Leah - I See You

46 Capitulo 46 - Sinceridade é a chave


Notas iniciais
Eai, gente! Espero que estejam se cuidando e mantendo-se em quarentena. Essa é uma fase muito difícil e deve ser tratada com a devida gravidade, então fiquem em casa e cuidado na higienização. Obrigada a todos aqueles que favoritaram, recomendaram e acompanham essa fic! Obrigada também a Sah Marques, Mrs Chappy, Mrs Claflin, Terumy MW Lahote, Polaine e forever alone! O apoio de vocês é muito importante para mim, fico muito grata mesmo! Espero que gostem! Boa Leitura! O próximo virá ainda essa semana, até mais! *----* Aproveitem para dar uma passadinha na minha spin-off :L'amore è il mio cavallo di battaglia. Ela foi feita para o desafio de drables e é sobre o imprinting dos pais do nosso lobinho Derick Abbado. https://fanfiction.com.br/historia/782646/Lamore_e_il_mio_cavallo_di_battaglia/

Dormimos juntos, embolados naquela bagunça boa de pernas, braços e aconchego. O cheiro dele me embalando e seu pé acarinhando os meus de vez em quando. Foi um sono bom, calmo, o sonho chegou de mansinho, repleto de risadas e esperança. Meu coração bateu no ritmo certo, finalmente, depois de tantos dias em disritmia.

Acordei com Der se levantando, o movimento em si foi leve, cuidadoso para não perturbar, mas meu corpo sentiu falta do calor conhecido imediatamente depois que ele se afastou. O sol ainda não tinha dado as caras, entretanto o relógio na escrivaninha me dizia que já era manhã. Observei enquanto ele recolocava sua camisa e escovava os dentes no banheiro com a escova reserva. Seus lábios sorriam com carinho para mim quando se inclinou na cama e beijou minha testa devagarinho.

—Até mais tarde, Principessa. A gente conversa quando eu voltar.

—Fica mais um pouco. Tá tão cedo ainda. — Segurei sua blusa, impedindo-o de ir.

Ele grunhiu, estalando um beijo agressivo em minha bochecha e murmurando um “amor da minha vida” engraçado.

—Eu quero tanto ficar com você hoje, e é por isso que estou indo agora. Pego o turno da manhã e volto de tardinha para grudar em você o resto do dia. Quer almoçar comigo?

—Claro que quero.

—Então, me espera lá em casa. Eu compro aquele suco de manga que você gosta e faço macarrão para a gente, o que acha?

Sorri, gostando muito do tom de voz sussurrado dele. Aquecia meu coração e o enchia de sentimento bons.

—Eu ficaria muito feliz. — Afrouxei o aperto de minhas mãos, soltando-o. Ele me roubou um selinho demorado, gostoso, com sabor de quero mais.

—É exatamente isso o que eu quero. Até mais tarde, volto logo.

Piscou para mim, fechou a porta e desceu as escadas. Suspirei quando ouvi a porta da frente bater suavemente, já sentindo a sua falta. Não consegui pegar no sono mais, perdida em pensamentos. Com a mente relaxada, o coração calmo e Derick voltando a ser meu Rick de novo, tinha medo das coisas se complicarem novamente.

Depois de algum tempo, já conseguia ouvir mamãe preparando o café. Desci para ajudá-la quando percebi a angustia tomando proporções maiores. Ela sorriu surpresa ao me ver desperta tão cedo.

—Se acertaram, não foi? — Dona Sue adivinhou, sentando-se na mesa e me oferecendo uma xícara de café quentinho.

—Como sabe? — Levei a xícara aos lábios, tentando disfarçar o sorriso persistente.

—Intuição de mãe. — Deu de ombros. -E o fato de ele ter saído de mansinho pela porta agora cedo.

Segurei a risada atrapalhada que queria sair por seu olhar afiado e malicioso na minha direção.

—Mãe, por favor! Ele não saiu escondido! Rick só foi trabalhar. — Defendi-o, embora estivesse inclinada a fazer sua caveira a ela.

—Não é de bom tom que ele entre e saia do seu quarto quando bem entende, Leah Clearwater. Você é uma moça respeitável!

Se ela soubesse quantas e quantas noites meu imprinting dormiu comigo em meu quarto enquanto Dona Sue contava carneirinhos no corredor ao lado. Talvez Derick devesse voltar a usar da discrição.

—Ele não sai e entra no meu quarto sempre que quer.

