Leah - I See You
48 Capitulo 48 - Nunca mais só
Notas iniciais
A noite passou em um sopro, apesar de eu ter aproveitado muito bem meu sono tranquilo banhado ao aconchego dos braços de meu imprinting. Derick, porém, aparentemente não degustou do mesmo descanso calmo, sempre mudando de posição e se remexendo, em movimentos inquietos.
Não acordei sentindo seu calor, mas o perfume ainda era fresco no ar, mostrando que ele saíra para o trabalho não fazia muito tempo. Um girassol repousava ao lado da minha cabeça no travesseiro junto a um rabisco de coração desajeitado. A flor tinha sido arrancada do quintal de casa, dava para ver pelo cabo quebrado sem cuidado e pelo histórico de Derick, mas o gesto esquentou meu coração e me fez muito feliz. Ele nunca tinha feito algo como aquilo para mim. Já havia percebido que Rick era um pouco romântico e, apesar de conhecer aquela sua faceta carinhosa, o pequeno mimo me deixou com o coração em taquicardia. Guardei com carinho meu presente dentro de um livro velho para eternizar o momento e desci as escadas. Mamãe estava de folga, entretanto já estava acordada cantarolando na cozinha.
—Bom dia. — Cumprimentei, sentando-me à mesa e distribuindo sorrisos.
—Bom dia, querida. — Respondeu um tanto desconfiada por meu bom humor matutino. -Charlie virá aqui para jantar hoje. Queremos falar sobre o casamento, tudo bem? Quero aproveitar minha folga. Derick está convidado também, é claro.
Encolhi os ombros, lembrando que hoje talvez não fosse um bom dia para meu imprinting. Talvez não. Com certeza, não era um bom dia. Ele não tocara no assunto em nenhum momento e, embora seu gesto e a flor em meu travesseiro fossem presentes gentis e cuidadosos, sabia que ele não estava tão bem quanto queria aparentar.
—Vou chamar, mas... hoje é um pouco delicado. Aniversário de morte do pai dele.
—Se quiser que adiemos, posso conversar com Charlie.
Franzi as sobrancelhas, discordando.
—Não dê corda para Charlie te enrolar mais, mamãe. Não vamos adiar nada. Posso muito bem dividir meu tempo com a minha família. Vou conversar com ele.
Ela não discutiu, acatando as minhas exigências. Ri, ainda um pouco empolgada com o assunto de ontem à noite, não sabendo como inserir a notícia em uma conversa normal.
—Rick disse que eu posso engravidar. — Soltei, sem conseguir me conter. Mamãe quase cuspiu seu café em uma crise de tosse violenta. Tão delicada quanto um elefante, Leah Clearwater. Meus parabéns!
—O que disse?
—Vocês estavam errados. Rick me disse que em Lupi Luna as transmorfas podem, sim, engravidar. O conselho dos anciãos estava errado. Sabe, o imprnting não tem nada a ver com isso.
—Como? — Ela inquiriu passado o susto parecendo curiosa e até um pouco emocionada.
—Algo como o perfume do imprinting desencadear a minha ovulação de seis em seis meses, quando transformada. E normalmente, sem interferência da magia, quando eu parar de me transformar. Bem simples, não é? Ele disse que ainda vai conversar com Sebastian, mas...
—Derick tem certeza disso?
—Ele não tem certeza, mas é uma chance, não é? E faz um sentido danado. Mamãe, ele realmente nasceu para mim! Eu não fui a intrusa da história! — Sorri, feliz como nunca. Ela se levantou, saindo de seu lugar na mesa e me abraçando apertado. Ri ainda mais ao ouvir um fungar discreto seu.
—Você não sabe a alegria que me dá te ver tão viva e alegre assim, minha filha. A sua felicidade era tudo o que eu pedia em minhas preces.
—Estou flutuando! Parece que... que depois que dissemos tudo o que tínhamos para dizer um para o outro tudo mudou. — Fiz questão de contar, olhando para as escadas e lembrando de meu pequeno mimo. -Ele disse que me ama. Me ama! Com todas as letras! Mesmo com os defeitos, e todas as minhas falhas, ele... ele me ama!
Ela sorriu, carinhosa.
—E já não estava na cara? — Dei de ombros, sem realmente dar importância às aparências. Afinal, Sam também parecia me amar.
Repreendi-me mentalmente. Tinha que parar com as comparações, não era justo com Der. Além de que tudo aquilo, toda a nossa relação, todo o nosso amor era diferente de Sam. Era real. Eu sentia dentro do meu ser que nunca conseguiria encontrar sentimento igual a esse em meu peito de novo.
—Ele parece um panaca quando você o olha. — Deu uma risadinha sacana. Ri um pouco, gostando da informação. -Tem ele enrolado no seu dedo mindinho.
Gargalhei, resistindo a vontade de espernear igual uma adolescente empolgada com o primeiro amor, apesar de ser, sim, esse mesmo o meu caso.
Dona Sue me fez ajudá-la a ajeitar a casa toda de cima a baixo, como se Charlie fosse um monarca estrangeiro que nunca tinha posto os pés em nossa casa. Depois, me pediu para auxiliá-la nos bobes de cabelo, para que seus fios tivessem um movimento a mais naquela noite. Foi um trabalho e tanto prender o cabelo lisíssimo dela naquelas coisinhas minúsculas e chatas, mas deu certo e quando vimos a tarde toda tinha passado. Seth ajudara com os jardins e a cozinha foi toda dele na parte da limpeza, ainda assim ele terminou depois de nós. Jogamo-nos no sofázinho da sala, espremidos pelo espaço pequeno, um pouco entediados agora que já não havia o que fazer. Chequei meu celular pelo visor, esperando por alguma mensagem de Der. Nenhuma notificação.
