Leah - I See You
41 Capitulo 41 - A Singularidade da ligação
Notas iniciais
Voltamos para casa envoltos a uma energia totalmente nova. Nossos mindinhos estavam entrelaçados e nossos pés ainda descalços enquanto caminhávamos de volta a minha casa. Derick tinha uma muda de roupas em casa, então iriamos nos aprontar lá mesmo. Rick queria um encontro de verdade com todo o frufru que tinha direito, mas eu o convenci a mudar o cinema pelo parque de diversões que tinha inaugurado em Port Angeles há alguns dias. Ele aceitou. Resmungando, mas aceitou.
Mamãe ficou feliz por estarmos saindo para nos divertir sozinhos e implicou um pouco com Rick sobre o horário que chegaríamos, como se eu fosse uma adolescente. Derick prometeu não chegarmos muito tarde, mas eu o desmenti rápido, porque realmente não sabíamos que hora chegaríamos.
Eu tomei banho primeiro, por pura implicância com Der e também para poder me arrumar um pouquinho. Talvez caprichar um tantinho não fosse fazer tão mal assim. Portanto, logo que saí do banheiro escolhi uma roupa diferente do usual que estava guardada no fundo de meu guarda roupa. Um short jeans curto e escuro com tarrachinhas e uma blusa preta com um decote ombro a ombro que valorizava meus seios. O brinco discreto, antigo e há tanto tempo guardado na caixinha, fez par com o anel que Derick me dera, combinando. Eu amava admirar como aquele adereço caía bem em meu dedo, como se aquele sempre tivesse sido o lugar dele.
Ajeitei meu cabelo, mas não me demorei já que podia escutar Der saindo do banheiro e me sentia um pouco acanhada em me ajeitar na sua frente. Ele saiu de lá vestido apenas com uma toalha enrolada na cintura, os cabelos bagunçados pingando. Seus olhos brilharam ao me ver o esperando sentada na cama.
—Tão linda, Principessa Mia. – Elogiou, sorrindo para mim e trocando de roupa na minha frente. Não me assustei com sua atitude repentina, pois ele já havia pego essa mania há algum tempo. Observei os músculos de suas costas se mexendo conforme ele se abaixava ou se mexia. Derick falar de beleza para mim enquanto estava seminu com gotículas de água ainda escorrendo por seu corpo chegava a ser uma afronta. -Esse short realça muito bem os seus atributos, sabe? Suas coxas são grossas. – Ele continuou, o riso safado. Escondi a risada no travesseiro e me virei de bruços, envergonhada. Rick suspirou audivelmente. -Realça mesmo seus atributos. — Fingi não entender que ele falava da minha bunda agora e me sentei novamente. Era bom ouvir seus elogios, saber que ele me achava bonita. Claro que não apagava toda a insegurança que sentia, mas que era um salto em minha autoestima isso era.
Ele terminou de se arrumar rápido e a fina camada de gloss que decidi passar de última hora foi arrancada quase totalmente com o beijo gostoso que ele me deu quando estávamos do lado de fora de casa.
—Esse negócio meleca demais. – Murmurou agarrado a mim, a respiração um tanto acelerada. Beijei seu pescoço de proposito só para lambuzar sua pele.
—Meleca mesmo. Ajude-me a tirar isso. – Sussurrei, insinuante. Ele deu uma risada baixa antes de fazer o que pedi, segurando meu rosto com gentileza e me beijando novamente. Sua língua quente passou lentamente por meu lábio inferior e o superior, incendiando tudo por onde tocava. O gosto do gloss era meio estranho, mas não diminuía o tesão que sempre aparecia quando nos tocávamos com aquela intensidade. Com um ultimo estalo, nossos lábios se descolaram e Derick me guiou até a moto alugada que ele pegava, as vezes. Não deixei de reparar que ele tentava, atualmente, não precisar tanto de favores dos meninos. Seria muito mais fácil, e barato, pedir emprestada a moto de Jake, ou o carro de Quil, mas Derick preferiu alugar. Não comentei nada e ele também não. Sua boca estava meio lambuzada de gloss seco, me fazendo rir por ter que limpar para ele e esquecer o assunto por um tempo.
