Leah - I See You
4 Capitulo 4 - Abbado
Notas iniciais
— Não, Sam. — Jacob o olhou seriamente, a expressão calculista não combinava em nada com sua personalidade. Além de que ninguém realmente acreditava que ele calculava sequer um passo à frente de seus pés. Suas ações sempre eram impulsivas, afinal, não seria agora que alguma coisa mudaria. — Ligue agora, com todos aqui. Vamos ver como ele vai reagir.
Sam deu de ombros e pegou seu celular. Não havia muito motivo para não querer ligar agora, nem para ligar. Tudo tão entediante. Deus, por que mesmo eu precisava estar ali? Às vezes, achava que minha vida era uma grande regravação estadunidense patética de algum dorama coreano cheio de drama e clichês. Eu, claramente, era a personagem secundária que ninguém realmente se importa o bastante para dar um final digno. Paul, Quil e Embry eram o alivio cômico. Jake e Reneesme o casal principal cheio de tititi e aventuras que, na verdade, não acrescentavam muita coisa à história. Entre os protagonistas e os idiotas, preferia mil vezes ser a esquecida no rolê.
— Sem problemas.
Todos os lobos, incluindo eu, se focaram em escutar do outro lado da linha. Aparentemente, um novo elemento havia sido inserido na trama, pois a excitação que me tomava não era normal, parecia canalizada por algo, minha loba desencadeava uma sensação elétrica que arrepiava os meus sentidos enquanto o tu, tu, tu, tu angustiante, apenas servia para me deixar mais ansiosa. Será que a TPM ainda me afetava mesmo sem que meu ciclo desse as caras?
— Abbado. Quem é? — Uma voz levemente rouca que me fez tremer, atendeu. Senti meu coração palpitar e aquela sensação de pedaço faltando quase desaparecer. Quase. De alguma forma, ao ouvir aquela voz, uma porta trancada se abriu em minha mente e subitamente relacionou o timbre gostosinho aos olhos azuis de meu sonho, ao cheiro bom da praia. Fiquei paralisada. O que estava acontecendo comigo? Como podia sentir tanto em apenas um segundo? Com apenas um nome? Se fosse possível visualizar minha loba, com certeza ela estaria com as orelhas atentas, focadas nele, como se estivesse a espera dele esse tempo todo. Engoli a seco, nervosa de repente.
— É o Sam, Derick.
— Sam, Meno Male! Já conversou com eles? O que decidiram? — Seu tom apreensivo e aquele sotaque carregado pela animação estavam fazendo coisas estranhas acontecerem em meu corpo. Uma sensação parecida com quando você corre uma maratona e finalmente toma um copo d'água... Alivio. Tinha sensação de lar.
— Calma, cara. Nós decidimos ajudar vocês.
— Isso é sério?
Por um momento, consegui sentir sua aflição através da linha telefônica. Meu coração se apertou, compadecida pela situação. Se eu sentia alivio só em ouvi-lo, imaginava o quanto ele estava aliviado achando uma saída para aquela situação.
— Quando podem vir? Já estamos esperando vocês.
Houve um minuto de completo silêncio em que pensei que ele havia desligado, ou desmaiado, já que sua respiração ainda estava presente na linha. Preocupei-me com seu bem-estar e com o meu próprio, talvez eu devesse ir a uma consulta com o Dr. Vampiro.
— Grazie! Grazie! Mio Dio, Grazie! Arriviamo domani, il più veloce è il meglio. — Ele falava rápido, alto e euforicamente. Eu não entendia muita coisa por sua voz estar rápida, mas entendi algumas frases pequenas e palavras sortidas, embora nunca tivesse tido contato com o linguajar italiano na vida. Que merda era essa? Como eu podia... Tudo estava tão esquisito, será que... Balancei a cabeça, tentando me distrair dos questionamentos, tirá-los de dentro de mim. Deixei para me preocupar com aquilo mais tarde, pois o sorriso involuntário escapou de meus lábios ao ouvir sua risada. Era gratificante ouvi-lo rir mesmo não entendendo direito o porquê. Os outros me olharam de maneira desconfiada, ganhando uma careta em troca. Não tinha culpa, aquele homem era muito fofo animado daquele jeito, qualquer um se contagiaria com sua alegria.
— Derick, eu não falo italiano.
Sam realmente estava sendo simpático, brincando e entendendo o momento de exaltação do homem do outro lado da linha.