—Vai ser aniversário do Jake semana que vem, Nessie quer fazer uma festa surpresa.
—Ela quer fazer uma surpresa e contou para você? Fala sério! — Provoquei, rindo com seu revirar de olhos.
—Jake já sabe, claro, ele só está deixando que ela se divirta. Nessie, está em dúvida sobre chamar os lobos de Derick e ele. O que acha?
Franzi as sobrancelhas.
—Vai ser na casa dos sugadores de sangue ou na do Jacob?
—Na do Jake, lógico! Sam ainda não aceita entrar nos territórios dos Cullens de livre e espontânea vontade. A festa vai ficar por conta do Billy enquanto eu e Nessie “distraímos” nosso alfa.
O pronome utilizado me causou estranheza. Fazia tanto tempo que não me transformava com Seth e Jacob que tinha até me esquecido o que era uma ordem alfa de Jake, que ele era o meu alfa. Para mim, na verdade, eles já tinham se tornado eles já há algum tempo. Era o bando de Jacob, não o meu bando. Eram eles, não nós. O meu nós, as pessoas em que eu pensava quando a palavra-chave “alcateia” surgia, eram meus meninos e Derick. A mudança fora tão gradual que nunca havia percebido a diferença. Será que Jacob ainda era o meu alfa?
—Al e Paul tem se estranhado, mas eles não vão se opor a ir, se é isso o que a preocupa. — Dei de ombros, ainda pensativa sobre os bandos.
Seth estalou a língua no céu da boca, num barulhinho irritante.
—Eles não vão se opor se você for, né. Duvido que vão em algum lugar sem você. Ultimamente, parecem mais uns cachorrinhos adestrados atrás da dona. — O tom enciumado não passou despercebido por mim.
—Está com ciúmes, Seth? — Ergui as sobrancelhas, desacreditada. Ele me deu uma careta completamente hilária.
—Não estou, não!
—Está, sim! Está com ciúmes! Que bonitinho! Não precisa disso, irmãozinho, você sempre será o meu bebezinho! — Puxei-o pela cabeça, prendendo-o em meus braços só para implicar. Ele se debateu, irritado e sem-graça, todo vermelho.
—Para com isso! Não é ciúme! Eu só não gosto daquele monte de marmanjo atrás de você. É diferente!
Ainda o dei um beijo na testa moreninha só para vê-lo limpar a pele com uma pressa exagerada.
—São os lobos da alcateia do meu imprinting. Andarei com eles, é natural. Não é assim com Emily? Pois então.
Ele se remexeu, incomodado.
—Derick já se desculpou, não é? Ele não te magoou mais.
—Já se desculpou, sim. Agora, nós estamos bem, sem magoas.
—Bom mesmo. — Ele empinou o nariz, arrogante. Segurei a risada. Com coisa que aquela pose toda conseguiria ameaçar alguém.
—E aquela garota da escola? Maya, né? Ainda fica lambendo o chão que ela pisa? — Gracejei, sem conseguir segurar a implicância natural. Fazia tempo que não sentávamos para conversar banalidades, sentia falta daquilo. Com os problemas do bando, Derick, os Volturi, e Seth mais engajado aos Cullens, tempo não era o que mais tínhamos no momento. Ele me deu um soco no ombro, menos fraco do que deveria. Como castigo, peguei-o pelo pescoço e empurrei sua cabeça para baixo, prendendo seus braços para trás, imobilizando-o para que aprendesse uma lição. -Ficou nervosinho, foi?
—Ela nem é mais da minha turma de biologia! Me solta, cara de bunda! Mãe! A Leah tá me batendo! — Gritou, ficando ainda mais vermelho, tanto pelo sangue descendo para sua cabeça quanto pela raiva. Eu gargalhei, divertindo-me de verdade.
—Ele me bateu primeiro, mãe!
Dona Sue desceu as escadas com passadas duras e rápidas. Soltei o pescoço de Seth com uma velocidade impressionante, empurrando seu corpo grande para o chão. Ele caiu com um baque silencioso demais para ouvidos humanos captarem.
—Parem com isso, vocês dois! Seth vá tomar um banho, estou sentindo cheiro de lama seca daqui, seu moleque! Leah, me ajude a terminar o jantar, agora! Andem, os dois! Onde já se viu, dois lobos desse tamanho brigando iguais duas crianças!
Dona Sue precisava mais de uma ouvinte para sua tagarelice ansiosa do que uma ajudante na cozinha, na verdade. Embora não estivesse com muita paciência para a empolgação, escutei a tudo quietinha em meu canto. Ela precisava extravasar toda aquela agitação de alguma forma.
Derick havia me mandado uma mensagem avisando que já tinha chego do trabalho e só. Nem uma palavra a mais durante a tarde toda. Com a correria para ajudar mamãe a arrumar tudo para seu jantar, não pude dar tanta atenção assim para ele, mas tinha alguma coisa errada. Meu coração sabia que tinha, minha loba também. Como se fosse algum aviso do universo que passava por nossa ligação e me dizia que meu imprinting não estava bem, mesmo com a fachada boa que ele passava.
Nosso laço tinha se recém fortificado e parecia que estávamos mais necessitados um do outro. Pelo menos da minha parte era assim. O cheiro dele me fazia falta e com a aura triste que, com certeza, o envolvia agora, só queria grudar em seu ombro e fazer a tempestade passar.
