Leah - I See You
40 Capitulo 40 - P.o.v Derick
Notas iniciais
"Obrigada novamente, Liudi."
O dia amanheceu, mas as preocupações estavam longe de me deixarem. Não queria discutir com Sam, não queria mesmo, mas sua óbvia contrariedade aos meus esforços para salvar a maldita bunda de seu território estava me dando nos nervos, além de atrapalhar a evolução de todos. Não era questão de quem era melhor que quem, era sobre vida ou morte. A diferença entre vivermos e morrermos está no quão preparados vamos estar quando a hora chegar, todos nós.
Os meninos fizeram a festa no café da manhã. A montanha de comida só aumentava conforme minha mãe e Dona Sue competiam no fogão. Eu não estava com fome, minha ansiedade por não saber o que aconteceria me impedia de comer qualquer coisa além do café gostoso de minha mamma.
Leah havia me despertado com um beijo gostoso na bochecha, toda carinhosa como sempre ficava ao me perceber nervoso com algo. Eu ainda podia sentir o quente de seus lábios em minha pele se me concentrasse um pouco. Ela estava um pouco preocupada, seu olhar me acompanhava enquanto eu me escorava na porta para sentir o vento em meu rosto. Havia me acostumado fácil com o clima frio e úmido da região, até que era bom. Mas sentia falta de casa, das pessoas do conselho, do cheiro de terra seca e do vinhedo de seu Donatello onde costumávamos, eu, Allan e Klaus, roubar algumas uvas. Sebastian não tinha ligado mais e já fazia umas semanas. Não atendia o bendito celular, nem retornava minhas ligações e e-mails, o que estava me deixando bem angustiado. Algo estava acontecendo lá e ele não queria me contar.
—Leah, querida, tome um pouco de café fresquinho. Sei que você gosta. A cafeteira não para cheia quando vai para casa. – Mamma a chamou, ri de leve pelo constrangimento de minha garota demonstrado pelas orelhas levemente avermelhadas.
—Chamou de morta de fome, não deixava, Principessa! – Klaus exclamou, rindo junto com os outros. Eles já usavam tanto seu apelido que, apesar de não gostar muito, estava até me acostumando. -O que, tia? A Leah vai acabar com o nosso estoque de café se continuar assim? Eu não acredito que a senhora está insinuando isso! Que horror!
Mamãe bateu nele com o pano de prato e nem eu consegui esconder a gargalhada.
—Vai se ferrar, Niklaus! – Leah ralhou, revirando os olhos e se sentando perto de onde eu estava. Nunca conseguiria me acostumar com o efeito que apenas seu cheiro conseguia causar em mim.
—Não ligue para o que os meninos dizem, eu não quis dizer isso. Adoro quando come lá em casa, é sinal de que está realmente bom. – Mamma explicou-se docemente. -Com açúcar ou adoçante, meu bem?
Ela negou suavemente e aceitou a xícara, tomando um gole generoso do liquido amargo. Senti calafrios só de imaginar o gosto daquilo.
—Desde criança ela não é tão chegada a café doce, Stella. Sempre gostou do seu forte e puro. Diferente do Seth. Menino parece que toma melaço de tão doce que fica. – Dona Sue explicou antes que Leah pudesse falar algo.
O vento soprou mais forte e eu suspirei, tentando focar em como convenceria Sam que seu jeito de tramar estratégias era deturpado. Não tínhamos muita informação, metade de nós não tinha treinamento, os olhos vermelhos não haviam dado as caras novamente no território Quileute, então o único plano realmente cabível era treinarmos o que estava enfraquecido e procurarmos saber mais da estratégia de ataque deles. Apesar de já ter sacado que a deles era ataque com nível de força maior, não de quantidade. Podíamos usar isso contra eles mesmos. Nossas forças somadas aos dons dos Cullens poderia ser o diferencial em uma batalha direta. Tínhamos que usar todo o nosso arsenal.
Leah e os meninos terminaram de se empanturrar e seguimos para a reunião. Os olhares do povo da reserva não eram diferentes dos de Lupi Luna. Eles julgavam, acusavam e eu até que me divertia observando as expressões desconfiadas. Era triste de se pensar que eles perdiam a fantasia que andava ao redor deles, a magia que eram privados de vivenciar, tão envoltos na névoa que se satisfaziam facilmente com a normalidade. Por algum tempo em minha adolescência, sonhava em ter tido uma vida normal, sem transformos, responsabilidade alfa, e pessoas para cuidar, mas, Dio, que vida cinza eu teria se nunca tivesse tido o prazer de sentir o vento em meu pelo quando corro, ou de ouvir o suspiro de minha Principessa quando a beijo. Seria uma vida tão vazia, era um sortudo por poder desfrutar dela.
Respirei fundo quando chegamos no limite dos vampiros, já podia cheirar o fedor deles. Leah segurou minha mão, passando a calma e o conforto que eu precisava no momento. Era bom aquilo, aquela sensação, o quente em meu peito dando a certeza de que ela estaria ao meu lado não importando a situação. Apertei seus dedos em agradecimento.