—Ah não?

—Só quando eu permito. — Encolhi os ombros diante de sua pose séria. Ela arqueou uma sobrancelha.

—E alguma vez você já não o permitiu entrar?

—Claro que não. Mamãe, isso não tem nada a ver! — Atropelei sua fala antes mesmo de ela abrir a boca. -Derick é meu imprinting. Por favor, preciso ficar perto dele e ele de mim. A senhora o conhece, sabe que tem as melhores das intenções. Nós não fazemos nada de errado lá em cima.

Quis gritar “Pelo amor de deus, somos adultos, mãe!”, porém voltei atrás quase no mesmo momento. Era melhor continuar na linha defensora.

—Mas...

—E se Derick deixou que a senhora o ouvisse sair, quer dizer que ele deliberadamente quis mostrar que estava aqui e que não estava fazendo nada escondido, respeitando a senhora e nossa casa. Porque sim, ele poderia ter saído sem que a senhora nem imaginasse.

—Eu sei, eu sei. Você está certa. É só que você sempre será o meu bebê, é difícil aceitar o seu amadurecimento. — Ela bufou audivelmente e assentiu, concordando de má vontade. -Mas, não pense que ele escapou dessa conversa. Ainda quero ouvir explicações sobre fazer minha filha chorar.

Rolei os olhos, apesar de estar sorrindo por sua fala.

—Nós ainda não conversamos direito sobre tudo. Só algumas coisas. Ele me convidou para almoçar hoje na casa deles e colocarmos os pratos na mesa.

—Fico muito feliz por vocês. É assim que um casal deve resolver as suas desavenças, com responsabilidade, paciência e compreensão. Vocês vão aprender com o tempo.

—Eu não sou muito boa nas partes da compreensão e paciência. — Confessei, um pouco incomodada. Na verdade, na parte da responsabilidade também não, mas ela não precisava saber.

—Eu sei disso, te conheço, minha filha. — Disse, me sorrindo doce. -Só abra o seu coração e tudo se acertará no tempo certo. Agora, eu tenho que ir. Já está dando o meu horário no hospital. Até mais, querida.

Assenti, relaxando sob seu toque materno e suspirando com o baque da porta denunciando sua partida.

Abrir meu coração. Será que ainda valia a pena? Será que valia o risco?

Sorri com meu próprio pensamento. Derick valia mais que tudo.

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As horas passaram voando e quando vi já estava quase na hora de me encontrar com Der. Tomei um banho demorado, tranquilizante, só para estar mais apresentável. Desenterrei um vestido bonito e pouco gasto do fundo do guarda-roupa e me senti bem o bastante na frente do espelho para decidir usá-lo naquela ocasião.

Nik já havia me dito por mensagem que ele e os meninos sairiam a tarde toda para nos dar a privacidade necessária no momento. Era obvio que quem mandara tinha sido Derick, mas fingi acreditar no falso ato abnegado deles. Seth almoçaria na casa dos Cullens junto a Nessie e Jake, então não me preocupei em deixar alguma comida pronta em casa.

Minha casa não era tão longe da sua, assim não precisei andar tanto até chegar. Esperei pela chegada dele sentada no meio fio em frente à casa, apesar de saber que a chave reserva ficava embaixo do vasinho de hortênsias do lado da caixa de correio. Não me senti tão à vontade para entrar sem nenhum deles por perto.

Reconheci de longe o contorno de meu imprinting vindo em minha direção, abarrotado de sacolas. O sorriso aberto para mim.

—Hm, vestido novo? — Ele perguntou risonho quando me encontrou na frente de sua porta. -Por que não entrou? Você sabe onde fica a chave.

—Achei melhor esperar por você para entrar. — Dei de ombros, erguendo-me e beijando sua bochecha. -O vestido é bem antiguinho, na verdade, mas só coloquei umas duas vezes, gostou?

—Claro que gostei. — Respondeu, piscando um olho para mim enquanto abria a porta e colocava as compras em cima da mesa. Deixou para mim a obrigação de fechar a porta de novo. -Só fiquei um pouco surpreso. Só te vi de vestido uma vez, no casamento do Sam, achei que não gostasse muito.

—E não gosto.

Minha resposta o fez parar de desempacotar as compras por um minuto, me olhando curioso.

—Então, por que está usando?

Minhas bochechas esquentaram um pouco, como uma maldita adolescente. Encarei o armário suspenso atrás dele, fugindo de seu olhar.