Minhas suspeitas foram confirmadas quando Nik me ligou quase na hora do jantar. Já estava pronta com a jaqueta de couro legitimo que Der havia me dado no meu aniversário e uma calça jeans só aguardando Derick responder minha última mensagem. Mamãe arrumava a mesa na cozinha, dava para ouvir o tilintar da porcelana especial no andar de baixo. Seth cantarolava no chuveiro, sem preocupações em sua cabeça adolescente. Instantaneamente, me preocupei. Klaus não costumava ligar, então sabia que algo havia acontecido.
—O que aconteceu? — Nem o deixei falar, já perguntando aflita. Ele suspirou do outro lado da linha.
—Você sabe que dia é hoje, certo?
Rolei os olhos, angustiada demais para enrolação.
—Claro que sei, Niklaus. Desembucha!
—Ele se trancou no quarto desde que chegou do trabalho. Passou a tarde toda lá sem falar com ninguém. Nós sentimos cheiro de álcool e vômito. Ele não deixa ninguém entrar, usou o comando alfa para nos manter afastados. Estou preocupado. Você pode vir aqui para tentar ajudar? — Mesmo pelo telefone consegui ouvir o barulho de vidro quebrando e uma exclamação murmurada de Derick. Meu coração se apertou. -Derick, o que aconteceu? Você se machucou? — Escutei as batidas na porta e o rosnado de Rick. -Eu estou chamando a Leah, okay? Vai ficar tudo bem.
—Eu estou bem! Me deixe quieto! — O comando alfa fez meu corpo vibrar e não foi do jeito bom. Não gostava quando ele usava aquele tom de voz com os meninos.
—Nik, estou indo para aí. — Desliguei, descendo as escadas com pressa. Eu sabia! Sabia que tinha alguma coisa acontecendo!
Mamãe sorriu para mim, provavelmente aprovando a roupa que havia escolhido para a ocasião, mas o riso desmanchou ao ver minha expressão.
—O que houve?
—Klaus me ligou. Rick parece ter se metido em uma confusão. Tenho que ir até lá.
—Agora? Leah, já está quase na hora do jantar! Você mesma não disse que poderia dividir seu tempo? Charlie já está chegando.
—Eu sei, eu sei, mas isso não foi planejado. Devia ter adivinhado. Rick não está bem.
—Vai faltar ao jantar? Charlie vai ficar chateado. Filha, sei que é um momento difícil para Derick, mas...
—Não vou faltar ao jantar, só vou precisar chegar um pouco atrasada. Não pense que estou deixando a minha família de lado! Eu nunca faria isso. Mas, mãe... ele é minha família também agora. E ele precisa de mim nesse momento, por favor, entenda.
—Poderíamos ter adiado essa coisa. Realmente, queria que todos vocês estivessem presentes. Eu fiz tanta comida.
—Mãe, não é para tanto. Sei que esse jantar é importante, mas eu preciso ir. Por favor! Derick precisa de mim! Me desculpe!
—Nós também precisamos de você. — Ela cruzou os braços, parecendo muito Dona Stella quando contrariada. Quase rolei os olhos ante o seu drama.
—Mãe...
Ela me olhou com compreensão brilhando nos olhos escuros, apesar de ter ainda uma pontinha de desagrado em sua expressão. Sua aprovação aliviou um peso enorme de minhas costas.
—Nem se eu quisesse conseguiria te manter aqui, querida. Acredite, eu sei. Vá. Conversamos depois.
Assenti, correndo para a porta.
—Converso com Charlie depois. Não vou esquecer.
—Ele ficará animado, com certeza. — A ironia reinou em sua declaração. O riso contido dela fez um pequeno sorriso crescer em meus lábios.
Não sei como cheguei tão rápido a casa deles, andando apressada pela reserva, como se tivesse perdido o trem. Nem bati na porta, entrei sala a dentro encontrando os meninos com expressões preocupadas nos rostos. O alivio que surgiu em suas faces ao me ver foi tão óbvio que até eu consegui enxergar.
—Não sabíamos mais o que fazer. Ele está lá dentro. — Joe apontou em direção ao antigo quarto de Dona Stella.
—Desde quando lobos podem ficar bêbados? Pensei que nosso organismo era rápido o suficiente para eliminar o álcool do sistema antes de ficarmos alterados, de fato. — Expus minha dúvida, tentando entender a situação.
Allan torceu os lábios, certamente indeciso sobre dedurar seu alfa.
—Ele não está bebendo vodka comum. É uma mistura especial de destilados e um pouco de verbena. Certamente, se um humano normal bebesse aquilo estaria em coma alcoólico em vinte minutos, mais ou menos. Na gente, tem um efeito diferente por conta do organismo. Nos deixa bêbados e confunde os sentidos do lobo, funciona quase como uma anestesia louca.
—Ou como uma viagem muito ruim de ácidos. — Joe complementou, fazendo uma careta.
—E quantas garrafas ele já bebeu? — Pisquei, pasma com a informação. Allan teve a decência de se encolher. Apertei os olhos. -Allan, fala logo.
—Eu contei sete. Mas, ele pode ter pegado mais sem que eu tivesse visto.
—E por que não me ligaram antes? Não é porque ele é o alfa que vocês têm que fazer tudo o que ele mandar! — Fiz uma careta, sem entender o porquê de terem deixado chegar aquele ponto.
—É exatamente por isso que devemos obedecer, na verdade.
—Joe, esse, definitivamente, não é o ponto aqui! — Esbravejei, vendo-o abaixar os olhos, se sentando no sofá quietinho e sem mais piadinhas. -Deviam ter me ligado quando ele buscou a primeira garrafa.
Nik deu de ombros, encolhido no sofá.
—Você mesma disse que estaria ocupada essa tarde. Não queríamos incomodar.
Suspirei, desacreditada.