Diferente do que havia sido combinado, nenhum dos outros lobos haviam chego. Carlile e Esme nos esperavam na porta grande de sua casa com sorrisos cordiais no rosto. Retesei meus movimentos, parando em uma distância segura. Ainda tinha certo pé atrás com eles.
—Onde estão os outros? Por que Jacob não está aqui? – Inquiri, desconfiado. Leah apertou meus dedos novamente, fazendo carinho em minha pele com seu dedão.
—Está tudo bem, Rick. Eles já vão chegar. – Ela me assegurou, olhando-me daquele jeito que me faz derreter. Relaxei, tentando não pensar muito. Se ela confiava neles, eu também confiaria.
Esme sorriu grande para Leah e nos convidou a entrar. Principessa entrou primeiro, eu e os meninos em seu encalço, os Cullens atrás de nós. Leah parecia bem à vontade, sentando no sofá como se estivesse em sua própria casa, Klaus se sentou ao lado dela, como o grande puxa-saco que era. Allan, Joe e eu preferimos permanecer em pé ao redor deles. Era incomodo a quietude que caiu sobre a sala, todos os Cullens estavam pelo cômodo, levemente espalhados em cada canto.
—Ela está com Jacob. Estava com saudades de Billy. – Edward respondeu a alguma pergunta ainda não proferida. Pela carranca no rosto de minha Single e pelo seu assentir incomodado, ela fora a inquisidora. Poderíamos concordar muito bem quão inconveniente era o dom do vampiro, porém muito útil também. Ótimo em um interrogatório com a pessoa certa envolvida com os Volturi. Uma palavra-chave e ele poderia saber de tudo.
—Você usou muita lógica noite passada, Derick. conseguiu dominar a situação de forma muito altiva. Poucas vezes vi tanto autocontrole em transmorfos tão jovens. – Carlile me elogiou, enquanto Esme tentava oferecer biscoitos de chocolate para Allan e Joe. Uma parte de mim se focou no porquê de uma casa cheia de vampiros ter comida de humanos como aquela. A outra parte se ateve a Carlile, seu sorriso cortês e expressão pacífica.
Encarei-o, tentando descobrir se ele falava com zombaria. Não achei sinal nenhum de deboche, mas sim algo mais curioso, como se antes tivesse me inferiorizado e ganhado uma boa surpresa em troca. Papai vampiro se impressionou comigo e então agora tentava me amolecer pelo ego? A tática era boa, confesso, mas funcionária melhor com Allan ou Sam.
—Tive muito treino. – Respondi direto, quase monossilábico.
—Sua estratégia é boa. Muito boa, na verdade. Como pretende convencê-los a lutar? – Edward inquiriu. Franzi as sobrancelhas, não entendendo onde ele queria dizer com “convencê-los”. Era claro que todos iriam lutar, sem exceções. Dei de ombros.
—Não vou precisar convencê-los. Se quiserem viver, a regra é clara e básica: terão que lutar. Sobrevivência é o objetivo.
—Mas eles não são treinados, nós também não. Sabemos lidar com recém-criados e já confrontamos os Volturi antes, mas, sendo realista, a proporção de agora é relativamente maior. Eles não vão querer falhar novamente, vimos isso quando mandaram talentosos dessa vez. – O leitor de mentes continuou e eu percebi claramente o que ele estava tentando fazer.
—Convivi com vampiros milenários com seus mais variados talentos a minha vida toda, sei como pará-los. – Sorri debochado para ele, sem conseguir me conter, entrando em seu joguinho.
—Nada mais justo que seja você a nos treinar, nesse caso. – Jasper interferiu. -Como você mesmo disse, não duraríamos dez minutos com a artilharia pesada deles. Ainda mais agora que esfregamos em suas caras de que lado estamos.
Treinar era o certo, era o necessário, mas estaria passando por cima de dois alfas do território. Alfas que me acolheram, alfas que, apesar das desavenças, têm o meu respeito. Suspirei, olhando para ela. Isso daria certo? Ela assentiu para mim, como se pudesse mesmo ler meus pensamentos.
—Não sei se Sam concordaria. – Comentei, ainda encarando-a.
—E quem liga para o que ele concorda ou não? – Leah bronqueou, rolando os olhos. Eu ligo e ela sabe disso. Um bom convívio sempre foi o princípio básico para nós que viemos de fora. Seus olhos amendoados amoleceram ao me fitarem de modo tão fixo, toda uma avalanche de autoconfiança me rodeou porque ela confiava. Eu podia enxergar. Ela confiava em mim, no meu sucesso como treinador. -Você consegue, Der.
Suspirei, não sei se abalado pelo sentimento enorme por aquela mulher, ou se apenas enfadado pelos olhos dela brilhando para mim, e assenti para Jasper.
—Certo, mas eu preciso de alguns dias para me organizar. E temos que ter um lugar para podermos treinar sem intervenção humana. – Ditei, já começando a pensar como os treinaria.
—Podem se exercitar aqui. É grande e espaçoso lá fora. Claro que sem tumulto aqui dentro. Ficaria muito feliz em recebê-los. — Esme convidou, sorrindo doce. Apreciava sua gentileza, mas meu lado desconfiado insistia em me dizer que ela só queria que os treinos fossem lá para que pudessem observar de perto o andamento do treinamento, quão fortes ficaríamos.