—Queria ficar bonita para você. — Sussurrei, encabulada. Eu sabia que era uma coisa boba, mas quando ele me elogiava com aquele sorriso de canto e o brilho nos olhos, eu me sentia tão bem, elevava tanto a minha autoestima. Era gostoso de sentir.

—Você não tem que usar algo que não gosta só para me agradar. — Voltou a organizar os alimentos na bancadinha sem tirar seus olhos de mim. -Eu te acho linda independente do que use. Sabe por quê?

Fitei com carinho a caixinha de suco de manga em suas mãos junto da barra de chocolate amargo da marca que ele sabia que eu gostava, antes de o olhar.

—Por quê?

—Porque você é estonteante, Principessa. — Sorri, um pouco tímida, mas muito feliz. Ele retribuiu com um sorriso maior ainda. -Fico mais caidinho por você a cada vez que você sorri assim para mim.

—Para de ser bobo. — Ri, ajudando-o a guardar as sacolas no saquinho apropriado.

—Eu sou mesmo muito bobo por você, então me dizer isso enquanto eu estou rodeado do seu cheiro não é um pedido possível no momento, Amore. Sinto muito.

—Eu tô com fome, anda logo com isso. — Impliquei, escapando do constrangimento. Ele riu com gosto, já arrumando as panelas para começar a preparar nosso almoço. -Faça em uma quantidade boa para que os meninos comam depois.

Ele rolou os olhos, apesar de ter colocado mais macarrão para cozinhar. Ficamos em um silêncio confortável por longos minutos enquanto o molho e o macarrão chegavam no ponto correto. Der tomou um banho para tirar o suor do corpo e quando voltou a macarronada já estava pronta.

Ele fez questão de colocar a mesa como se estivéssemos em um restaurante requintado e eu ri quando o vi colocar o suco em taças de vinho. Até puxou minha cadeira para que eu sentasse ao seu lado, os braços se tocando de tão perto que estávamos. Ele nos serviu com porções generosas e meu estomago roncou com o cheiro delicioso da comida de Rick. Eu amava quando ele cozinhava para mim porque sentia em meu coração que ele fazia com amor, que cozinhava enquanto pensava em mim.

—Então, como começamos isso? — Ele perguntou quando eu já levava a quarta garfada à boca. Ri de seus olhinhos confusos e limpei o canto de seus lábios sujos de molho com o polegar. -É meio complicado.

Pigarreei, tomando um gole do suco para apaziguar a sensação de sede.

—Quer conversar sobre você estar estranho desde antes da sua mãe ter voltado a Lupi Luna?

—Pode ser... — Der concordou, mastigando calmamente. Esperei seu tempo um pouco ansiosa. -Na verdade, eu não sei, tava tudo tão confuso. Eu não conseguia administrar bem o que eu sentia, eu... só queria um minuto de paz.

—Como assim?

—Eu não sei. Tudo eu acho. Nada também. É difícil, argh. — Ele suspirou, começando a balançar sua perna. -Acho que não foi uma péssima ideia isso de falar.

Entrelacei seus dedos nos meus, tentando passar confiança.

—Você mesmo disse que a gente tem que parar com isso de esconder. Você quer que a gente fique bem, não quer?

—Quero mais que tudo.

—Então, me fala. Eu vou logo depois de você. — Ele meneou a cabeça ainda receoso. -Ajuda se você focar que sou eu aqui? Eu, Leah, seu imprinting.

Percebi sua respiração ficar mais rápida e ele me encarar com frustração.

—Desculpa, eu... eu nunca sentei para falar com ninguém assim, eu... fujo. Não sei se você reparou, mas eu fujo. Eu fujo toda vez que me sinto ameaçado. Eu faço besteira, digo coisas que machucam e fujo igual um covarde. Eu... o que eu pensei naqueles dias não foi das coisas mais legais.

—Você não precisa mais fugir, nem fingir. Só põe para fora.

O aperto em minha mão se intensificou enquanto ele largava o talher em seu prato em um barulho pouco discreto.