—Isso não é um incomodo. Eu não estou fazendo um favor. Quero que contem comigo, assim como eu conto com vocês. Somos família, não somos? E a família cuida de seus membros! Estamos entendidos?
—Sim, Principessa. — Responderam todos os três lobinhos em uníssono. Assenti, sorrindo um pouco.
—Agora, ele está falando? Está muito bêbado?
—Ele só fala para o deixarmos em paz. Não podemos tentar arrombar a porta por conta do comando alfa. Na verdade, não estamos autorizados nem de chegar perto da porta de novo. Foi uma ordem bem direta. — Nik rolou os olhos, balançando a cabeça negativamente.
—Okay. Depois que me transformei não tive mais experiência com bêbados, se ele for um daqueles chatos eu o tranco no quarto até que a ressaca chegue.
Fui em direção ao quarto ouvindo as risadas abafadas na sala. O cômodo estava silencioso. Silencioso demais até. Bati na porta três vezes e quando não obtive resposta continuei batendo até o som de passos se apressarem pelo assoalho. O grunhido agressivo me assustou, mas não chegou a intimidar minha loba.
—Lasciami in pace! Ti avevogiàdettodilasciarmi in pace! Sono sordi? Che diavolo! (Me deixem em paz! Eu já falei para me deixarem quieto! Estão surdos? Que inferno!) — Derick mais rosnou do que falou, na verdade. Um pouco embolado pela bebida, porém ainda com o tom imperativo. O cheiro de álcool era forte impregnado na porta, como se ele tivesse se encostado a ela várias e várias vezes. Não consegui ficar brava por sua atitude. Tudo o que eu queria era abraçá-lo pelos ombros e fazer carinho.
—Rick, sou eu, estou aqui para você. Abre a porta para mim. — Girei a maçaneta, encontrando-a ainda trancada.
—Principessa, eu... não sabia que era você. Não... não senti. Desculpa. — Der abaixou a voz suavemente, arrependido. Seu fungar discreto e abafado quebrou meu coração.
—Tá tudo bem, Der. Abre a porta para mim, okay? Vamos conversar um pouquinho.
—Não gosto de conversas. Você vai brigar comigo. Não quero! — Pude, literalmente, vê-lo batendo os pés por trás da porta.
—Você gosta de conversas, sim. Lembra? Foi uma conversa que fez com que a gente ficasse bem de novo. Eu quero te fazer ficar melhor, então conversa comigo.
—Não quero conversar!
—Eu só quero ver você. Sei que não está bem. Me deixa entrar, Rick.
—Não era para estar aqui, eu quero ficar sozinho. Estou bem! Amanhã nós nos vemos e eu vou estar melhor.
—Você prometeu que não ia mais me afastar, está quebrando sua promessa? — Fingi uma mágoa inexistente, apelando para a chantagem. Ele se agitou por trás da porta.
—Não, Principessa! — Seu sotaque pesou um pouco na frase, fazendo minha cabeça se confundir por um instante, não sabendo se ele falava na sua língua ou na minha. -Só não quero que me veja assim. Isso não tem nada a ver com a gente... com você. Vá embora, eu não vou abrir!
—Tudo o que tem a ver com você, tem a ver comigo. Tudo o que é importante para você, é importante para mim também. Abra a porta, sim? Vamos fazer ficar tudo bem.
—Vá embora. Eu já estou bem!
Suspirei, reunindo toda a paciência que habitava em mim.
—Derick Alexander, abra essa porta agora ou eu vou arrombar! Já chega de bebidas para você hoje!
—Não briga comigo! — Sua entonação tremida me fez arrepender de ter sido um tanto mais dura do que o necessário. Ele não precisava daquilo.
Suspirei, amenizando o tom e encostando na madeira branca da porta.
—Eu não estou brigando, amor. Tá tudo bem, okay? Só quero que abra a porta para mim, tá bom? Não vou brigar com você. Estou preocupada. Não vou conseguir ir embora, você sabe.
Depois de alguns segundos angustiantes, finalmente, o trinco da porta soou, desimpedindo a minha passagem. Abri lentamente, entrando e fechando a porta logo atrás de mim.
A situação no quarto era caótica. Cheia de garrafas vazias pelo chão, duas quebradas perto da janela e uma pela metade em cima dos travesseiros de fronha branca. A cama estava desarrumada e uma poça de algo duvidoso manchava o carpete bonito. Der estava agachado encostado na parede ao lado da porta, uma garrafa cheia na mão e a cabeça entre as pernas. Fui direto para ele, sentando ao seu lado, tirando a garrafa de seu alcance, tocando seus braços e puxando-o para pertinho de mim. Ele veio mole, sem nem contestar.
—Por favor, não briga comigo. Eu só... só precisava esquecer. Não briga comigo, não briga. — Pediu, abrindo uma brechinha de sua bolha para me acolher. Ele se encolheu tanto em meu enlace que me despedaçou. Seu corpo todo, por baixo da camada de suor e álcool, fedia a tristeza. Beijei sua têmpora, carinhosamente.
—Não vou brigar. Não vou brigar, está bem? Estou com você agora. Não estou te julgando, você pode fazer o que quiser. Só não me deixa de fora na próxima, okay? Eu me preocupo muito com você.
—Se preocupa? — Perguntou baixinho, parecendo uma criança manhosa. Fiz carinho em seus fios loiros, sentindo-os úmidos e embaraçados.
—Claro que sim. Você é o meu Derick. É a pessoa mais importante e especial da minha vida. — Declarei, beijando sua bochecha.
Ele levantou os olhinhos vermelhos de meu ombro, parecendo surpreso.
—Sou sua pessoa mais importante? — Inquiriu, dando o indicio de um sorriso. Assenti com toda certeza que existia em mim. -Você também é a minha.