— Ah, claro, desculpe. Eu me esqueci. Estava agradecendo continuamente e depois disse que estaremos aí amanhã, quanto mais rápido sairmos daqui melhor.
— Me ligue quando chegar no aeroporto, eu e os outros buscamos vocês em Seatle. O caminho até La Push pode ser um pouco confuso para estrangeiros. E cuide para não serem seguidos, estamos confiando em vocês.
— Claro, claro. Obrigado, cara. Estarei te devendo pelo resto da minha vida. Sério, obrigado mesmo.
— Ficamos felizes em ajudar.
A chamada se encerrou e no mesmo momento a euforia se foi. Queria ouvir mais dele, ouvir mais aquela voz, sentir aquele aconchego todo de novo. Nunca havia me sentido assim em toda a minha vida, era como se tudo estivesse... estivesse certo por segundos que pareceram infinitos. A inquietação veio com força total, fazendo uma enorme vontade de correr se alastrar. Correr até ele, buscá-lo para me achegar em seus braços. Céus, o que está acontecendo comigo?! Eu nem o conheço!
— Leah, você está bem? — Jake perguntou, parecendo preocupado. Minha expressão deve ter denunciado minha angustia interna, a confusão que os sentimentos intensos de minha loba me faziam sentir.
— Sim, sim estou. Por quê? — Perguntei meio distraída. Não podia mentir para mim mesma, embora quisesse com todas as forças, minha loba era apenas parte da euforia generalizada. Eu me sentia eufórica. Sentia-me viva.
— Você está andando de um lado para outro da sala. Isso não é muito normal até para você. — Seu tom era gozador, apesar da ruga de confusão. Nem havia reparado que estava andando, meus movimentos pareciam ensaiados. Parei, respirei fundo, buscando o controle que fugia de minhas mãos, e me dirigi até a porta. Precisava sair dali, sair de perto deles, ficar sozinha, esvaziar a cabeça.
— Preciso ir.
— Leah, aonde vai? — Mamãe questionou realmente aflita.
Olhei para trás e decretei suavemente:
— Tenho um compromisso, volto à noite.
Antes de me transformar, ouvi Jake dizer em tom alfa:
— Você tem ronda amanhã. Não se esqueça.
Odiava quando ele usava aquele tom. Ter alguém mandando em mim era horrível, ainda mais naquela situação. Não conseguia mandar em mim mesma, como outra pessoa se sentia no direito de o fazer?
— Como se eu já tivesse faltado a uma ronda. Eu sei muito bem quais são as minhas obrigações. – Respondi ironicamente e o ouvi rir junto de Seth, tudo era uma brincadeira para eles.
Enfiei-me na floresta, tirei minhas roupas, deixei que minha forma lupina se soltasse e corri. O vento batendo em meu rosto, as árvores passando como um borrão ao meu redor, a adrenalina pinicando em minhas veias, o cheiro salgado da areia do mar e a sensação inquietante eram reconfortantes, era a melhor coisa em se transformar em uma loba gigante. Era tão mais fácil viver como loba. Sem problemas, sem preocupações, sem sentimentos negativos, sem ressentimentos, sem tristezas. Apenas paz. Apesar de ser nojento também, às vezes, como ter que comer a comida crua, o pelo todo sujo de lama e sangue de animais, argh! Na verdade, todas as formas são difíceis. Acho que a vida não era mesmo algo para ser fácil.
Não sei por quanto tempo corri, ou quanto tempo fiquei parada vendo as ondas se levantarem e quebrarem perto da baía, os pensamentos entravam em conflito e voltavam, tal qual a maré. Confusão e angustia persistiam em me usar como morada. Já era tarde quando cheguei em casa. A cabeça lotada de Abbado e olhos azuis.
Havia alguma coisa que me ligava aquele cara. Alguma coisa tão forte que nem a distância de continentes podia diminuir. Aquilo me assustava como o inferno.
Mamãe e Seth estavam dormindo e um prato com jantar descansava dentro do forno. Sorri com o pequeno ato de preocupação de mamãe e comi com gosto a comida um pouco fria, mas deliciosa. Subi ao meu quarto, abri a janela e me deitei, secretamente esperando pelo alivio de mais cedo. O sono veio rápido e logo a inconsciência me tomou. A lembrança da voz rouca e dos olhos maravilhosos rondando minha mente até em meus sonhos mais turvos.
Fale com o autor