—O que aconteceu foi que todo mundo estava bem! Todo mundo estava feliz e contente enquanto eu estava um redemoinho! No sábado foi aniversário do Brunno e, aparentemente, ninguém se lembrou. Faz dez meses que meus irmãos morreram e eu ainda não tive a capacidade de encontrar os corpos para que eles tivessem um enterro digno. Amanhã é aniversário de morte do meu pai e eu não consigo esquecer do tom de voz dele me dizendo que estava tudo bem quando não estava! Todo mundo já esqueceu rápido demais e eu não consigo acompanhar esse ritmo! Você parecia cada vez mais distante e a presença do Sam me deixou mais inseguro do que o normal! Eu te disse aquelas coisas porque eu precisava ferir alguém, precisava que alguém sofresse comigo, sentisse o que eu estava sentindo, para que eu não me sentisse sozinho no meio do meu caos! Eu só disse aquelas merdas porque eu queria te atingir e eu me sinto um monstro agora porque eu consegui, eu te magoei! E depois, apesar de estar sim magoado com algumas coisas, eu não conseguia me aproximar porque estava envergonhado. Envergonhado pelo meu egoísmo e por eu ser o pior axis que já existiu. Desculpa.

—Rick... — Murmurei, indecisa se o abraçava ou não. Ele parecia triste e com vergonha, queria dizer que estava ao seu lado e apertá-lo até que ele tirasse aquelas ideias da cabeça, mas tinha medo de ele interpretar mal meus gestos. -Você não é o pior, claro que não. E ninguém se esqueceu, você não estava sozinho.

Ele balançou a cabeça, transtornado.

—Era como eu me sentia. É meio idiota, eu sei.

-Não é idiota. Para com isso. — Neguei veemente. -Sabe, foi um ato de egoísmo, sim, e me machucou muito, mas... Não acredito que tenha sido só movido pelo ego. Vai parecer meio estranho, mas eu penso que compartilhar nossos monstros é só para quem a gente confia de verdade. A gente só se comporta mal perto de quem a gente acha que, apesar da nossa babaquice, vai continuar do nosso lado. Perder a linha pode ser uma forma agressiva de dizer que você ama e confia tanto naquela pessoa que acha profundamente que ela consegue te entender apesar dos pesares. Entende o que eu quero dizer? Não estou passando a mão na sua cabeça, nem te falando que pode bancar o idiota para cima de mim porque você precisa mesmo aprender a controlar os seus nervos, mas eu também faço isso com frequência então, nós vamos aprender juntos.

Der arregalou os olhos, um pouco surpreso com meu discurso, mas tinha um sorriso leve nos lábios. A nuvem de frustração indo embora para dar lugar a de compreensão. Acho que a maior parte de seu receio ao falar era de que eu o julgasse mal, ficando chateada de novo e dando fim ao clima ameno que tinha recaído sobre nós. Ele não precisava se preocupar com isso.

—Seu pai te ensinou isso?

—Você me conhece tão bem. Não tem nem graça bancar a filosofa com você. — Ri, conseguindo arrancar uma risadinha divertida dele. Não me espantei por ele ter descoberto assim tão depressa, senti-me até bem por ele ter entendido a mensagem.

—Obrigado por compartilhar comigo.

Encaixei minha cabeça em seu ombro, em um abraço frouxo e torto.

—Sobre a insegurança com Sam... Eu...

Ele esfregou sua bochecha no topo de minha cabeça, enlaçando minha cintura como pode pela nossa posição.

—Metade do problema foi mais paranoia minha do que insegurança mesmo, eu acho. Sei lá. É que machuca, às vezes, quando eu não consigo interpretar suas ações como reciprocidade. Machuca também quando eu te olho nos olhos e consigo sentir a pontinha de desconfiança em mim, na gente, o seu jeito acuado de se doar sempre noventa por cento todas as vezes. Em alguns momentos, eu ficava esperando um gesto seu que me provasse que eu estava errado, que o imprinting não te obrigou a me aturar, que estávamos no mesmo patamar, e eu me frustrava o tempo todo porque você não demonstra do mesmo jeito que eu e era exatamente isso o que eu ficava esperando. — Ele deu um sorrisinho sem graça que despedaçou meu coração. Não era por eu não demonstrar tanto assim que eu não sentia. Era mesmo muito difícil para eu externar o que acontecia dentro de mim. Saber que isso afetava a sua segurança em mim me deixou triste.

—Eu... — Comecei sem saber ao certo como me explicar, todavia não me foi dada essa chance, pois ele logo voltou a falar.

