Leah - I See You
39 Capitulo 39 - Promete? Prometo.
Notas iniciais
O tempo passou com rapidez, e quando vimos outubro já quase se despedia. A cada novo dia de treinamento, em horários e dias diferentes para que as rondas não se comprometessem e nem ninguém se prejudicasse em seus trabalhos, sentia-me renovada. Saber tantas coisas, aprender novos jeitos de utilizar meu poder, conhecer mais da minha história como loba, era libertador. A cada novo hematoma e tombo, a cada vez que conseguia me desviar da tática agressiva de Allan, ou do modo manso e perspicaz de Nik, era como uma descarga de adrenalina que eu não queria mais parar de sentir. As reuniões na fogueira aumentaram a frequência, tantas histórias mais foram nos passadas, tantas outras realidades, fantasiosas e reais, nos foram mostradas por Dona Stella que eu já podia dizer, com certeza, que tinha certa noção, sim, de onde tinha vindo.
Derick sempre me ajudava, me auxiliando em todo movimento ou duvida que tivesse, mas ele nunca quis ou se ofereceu para lutar comigo. Joe constantemente tirava sarro de Derick, falando que ele tinha medo de eu acabar com ele em uma luta direta, mas Rick não fazia questão de respondê-lo. Não entendia muito bem o porquê disso, mas contanto que ele continuasse me ajudando nas minhas dificuldades, que não eram poucas, estava tudo bem.
Eu adorava vê-lo treinando, e não era porquê a visão de seus músculos flexionados me atraia ou por arfar toda vez que via o jeito sexy dele todo suado correndo de um obstáculo a outro, não, claro que não era por isso. Apesar de ser, sim, na maioria das vezes. Mas, o modo como os olhos dele brilhavam toda vez que ensinava algo novo, ou mostrava que nosso poder poderia ser muito, muito maior do que nunca sequer cogitamos, o fazia reluzir aos meus olhos. Ele era uma pessoa linda, por dentro e por fora.
Porém, junto com as semanas passando, seu tempo ao meu lado também diminuíra. O novo emprego dele sugava quase todo o seu tempo e o resto de descanso que ele teria, usava para nos treinar e ensinar. Os meninos também arrumaram afazeres, alguns bicos aqui e acolá. E isso foi me deixando um pouco solitária. Não que eu achasse ruim ou estivesse com raiva, entretanto era, de certa forma, uma coisa triste de se sentir. Como se fosse um dejavú amargo e dolorido. Klaus era quem eu mais via durante o dia, menos quando era folga de Rick e seu alfa me monopolizava. Ele era quem me ajudava com seu silêncio, e dizia em sussurros entre nossos filmes pela tarde que tudo ficaria bem, nós nos entendíamos muito bem, e sua atenção e apoio me faziam feliz. Nik parecia muito mais à vontade com a situação e se mostrava mais relaxado e tranquilo quanto a si mesmo e seu pai.
Allan e Joe iam para a minha casa todos os dias às oito horas da noite para tomar café e me enxerem sobre como havia sido seus dias. Eles reclamavam e reclamavam por horas, como se eu realmente fosse obrigada a escutá-los falando pelos cotovelos, mas eu sabia que estavam felizes com a nova rotina. E eu também estava feliz por eles confiarem em mim para desabafarem.
Infelizmente, hoje era um desses dias em que Derick tinha que sair às pressas. Estávamos conversando no meu quarto em um dos raros momentos de descanso do alfa quando seu celular apitou e eu franzi as sobrancelhas, afundando o rosto no travesseiro enquanto via ele saltitar para lá e para cá, se ajeitando para ir trabalhar.
—Fica mais um pouco, você nem comeu direito. – Tentei convencê-lo, deixando o orgulhinho de lado só para aproveitar de mais alguns minutos de sua presença. Ele balançou a cabeça, negando.
—Mio Bene, desculpe, mas não vai dar. Fiquei com o turno da noite hoje.
—Mas você ficou com esse turno a semana inteira! E na semana retrasada você ficou com o turno da noite e o da tarde! – Argumentei, me sentindo realmente chateada com a situação.
—Eu sei e sinto muito, mas eu preciso fazer isso. Só até as coisas se estabilizarem.
