça, dispensando seu questionamento.
—É lindo aqui, né? – Ele comentou, também olhando ao redor. A postura reta na cadeira e o risinho de canto fizeram minha loba quase ronronar, afetada por reconhecer o alvo de todo o seu afeto. Sorri, resolvendo me focar na imagem à minha frente, ele destoava de toda aquela gente no salão. O modo como nos acomodamos na mesa deixou Derick bem em frente à janela de vidro ampla que eu tinha reparado quando chegamos. A lua brilhava às suas costas, altiva, deixando o brilho pálido beijar todo o contorno de meu imprinting. As estrelas pareciam dançar à sua volta, como pequenos cristais swarovsk combinando com o azul morno de seus olhos.
—É muito lindo. – Concordei, mas não da mesma coisa que ele, descansando o queixo em uma mão só para poder apreciar mais daquela vista encantadora. Meu deus, no que eu tinha me transformado?!
—Enquanto esperamos me diga três coisas que eu ainda não sei sobre você. – Rick disse, não notando meu momento de completo fascínio por ele. Torci os lábios, pensando.
O que ainda tinha em minha vida que Derick não conhecia? Dos mais vis defeitos até as minhas qualidades camufladas por mais uma tonelada de esquisitices, ele sabia de cor, um a um. E era felicidade pura saber disso e vê-lo continuar ao meu lado, me deixando conhecê-lo da mesma forma. Tinha gosto de cumplicidade, mutualidade.
—Começa você. Ainda estou analisando. – Permiti quando reparei que ele começava a se impacientar. O pé tinha começado a se balançar, tremendo de leve a mesa, e os lábios se comprimiram.
Ele não precisou pensar tanto, parecia já saber exatamente qual seria a sua primeira revelação.
—Eu odeio circos. – Fez uma careta engraçada, me arrancando uma risada com facilidade. –São coloridos demais, cheios de piadas sem graça, e eu odeio todos os espetáculos.
—Medo de palhaços, já tinha sacado essa. Então, não vale. – Impliquei, a voz teatralmente entediada.
Ele rolou os olhos, aborrecido, mas não negou minha afirmação sobre os palhaços. Já havia notado aquele detalhe pitoresco quando fomos ao parque naquele dia chuvoso. Não tínhamos ido ao salão dos espelhos por conta de seu receio das imagens de palhaços do lado de fora da atração.
—Então fala você uma.
—Eu nunca briguei no colégio, nunca fui reprovada em alguma matéria, nem tive alguma nota abaixo da média. – Lancei, orgulhosa. Ergui uma sobrancelha ao vê-lo bufar, indiferente.
—Nerd. – Depreciou com um ar de deboche.
—Era mesmo, algum problema? Só estava pensando no meu futuro.
—Eu também pensava no meu futuro, só tinha obrigações demais. Um menino de dezesseis anos não pode matar vampiros, ser alfa do bando, e cursar o ensino médio sem ser reprovado em matemática e física ao mesmo tempo, sabia? – Retrucou, realmente incomodado.
—Desculpa, meu bem. Não queria te constranger, está tudo bem em reprovar às vezes. Isso não te faz menos inteligente. – Amaciei seu ego, sorrindo para ele. Como em um toque de mágica, seu incomodo evaporou e ele voltou a relaxar na cadeira, devolvendo o sorriso. –Vai, fala a segunda coisa, sua vez.
—Isso vai soar muito mal, maaas... — Me preparei porque a cara dele denunciava que vinha alguma coisa engraçadinha. -Eu já me masturbei pensando em você enquanto os idiotas estavam distraídos vendo futebol na sala.
—Derick Alexander! – Ralhei, inconformada com sua falta de tato novamente dando as caras. Foca, Leah. Foca. Não imagina, não é hora disso. Tira essa imagem da sua mente!
—O que? Não é uma mentira. E nós somos namorados, é claro que eu sinto atração sexual por você, e é obvio que quando me sinto à vontade eu homenageio você.
—Você disse que ia se comportar! – Choraminguei após ver que minha reação só o animava mais a ser um engraçadinho.
—E eu estou me comportando, amore. Sexo é um tabu para você? Masturbação e tal? Não parecia quando suas mãos iam direto no meu...
—Derick, todo mundo tá te escutando! – Interrompi seu murmúrio inapropriado. Abaixei o rosto, tentada a me esconder embaixo da mesa quando um garçom passou perto demais da nossa mesa.