—Aí, depois, quando ficamos afastados, eu só conseguia pensar em você e na nossa relação e percebi que eu estava sendo um puto de um egoísta de novo, porque reciprocidade não tem nada a ver com igualdade de gestos e ações de amor, tem a ver com entender o sentimento por trás dos gestos diferentes de cada um. É ver e compreender gestos velados do jeito que a outra pessoa pode e sabe, é não julgar e aceitar a forma singular que a outra pessoa ama. E eu vi que não precisava esperar, porque você já demonstra tanto e tudo estava, literalmente, na minha cara o tempo todo!

Me emocionei com o seu jeito de entender as coisas. E me senti um tanto constrangida, porque eu também ficava esperando uma reciprocidade igual a minha quando nós dois não éramos nada parecidos nesse quesito.

—E a outra metade?

—A outra metade é pelo medo do que o Sam significa para você, do que ele se aproximar agora representa. A outra metade fica me dizendo que se Sam não tivesse sentido a magia pela Emily, vocês estariam juntos e eu... eu...

—Derick, não. Eu nunca... eu... — Me perdi entre as palavras, sem saber como tirar aquela ideia da sua cabeça. Nunca pensaria que ele imaginava uma coisa daquelas. -A nossa magia, ela... não foi ao acaso, éramos predestinados, lembra? Íamos acabar juntos mesmo se não houvesse imprinting envolvido. Rick...

Ele suspirou, voltando a pegar seu garfo e levando uma boa quantidade de comida à boca.

—Você me fala isso, você concorda com isso quando eu digo, mas você mesma mantem duvidas ai dentro. Você duvida da veracidade dos meus sentimentos, duvida dos porquês da nossa história, e a sua dúvida me faz duvidar também. Antes, quando começamos e eu enxergava o seu pé atrás, eu me dizia todos os dias que a minha certeza valeria por todas as nossas duvidas conjuntas, mas o tempo foi passando e eu percebi que assim não dá. Nós dois temos que estar juntos nessa, nas certezas e nas dúvidas.

Um silêncio incomodo se espalhou pela cozinha. Nosso abraço afrouxou e uma distância pequena foi imposta, não sei dizer por quem. Talvez tenha sido a minha personalidade fechada, ou até o viés fujão de Rick. Porém, aquela frestinha de nada entre nossos corpos me fez pensar no quanto o meu não dizer aumentava as barreiras entre o meu coração e o coração de Der.

Quanto tempo mais o meu passado iria interferir nas minhas felicidades novas? Quanto tempo mais eu perderia? Quanto tempo mais eu deixaria essa insegurança, esse medo guiar minhas ações, minhas opiniões, o meu amor? Quantos momentos mais eu deixaria de viver? Quantos momentos mais com ele eu deixaria de viver?

Abra seu coração.

Derick terminou de comer enquanto eu não havia pego meu talher de novo, perdida demais entre as revelações. Ele estava certo, claro que estava certo. Mas, era tão difícil falar, me expor assim. Sentia-me frágil e quebradiça, não gostava do sentimento.

—Eu não estou te pressionando, está tudo bem se não quiser falar agora, mas...

—Eu fico insegura o tempo todo! — Falei de uma vez, interrompendo sua frase no meio, recostando-me a cadeira. Se não falasse agora perderia a coragem. -Achando que algum dia, algum dia, você vai encontrar alguém melhor, que vai me largar por conta dos meus problemas e que vai ter uma família bonita daquele tipo que você sempre quis ter e que eu nunca vou poder te dar.

Ele me segurou pelo queixo, o polegar acarinhando minha bochecha enquanto me olhava nos olhos. Havia tanto sentimento ali que sentia as lagrimas já querendo embaçar a minha visão.

—O que quer dizer?

Enchi o peito com um ânimo relativamente novo, querendo arrancar todo aquele entulho do coração. Deixar o espaço livre para todo o mutirão de sentimentos novos se assentarem.

—Eu vou te contar a história toda. O meu lado da história. E eu vou te contar porque eu sei que não vai me julgar, que não vai embora, e que vai me aceitar do jeito que eu sou. Porque eu acredito em você, então, por favor, não me decepciona.

Ele se aproximou lentamente e beijou meus lábios com a suavidade de uma pluma. O azul de seus olhos brilhava tanto. Seu afeto me instigava a me abrir, a derrubar as barreiras de uma vez.

—Nunca, Principessa.

Respirei fundo, estalando os ossos do pescoço para tentar apaziguar aquela sensação esquisita.