—Ele aceita, sim. – Leah aceitou antes de eu sequer abrir a boca para recusar. Olhei-a, repreensor. Ela não pensava antes de fazer as coisas, nunca pesava as consequências. -Assim você não tem que pedir o território de Sam emprestado. Não precisamos dele.
—Precisamos dele, sim. Toda ajuda é bem-vinda. Independente de qual lado vier. – Contrariei-a, tentando não soar tão enérgico com ela, mas Principessa só deu de ombros, não dando a mínima para mim. Quando ela me ouvia mesmo?
Em poucos segundos o resto dos lobos chegaram e tudo estava bem normal, até a expressão de Leah delatar seu momento de angustia. Fora algo tão do nada, tão repentino que me assustou. Alguma coisa a fez ficar triste, tão triste que me deixou com o coração apertado.
—Principessa? O que passa? – Perguntei, empurrando Klaus da minha frente para me sentar ao lado dela. -Está tudo bem? – Acariciei seu rosto com carinho, sentindo a pele suave dela. Não gostava de vê-la daquele jeito, doía em mim.
—Está. Foi só um... Um sentimento ruim. – Ela me mostrou um sorriso fraco que não me convenceu nem um pouco, mas me calei. Não era o local adequado para que ela se sentisse à vontade para conversar. Porém, também não podia deixá-la daquele jeito. Portanto entrelacei nossos dedos, trazendo-a para mais perto de mim, encostada em meu ombro.
—Estou sempre aqui, Amore. Não se esqueça. – Garanti com toda a certeza que habitava em mim. Ela se aconchegou mais e suspirou, ficando em silêncio.
Jacob passou por nós e nos cumprimentou com um sorriso sem graça que denunciava quão desconfortável ele estava com toda a confusão. Ri quando Leah rosnou para Sam, que nos encarava do outro lado da sala. Minha principessa era uma graça toda nervosinha. Aos poucos ela voltou ao normal, sorrindo e se divertindo com as palhaçadas dos meninos. Entretanto, logo fui chamado por Carlile para realizarmos a reunião em seu escritório. Não concordei muito com irmos só eu, Carlile, Jasper, Edward, Sam e Jake, pois mais cérebros iriam vir a calhar, além de não me sentir totalmente bem em ficar sozinho em uma sala apenas com os cinco, porém não dei palpite algum quanto a isso.
Beijei a bochecha e a testa de minha Single, quase desistindo de ir a tal reunião só para enchê-la de beijos! Mas voltei a realidade e me virei para Klaus:
—Se algo der errado aqui ou lá dentro, quero que cuide dela. Acalme-a se for preciso. Você sabe como, só peça com o seu jeitinho.
Ele assentiu, um pouco envergonhado, e eu segui os três vampiros ao outro cômodo. Carlile ofereceu educadamente uma das cadeiras e eu me sentei, Jake e Sam ao meu lado. Fixei-me em suas expressões e trejeitos enquanto Edward explicava cada um dos dons de sua família e contava as experiencias com batalha de cada um. Seus gestos eram muito humanos, tinha que concordar, como o modo que respiravam profundamente a cada seis segundos para dar a impressão de uma respiração normal, o jeito de se acomodar em suas cadeiras, ou mexer os pés de repente, a maneira delicada a qual tocavam qualquer coisa, domando a força que tinham. Era uma habilidade obtida através de longos treinos por anos, séculos, e eles eram muito bons nisso. Entretanto, eu podia perceber certos detalhes que os denunciavam. A rigidez de seus músculos e de seus movimentos que mesmo a aura anuviadora natural não conseguia esconder, os olhos escuros agitados de Jasper que iam de mim para Sam, ansiosos, porque ele ainda estava em fase de aceitação do estilo de vida e nós, mesmo lobos, ainda éramos humanos com sangue correndo nas veias. Carlile ainda demorava para piscar, às vezes, acho que se esquecendo desse detalhe. Jasper ainda falhava e se mantinha inumanamente parado, perdido em decifrar nossas emoções.
Em algum momento, Edward voltou ao assunto treinamento e Sam, imediatamente, ficou tenso. Revirei os olhos. Se comportar como uma criança era especialidade dele.
—Não acho que precisamos de treinamento. – Sam não conseguiu se segurar, o tom de voz demonstrando todo o seu desagrado.
—Todos nós precisamos estar preparados para o que está por vir. – Falei, acho que pela enésima vez. -Você não entende que isso não é sobre você?
—Você é quem está falando que eu não soube treinar minha alcateia!
—Eu nunca disse isso, Sam. Dio, será tão difícil assim escutar? Eu disse todos nós. Nós, plural. Todos. Iremos morrer todos nós se não nos focarmos em um só objetivo: derrotar aqueles que querem nos ferir! Precisamos de treinamento, até uma criança pode enxergar!
—Sam, entenda, ninguém aqui vai te obrigar. Se não quiser se envolver, entenderemos. – Edward intercedeu. E se ele disse era porque Sam tinha pensado em algo desse tipo. Grande covarde! Se estivesse com medo de se envolver poderia ter dito antes que nos poupava toda essa fadiga. Além de medroso era idiota.