—Claro que não estão, são só pessoas normais, Principessa. Não conseguem nos ouvir. – Um arrepio desceu por conta de o sussurro afetar diretamente meu baixo ventre, parecia que ele suspirava contra a minha orelha. –Eu não sou tão indiscreto assim. Agora, respira. Isso, inspira e respira. Concentra em mim.
—Para de falar assim comigo, seu ridículo. – Briguei, rabugenta. Porém, fiz o que ele sugeriu, sentindo o constrangimento se esvair aos poucos, dando lugar a chateação.
—Tá bom, vou parar, tô sério agora. Me diz a sua segunda coisa.
Refleti por um segundo, indecisa entre revelar àquela parte já antes subentendida, apesar de nunca confirmada, a ele ou não. Era um tanto delicado e com uma chance alta de ser compreendido como algo ruim para um começo. Ainda mais com o nosso começo.
No fim, resolvi dizer. Sem segredos, Leah. Pista de mão dupla.
—Eu costumava odiar o imprinting.
Esperei por sua reação, temerosa de que podia magoá-lo de algum jeito.
—Ah, eu tinha uma vaga desconfiança disso, então não vale também. – Me mostrou a língua em uma atitude muito madura que me desconcertou um pouco, minha atenção foi tomada para a sua boca e foi um martírio estarmos rodeados de tanta gente. Foco, Leah! -Você tentou me afastar no começo, ficou bem evidente o seu ponto de vista.
Franzi as sobrancelhas, voltando a olhar em seus olhos. Não me arrependia de nada, visto que tudo o que passamos fez com que chegássemos até aquele momento, mas ainda assim era desconfortável ver um risco de tristeza manchar o brilho afável de seus olhos.
—Desculpa, era mais forte que eu. Por conta do Sam, do Jared e a Claire, até o Jake com a Reneesme, eu achei... achei que era uma baboseira idiota que só fazia com que as pessoas sofressem e fossem obrigadas a se ligar a um estranho pela vida inteira, sem pensar nas consequências, fora todas as complicações que todos os imprintings enfrentaram com a magia. E também tinha todo o ressentimento aqui dentro, esse sentimento me fez ver as coisas por um lado muito sombrio. Às vezes, ainda faz. – Admiti, um pouco hesitante porque me abrir era um desafio diário, doloroso. Não gostava de me sentir exposta, sem defesas. Fragilidade me irritava, principalmente a minha própria. Ficava mais fácil quando tinha ele ali, comigo, me estendendo a mão e uma segurança sem fim daquele jeito torto dele mesmo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!—Eu sempre me perguntei o que te fez mudar de ideia.
Encarei-o cética. Ele queria me ver falando explicitamente, só podia ser isso, afinal era claro como água o que tinha me motivado.
Der, percebendo meu cinismo, tratou logo de se explicar:
—Estou falando muito sério. Eu não estou reclamando, nem nada, mas... você era bem, hm, hesitante e então, do nada, sorria mais do meu lado e... e me dava muito mais abertura. Eu amo você, Leah, mas me deixou um pouco confuso na época.
Suspirei, pensando como poderia explicar a confusão que sentia dentro de mim na época. Era como se fossem dois cabos de aço em que meu coração puxava de um lado e minha mente puxava de outro, numa disputa de forças que insistia em me afastar do mundo.
—Não foi do nada. Você só... só me fez confiar em você. De algum jeito, eu sabia bem lá no fundo que o que nós tínhamos era... certo. – Resmunguei, tentando disfarçar o acanhamento desviando os olhos. –Eu me apaixonei por você, Rick. E eu sei que não foi só por influência da magia, agora eu sei.
Respirei fundo e ajeitei os talheres na mesa só para ter uma desculpa para ter o que fazer. Saber de meus sentimentos, admiti-los para mim mesma era uma coisa, transformá-los em palavras e revelá-los ao alvo de meu amor era outra coisa completamente diferente.
Concentre-se, Leah, ignore como se sente quando ele olha nos seus olhos. Acalme as borboletas em seu estomago, pare de se comportar como uma garotinha. É o seu imprinting ali, se deixe cair.