—Quando eu era mais nova, ainda no colégio, namorava o Sam. A gente ficou junto por muito tempo, uns três anos, e eu era tão deslumbrada por ele, tão apaixonada, que não reparava nos defeitos, tanto dele quanto da nossa relação. Era só uma criança pensando em casar com o primeiro amor, envolvida na magia do romance colegial. — Ri, sem humor e percebi Rick ficar um pouco tenso. -Por estar tão impressionada, eu não entendi os sinais. — Franzi as sobrancelhas, confusa com as lembranças que pipocaram minha mente, como se estivesse revivendo todos aqueles momentos. -Não, mentira, eu entendi sim, eu só não queria aceitar. Quando Emily vinha me visitar, e ela vinha com muita frequência, sempre ficava um clima estranho. Ela e Sam conversavam muito e não me excluíam das conversas, mas era diferente, sabe? Tinha um clima, uma atração, é óbvio agora e era óbvio naquela época também. Não foi uma surpresa quando as brigas começaram. Nós nos desentendemos por tantas coisas, pequenas e grandes, não importava, tudo era motivo de briga. Ele já... já estava cansado da gente bem antes da magia acontecer. E eu ainda tinha esperanças de que tudo se resolveria, que talvez a gente estivesse passando por uma crise. Ai, num dia, Sam sumiu. Eu fiquei desesperada, me culpando pelas discussões e preocupada com ele. A polícia se envolveu, a guarda florestal fez buscas na reserva e na floresta toda, eu até fui interrogada, mas ninguém conseguiu encontrá-lo. Depois de duas semanas, ele voltou como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse desaparecido por tantos dias. Ele não me explicou nada, não queria conversar sobre e eu dei o espaço dele. Agora, eu entendo que foi uma época turbulenta por conta da transformação, mas ele poderia ter sido mais compreensivo. Não precisava ter me tratado daquele jeito, eu era a porcaria da namorada dele, uma explicação decente era o que seria digno receber! — Rolei os olhos comigo mesma. -Eu pensei que ele só precisava de um momento para pensar, mas aí a Emily apareceu de novo. Ela era a coisa mais próxima de uma irmã que eu tinha, era minha melhor amiga, fomos criadas juntas. — De mansinho, Derick pegou minha mão de novo, apertando meus dedos. Só aí percebi que estava tremendo. -Ela veio me ver porque eu estava mal com a situação do meu relacionamento e tudo desmoronou quando Sam olhou nos olhos dela depois da transformação. Ele terminou comigo naquela noite. Não foi grosso ou rude, foi seco, sem sentimentos. Doeu tanto, mais do que teria doído se ele tivesse sido um otário! O vazio nos olhos dele enquanto o meu coração se partia, ele dizendo que não sentia mais nada por mim, que eu sempre seria uma irmã para ele e que o que nós tínhamos acabava ali. Foi horrível! Na outra semana, Emily me contou que ele estava a perseguindo, romanticamente falando, sabe? Eu fiquei furiosa e um pouco envergonhada, humilhada. No fundo eu sabia e já esperava que algo como aquilo aconteceria, mas saber e ver acontecer diante dos meus olhos eram coisas diferentes. Emily me apoiou, você acredita? Deus, ela dizia que o odiava! Ainda não consigo entender isso!

—Você também parecia não ir muito com a minha cara no começo. — Der, deu de ombros. O sopro de um sorriso no canto dos lábios.

—Eu te achei foi um gostoso do caramba na primeira vez que te vi, na verdade. A atração foi absurda. Sério, aversão foi o que menos passou perto de mim quando nos conhecemos. — Pisquei um olho, feliz que o clima tenha ido para um lado não tão pesado naquele momento. -Eu sempre fui com a sua cara, meu bem, só não podia te deixar saber disso.

Foi adorável ver suas bochechas ganharem aquela coloração rosa claro pelo constrangimento. Sabia que a causa da vergonha era o “meu bem” doce que saiu sem nem perceber por meus lábios.

—Continue. — Ele pediu, tentando esconder seu acanho com uma expressão concentrada.