—Concordo, mas você... — Calei-me e respirei fundo. Não era certo cobrar. Não era culpa dele. -Deixe, vá antes que se atrase.
—Obrigado por entender, Principessa. — Disse de modo apressado, arrumando seu cabelo desleixado e sorrindo para mim. -Até amanhã. Juro que vou te recompensar. — Deu-me um beijo estalado e saiu pela janela.
Ele não voltou na manhã seguinte.
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Como era costume, na semana do Halloween as crianças da reserva estavam eufóricas para pedir doces na cidade e na vila. Pelos dias que passaram, vi as casas sendo enfeitadas de forma característica. Mamãe entrou no clima e até fez algumas aboboras desenhadas para colocar do lado de fora de casa, Charlie trouxe pisca-piscas laranjas e adornou a árvore do lado de fora e Seth também ajudou a colocar algumas teias de aranha falsas para complementar a decoração. Dona Stella também quis se adequar e nos chamou para uma reuniãozinha em sua casa para o Halloween, o cheiro dos doces dela podia ser sentido até a uma quadra longe. Ela até tinha me convidado para auxiliá-la na confecção dos docinhos, porem eu teria ronda na hora, então a dispensei educadamente. Emily, por outro lado, não recusou e ajudou, com muito gosto, nos afazeres.
Por mais tonto e criança que tivesse sido, eu me senti bem ao ser a primeira opção de Dona Stella para dar assistência sempre que ela quer reunir os lobos. Fez um bem danado para o meu ego a constatação desse fato, e o carinho explicito que ela dirigia a mim.
Derick perderia metade da festa por conta de sua carga horária de trabalho. Assim, não foi surpresa nenhuma não o encontrar lá quando cheguei junto a mamãe e Seth. Klaus, Allan e Joe fizeram uma rodinha ao meu redor e nos divertimos muito ao comentar sobre cada pessoa na festa. Tipo, o jeito estranho com que Embry dançava no meio da sala, o rasgo na bermuda de Paul, e o grudinho de Sam e Emily e sua barriga já grandinha. Éramos um bando de lobos fofoqueiros mesmo e se alguém estivesse com algum problema com isso, que se ferrasse. Não demorou muito para que Dona Sella também entrasse na dança e, meu Deus, como ela falava! Era uma óbvia contradição o rostinho fofo e meigo e a língua afiadíssima.
Eu tentei, tentei mesmo não ligar para a ausência de Derick e me divertir, mas não consegui. Sentia muita falta de sua atenção e isso me dava nos nervos. Parecia uma humana carente!
—Querida, quero conversar com você. – Stella me chamou, afastando-nos calmamente para a parte mais calma da casa, a cozinha. Sentou-se em uma das quatro cadeiras da mesa e me encarou, como se pedisse para que eu me sentasse também. Me sentei na cadeira que Derick tinha como sua exclusiva.
—O que aconteceu? – Inquiri, preocupada.
—Era isso o que eu queria perguntar. Sei que não devo me meter, mas aconteceu alguma coisa entre meu filho e você?
Sua pergunta me pegou ligeiramente de surpresa.
—Não, não aconteceu nada. – Estreitei os olhos, desconfiada. -Pelo que eu saiba, pelo menos. Por quê? Derick comentou algo?
Ela sorriu para me tranquilizar.
—Ele não me disse nada, porém qualquer um pode ver. Estão mais distantes um do outro. Antes não podiam ficar um minuto longe, agora passam um dia todo sem nem se falarem. Pensei que alguma briga tivesse virado algo sério.
Suspirei, descontente com tudo aquilo.
—Não, eu... eu não sei o que está acontecendo. O trabalho dele está sendo tão desgastante e os treinos também, acho que ele não está tendo muito tempo para nós. – Comentei, tentando sorrir um pouco. -Mas ele não fez nada de errado, é só uma fase. Logo, logo passa.
—Derick pode ser bem desatento com as coisas, querida. Às vezes, ele foca tanto em uma coisa que acaba se esquecendo das prioridades.
—Ele não faz por mal.
Ela sorriu carinhosa para mim, tocando minha mão com afeto.