A viagem foi tranquila e encontrar o parque foi fácil. Havia chamado Klaus, Allan e Joe para irem com a gente já que provavelmente ficariam sozinhos, pois mamãe, Charlie e Dona Stella iriam jogar algo com Billy, porém eles negaram com a justificativa de que não queriam segurar vela em um encontro. Eu queria mesmo que eles fossem, mas respeitei a decisão. Seria uma boa sair com todos os meninos, nunca havíamos tido esse tipo de diversão. Rick quase saltitou com a negativa. Ele amava seus irmãos, claro, mas parecia disposto a grudar em mim até eu me arrepender de cobrar sua atenção.
O parque, localizado em uma estradinha fora da cidade, não estava lotado, mas uma quantidade considerável de pessoas transitava para lá e para cá. A maior parte eram casais na ponte do amor, crianças nos brinquedos de pescaria e adolescentes nas animações radicais. Foi fácil decidir em qual brinquedo iriamos primeiro. A montanha russa enorme quase nos hipnotizava. Nos revezávamos para escolher qual brinquedo íamos e sempre discordávamos da escolha um do outro, mesmo que secretamente tivéssemos gostado.
Depois de Derick ter perdido suas chances no tiro ao alvo e de eu ter ganhado um ursinho de pelúcia médio para ele no mesmo jogo, a fome bateu e seguimos para uma barraquinha de cachorro quente no local. Rick fez questão de pagar os lanches e o refrigerante, além de ter pagado as entradas, e eu não contestei, já que eu havia colocado gasolina na moto quando paramos para abastecer e ele não havia reclamado.
Ele ficava particularmente fofo carregando seu ursinho marrom escuro debaixo do braço.
—Você é muito boa em mira. Vamos focar nessas habilidades. A partir do próximo treino, vou praticar luta com você.
Quase deixei cair meu cachorro quente, perplexa.
—Você vai lutar comigo? Pensei que não gostasse.
—Não é que eu não goste, sabe? Meu lobo fica aflito. Ele já fica aflito com você treinando com os outros, comigo então..., mas você precisa, e eu também ando pecando na sua capacitação.
Dei de ombros, fingindo indiferença. Entretanto, pulava por dentro de animação.
—Vou fazer você beijar o chão! – Impliquei, dando uma mordida generosa em meu lanche. Ele riu, os olhos faiscando para mim.
—Poderia fazer eu beijar outra coisa, não é? Mas tudo bem.
Engasguei com sua investida sem vergonha.
—Rick! – Engoli depressa, explodindo em uma gargalhada depois. -Pervertido!
—Não disse o lugar, nem o tipo de beijo. Você que maliciou. – Mordeu seu cachorro quente, os olhos ainda me fitando. Ri ainda mais, sentindo minhas orelhas queimarem.
—Quem sabe eu faça mesmo você beijar outra coisa, hm? – Entrei na brincadeira, balançando a cabeça desacreditada quando ele sorriu grande para mim.
—Eu adoraria. – Mandou-me um beijo soprado que esquentou meu coração. -Você está tão longe de mim, por quê? Senta aqui, Amore. – Pediu, já arrastando minha cadeira, que estava do outro lado da mesa, para pertinho de si. Rolei os olhos, mas encostei minha cabeça em seu ombro, sentindo a brisa gelada acariciar minha derme. O cheiro de terra úmida veio com o vento, avisando da chuva que chegava devagarinho. -Amanhã não vamos treinar, okay? É Ognissanti, e minha mãe costuma não ficar muito bem.
—O que é Ognissanti?
—É um feriado. Dia de todos os santos. Ela não gosta porque é onde começa a contagem regressiva.
Franzi as sobrancelhas, não entendendo.
—Que contagem regressiva?
Ele suspirou, triste de repente. Melancólico. Não gostei do jeito como seus olhos, de pouquinho em pouquinho, perderam o brilho.
—Rick?
—Aniversário de morte do meu pai, essas coisas.
Oh, terreno perigoso. Abri a boca e a fechei duas vezes antes de suspirar e abraçá-lo pelos ombros, sem saber o que dizer.
—Ela faz uma contagem?
Ele encarou as poucas estrelas que venciam o céu nublado pelas nuvens carregadas. Eu me contentei em admirar minha própria lua particular ao meu lado.
—É como eu chamo, na verdade. Ela tenta esconder, mas eu sei que fica se remoendo em lembranças dos dias que antecederam a morte dele. Isso destruiu ela. Eles estavam bem antes, sabe? Dias antes, eles saíram para mais lugares, fizeram encontros românticos do nada, dançavam pela casa. Parecia que ele estava se despedindo dela, pensando agora. Como se ele estivesse aproveitando o tempo que restava.