—Continuando: ela continuou com o teatrinho do ódio por um tempo, mas eu sempre ouvia as fofoquinhas sobre os dois juntos pelas minhas costas. Na escola foi um inferno, sempre alguém cochichava sobre. Foi o tema do ano. Tava na cara que eles estavam tendo alguma coisa, até que uma vez ela foi atacada por um urso. Minha mãe foi a enfermeira que cuidou de seus ferimentos. Não era um urso, era o Sam, mas naquela época eu não sabia de nada ainda. Eu fiquei muito preocupada com ela, apesar de doer aquela ponta de desconfiança entre os dois. Mas aí, no final do acidente, quando tudo voltou ao normal, eles ficaram juntos. Assumiram mesmo, com aliança e tudo. Namoro oficial, ele conhecendo os pais dela, a tribo encantada pelo novo casalzinho. Eu via nos olhos deles quão feliz eles estavam enquanto eu... eu estava destruída, cheia de sentimentos ruins, de rancor, de raiva. Me sentia traída. Ela era minha irmã e ele era o meu namorado e eles me trocaram, como se eu fosse descartável.

Principessa, você não é...

—Shii, Rick, me deixe terminar.

Ele encolheu os ombros.

—Desculpa.

—Enfim, foi um momento terrível e eu me sentia estranha, não era mais aquela garotinha ingênua e a realidade dura fez algumas mudanças no meu comportamento, mudanças que eram sintomas da minha transformação se manifestando, mas meu pai tinha certeza que o gene só era manifestado no sexo masculino. Todo mundo, todos do conselho e da tribo, só acharam que eu estava histérica, pensavam até em me levar ao psiquiatra e tudo mais. Nunca uma mulher conseguiria se transformar, era coisa dos homens guerreiros da nossa tribo. Então, foi uma surpresa e tanto quando eu me transformei no meio da sala de jantar. Papai ficou em choque, mamãe também, mas ele... ele sofreu um infarto por conta do susto. Coração fraco, essas coisas.

—Leah, não... — Ele me puxou, voltando a pôr seus braços em volta de mim. -Eu sinto muito.

Afastei as lagrimas com um sorriso frouxo. Não doía tanto assim agora aquela parte. Já tinha me acostumado a conviver com a sensação de melancolia.

—Papai morreu naquele dia e Seth se transformou antes da hora por conta da confusão. Sam era o responsável pela nossa iniciação e eu tive que ver, todos os dias, a todo momento, a felicidade dele estampada na minha cara. Tive que aceitar toda aquela alegria, toda a pose de arrependido dele, a minha fama de megera que só complica a vida alheia. O imprinting perfeito. A família perfeita. E a invejosa enciumada deixada de lado. Trocada pela senhorita meiguice porque o imprinting era a forma da magia conceber guerreiros mais fortes para a matilha. O seu par genético perfeito. — Ri, por mais que tivesse vontade de chorar, meu nariz ardeu um pouco. -É por isso que as vezes eu duvido. O nosso imprinting foi a melhor coisa que já me aconteceu, você foi a melhor coisa na minha vida em anos, mas não tem motivação. Meu ciclo parou, eu não menstruo, eu não ovulo mais. Eu sou um beco sem saída genético! E eu não... não entendo. Fico insegura o tempo todo, esperando, aguardando o momento que você me diz que estava brincando e que vai embora. Eu me agarro a cada olhar, cada sentimento, porque a felicidade pode escapar por meus dedos de repente, como quando aconteceu no passado.

Ele se tornou imóvel como uma rocha ao meu lado. A respiração saindo em ruídos baixos e instáveis.

—Foi por isso que você me disse aquele dia que eu estava com fim de uma linhagem, por isso você tem tanto medo de eu encontrar alguma outra família. — Seu toque se tornou mais firme, mas não para intimidar ou machucar, só em um reflexo para me manter perto quando eu me retesei um pouco. -Leah, isso está errado. Não é assim! Isso não faz o menor sentido!

Enxuguei uma lagrima fujona sem levantar o olhar ao dele.

—Foi isso o que eles me disseram. O que me obrigaram a aceitar.

—Quando me disseram que pensaram que você não podia ter um imprinting achei que era por você ser uma novidade na tribo, nunca por uma barbaridade dessas. A história do imprinting, a magia de vocês, os fundamentos são todos errados!

—O que quer dizer?

—Quer dizer então que a magia escolhe os pares genéticos mais compatíveis para ofertar à tribo guerreiros lobos mais fortes, certo? — Assenti, não entendendo onde ele queria chegar. -Então, me explique, Principessa, por que a magia ligou Jacob à hibrida? Pelos meus conhecimentos de biologia sobrenatural, ela não pode conceber já que seu organismo de meia vampira não permite. Onde estarão os descendentes fortes dos Black nesse caso? — Abri a boca e a fechei, embasbacada demais para dizer algo relevante. Ele sorriu, triunfante. -Outro exemplo seria o porquê de a magia não ter te ligado a qualquer um dos seus irmãos lupinos. Você tem a linhagem de três lobos nas veias, de acordo com o livro dos anciões, então qualquer lobo da matilha seria cabível para a formação de um lobo forte, certo? Então, por que Sam não teve um imprinting por você? Ou Jake? Ou até Embry?