—Eu sei disso, mas boas intenções também machucam de vez em quando. Quando há vontade, se arranja tempo. Mesmo com todos os obstáculos.
Ele queria estar comigo, não queria? Ele estava realmente satisfeito comigo? Será que o meu problema em comunicação tinha afetado ele? Será que estava sendo chata de algum modo? O que eu havia feito para ele se afastar? Calei-me, pensando no que ela queria dizer, e ficamos lá por longos minutos. Eu procrastinando em como poderia resolver a situação e Dona Stella se encarregando de levar o assunto a diante, contando-me como ela e o marido se conheceram até das brigas ocasionais que tinham.
Estava tão distraída que me assustei quando do nada senti um beijo em meu pescoço e o barulho da cadeira ao meu lado se arrastar. Nem precisei olhá-lo para saber que era Derick.
—Feliz Halloween, Principessa. – Beijou-me na bochecha demoradamente e acarinhou minha nuca, os olhinhos brilhando para mim. Não havia magoa que se mantivesse de pé diante de tal olhar.
—Feliz Halloween, Rick. – Devolvi o beijo em seu queixo quando ele me apertou em um abraço torto.
—Então, Leah, como estávamos dizendo: Alexander era muito bagunceiro e certo lobinho puxou o pai até nisso. Era um pé de guerra lá em casa, porque nenhum dos dois conseguia manter a casa em ordem por mais de duas horas.
Sorri, a cena de um mini Rick correndo e bagunçando tudo como um furacãozinho passando por minha mente. Derick rolou os olhos e afastou a minha cadeira, fazendo um barulhinho irritante, apenas para que pudesse deitar sua cabeça em meu colo. O barulho atrapalhou, sim, o que Dona Stella dizia, mas nem eu nem ela nos importamos, continuando o assunto, ela mais empolgada que eu. Sorri algumas vezes, mais por Derick fazer todo e qualquer tipo de barulho para chamar minha atenção do que pelas histórias de Dona Stella, apesar de elas serem muito engraçadas também.
Stella nos encarou divertida, vendo como seu filho podia ser ciumento quando queria.
—Acho que o lobinho quer atenção, querida. Eu vou lá para dentro, os meninos estão muito quietos, e isso não é do feitio deles. — Ela disse, levantando-se e seguindo rapidamente para fora da casa, onde todos já tinham saído para alguma competição idiota, fechando a porta.
Encarei os olhos dele, acariciando seu rosto e fazendo cachinhos suaves em seu cabelo. Acho que nunca me acostumaria com a beleza do azul de seus olhos.
—Desculpe por aquilo. Não queria atrapalhar sua conversa, só...
—Só queria atenção. — Terminei por ele, beijando sua bochecha carinhosamente. Estava com saudades.
—Soa meio patético quando você diz em voz alta.
—Soa mesmo. — Concordei, rindo. Ele me acompanhou. -Semana ruim?
—Totalmente. — Suspirou, cansado.
—O que posso fazer para melhorá-la?
Ele sorriu carinhoso.
—Pode me contar o porquê de estar diferente comigo. — Franzi as sobrancelhas, confusa. -Eu sei que fiz algo que te incomodou. Pode, por favor, me dizer o que foi? Eu realmente não tenho ideia.
Rolei os olhos.
—Você não fez nada.
—Então, o que há? — Inquiriu com mais urgência. -Você não me ligou mais, não brigou comigo, nem me chamou de idiota essa semana. Você me olha como se estivesse magoada. Está me olhando desse jeito agora.
—Eu não te liguei porque você estava trabalhando e eu não queria te incomodar ou atrapalhar em algo, não briguei com você porque não fez nada de errado... pelo menos, eu espero que não tenha feito nada de errado. – Fingi um olhar desconfiado, mas ri quando ele revirou os olhos. -Eu realmente pensava que você odiava quando te chamava de idiota, e eu não estou magoada. — Expliquei-me, dando de ombros.
—Esqueceu com quem está falando? Qual é, eu te conheço mais do que você pensa, sei quando está mentindo.
Bufei, revirando os olhos.
—Qual é, digo eu, idiota. Faz semanas que não podemos ficar sozinhos assim e quando podemos você quer falar sobre isso?