—Quando enfrenta uma horda de vampiros você é feroz como uma loba, mas quando falamos de sentimentos.... – Ele brincou, chegando sua cadeira para perto de mim sem nenhum barulho. Os gestos calculados e dotados de uma destreza que nenhum individuo normal conseguiria reter. Sua mão encostou-se à minha, entrelaçando nossos dedos. Automaticamente, não me senti tão deslocada. -Não precisa ficar assim tão tímida. Eu sou completamente apaixonado por você e sabe disso. Somos um, lembra?
Beijou minha bochecha singelamente, espalhando depois selos mornos e estalados por toda a lateral do meu rosto. Sorri, aproveitando de seu carinho e do clima bom que tinha se instalado.
—Lembro, Rick.
A chegada da comida reviveu meu estomago e percebi que estava louca de fome. Derick compartilhava de meus pensamentos, visto que o sorriso dele ao sentir o cheirinho bom do tempero quase cegou meus olhos.
Como sempre, enquanto comíamos, continuamos com nosso joguinho idiota de coisas que não sabíamos um sobre o outro e a conversa fluiu sem pausas, sem desconforto, leve e divertida. Era reconfortante ficar ao seu lado, fácil demais deixar de ser a Leah protetora loba de La Push para ser feliz com a Leah Namorada Apaixonada Normal, sem preocupações, só... só tendo um encontro romântico num sábado à noite como qualquer garota humana. Bebemos a garrafa toda e ganhamos olhares surpresos do garçom por nosso feito, mas não estávamos nem perto de alterados. O vinho realmente era gostoso, tinha um toque ácido, porém ao mesmo tempo era doce, deixava uma sensação boa na língua. Com certeza, era caro. Até a garrafa era bonita!
A sobremesa, um combinado de Gellato com Cannolli, me fez quase pular de satisfação, imaginando, enquanto degustava da doçura na língua, que estava em um episódio do MasterChef.
—O que? Como você nunca me contou isso antes?! Derick Alexander Abbado nunca namorou! — Engasguei com a massa crocante, tossindo um pouco pela surpresa. Der revirou os olhos com o drama.
—A gente nunca entrou nesse assunto e eu também nunca achei que seria interessante entrar. Não estou entendendo essa sua surpresa, é uma coisa muito normal.
—Claro que é normal, mas... Rick, você é o homem mais lindo que eu já vi. — Disse sinceramente indignada. Ele gargalhou com meu tom de voz, embora eu pudesse enxergar o leve rosa que tomou suas bochechas. -É sério! Você é lindo demais e esses olhos, meu deus, eu sou completamente apaixonada por esses olhinhos! Qualquer um se apaixona, não é possível que você não tenha namorado até agora.
—Eu não ter namorado não quer dizer que eu não tenha me envolvido com outras pessoas, amore. Sabe disso, não sabe?
Tentei afastar com certo esforço o monstro verde do ciúme que começara a me rondar. Era hipócrita e infantil sentir aquilo por seus relacionamentos anteriores, afinal eu também tive minha cota de corações partidos e namorados antigos. Não era saudável cultivar o sentimento. Fiquei feliz por conseguir abrandá-lo e continuar bem.
—Ainda é inacreditável! Apesar de bonitinho, eu sou a sua primeira namorada!... e única, ouviu, alfa? Primeira e única! — Ameacei, brincando, apesar de ainda estar um tanto abismada. Ele gargalhou de novo, incapaz de ver por trás das brincadeiras quão chocada a informação havia me deixado.
—Eu sempre te esperei, Principessa, mesmo que fosse de forma involuntária. Eu nunca consegui me envolver de verdade com alguém porque, de algum jeito, eu sabia que você estava por aí. Você é a primeira e única dona do meu coração.
Arregalei os olhos, perplexa com a declaração tão súbita assim em meio a nossas piadas e catástrofes. Ali. Pronto. Era só aquilo. Não havia motivo para ciúme, chateação. O antes de nós era algo tão diferente do agora que qualquer relacionamento anterior não poderia nem ser comparado ao que sentíamos.
Fui salva de uma série de gaguejos constrangedores pelo soar de acordes suaves de violão. Ele sempre me pegava de surpresa, não era justo. Um show ao vivo começou a tocar em um palquinho discreto não muito longe de nossa mesa reservada. Aos poucos, casais e mais pessoas se levantaram começando a dançar timidamente pelo espaço já reservado para tal.
Surpreendi-me um pouco quando Der me estendeu a mão, um sorriso arteiro nos lábios convidativos.