Engoli o bolo na garganta, sentindo uma vontade avassaladora de chorar. Um misto de sentimentos me preenchendo.

—Porque somos um do outro. Não tem como intervir. Não é sobre linhagem. — Minha voz saiu fraca, quase desacreditada.

—Isso, Amore. — Ele sussurrou, os dedos acarinhando minha bochecha enquanto levantava meu rosto para que eu o olhasse nos olhos. -O imprinting tem a ver com amor, na mais pura definição da palavra, tem a ver com ligação. Duas pessoas são destinadas a ficar juntas. A licantropia apenas dá uma ajudinha para termos a certeza na cabeça do que o coração aponta.

Suspirei, tombando a bochecha em sua mão, buscando por mais de seu carinho. Estava sensível e carente... feliz. Continue me tocando, por favor, me dê uma prova de que não estou sonhando.

—Mas e quanto ao meu...

—Temos lendas e explicações sobre o seu ciclo. Creio que você não seja estéril, já que de acordo com as nossas histórias descende de uma loba. Mas, de qualquer forma seu período não seria mesmo o de uma humana normal. — Senti a chama da esperança nascer forte em meu peito, fazendo as lagrimas presas com tanto afinco rolarem livres por meu rosto. Sorri, respirando rápido pelo rompante de alegria.

—Eu realmente vou poder... — Engasguei, um pouco tonta com tantas informações, com a carga emocional que me foi dada tão de repente. -Nós...

—Eu acredito que sim. Mas, Leah, se não puder, se mesmo com nossas histórias você não puder gerar um filho nosso, isso não interferiria no que eu sinto por você. Não importaria para mim. A gente ainda pode adotar, ou sei lá. A gente dá um jeito. A única coisa que eu quero é realizar os seus sonhos, quero ser parte deles, te ajudar a conquistá-los. Família e amor são mais do que laços de sangue e eu amo tanto você para te deixar por um motivo bobo desse. — Ele falou, simples e curto. Puro. Sua fala sincera derrubando os últimos tijolos da barreira, se engalfinhando para dentro de meu peito, sarando as feridas, reajustando os pedaços atrapalhados de meu coração. Seus dedos limpando os rastros das lagrimas em minhas bochechas eram como cura. Recomeço. Suspirei, vendo turvo de novo. Não sei se pelas lagrimas que insistiam em cair ou por minha pressão baixando. Ele falou com todas as letras. Era a primeira vez que se declarava de forma tão direta assim. -Eu amo você. Te amo pelo que você é, por tudo o que passou, pela sua personalidade e seus defeitos, pelo seu rosto lindo quando sorri para mim e briga comigo, pela maneira preocupada pelo bando e por todas as pessoas que fazem por merecer o seu afeto. Eu amo você, Leah, e não tem nada no mundo capaz de mudar o meu sentimento. Você criou raízes profundas aqui, bem aqui dentro do meu peito, me encantou com seu perfume, mudou a minha vida inteira, e eu não quero nunca que você deixe de florescer em mim. Você só sai dos meus braços, se sentir que aqui não é mais o seu lugar.

O mundo começou a rodar, deixando-me com a cabeça avoada. O redemoinho em meu peito fez meu estomago gelar, junto com a sensação de completude. Era demais. Eram sentimentos demais, amor demais, felicidade demais para aguentar de uma vez. Era liberdade demais, sem correntes para me prenderem àquela nuvem cinza de tristeza, do rancor. Não estava acostumada com aquela brisa de positividade.

—Rick... eu acho que não estou me sentindo bem. — Consegui murmurar, mole de repente. Sua mão firmou meu corpo quando ele tombou para o seu, me dando o suporte necessário para não despencar de cara na mesa. O azul bonito de seus olhos e seu rosto preocupado foram as últimas coisas que vi antes de cair na escuridão.

Notas finais
Eii, pessoas!! Se acharem qualquer erro me avisem, beleza? Eu sempre reviso o texto antes de postá-lo, mas sempre algum erro passa despercebido. Comentem, favoritem, recomendem, mandem MP's, acompanhem, perguntem! Até mais!! Bjkss *-----------*