Foi a sua vez de rolar os olhos.
—Sim. Eu quero. Eu fiz alguma coisa, agora é certeza, e eu acho que tenho o direito de saber o que foi.
—Apenas releve, okay? Nós estamos bem, é isso o que importa. Quer dizer, estamos bem, né?
Sua expressão se suavizou um pouco, dando-se por vencido... Temporariamente.
—Claro que estamos. Tudo bem, como quiser. Mas, quero que saiba, que o que eu fiz foi totalmente sem intenção. E que a única culpada por não receber uma explicação de minha parte ou uma desculpa adequada é você.
—Certo, Abbado. Eu estou ciente disso.
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O tempo bom durou apenas por um instante, pois logo cedo no outro dia, Derick se levantou de minha cama para atender um telefonema. Eu já sabia sobre o que era, então fiz questão de demonstrar meu desagrado virando de costas para ele e puxando a coberta até tampar minha cabeça, me enrolando nela como um casulo. Ele riu, após terminar a ligação confirmando que iria, e pulou em mim, tentando me desembrulhar dos cobertores.
—Ei, Amore, o que acha de tomar café comigo antes de eu ir?
—Não, obrigada. Vou ficar aqui dormindo.
—Vamos, por favor. Estou morrendo de saudades!
A risada amarga que saiu não foi consciente.
—Pois não parece.
O clima pesou com a minha fala abafada, senti Rick imediatamente ficar tenso.
—O que quer dizer com isso?
Suspirei, descobrindo minha cabeça para encará-lo. Seu olhar era confuso e temeroso.
—Não queria dizer nada. Não quero te atrasar. Vá se arrumar.
—Leah, por favor, vamos resolver isso. Eu odeio te ver assim, e não é de hoje que está incomodada com algo.
Respirei fundo, fraquejando ao olhar para o relógio na cabeceira. Ele segurou minha mão, saindo parcialmente de cima de mim.
—É só que... Bem, você anda afastado e sempre ocupado demais. E nós quase não nos falamos e quando falamos tem que ser super-rápido porque você está atrasado para fazer não sei o que e... Isso me fez lembrar de quando Sam me deixou. Ele também ficou distante e sempre ocupado demais. Ele tinha se cansado de mim, mesmo antes do imprinting acontecer. E... Isso é tão patético! Esqueça o que eu disse. Você não é o Sam e eu sei disso. Vá, antes que se atrase. Estou falando sério agora. — Virei-me de lado, fechando os olhos. Esperei a movimentação denunciar que ele já havia ido, mas ela não veio. Ele continuou ali, parado e em silêncio. -Derick, você dormiu aí? Levante logo!
—Eu fui tão idiota por não ter percebido. Me desculpe, eu não fazia ideia que isso te traria lembranças de... Eu vou ligar para o John, tenho um tanto de folgas pelo trabalho extra que fiz, não preciso ir hoje.
Virei-me para ele, perplexa.
—O quê?
—Vou ficar com você, hoje seremos só nós dois. Te deixei de lado, deixei nosso relacionamento de lado, e isso não foi certo.
—Derick, o que...
—Vamos a um encontro. Agora, por favor. Eu... Vamos naquela lanchonete que você adora, ainda não tive a oportunidade de tomar um milk-shake de casal com você. Podemos comer alguma coisa e depois iremos ao cinema em Port Angeles, lembra? Você gostou daquele dia, não gostou?
Estreitei os olhos, não concordando muito com sua ideia.
—Não acho que...
—Amore, estou em débito com você. Por favor, me deixe ter a chance de me desculpar devidamente. Eu não menti quando disse que era terrível nessa coisa de relacionamento e tudo aquilo.
—Você não é terrível. — Murmurei, desconfortável com a situação. Não queria que ele se sentisse obrigado a ter um tempo para mim, não parecia verdadeiro assim.
—Leah, por favor, eu quero me divertir com você. Por favor! Por mim!
Encarei seus olhos, era impossível dizer não àquela expectativa toda.