—Ninguém vai te impedir, mas você vai morrer de todo jeito se perdermos, então. A escolha é sua. – Não aguentei controlar minha língua. Leah estava afetando demais meu comportamento.
Sam encolheu os ombros, nem mais um pio dele sendo ouvido. Jake se absteve, ouvindo a tudo calado.
—O plano é o seguinte: temos que ter conhecimento, organização. Somos poucos, não podemos permitir sermos surpreendidos. Não temos notícias dos parasitas, nem sabemos qual é o próximo passo. Com certeza, o ataque seguinte não será direto como aquele de dias atrás, não nos afetará diretamente, vai ser um aviso. Esperemos por ele, e aí conseguiremos informações uteis. Eu não conheço essa área, posso saber me virar, mas vocês moram aqui, alguns até nasceram aqui, vocês conhecem o território como a palma da mão de vocês, usem isso.
—Utilizar o terreno como arma. – Jasper concordou, assentindo.
—Esperaremos, então, que eles saiam para que possamos conhecer o inimigo. Treinamos e nos preparamos e quando for a hora, estaremos prontos.
—Certo. – Sam resmungou, o rosto virado para a grande janela, pensativo.
Conversamos mais sobre alguns detalhes e logo Jake saiu, ele não era mesmo muito bom nessas coisas. Edward foi logo atrás quando percebeu que sua presença lá não era mais necessitada. Jasper e eu decidimos mais alguns pontos chave e tudo estava certo. Queria terminar rápido porque sentia Leah um pouco ansiosa.
Procurei-a com os olhos e quando achei, assenti, feliz por ver o olhar de orgulho dela para mim.
—Percebemos que a nossa única chance é unindo forças. Sem brigas internas, ou desorganização. E para que isso ocorra, precisamos de treinamento. Derick irá se ocupar disso. — Sam praticamente estrangulou. Foi difícil admitir aquilo, eu sabia. Mas era um começo.
—Os treinos começam semana que vem de manhã, aqui. Todos estão convidados. — Ditei, sorrindo para minha garota e piscando. -Mas estejam avisados que eu não irei pegar leve. Sairão completamente capacitados para acabar com os sanguessugas. Agora, vamos embora. Acredito que todos estejam com fome.
—Sim, morrendo! — Allan dramatizou, escorado em Klaus.
—Vamos logo. – Leah completou, indo para fora sem se despedir de ninguém, segui seu exemplo e sai também.
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Leah teve um pesadelo horrível que a deixou realmente fragilizada. Mesmo depois de dias, ainda conseguia lembrar do brilho de lagrimas de seus olhos e do tom de pavor que sua íris se coloriu. Era angustiante! Ela se manteve abalada por dois dias até se acalmar e esquecer, tomada pelo entusiasmo do treinamento.
Até eu estava animado com a perspectiva de voltar à ativa novamente. Trazia um gosto bom de nostalgia sentir a adrenalina pinicar em minha pele.
Leah estava tão empolgada que pulou da cama antes mesmo de amanhecer, atrapalhando meu sono gostoso. Mas, minha ideia de voltar a dormir foi brutalmente arrancada pela luz cinza do céu, dando reflexo em meus olhos. Resmunguei, me arrepiando quando uma rajada de vento gelado bateu em minha pele. Puxei as cobertas e me enrolei, aconchegando-me a seus lençóis cheirosos. Ela me sacudiu pelos ombros, não desistindo de me encher.
—Vamos, está na hora! O treinador não pode se atrasar!
Cobri a cabeça com o travesseiro, irritado. Ela riu, o som bom de sua risada amolecendo um pouco a raiva.
—Me deixe em paz!
—Nunca! Vamos, Rick! Eu estou com fome!
—Então vá comer e me deixe aqui! Não são nem sete da manhã!
—E daí? É a minha casa, minha cama, minhas regras! Vamos!
Suspirei profundamente, relaxando como silencio momentâneo, a cabeça ainda tampada, o sono voltando devagarinho. Chacoalhões me acordaram no susto e rosnei, no auge da indignação, levantando-me e seguindo para o banheiro. Mal pude sair direito, já arrumado, que ela me puxou pelo braço toda afobada querendo ir logo, mas a impedi. Lembrando do que deveria ter feito há muito tempo. Mamma havia me ajudado a encontrar a pedra que eu queria e a preparar toda a coisa bonitinha para ela.
—Espera, espera. Eu quero te entregar uma coisa. Um presente, na verdade. – Senti minhas bochechas enrubescerem, tinha preparado todo um discurso, mas era tudo muito mais fácil na minha cabeça, minhas mãos tremiam de nervosismo. Ela era tão linda com o rosto ainda um pouco inchado de sono e os olhos atentos em expectativa, não resisti ao acariciar sua pele. Procurei pelos bolsos, a mão atrapalhada pela timidez de repente. -Nós acabamos de oficializar as coisas e eu não queria que ficasse por isso mesmo, então... Quero que fique com isso. — Disse entregando-a um embrulho bonito de um tecido cinza brilhoso.