—Me concede a honra dessa dança,Principessa? — Levantou-se, esperando por minha resposta. Levei quase um minuto inteiro para realmente entender o que acontecia, abri a boca, de repente sem palavras, envergonhada. Fora o baile de formatura, que havia ido com Sam, nunca tinha sido chamada para dançar assim antes.
—Rick... — Murmurei, aceitando seu pedido e seguindo seu impulso. Ele nos dirigiu a um cantinho em meio aqueles rostos desconhecidos, suave e lentamente nos conduzindo para lá e para cá, num passo só nosso. Foi fácil acompanhá-lo, já acostumada em deixá-lo me guiar em ocasiões como essa. Meu rosto nunca esteve tão vermelho em toda a minha vida, mas tudo o que conseguia sentir era carinho, paixão em cada nota musical escutada.
—Você fica linda sem graça assim. — Ele provocou, aproveitando de minha ligeira falta de jeito. Empurrei seu ombro como uma punição por zoar da minha cara, mas ele nem se mexeu direito, tanto por eu não ter posto força o suficiente, quanto por ter o puxado para mim quase no mesmo instante, incapaz de ficar longe um centímetro sequer. -Obrigado pelos melhores seis meses da minha vida, Leah. Estar com você e viver esses momentos é muito mais do que eu poderia algum dia pedir. Não importa o que aconteça, eu te amo, ouviu? Não esquece.
Tirei minha mão da sua, envolvendo seu pescoço com os braços, apertando-me mais a ele. Não gostei do rumo da conversa. Seu tom de voz mudou, ficando um pouco triste, melancólico talvez. Parecia uma despedida.
—Não fala assim, para. Parece que está se despedindo, não gosto disso. Nunca vou esquecer porque você vai sempre estar aqui para me lembrar, não é? — Ele suspirou ao invés de afirmar. Espremi os olhos, assustada com a demora de uma resposta. -Derick, o que...
—Esquece, mio bene. Só pensei demais, não é hora para isso. Vamos nos focar aqui, em nós.
—Você não me respondeu. — Sussurrei, sentindo o pânico começar a surgir. Tentei me desvencilhar de seu aperto, mas ele me segurou no lugar, deslizando as mãos por minhas costas num carinho acolhedor, seguro.
—Ei, calma. Eu sempre vou estar com você, Amore. Sempre. Não se preocupe.
Sua confirmação me fez suspirar, aliviada, apesar da pulga atrás da orelha. O beijo que ele depositou em meu pescoço e as cocegas leves em minhas costelas fizeram com que o assunto fosse esquecido por aquele momento, colocado em uma gaveta para ser conversado mais tarde.
—Já disse quão maravilhosa você é, hoje?
—Hm, até que já, mas não o suficiente. Pode dizer mais, eu deixo. — Fiz charme, sorrindo com a mudança de compasso junto com a música, agora mais doce, romântica.
Der riu e estalou um beijo barulhento em minha bochecha, apertando minha cintura naquela sua pegada gostosa. Me derreti toda, completamente afetada.
—Você é a mulher mais maravilhosa do mundo,Principessa. — Elogiou, a voz cheia de uma certeza que me fez sorrir e meu coração bater ainda mais rápido.
—Sempre o mesmo galanteador. Você já me conquistou, não precisa mais disso.
—Claro que preciso. Te conquistar cada dia mais é uma meta estipulada desde antes de nos conhecermos, amore.
Ri, desacreditada, mas não consegui respondê-lo pois seus braços me guiaram para rodar em meu próprio eixo, no ritmo lento e gostoso da música, me abraçando pelas costas, encaixando seu pescoço em meu ombro, nos balançando. A paz que inundou meu peito naquele momento em especial nunca havia sido sentida por mim.
Sorri, encantada com a atmosfera que ele havia criado. Não enxergava os diversos casais diferentes ao nosso redor, tudo o que sentia e queria ver era ele. Seus olhos azuis amorosos me acolhendo, seu toque cuidadoso me guiando, o afeto em cada sorriso, cada sussurro trocado.
—Eu te amo tanto. — Seu sussurro carregado acompanhou a voz delicada da garota cantando. Arrepiou-me toda, esquentando ainda mais meu coração já em brasa. Tive que concordar com o eu-lírico daquela canção tão bonita. Realmente, toda vez em que corria para os braços dele, naquele abraço maravilhoso, sentia que existia para o amor. O amor dele. Para amar a ele.