Senti pena de dona Stella, porém, logo me repreendi. Ela era forte demais para que as pessoas sentissem pena.
—Perder o imprinting deve ser horrível, mas não pensava que afetava tanto os humanos normais.
—Eu também achava isso. Já convivia por muito tempo com Sebastian para saber como era quando um lupo perdia seu imprinting. Era dilacerante, sério. Era dor demais para uma pessoa só, mas pensei que tudo era potencializado por ele ser um lupo e por ser ele quem havia sofrido a magia. Mas depois ele morreu. Mamãe ficou tão machucada que eu pensei que a perderia também. – Estreitei o aperto ao seu redor, mostrando que estava ali com ele. Odiava ver aquele semblante cabisbaixo. Beijei sua bochecha com amor, querendo esmagá-lo em meio a todo o carinho que existia em meu peito. -Eu não podia sentir igual com Sebastian, porém eu podia ver. Ela estava definhando. Foi uma época terrível.
—Mamãe também ficou arrasada. Eles tinham um amor tão lindo! Demorou para ela seguir em frente. Papai era a pessoa que mais me entendia no mundo inteiro. Sinto tanto a falta dele.
—Eu também. Ele pode ter sido bruto e rigoroso, mas ainda assim eu... eu sinto tanta falta. Até das brigas. – Riu um pouco, finalmente correspondendo a meu abraço desleixado, passando sua mão por minhas costas em um carinho suave. -Sinto falta de respondê-lo com raiva, das discussões, e do jeito carrancudo que ele me entregava um copo de leite quando sentia que tinha ido longe demais. Ele nunca me pediu desculpas, sabe? Nem eu a ele.
—Eu nunca agradeci a ele pelo ótimo pai que era. Por ter me apoiado quando todos viraram as costas. Nem mesmo uma vez.
—Eu não entendia a complexidade do sentimento que meu pai e o Trizolli sentiam pelas Singles deles. Sebastian sofreu o inferno quando perdeu sua mulher, mamãe nunca mais foi feliz como antes quando ele partiu. Isso me deu tanto medo, na época. Não queria nunca experimentar aquele tipo de dor.
—Meus pais não tiveram imprinting, foi simples e humano, como eles. Mas o amor deles era tão forte quanto. Nunca senti de perto o que era perder um imprinting, porque nenhum dos lobos daqui perdeu o seu alguma vez. Não consigo nem imaginar. – Inspirei fundo, o perfume dele me acalentando. -Não, eu pude sentir uma vez. Lembra daquele sonho há um tempo? Eu vi... eu vi você. Morto. – Estremeci ao dizer a palavra em voz alta. Der esfregou meus braços em apoio. -E eu sei que não foi real. Sei que foi causado por preocupações acumuladas no meu subconsciente, mas pareceu tão real! Você rodeado de todo aquele sangue. Foi horrível! Eu vi os meninos também, todos eles. E isso me fez pensar se o fato de eu ser Vastus não traria algum problema para vocês. Os meninos e você fazem parte da minha família, agora. E eu...
Rick puxou meu queixo para o lado, fazendo-me encará-lo. Seus olhos brilhando sentimento, porque eu sabia que ele estava feliz por me ver desabafando com ele daquele jeito.
—Seu sonho foi horrível, tenho certeza. Você ficou tão aterrorizada que acabou me assustando também. Mas, bene mio, foi só um pesadelo. Nós todos somos uma família, ninguém atrapalha em nada aqui. Só agrega. Eu não sei como você não enxerga quão vital se tornou para a harmonia do meu bando, da minha vida. Klaus só está cooperando e se enturmando por sua causa, Allan obedece mais a você do que a mim, Joe parece uma criancinha ao seu lado, e eu, Dio, eu sou um perdido sem você.
Suspirei, sentindo aquela familiaridade gostosa tomar conta de meu peito. Éramos uma família, sim. Busquei sua boca com calma, chupando seu lábio de modo apreciador. Ele correspondeu com a mesma afeição, tocando minha bochecha de maneira delicada.
—Então, você acha que eu ficaria melhor na sua alcateia? – Sussurrei, ainda perto de seu rosto, nossos narizes resvalando um com o outro.
—Eu já disse uma vez e digo de novo, você quem decide, Principessa. Vou cuidar de você, te proteger, te dar todo o meu amor e carinho não importando em qual alcateia você estiver. – Beijou minha bochecha de levinho. Corei, mas tentei disfarçar puxando-o para outro beijo.