Sorri para ele, puxando-o de volta para se aconchegar em mim. Der veio de bom grado, fungando de novo. Senti quando as lagrimas deixaram seus olhos, sofridas e silenciosas, encontrando refúgio no tecido grosso da jaqueta. Abracei-o mais forte.
—O que houve, amor?
Ele respirou fundo, afundando mais seu rosto em meu pescoço.
—Eu tento esconder, tento esconder, mas acho que tentei por tempo demais. Está tudo tão carregado que agora... Agora, está vazando pelas beiradas.
Seu choro era quieto, tinha tanta tristeza que me afetou. Me desesperei, sem saber o que fazer para acalmá-lo.
—Shiii, Der. Estou com você. — Tirei a garrafa de sua mão quando ele, sorrateiramente, tentou pegá-la de volta sem que eu percebesse. -Isso não está te fazendo bem, melhor parar por hoje, tudo bem?
—Eu não quero sentir isso! Dói! — Ele exclamou um pouco alto demais, as lagrimas presas nos olhos. -Todo ano isso vem para me assombrar, me lembrar do que eu fiz e das consequências das minhas escolhas de merda! A bebida ajuda!
Ele tomou a garrafa de mim, num movimento brusco demais para o meu gosto. Roubei-a de novo, agora já levantando rápido e deixando-a do outro lado do quarto, tirando proveito de seus sentidos confusos.
—Você não é a minha mãe! Para com isso e vá embora! — Der esbravejou, o comando alfa quase aparecendo.
Suspirei, tentando não me deixar abalar com seu comportamento rude. Sabia que era apenas uma ação de defesa para que eu fosse embora e ele pudesse voltar a sofrer sozinho. Era uma velha tática já muito conhecida por mim. Entretanto, suas palavras ainda me machucaram um pouco.
—Eu só quero te ajudar, Derick. Não interessa o que diga, não vou sair daqui até estar melhor. — Voltei ao seu lado no chão, encarando a cama.
Alguns minutos de silencio agonizante depois, lentamente, ele voltou a colocar sua cabeça em meu ombro, buscando refúgio. Segurei sua mão com a minha, aceitando-o de volta.
—Desculpa. — Pediu, voltando ao tom baixo. -Eu só não queria relembrar. Dói demais!
—Me conta por que dói tanto.
Rick não me olhou para responder, mas eu não precisava ver seu rosto para saber que as lagrimas voltaram a escorrer.
—Eu pensei que esse ano seria mais fácil porque você está aqui e eu sempre estou bem com você perto, mas... não parou de doer. Acho que o problema sou eu. Fui eu quem fez a escolha. Sou eu o culpado.
—O que quer dizer? — Perguntei, virando seu rosto lentamente para o meu. Limpei com os polegares a marca de choro em seu rosto. Seus olhos vermelhos fizeram meu coração sangrar.
—Eu nunca contei isso para ninguém, sabia? Mas eu quero muito contar para você. Quero tanto! — Seu olhar meio triste, meio embaralhado pesou em mim. Ele fungou, apertando a mão que acariciava sua bochecha delicadamente. -Não quero ter segredos com você, não consigo, eu te amo. Te amo muito. — Suspirou forte, respirando fundo e soluçando no meio do ato. Segurei sua mão, passando força para que ele continuasse. Ele apertou sua mão na minha, aceitando o conforto. -Meu pai morreu por minha causa. E mamma não sabe porque eu fui covarde o bastante para não contar a verdade para ela. Pappa está tão decepcionado, Leah! Tão decepcionado com o que eu fiz com a alcateia! Olhe só o que aconteceu! Tudo fugiu do controle, meus irmãos morreram e eu não pude sequer enterrá-los, porque eu não tive a competência de achá-los. Eu sou um líder de merda, cara! — Ele riu e eu me afobei toda quando o riso virou um choro sofrido. Não podia fazer nada além de ampará-lo nos braços e tentar passar todo o amor e carinho pelo gesto.
—O que você quer dizer, Rick? Como assim ele morreu por sua causa?
Rick demorou um pouco para responder, fugindo de meus olhos para encarar com tristeza os pés da cama.
—Nós estávamos em uma caçada. Alguns recém-criados estavam dando trabalho nas fronteiras de Lupi Luna e nós sabíamos que os Volturi iriam aparecer. Eu era um idiota e estava nervoso com meu pai porque... — Ele riu, sem humor nenhum na expressão. -Ele estava cobrando as responsabilidades que um alfa deve ter. Eu, Allan, Bruno e Klaus fomos direto para uma emboscada. Em um segundo, estávamos cercados. Pappa e sua alcateia nos salvaram, mas ele... ele não conseguiu sair sem se ferir. — Chorou agarrado a minha cintura. A dor que assisti em seus olhos foi tão forte que me cortou por dentro. Eu a sentia em mim. -Mamma não sabe que a ordem que o matou foi minha. Eu quem quis dar uma de herói! A minha decisão tirou o imprinting dela!
Pisquei, indecisa sobre falar, sobre o que falar, se o que eu falaria ajudaria. Era uma dor profunda demais aquela da culpa, da omissão. Quanto tempo eu não a senti em meu peito? Quanto tempo levou até que parasse de sangrar a ausência? Sobre Dona Stella saber ou não, eu também não tinha tanta certeza. Derick podia ter ordenado que seus subordinados não falassem nada, mas Trizolli deve ter dito alguma coisa. E eu sabia que ela nunca culparia Rick por algo como aquilo. Mesmo com a dor do imprinting cegando para todo o resto, o amor por um filho não seria abalado. Porém, deixaria para conversar com ele sobre aquilo em outra hora. Ele já estava frágil demais.