Ela o pegou com cuidado e observou em silêncio, a boca aberta em surpresa. Engoli a seco, as mãos suando. Era brega dar o anel de família para ela, totalmente brega. Mas era quase como um instinto, eu precisava, pertencia a ela, afinal.
—Derick... Isso deve ter custado uma fortuna! – Ela exclamou, parecendo realmente preocupada com o valor. Dei de ombros, despreocupado. Nada que ela não merecesse.
—Não se preocupe com isso. O importante é saber se você gostou.
—Sério, Derick, ele é muito bonito, mas... Não precisa gastar seu dinheiro comigo, não deve!
Bufei, rolando os olhos. Se ela estava focando tanto no preço era porque não tinha gostado. Ia ficar chateado se ela me dissesse que não gostou, mas entenderia e arranjaria algum jeito de presenteá-la com algo de seu gosto.
—Tudo o que me pertence, pertence a você também. — Disse, indiferente, tentando não demonstrar quão nervoso estava. -Aliás, eu não comprei isso. É de família. Todos os Abbado dão a suas respectivas Single o anel da família, é uma tradição de séculos atrás. Eu mandei dar uma polida boa, ajustar o tamanho, e trocar a pedra, achei que você gostaria mais dessa. Mas, não vou ficar magoado se você disser que ele é velho, ou que não gostou... Eu só, por mais idiota que seja, queria deixar um pedaço meu com você. – Conclui, mentindo um pouquinho na parte que não ficaria magoado, as bochechas ainda queimando.
Ela piscou, atordoada. Talvez tenha sido um pouco demais. Devia ter deixado isso para outra hora. Dio, por que eu sempre arrumo um jeito de atrapalhar as coisas?!
Minhas lamentações foram esmagadas com o abraço apertado que ela me deu, quase pulando em mim. Sorri, feliz por ela não me achar um boboca, afinal.
—Devo achar que você gostou? – Provoquei, mais para me acalmar do que para irritá-la.
—Obviamente, idiota. – Murmurou, ainda me segurando firme. O perfume dela, Dio, eu amava o perfume dela.
—Leah, é sério, você gostou realmente dessa coisa velha ou está dizendo isso só para me deixar feliz? – Perguntei, mas no fundo sabia que ela tinha gostado. Seu coração me dizia.
—Não chame meu presente de coisa velha, Alfa! — Brigou, fazendo um sorriso crescer em meus lábios. -Nunca ninguém me deu nada tão valoroso emocionalmente e isso valeu mais do que qualquer coisa que você poderia me dar. E, quanto a sua tentativa de deixar um pedaço seu comigo, saiba que isso você já fez. Há tempos, alias.
Mirei-a confuso. Às vezes, Leah tinha dessas de falar por enigmas e eu me perdia totalmente.
—Como assim?
Sorriu. O rosto brilhando felicidade e carinho.
—Você está em mim, Derick. Está comigo não importa para onde eu for, para onde eu corra, ou para onde eu seja levada. Isso nunca vai mudar. – Esclareceu, me pegando de surpresa com sua declaração repentina. Eram raros os momentos que ela se sentia bem o suficiente para falar o que sentia.
Me estendeu o anel, me confundindo novamente, mas logo entendi quando também estendeu sua mão para que eu colocasse nela. A joia deslizou lentamente e se instalou com perfeição em seu dedo. Beijei o lugar, sentindo um carinho tão grande, um amor tão grande por aquela mulher, que transbordava.
—Obrigado, Principessa.
Ela me puxou para mais um abraço e eu fui sem reclamar, adorando aquela Leah carinhosa, segurando-a pela cintura.
—Obrigada, eu amei! Foi muito importante. — Sussurrou entre selinhos castos. -Obrigada mesmo.
—Fico feliz que gostou. – Beijei sua bochecha uma última vez e segurei sua mão, entrelaçando nossos dedos. -Agora, vamos. Temos que buscar os meninos ainda.
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Havia achado melhor começar o treinamento dos lobos de uma vez, já que eles eram os únicos que ainda não tinham a mínima noção do que eram capazes de fazer. Desse modo, os vampiros apenas assistiram de sua sala com atenção, o que o meu lado desconfiado fazia o favor de acender o alarme de desconfiança ainda mais.
Organizei-os em fileira e comecei com aquecimentos leves para poder ver em que nível eles estavam. Não pude deixar de reparar que Leah era péssima em flexibilidade, mas era muito rápida em seus movimentos. Meus olhos sempre seguiam para ela, mesmo eu me monitorando todo segundo para me concentrar em todos dali.
Embry, Quil e Paul eram mais paradões, se cansando com facilidade. Seth era uma bola de energia ambulante, era fato. E Jake e Sam tinham alguma facilidade em aprender.
—Todos prontos? – Perguntei, adorando a cara de cansados que eles já esbanjavam. Todos concordaram. Não pude conter o sorriso de contentamento com a cena a minha frente. -Então, vamos começar. A primeira coisa que vocês têm que aprender é como controlar seu lobo, e não, — Continuei rapidamente quando vi que Sam diria algo. Segurei a vontade de rolar os olhos. -Não estou dizendo do controle que vocês já têm. Quero dizer do verdadeiro poder interno de vocês.