Meia hora depois, estávamos a caminho da lanchonete de Forks que eu adorava ir nos tempos de colégio. Era grande, iluminada, e tinha uma decoração bem legal, além, claro, do preço ser bem em conta também. Ela sempre fora cheia de gente, mas nessa manhã estava lotada. As garçonetes zapeavam para lá e para cá em seus patins rosa chiclete, descontroladas com a quantidade de pessoas e pedidos.
Nos dirigimos a uma mesa um pouco afastada, num cantinho bem fresco e mal iluminado, Rick se sentou ao meu lado e me encheu de beijos pelo rosto todo, só para que eu sorrisse para ele, em uma de suas gracinhas irritantes. Duas meninas, que estavam na mesa atrás de nós, não paravam de encarar. Eu podia sentir o olhar delas queimando em minhas costas e estava me controlando para não as mandar a merda logo. Tinha a impressão de as conhecer de algum lugar, mas não conseguia me lembrar de onde.
Derick fez questão de pedir um milk-shake grande com dois canudos e um monte de rosquinhas recheadas com chocolate. Eu não me opus, a barriga já roncando esperando comida. Quando a garçonete chegou com todo o nosso pedido, meu estomago deu pulinhos de alegria. Ela sorriu para mim, provavelmente me reconhecendo.
—Seu cabelo fica muito bonito curto assim. – Ela elogiou, o sorriso gentil ainda nos lábios. Fiquei surpresa, mas sorri de volta, realmente agradecida. Adorava meu cabelo longo, cortá-lo fora uma decisão realmente dolorosa.
Rick pagou a conta e eu tive que o esperar para começar a beber o milk-shake. Ele fez graça e me fez engasgar em meio a gargalhada quando riu tanto de algo que falei que o milk shake saiu por seu nariz. Com a barriga cheia e o coração um pouco mais leve pela manhã gostosa com Der, dei o primeiro sorriso verdadeiro em semanas.
—Você é linda. – Murmurou, parecendo maravilhado. Minhas bochechas coraram um pouco. -Sorrindo assim para mim então, eu nem tenho palavras.
Abri a boca para agradecê-lo, mas ouvi o assunto da conversa das meninas atrás de nós e o peso da insegurança voltou.
—Até quando aquele deus vai ficar com ela? Fico até com pena. O joguinho que ele está mantendo já anda longe demais.
—Pena de quem? Dela por ser trouxa outra vez, ou dele por estar com ela? Por quê, cara, quem aguenta Leah Clearwater?
Elas gargalharam em deboche e eu me surpreendi ao sentir-me mais triste do que com raiva. Afinal, elas estavam certas. Quanto tempo mais ele iria aguentar continuar? Derick puxou meu queixo para cima, fazendo-me encará-lo nos olhos. Ele parecia irritado, muito irritado. O azul de seus olhos sempre ficava mais claro quando isso acontecia. Ele, com certeza, tinha escutado também.
—Não, por favor, não fique triste. Elas não fazem ideia da pessoa extraordinária que você é. — Lhe dirigi a tentativa de um sorriso. Não queria deixá-lo ainda mais preocupado. Ele não tinha culpa de seu lobo ter certos problemas em escolher seu imprinting. -Olha só o que fizeram! Me desculpe, Principessa. A culpa é minha. Eu que insisti para que me trouxesse aqui. Você quer voltar? Podemos dar uma volta pela praia. Você gosta de lá, não gosta?
Olhei na direção delas, que ainda destilavam veneno entre sussurros. Engoli a seco.
—Se quiser ficar eu... — Nem precisei terminar, pois ele já havia se levantado e estendia sua mão, chamando-me para acompanha-lo.
—Vamos, Amore Mio.
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Andávamos pela areia fofinha da praia, nossas mãos entrelaçadas com força, os pés descalços sentindo os floquinhos de terra molhada. Derick havia se prontificado para segurar nossos sapatos e estava se virando muito bem segurando-os com uma mão só. O silêncio perdurava, apesar de Rick sempre querer inserir algum assunto.
—Ei, é sério. Não dê atenção para elas.
—Não estou dando.
—Então por que está tão quietinha?
—Não tenho nada para falar.
—Vou fingir que acredito.
—Derick, não tente... Olha, eu estou bem. Não vão ser piadinhas idiotas que irão me derrubar, okay? Sou mais forte do que aparento.