Não consegui segurar o sorriso que persistiu em meus lábios e fez minhas bochechas doerem, era instintivo. Derick pareceu amar esse detalhe, dançando comigo até a música acabar e eu o apertar em um abraço forte.
—Obrigada. Eu nem sei o que dizer, amei tudo, Rick!
Ele retribuiu o toque, seus dedos acarinhando minhas costas.
—Fico muito feliz, Principessa.
Afastei-me só um pouquinho, o suficiente para poder observar seu rosto iluminado pela meia luz amarelada do estabelecimento.
—É sério. Você planejou tudo e eu amei cada minuto! Nunca ninguém tinha feito nada assim para mim. Você me faz sentir especial a todo momento. — Escondi um risinho tímido pelo jeito com que ele me encarava. -Nunca vou esquecer esse dia, significou muito, Der, de verdade. Obrigada!
Ele apertou os olhos, fazendo-me cocegas rápidas. Dei um pulinho no lugar, acertando, em seguida, um tapa em seu braço pela provocação.
—Espero que não se esqueça mesmo, mocinha. — Implicou, me lembrando novamente de que aquele era o dia do nosso aniversário, mas eu não tinha culpa se não era boa com datas. -E, Leah, eu faria tudo de novo e de novo só para ser a razão desse seu sorriso lindo. Quero que seja feliz e quero te fazer feliz, a vida toda. Você é especial!
Beijei singelamente seus lábios com gosto de vinho e morango com chocolate, suspirando pela pressão que seu toque fazia em minha pele. Meu Deus, eu o amo demais! Eu amo Derick Alexander Abbado inteiro!
E isso não saiu mais da minha cabeça.
Eu pensei que o amava quando nos despedimos do restaurante – com ele pagando a conta gorda sem reclamar nem por um segundo –, quando entramos no carro de aplicativo, e quando ele me levou até sua casa, silenciosa como raramente fica, mas não me deixou sozinha um só minuto, entrando comigo e me puxando até a sala. Eu o amei um tantinho mais quando ele tampou meus olhos para que eu não visse, até a hora certa, que o cômodo todo estava preparado para uma sessão de cinema improvisada. Meus olhos brilharam afeto quando observei as almofadas espalhadas de um jeito fofo e levemente desorganizado junto com fronhas vermelhas, que eu tinha certeza terem sido ideia de Allan e sua cafonice, além de bombons em cima do sofá que, por sua vez, estava cheio de papeizinhos em formato de coração colados nas embalagens plásticas do meu doce sírio preferido. Eu gritei em pensamento quão grande era o meu amor quando ele colocou a versão de 91 da Família Addams na televisão e trouxe o resto do vinho do jantar de semana passada em dois copos de requeijão, porque estava com preguiça de pegar as taças dentro do armário alto da cozinha. Eu suspirei meu amor quando ele se recostou ao estofado fofinho e me puxou para seu peito, tranquilo e empolgado por uma simples coisa como essa enquanto desembrulhava doce por doce para mim mesmo que eu não tenha pedido.
—Está com frio? Tá começando a nevar lá fora.
Neguei com a cabeça, me encolhendo em seu abraço, a cabeça cheia de As, Ms, Os e Rs. Está aquecido o bastante. Meu peito está aquecido o bastante. Não há espaço para frio, para o cinza.
Eu te amo.
—Quer que eu pegue uma coberta?
Neguei de novo. Der, só preciso do seu amor para me esquentar. Só do seu abraço. Só do seu cheiro.
Eu te amo.
—Eu amo essa música. — Ele disse distraído quando a música tema começou a soar. Eu ri, assentindo para mostrar que eu também amava, acompanhando-o nos estalos de dedos característicos da trilha sonora entre risadas. Meu filme preferido, minha pessoa preferida, meu amor preferido, o que mais poderia querer?
Eu amo a sua risada. Eu te amo.
—Vamos nos fantasiar de Mortícia e Gomez no Halloween do ano que vem? Você ia ficar um espetáculo com aquele vestido colado, cara mia!
Bati em seu ombro com a adulação típica, mas apreciei a ideia de vê-lo naquele bigodinho. A imagem mental me fez gargalhar. Como pode alguém como eu sentir tanta alegria assim?
Eu amo como você me faz sorrir. Eu te amo.
—Quando a gente casar, gosta mais da ideia de uma igreja ou ao ar livre?