—Como assim? — Embry inquiriu, a expressão confusa.
—Vocês estão acostumados a usar apenas suas duas formas, ou você é humano ou é lobo. Nunca tentaram ser os dois ao mesmo tempo, não é? Todos nós temos um tipo de magia interna, uma fonte de energia que nos move e faz com que possamos trocar de forma. Vocês, sem o devido treinamento, usam apenas um por cento dessa magia. Quero que busquem ela, sintam-na entre as veias, escutem-na fluindo pela pele e energizando todos os seus corpos. Quero que fiquem em paz com as duas personalidades dentro de vocês, o lobo e o humano. Encontrem equilíbrio. É um passo muito importante para a evolução de vocês. — Disse, respirando fundo e fechando os olhos, me concentrando. Depois de tanto treino já não era mais tão desgastante ou difícil me conectar com meu lobo interior, era até confortável. Meu coração saltou, naquela conexão que sempre tínhamos. Abri meus olhos, vendo minha Principessa quase brilhar envolta a natureza, quase como uma deusa da selva, toda divina em sua leggging cinzenta que marcava muito bem seu par de coxas grossas. Pude escutar o coração dela bater mais rápido, assustada.
—O que caralhos aconteceu com seus olhos? — Indagou, incrédula com o que via. Sorri para ela.
—Isso é o que acontece quando você entra em equilíbrio com seu lobo. — Respondi, minha voz naquele tom diferente de quando lobo e homem estão em união. -Pelo que sabemos, existem doze símbolos diferentes. Cada um com um significado diferente que varia de acordo com a personalidade da pessoa. Ele identifica o que você tem de melhor e mais evoluído, como o talento em vampiros. Ele te guia no que você tem de melhor para que você estimule isso e engrandeça cada vez mais. Esse conjunto de círculos em meus olhos é magnitudo e significa grandeza. É muito incomum esse símbolo aparecer em betas ou lobos normais da matilha. Ele é, geralmente, específico para alfas. – Expliquei, encarando-os para ver se haviam entendido bem. Era vital para o treinamento explorar as qualidades maiores de cada um presente. Melhorar o que já é bom, e transformar o ruim. -Agora é a vez de vocês. — Os garotos reclamaram e ela negou. -Qual é, pessoal? Se vocês não tentarem, não irão conseguir mesmo. Vamos, tentem. Os garotos irão fazer uma demonstração, vocês observam e fazem igual depois, capito? – Indaguei e eles assentiram, ainda desconfortáveis.
Os três se posicionaram mais para frente, fechando os olhos e acalmando suas respirações. O silêncio predominou por um tempo, para logo depois ser preenchido com engasgos e arfadas surpresas com o olhar deles.
—Como eu disse, cada pessoa tem um símbolo diferente de acordo com a sua personalidade. Joseph tem o trócaire, que quer dizer misericórdia. Ele pode ser explorado em relações com prisioneiros e a proteção das vilas. Allan tem annotata, a vigilância, que é muito útil em questões territoriais. E Klaus tem misneach, a coragem, que obviamente, pode ser utilizada em batalhas, estratégia e muito mais.
Klaus sorriu, orgulhoso de seu símbolo.
—Às vezes, os deuses confundem os símbolos e distribuem errado. É o que acontece com o Klaus. Olhem só, desde quando Klaus é mais corajoso que eu?! — Allan exclamou, bufando. -Eu nunca vou me conformar com isso!
Klaus mirou-o com arrogância.
—Se meter em brigas o tempo todo não te faz corajoso, Allan. Te faz um idiota esquentado apenas. Quer que eu liste cada uma das várias coisas em que sou melhor que você?
Allan rosnou com a provocação e eu os encarei, advertindo-os silenciosamente. Não era hora para gracinhas.
—E quais são os outros oito? — Paul questionou, curioso.
—São auxilium, a ajuda, recensere, a mudança, fidem, a lealdade, eagna a sabedoria, ketekunan, a perseverança, anteliaisuus, a generosidade. Kuolleisuus e Vastus são os mais raros de se encontrar. São símbolos não necessariamente de pessoas más, mas de modo geral são voltados a revoltas sangrentas. São mortalidade e resistência. Na minha vida, eu só vi uma pessoa com Vastus nos olhos e o encontro não foi nada amigável. – Disse, me lembrando do olhar sanguinário e desesperado do lobo de um bando que estava sendo exterminado. Era de dar calafrios até hoje. -Agora é a vez de vocês. Parem de enrolar e façam!
Observei todos prenderem a respiração para depois soltarem-na quase ao mesmo tempo. E então, após longos minutos em que nada aconteceu, um por um, eles abriram os olhos. Cada um com um símbolo. Porém, logo depois, as marcas desapareceram. Como se eles tivessem perdido o foco ou o equilíbrio por um segundo. Leah não havia feito, reparei. Estava louco de curiosidade sobre qual símbolo ela teria.
—Muito bom! – Exclamei, realmente feliz por eles conseguirem desenhos focados de primeira. -Ótimo para uma primeira vez. Deu tempo de ver qual delas vocês são. Embry e Paul, vocês são fidem. — Os dois fizeram um high-five gargalhado. -Quil e Jared, Ketekunan. Jacob, magnitudo. Collin e Brady, auxilium. Seth, anteliaisuus. — Seth sorriu, feliz por seu símbolo. -Sam, você é annotata. E Leah, Principessa, por que você não fez?