—Sabe, se te faz sentir um pouco menos sozinho, eu também sinto que meu pai morreu por minha causa. — Seus olhinhos molhados e confusos me encararam. -Lembra quando eu te contei que ele morreu no dia que me transformei? Lembra do ataque cardíaco? Tudo poderia ter sido evitado se eu tivesse controlado mais meus impulsos temperamentais. Eu sei que não é, relativamente, minha culpa, mas, sabe... eu me sinto culpada. Culpada por mamãe ter que se desdobrar para nos manter, culpada por Seth ter tido tão pouco tempo com ele, culpada por todo o redemoinho que nossa vida virou depois que essa droga de lenda surgiu. Então, eu entendo pelo que você tem passado por todos esses anos.
—Leah...
—Mas, se tem uma coisa que eu sei, Rick, é que você tem que deixar esse sentimento de lado e aceitar que seu pai fez uma escolha. Seu pai e o meu nos amavam muito e eu entendo muito bem que eles nem hesitariam antes de darem a vida deles pela nossa. Sabe por quê? — Ele balançou com a cabeça negativamente, as bochechas coradas pela euforia do álcool. -Porque eu também daria a minha vida por eles, pelos meninos, por Seth, por você. Sem pensar duas vezes. Seu pai te amava e eu tenho certeza que ele tem orgulho do alfa e do homem maravilhoso que você é. Você erra e sempre aprende com seus erros, é um alfa maravilhoso e centrado. Além de ter um coração de ouro. Ele não está decepcionado.
Derick se levantou, agitado como nunca, negando e chorando de novo. Levantei-me também.
—Você não entende! Eu...
Segurei em seu pulso e ele, imediatamente, parou de andar de um lado a outro. Entretanto, ainda se mantinha contrariado, não me encarando nos olhos. Passei meus dedos por seu braço até segurar os dois lados de seu maxilar, forçando-o a olhar para mim, somente para mim.
—Eu entendo, sim! Eu sou a única pessoa que consegue te entender todo, Rick. Eu aceito, conheço e amo todos os seus lados. Todos. — Seu olhar amansou, junto com a enxurrada de lagrimas que eu sentia vindo de dentro dele. -Até seus defeitos e suas manias idiotas. Eu te entendo, Derick. Então, se quiser chorar, chora comigo. Se quiser gritar, eu vou gritar junto com você. Se quiser vingança, vou ser sua foice e lutarei ao seu lado. Eu estou aqui! Tenho orgulho do meu imprinting! Tenho orgulho do meu Derick! Seu pai também. Não foi sua culpa!
Seus braços me abraçaram com tanta força e de modo tão rápido que me assustei.
—Eu amo você. Eu amo você. Por favor, não me deixa sozinho.
—Nunca, Der. Eu nunca vou te deixar sozinho.
Rick não me soltou por minutos infinitos, chorando baixinho em meu colo, sem dizer nada. Todavia, estava mais calma. Sabia que seu choro era um diferente daquele de quando cheguei. Era libertação. Ali, encostado em mim e encharcando minha blusa, ele chorou tudo o que não tinha chorado quando seu pai morreu, exportou toda a dor que guardou por tanto, tanto tempo em seu peito, sozinho. Em suas lagrimas, eu senti a certeza de que seu coração agora tinha de que nunca mais estaria sozinho.
—Tenho que avisar a minha mãe, okay? Espera só um pouquinho. — Avisei, me afastando de seu abraço e me levantando do chão. Der me fitou com os olhinhos vermelhos.
—Vai embora? Não vai! Por favor, fica. — Clamou, o tom tão fragilizado que me tocou. Beijei sua têmpora com carinho.
—Eu não vou embora, vou ficar aqui com você. Só vou pegar meu celular ali no armarinho, nem vou sair do quarto. — Expliquei, vendo-o assentir, tímido.
Peguei meu celular e disquei o primeiro número da agenda, esperando pouco tempo até que ela atendesse.
—Mamãe, desculpa. Vou precisar dormir aqui hoje, ele... ele ainda está mal. — Falei antes mesmo que ela tivesse tempo de dizer “alô”, seu silêncio me deixou apreensiva. Não queria passar a impressão de que escolhia Derick a minha família, porque não tinha uma escolha. Eram uma coisa só, não dava para escolher um. Rick só precisava mais de mim no momento. -Como foi o jantar?
—Foi bom. Charlie gostou muito da comida e... Seth está preocupado. Como Derick está?
—Melhor. A situação era mais pesada do que imaginei. Ele está transtornado. Não aguento vê-lo desse jeito, preciso ficar, entende? Não ia conseguir dormir sabendo que ele está sofrendo sozinho. — Tentei argumentar para remediar a possível fúria de Dona Sue. Ela, claro, percebeu rapidinho a minha intenção.
—Está tudo bem, querida. Eu não estou brava com você, só é um pouco estranho ter que te dividir depois de tanto tempo...
—Eu volto pela manhã. — Disse, meio encabulada, sem saber o que responder àquela revelação.
—Até amanhã então, meu bebê.
—Mãe! — Rosnei, ouvindo as risadas dela e logo depois desligando. Suspirei, voltando-me a meu imprinting ainda no chão. Ele encolheu os ombros quando percebeu meu olhar.
—Desculpe por te dar trabalho.
—Não tem nada para se desculpar, idiotinha. — Estendi minha mão para ele, ajudando-o a se levantar. -Vamos ao banheiro, você precisa urgentemente de um banho, está fedendo.
—Eu não estou fedendo, mas tudo bem. — Concordou, sendo guiado por minhas mãos para cômodo iluminado.