Pensei um pouco para responder, sorrindo pela mudança brusca de rumo. Quando, não se. Quando.
Eu amo o jeito como consegue me distrair. Eu te amo.
—Casamento é um contrato enfeitado pela mídia e os bons costumes.
Fugi do assunto só para vê-lo se irritar um pouquinho. Ele nem se abalou por minha resposta, com certeza já imaginando que eu diria algo assim.
—Igreja ou ar livre? — Repetiu, indiferente à minha implicância.
—Dona Stella que me desculpe, mas ar livre. Sabe que eu não tenho, nem quero ter, os sacramentos católicos para poder casar na igreja. Quem fez catequese aqui foi você, coroinha. — Zoei, rindo com a falsa expressão de tédio dele.
—Rosas vermelhas ou girassóis para a decoração?
Der quem gostava de rosas vermelhas. Eu amava girassóis. O conflito entre nossos interesses não me pareceu um problema, já que amava a combinação das flores.
—Rosas vermelhas e girassóis. — Entrei em seu jogo. Ele piscou para mim, como se já soubesse minha resposta antes mesmo de mim, e eu suspirei, sem conseguir me conter.
Você é tão especial, Derick!
Eu te amo.
—Eu vou usar um terno branco ou cinza?
Torci os lábios, encenando estar em dúvida. Nenhum dos dois era o que eu idealizava em meus devaneios mais secretos.
—Hm, azul. Igual a um príncipe. Azul fica lindo em você, realça seus olhos. Além de que combina com o meu anel.
—Gosto da ideia. — Concordou comigo, apertando o abraço. Seu coração batia acelerado contra meus dedos, não sei direito o porquê.
Derick em um terno azul royal bonito me esperando em um altar florido no meio de uma praia embasbacou minha mente, por um momento. Minha imaginação voou, voltando a meus tempos de garotinha inocente esperando pelo príncipe encantado. Preferia mil vezes essa minha versão atual de amor.
Meu imprinting não era nenhum ser da realeza, como eu sonhava. Ele era resmungão, grudento, irritante, irônico e cabeça-dura. Rick tinha seus milhares de defeitos e errava como qualquer outro ser humano. Ele também tinha dias ruins, tinha momentos de fragilidade, e não era perfeito. Eu tinha ciência disso. Conhecia-o todo e o amava na mesma intensidade que ele me amava de volta.
A constatação desse fato me deixou um tanto elétrica. Preciso deixá-lo saber. Preciso que ouça o quanto é amado, o quão intenso esse sentimento é.
—Quer pipoca, Principessa? — Perguntou carinhoso, a luz da televisão iluminou suas feições e meu coração pulou no peito, apaixonado.
Meu deus, como eu te amo!
—Quero, Der. — Foi o que saiu por minha boca, no entanto.
—Pausa que eu vou colocar no micro-ondas. — Ele pediu, já se levantando rumo a cozinha. O barulho dele mexendo nos armários por mais de cinco minutos não atrapalhou nem um pouco a cacofonia de pensamento confusos de “te amo, amo você, você é o amor da minha vida, eu amo você, Derick! Eu te amo, você é o meu amor, eu te amo com tudo o que eu sou, eu te amo!” -Eu te pedi para pausar, Leah – Der reclamou como uma criança, prolongando o a no final para dar mais ênfase ao seu desagrado. -Agora eu vou voltar onde eu parei, quero nem saber.
O controle foi puxado das minhas mãos sem encontrar resistência nenhuma de minha parte. É claro que ele estranhou minha apatia momentânea, me encarando com seus olhos bonitos preocupados.
—Tá tudo bem? O que houve?
Não é nada, Derick. Só te amo tanto que meu cérebro deu curto. Não consigo, não consigo te dizer! Eu quero tanto! Você merece tanto! Merece tanto saber que é amado de um jeito tão ou mais intenso do que ama!
—Ei, por que está lacrimejando? Principessa, ei... — Ele passou seus braços ao meu redor, encostando minha cabeça em seu ombro. O carinho despretensioso em minha nuca só intensificou a urgência em declamar todo esse amor aqui dentro enclausurado. -Bene mio, quellocheè sucesso? (Meu bem, o que houve?)
Eu consigo, sim! Eu te amo, Derick!
—Rick, eu amo você. — A fala saiu mais sussurrada e falha do que eu pretendia, mas ela saiu. Finalmente, ela saiu
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