Ela arqueou uma sobrancelha para mim, desafiando-me.
—Sou obrigada?
Sorri com seu tom de voz. Ela era tão sexy!
—Claro. Faz parte integral do treinamento e, admito, estou curioso sobre o seu. – Ela rolou os olhos, fingindo tédio, mas sei que tinha certa curiosidade também. -Ora, vamos, amore. É fácil. – Leah bufou e fechou os olhos, mas não parecia tão concentrada assim. —Você não está se concentrando direito, Bene Mio.
Ela me encarou, irritada com meu palpite.
—Eu não consigo!
—É claro que consegue. – Me aproximei por trás, rodeando sua cintura com os braços e apoiando meu queixo em seu ombro, claramente me aproveitando da situação um pouquinho. -Eu te ajudo.
Ela respirou fundo, concentrando-se verdadeiramente agora. Seu coração batia rápido, acho que pelo nervosismo.
—Feche os olhos e acalme-se....
—Mas eu já fiz isso! – Interrompeu-me, controlei a vontade de revirar meus olhos.
—Shii, feche. — Apesar de contrariada, ela fez o que a instruí. -Sinta a floresta ao seu redor, o cheiro das plantas, ouça o canto dos pássaros, a pulsação dos seus irmãos, o rio passando pelos rochedos, a natureza em seu ciclo... Me sinta. – Murmurei, aproveitando da energia constante que vinha de seu corpo contra o meu. Seu coração se estabilizou e eu senti quando ela conseguiu manter a conexão, porque sua vibração mudou. Ela se mantinha me sincronia comigo, como se fossemos um só, literalmente. —Conseguiu?
—Acho que sim.
—Deixe-me ver. — Falei, virando-a delicadamente. Meu coração acelerou quando olhei em seus olhos, ficando terrivelmente surpreso com o que vi. Em um piscar de olhos, seu símbolo se foi, mas ficou marcado em mim, pasmo pela descoberta.
—Perdi. Eu disse que não conseguiria! – Ela resmungou, chateada consigo mesma. Eu não encontrava palavras para me expressar no momento. Tudo muito irreal. -O que é?
—Você... Você... Seus olhos! – Gaguejei de modo patético, sem poder controlar minha própria histeria.
—O que foi, idiota?!
—Você é Vastus! É resistência!
—E isso é muito ruim? — Perguntou, temerosa por minha reação. Balancei a cabeça, tentando organizar meus pensamentos. Estava assustando-a, não queria aquilo. Fitei seus olhos, vendo todo o mar de sentimentos ali presente e relaxei. Confiava nela. Assim como ela confiava em mim. Leah era minha Principessa, minha Single. Sua presença não traria problemas. Sorri para ela. —Não, mio bene. É claro que não. Desculpe se te assustei, você não é igual a eles. Daremos um jeito nisso, capito? – Garanti, confiante no que dizia.
—Então por que você ficou tão descompassado? Por que vocês estão me olhando assim? – Acusou, eu e Klaus nos entreolhamos, medindo se deveríamos entrar nessa história. Leah poderia se sentir um empecilho para a alcateia, e era obvio quão o contrário disso ela era. Estava claro para qualquer um o quanto a chegada dela havia unificado o que restou de meu bando. -Me digam a verdade.
—Não é um defeito, Principessa. Mas pessoas com Vastus são um pouco... Difíceis de lidar, entende?
—Qual é o espanto, então? — Jake quis fazer graça. Sério, às vezes, os comentários sem graça que eles faziam contra ela me davam nos nervos. Isso não contribuía em nada para a nossa tentativa de fazê-la se sentir melhor. -É perfeito para ela.
—Vastus é complicado. Não é muito bom para uma matilha ter um integrante com esse símbolo. — Allan jogou, o tom manso para não a magoar. -São muito poderosos e tendem a ser territorialistas e briguentos. Geralmente, canalizam seu poder na matilha e, às vezes, se torna o elo que os une. Digo as vezes porque seu poder de ligação é tão "desconhecido" que pode acabar com a sintonia de uma matilha. Como uma Peeira. Já ouviu falar delas? – Não me surpreendi ao vê-la negar. Sua tribo não tinha conhecimento de muitas coisas. -Peeiras são companheiras dos lobos, são seres mágicos que ajudam a manter o equilíbrio. É muito valioso para um bando ter uma peeira, pois ele acaba se tornando muito mais forte. É por isso que Vastus são evitados. O poder acaba por subir na cabeça da matilha e ela se torna gananciosa demais, havendo até guerras entre bandos rivais. É impossível prever como a energia do lobo vai funcionar, pois vareia de casos em casos. Frequentemente, sinto dizer, a sintonia é ruim e o bando se enterra em brigas, tanto externas quanto internas.
—Mas é claro que não vai ser o nosso caso, Leah. Nós damos certo juntos. — Klaus tentou contornar toda a aura estranha que Allan, acidentalmente, impôs.