—E mais sensível também. Você acha que não sei que pode ser machucada? Eu te conheço, Leah... Por favor, converse comigo. — Parou de andar, obrigando-me a parar também. -Eu estou aqui para você também, não tem que ser essa peça de concreto firme toda hora.
Meu coração bateu rápido com a intensidade de seu olhar, mas a dor dentro de mim, o vazio que insistia em expandir, eram empecilhos no caminho para o desabafo.
—Confie em mim. É só o que estou te pedindo.
Estreitei os olhos, ele estava entendendo tudo errado. Deus, não era para ser assim.
—Não é falta de confiança, Derick. Eu confio minha vida a você. Eu não confio em mim mesma, no que eu sempre faço com as pessoas. É tão patético me sentir assim só por causa de paranoias, mas eu não consigo controlar. Me desculpe! Eu... Não quero sentir isso, não quero ser chata com você, ou quero que você pense que eu sou pegajosa assim, ou que você precisa me... — Atropelei-me nas palavras, a cabeça confusa demais para falar algo coerente. -Mas... Você estava tão longe e ... Eu não sei só... Eu realmente não sei explicar.
Encarei o mar a nossa frente, as ondas quebrando com fúria e vigor, o céu cinza e escuro, profetizando a chuva forte que cairia em breve. Odiava conversar sobre o que estava sentindo, odiava tanto, porque sempre não conseguia me expressar. Parecia que um bolo se estabilizava em minha garganta, impedindo as palavras de saírem. Era difícil colocar para fora.
—Me desculpe se minhas ações te fizeram ficar insegura sobre os meus sentimentos. Nunca foi a minha intenção. – Ele apertou meus dedos nos seus, chamando minha atenção. Fitei seus olhos, acanhada com a situação que havia nos levado. -Você não tem noção do quão intenso é o que eu sinto por você, e eu tento, tento muito mesmo, externar nem que seja um pouquinho do que explode aqui dentro do meu peito quando chego perto de você. Nada se compararia a isso, Leah. Ninguém mais me faria sentir isso. Só você. Perché tu sei il mio Single. (Porque você é a minha única.) – Ele me chamou com os olhos, num convite para um abraço que eu nunca pensaria em recusar. Seus braços circundaram minha cintura e os meus o seu pescoço, afundando meu rosto em seu ombro, sentindo o amor e o cheiro de seu perfume gostoso. Acariciei sua nuca e ele estreitou mais o aperto, me fazendo suspirar. -Quando tiver esses pensamentos, ou quando eu fizer algo que você não goste e te incomode, por favor, conversa comigo, me diga. Eu não vou poder adivinhar todas as vezes, e não quero, de jeito nenhum, estremecer o que temos.
—É difícil! Eu não sou como você, não consigo, eu...
Sua mão subiu por minhas costas, acarinhando suavemente, acalmando.
—Eu sei, eu consigo perceber esses detalhes, Leah. Mas você não pode guardar tudo para você, isso te faz mal. Não pode se esconder dos seus problemas, tem que enfrentá-los de cabeça erguida, como a loba que é. Você consegue desafiar um alfa, contesta as ordens do seu próprio comandante, faz lobos adultos se comportarem como criancinhas, briga com vampiros centenários, lida com ofensas de estranhos e de irmãos, você é forte, Amore, consegue, sim, vencer o seu medo. Eu vou te ajudar, só quero que tenha um pouquinho de confiança em si mesma, em mim, e no que sentimos um pelo outro.
Nunca havia me sentido tão fragilizada e, ao mesmo tempo, tão amparada como estava me sentindo no momento. Era comparado a sensação de cair de um abismo, porém com a completa certeza de que quando chegar ao chão, a única coisa que me encontraria seria uma cama elástica, me salvando do impacto da queda.
—Promete que vai me ajudar? Promete que vai ficar comigo?
—Prometo, Principessa. E você? Promete me deixar entrar? Agora de verdade, com todos os defeitos, com todas as falhas, com tudo o que estiver aí dentro.
—Prometo. – Não foi preciso pensar muito para respondê-lo. Ele já tinha entrado há tempos.
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