Ele me ajudou a tirar sua bermuda jeans e sua camisa com certa dificuldade no caminho, sua cueca deslizou por suas pernas sem a habitual malicia nas expressões de meu imprinting e sem nenhuma hesitação. Fiquei um pouco chocada com sua atitude, mas engoli a seco meu próprio constrangimento para recolher suas roupas do chão, colocando no cesto de roupa suja, e abrir o box, ligando o chuveiro na quentura máxima e esperando ele entrar. Tentei não ficar encarando, mas qual é? O corpo de Derick é maravilhoso demais para não ser apreciado.
Quando já fazia muito tempo que eu apreciava seu peitoral malhado – tentando com todas as forças manter meu olhar na parte superior de seu corpo — olhei-o nos olhos, curiosa por sua demora a entrar na água. Der me olhou como uma criancinha esperando as instruções da mãe. Revirei os olhos, reunindo toda a paciência que me restava para não me irritar com ele.
—Vá para debaixo do chuveiro, Derick. O que está esperando?
—Mas está fria!
—Não está! Está saindo até fumaça, anda logo.
—Não era assim que eu imaginava o nosso primeiro banho juntos. — Ele murmurou, praticamente se arrastando até a área molhada do chuveiro.
—Até que tá sendo bom para mim, sabe? A vista está maravilhosa. — Comentei, apreciando a vista da bunda redondinha e branquela dele. -Toma. Escove os dentes. — Entreguei-o a escova já com a pasta e ele aceitou, usando de movimentos lentos e erráticos para se limpar. Meu deus, onde o amor nos leva!
Enquanto ele se limpava, aproveitei para jogar as garrafas de vidro na lixeira da cozinha e acalmar os meninos, dizendo-os que tudo já estava no controle e que poderiam descansar. Joe foi dormir, cansado do treino e da vigila com Jared. Allan e Nik ficaram assistindo um filme qualquer de ação na Netflix. Não me fiz de rogada ao comer uns três pedaços de torta gelada que estava na geladeira quando meu estomago roncou, reclamando de fome.
Quando voltei ao banheiro, o vapor já tomava conta do cômodo. Derick ainda estava embaixo do jato de água quente, totalmente perdido em pensamentos... ou dormindo em pé.
—Ei, o que minha mãe te disse? Você não me contou. — Testei, aproveitando-me da situação. Der arregalou os olhos, engolindo a seco e saindo do torpor que aparentava estar.
—Ela me disse para não te contar!
—Mas ela não vai saber, eu não vou te dedurar. Você não confia em mim? — Apelei, fingindo um bico triste. Ele abanou as mãos, negando todo atrapalhado, espirrando água para todo lado.
—Eu confio em você com a...minha vida, Principessa!
—Então, me conta.
Ele suspirou, empurrando a cabeça para debaixo da água de novo.
—Ela me ameaçou. Disse que corta meu pau fora se eu pensar em te fazer chorar de novo. Ela falou muito sério. Às vezes, ela me dá medo.
—Fica tranquilo. Eu não vou deixar que minha mãe corte o seu pau. — Tranquilizei-o, fazendo de tudo para não sorrir e desmerecer sua preocupação.
—Nem as minhas bolas?
Comprimi os lábios, segurando a gargalhada por sua expressão temerosa.
—Nem as suas bolas, Derick. Agora, se enxágua e sai logo.
—Ela disse também que é normal casais brigarem, mas que eu não posso deixar que o muro cresça entre nós de novo. E sobre eu ficar no seu quarto a noite. Eu disse que tenho as melhores das intenções, mas acho que ela não acreditou muito. Mas, é a verdade, Principessa. Eu só quero ficar perto de você, não vou pensando em te induzir a nada, é sério. Você acredita em mim, não acredita?
Sorri com doçura por seu leve descontrole. Claro que acreditava. Derick já tinha dado provas e mais provas de que era um legitimo cavalheiro. Sempre me respeitando e pensando em mim em tudo. Um príncipe... Quero dizer, um príncipe com uma pegada de tirar o folego e dedos atrevidos demais para a etiqueta aderir, mas ainda sim um príncipe.
—É claro que acredito em você. Não ligo para o que os outros pensam, minha janela sempre estará aberta para você.
Der fechou o registro e pegou a toalha em minhas mãos, secando-se de modo lento. Com os cabelos escorrendo água, ele se aproximou. Seus movimentos ainda eram atrapalhados e tive que o segurar pela cintura quando ele pendeu para o lado esquerdo de um modo duvidoso demais, mas deixei que seus lábios tocassem os meus quando ele ficou perto o suficiente. Não era um ato sensual, embora a bebida e a falta de roupas da parte dele passassem essa impressão. Era doce, carinhoso. Der precisava desse conforto e eu não iria negá-lo. Chupei seu lábio inferior suavemente para terminar o contato e selei sua bochecha.
—Eu... — Ele sussurrou, o rosto ainda perto, seu nariz roçando no meu. Não me distanciando, peguei a toalha de rosto no aparador ao meu lado e fiquei na ponta dos pés para poder secar seus cabelos. Rick se aconchegou a minha mão, parecendo um gatinho a procura de carinho.
—Você o que? — Inquiri, curiosa. Um sorriso leve surgiu em sua boca.
—Eu amo você muito.
Sorri para ele e, ainda na ponta dos pés, beijei sua testa de modo protetor. Ele já era naturalmente carinhoso, bêbado então esse carinho parecia triplicar. Já era a oitava vez que dizia que me amava contando apenas desde quando entramos no banheiro.