Quando nos separamos, Rick beijou estalado minha testa e ficamos daquele jeito por um tempo, perdidos em nossos pensamentos até ele se levantar e me puxar para irmos a última atração do parque: a roda gigante. Eu só não reclamei porque já tinha me recusado a ir na caverna do amor com ele, portanto achei válido irmos pelo menos na roda gigante. Era menos vergonhoso. Enfrentamos uma fila grande, abarrotada de casais. Mesmo com a demora, Derick não desistiu. Nos sentamos na cabine de grades grandes um do lado do outro.
—Eu realmente não vejo graça nesse negócio. – Resmunguei, sem conseguir me conter. -É só uma bola que gira. Qual é a grande surpresa?
—Seja mais carinhosa, por favor. Estou tentando ser romântico aqui. – Ele alfinetou de volta, ao mesmo tempo em que me envolvia em um abraço quentinho. -E você ainda não viu o topo. Aposto que dá para ver a cidade inteira.
—E até lá a gente faz o quê?
—A gente aprecia a companhia um do outro, já não é ótimo? – Ele parecia realmente indignado. Sorri, arqueando uma sobrancelha. Rick bufou, desfazendo o abraço, cruzando os braços e virando o rosto para o outro lado. -Você é tão difícil, Dio!
Ri mais, puxando seu queixo para mim e beijando sua boca num selinho.
—Estou brincando, Der. Você sabe que a sua companhia é mais que suficiente.
—Depois daqui você já quer ir embora? Acho que vai chover daqui a pouco. – Como se para provar seu ponto, um trovão soou alto ao fundo. -Tomara que não chova enquanto estamos aqui dentro, vai que dá um curto circuito e a gente morre eletrocutado.
Bati em seu ombro, o repreendendo. A vista lá de cima era bonita mesmo, toda iluminada e aconchegante, as luzes da cidade toda somada as luzes coloridas do parque davam graça a paisagem, porém a paradinha foi rápida demais e Rick reclamou até estarmos com os pés no chão novamente.
—Eu disse que a roda gigante era uma merda. – Impliquei mais um pouquinho, vendo o bico em seu rosto crescer.
—Não era assim nos filmes.
—Eu avisei.
Ele rolou os olhos, empurrando-me.
—Eu avisei. – Afinou a voz, tentando me imitar. Abri a boca para ralhar de sua imitação barata, mas um raio cortou o céu, desligando todas as luzes do parque, calando-me. O estrondo do trovão surgiu depois, trazendo a chuva forte já esperada.
O parque já estava fechando, então as pessoas não ficaram totalmente presas nos brinquedos, mas ainda houve pânico. Eu e Der podíamos enxergar com clareza, portanto corremos até a moto. Derick me entregou os capacetes enquanto corria com a motocicleta para um lugar coberto. Ficamos ensopados, abrigados embaixo de uma especie de tenda do lado de fora. O breu era total, mas eu não conseguia sentir medo algum. Protegidos da chuva, ao lado de meu imprinting, pude observar o desenho bonito dos raios no céu. A chuva era torrencial, a enxurrada só se alargava, mas o brilho era tão lindo, tão instigante que me embasbacou. Nunca tinha parado para apreciar a beleza de uma tempestade.
—Rick, olha. – Apontei, segurando seu braço, mantendo-o perto. -É maravilhosa!
Ele entrelaçou nossos dedos, suspirando.
—É, é maravilhosa. – Concordou, beijando minha têmpora e respirando meu cheiro. Tive a impressão de que nós dois não falávamos sobre a mesma coisa. -Leah, eu... — Se interrompeu, olhando atento para frente, parecendo ter ouvido algo estranho. -Principessa... — Chamou-me, me abraçando. Porém, o que pensei ser um gesto de carinho, na verdade, foi de proteção.
Ele passou, calculadamente, meu corpo para trás do seu. Fiquei confusa no começo, mas logo consegui escutar o que Derick já havia sentido. Algo vinha correndo pela floresta ao nosso redor, na escuridão. A chuva atrapalhava o cheiro, neutralizava, então não sabíamos quem era. Se era amigo ou não. Derick apostava na inimizade. O barulho aumentou, estava perto.
—Juntos. — Rick sussurrou para mim. Assenti, o coração batendo descompassado.
—Juntos.
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