—Vamos, Alfa. Vamos te colocar roupas quentes e dormir. — Selei a ponta de seu nariz grandinho e o empurrei para sair pela porta. Apoiei as mãos em suas costas, auxiliando-o a se equilibrar.
—Vai dormir comigo?
—Claro que vou.
Enfiei-o em uma bermuda de tecido leve e uma camisa larga. Rick me emprestou uma blusa e eu a usei como pijama porque calça jeans não era a melhor opção para se passar a noite. Obriguei-o a trocar aqueles lençóis com cheiro estranho e ele fez tudo caladinho, o suor já dando indícios de que o efeito do álcool já estava passando.
Deitamos um do lado do outro, de bruços e espalhados. Sua mão veio pesada até meu pescoço, fazendo carinho de um jeito estabanado demais. Segurei seus dedos entre os meus e o puxei para mais perto, fechando os olhos.
—Eu te amo.
Não consegui segurar a risada e abri os olhos, desacreditada.
—Alexander, eu já entendi. Vá dormir, por favor! — Estrangulei entre sorrisos frouxos. Ele fez um biquinho adorável, piscando os olhos, confuso.
—Não me rejeita assim. Eu amo você de verdade, Principessa. — Reforçou, parecendo um pouco incomodado pelas risadas, mas eu não conseguia segurá-las. Ele estava muito fofo todo molenga e manhoso daquele jeito.
Beijei sua boca em um selinho carinhoso, entrelaçando nossas pernas e me aconchegando mais ao travesseiro com um cheiro questionável de álcool, Derick devia ter derramado na cama toda, meu deus.
—Não estou te rejeitando, Der. Vem aqui, vem. Vamos dormir. Já é madrugada e temos obrigações amanhã.
Ele se encaixou a minha posição tão rápido quanto a sua atual condição permitia. Não sei dizer se o cheiro que ele deu em meu pescoço teve a intenção de me desorientar do jeito que desorientou, só sei que me arrepiei toda da cabeça aos pés com seu carinho.
—Não quero dormir! Quero conversar! Você tá tão cheirosa.
Rolei os olhos por sua fala resmungona, mas assenti.
—Bom, isso se chama banho. O cheiro melhora cem por cento quando temos a higiene pessoal em dia.
Ele franziu as sobrancelhas.
—Não estou falando de água e sabão, estou falando do seu cheiro normal. Está tão forte desde antes de ontem, me deixa zonzo.
—Não gosta do meu cheiro, é?
—Eu amo o seu cheiro, o meu lobo também, esse é o problema. Ele ama você toda. Ele quase lambe o chão que você pisa, na verdade. É instintivo.
Gargalhei com vontade por sua afirmação sobre seu lobo. Minha loba também era caidinha por aqueles olhinhos azuis, mas ele não precisava saber.
—Para de rir de mim, me dá um beijo, amore. — Pediu, se aproximando para colocar a cabeça pertinho da minha, no mesmo travesseiro. Sorri para toda aquela manha, enroscando meus dedos nos fios perto de sua nuca, puxando-o para beijar sua boca. Rick suspirou, todo derretido, acompanhando meus movimentos lentos, se deixando levar pelo meu ritmo. Sua mão desceu carinhosa até minha coxa, levantando-a até seu quadril para que nos encaixássemos melhor. Ele resmungou um tantinho quando me afastei, seguindo meu movimento e encontrando nossos lábios de novo. Ri quando não o deixei aprofundar o contato, desviando de suas investidas.
—Principessa! — Reclamou, fazendo aquele seu biquinho infantil. Não resisti, roubando-o um selinho rápido.
—Você não está merecendo beijo, ouviu? Quase usou seu tom alfa comigo. Você tem mania de magoar para afastar, eu não gosto disso.
—Eu sei. Desculpa. — Murmurou, acarinhando a perna que estava em cima dele. Não com intuito de adoçar seu pedido, só querendo fazer carinho mesmo.
—Aliás, quero te pedir uma coisa séria. — Consegui a brecha que precisava, ficando um pouco tímida por saber que era algo que importava para mim e que deveria ser compartilhado. Ainda era novo esse negócio de conversa, exportar o que sinto.
—O que mia principessa quiser. — Ele jurou, compenetrado.
—Não me manda mais embora, tá? Se quiser que eu saia, diga que precisa de um tempo sozinho, ou qualquer outra expressão, eu vou entender. Só não diga mais isso. Pode parecer meio bobo, mas eu não gosto de como soa, me machuca.
—Desculpa. Desculpa mesmo, não estava pensando direito. Não vou fazer mais. — Rick se encolheu em meu peito, seu braço circulava toda a minha cintura, como se estivesse abraçando um ursinho.
—Está tudo bem, agora.
—Tudo bem.
—Então, agora feche seus olhos e durma um pouco. Vou estar aqui quando acordar amanhã. — Instrui, voltando a fechar os olhos. Senti o movimento de concordância dele e depois o silencio reinou.
Bom, quase reinou, porque logo ele voltou a falar:
—Principesssa?
Contei até dez para poder abrir os olhos de novo, encontrando-o me olhando com uma expressão pedinte que me fez desconfiar.
—Fala.
—Posso ser a concha de dentro hoje?
Amor estourou por todos os lados em meu corpo, quase alcançando a estratosfera. Não tinha impaciência que resistisse a todo o afeto que me inundou com aquela simples frase. Cuidaria muito bem do meu imprinting, mesmo ele sendo um tanto irritante.
—Claro que pode, Der. Vem aqui.
Ele se aconchegou de bom grado. As costas viradas para mim enquanto o abraçava com o corpo todo. Os braços em sua cintura e minhas pernas entrelaçadas as suas.
Derick adormeceu rápido. Todo quente, confortável e protegido em meu enlace.
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