—Entende? Não é tão ruim. Confiamos uns nos outros. Ficaremos seguros, todos nós. Protegeremos você. – Assegurei, nos separarmos não era uma opção.
—Falam como se ela fosse da alcateia de vocês. — Sam resmungou, a voz petulante. Não conseguia identificar qual sentimento regia Sam quando ele soltava aqueles comentários tão desnecessários. Não era ciume, já que seu imprinting não reconhecia ninguém mais além de Emily. Não era inveja, já que não havia mesmo motivo para tal. Eu realmente não conseguia entender.
Ignorei-o completamente, como vinha tentando fazer, perdido nas feições de minha Principessa. Acariciei sua bochecha, selando seus lábios de leve, me dando o luxo de não resistir dessa vez. Ansiava por poder aprofundar o contato, sentir o gosto dela com a língua, mas sabia que não era o momento.
—Eu vou protegê-la independente de qual alcateia ela for. Independentemente de onde ela estiver, ou quem for o alfa que ela escolher. – Prometi para ela, certificando-me de que ela entendia que acataria a qualquer decisão, qualquer vontade dela. Nada nos separaria. Ela relaxou em meu toque. -E eu tenho certeza de que todo o meu bando concorda com a minha decisão.
—Concordamos. — Os três responderam em uníssono, sorrindo para ela. Já a consideravam irmã de bando, da família. Beijei-a na testa demoradamente, só por querer sentir sua pele em meus lábios de novo, e me voltei às filas de lobos, retomando o treino.
Depois de muitas horas apresentando o mundo dos exercícios tanto para lobos quanto para vampiros (o que eu nunca pensei que poderia chegar a fazer), Leah me chamou para irmos embora e eu nem tentei relutar. Minhas pernas pesavam pelo esforço depois de meses sem estimulo algum, estava um caco.
Não acompanhei Leah até sua casa como de costume pelo cansaço que sentia, ela entendeu e me beijou de um jeito tão gostoso em despedida que eu fiquei meio avoado por minutos, até a água quente do chuveiro cair em meu corpo e me acordar do torpor. O vapor da água ajudou a relaxar meus músculos e a parar um pouco com as caibras. Após algumas conversas importantes com os meninos e mamãe, e de ficar moscando em minha cama por algumas horas só para descansar um pouquinho, peguei a pomada caseira que mamma havia preparado junto a faixa nova e rumei para onde poderia dormir tranquilo. Minha principessa tentou esconder durante o treinamento, mas eu pude perceber as expressões doloridas dela toda vez que tinha que repetir um movimento brusco. A insistência da cor estranha em sua pele e a dor que nunca ia embora de verdade me deixava preocupado.
Foi difícil me pendurar em sua janela com as coisas em minha mão e com a chuva fraquinha que caía, mas consegui com certo esforço. Diferente do que esperava, Leah ainda estava acordada. Ela parecia tão cansada que poderia jurar que dormiria assim que chegasse até sua cama.
—Ei, mio bene, ainda acordada? Por que não descansou? – Inquiri, realmente curioso, enquanto me aproximava e depositava as coisas em sua escrivaninha.
—Bobagem. – Dispensou-me, abanando com as mãos. -O que trouxe?
—Trouxe uma faixa nova e uma pomada anestésica. Sei que está com dor. Desculpe ter passado exercícios pesados. Devia ter te preparado antes. Ido aos poucos. – Ela riu, maliciosa. E eu rolei os olhos, já acostumado com sua mente suja. -Venha, tira essa blusa, vou cuidar de você.
Cortei as faixas nos lugares certos, mexi na pomada misturando-a de novo e me virei para ela, sorrindo com a expressão curiosamente fofa dela.
—Quer que eu tire para você, Principessa? – Perguntei, só fazendo gracinha, mas ela ergueu os braços, aceitando a ajuda de forma manhosa. Me sentei à sua frente, puxando o tecido de seu corpo com cuidado. Meus dedos roçaram em sua pele conforme a blusa saía, eu gostava da sensação. Não pude conter o suspiro ao vê-la naquele sutiã roxo com estampa de corações azuis que ela adorava. Leah era linda de formas inimagináveis. -Já te disseram quão linda você é? Cara, é quase um pecado. Não é possível alguém ser tão perfeita assim.
Ela sorriu, tímida pelo elogio.
—Eu acho que você precisa de um oculista, Alfa. Tipo, urgente.
Automaticamente, fechei a cara. Odiava quando ela própria se diminuía.
—Você é linda, Leah. E é um idiota completo quem dizer o contrário. – Ditei, olhando fundo em seus olhos, querendo fazê-la acreditar. -Para de se diminuir, por favor. Você é maravilhosa demais para ter uma autoestima tão baixa.
—Podemos conversar sobre isso uma outra hora? – Questionou, buscando fugir do assunto. Leah tinha dessas de se esconder, calar o que sentia e se afundar em paranoias. Eu nunca a julgaria, mas ficava um pouco magoado quando via sua obvia falta de confiança em mim. Entretanto, claro, nunca a forçaria.
—Esse assunto ainda não acabou, mas podemos, sim.
Ela assentiu e eu fingi que esqueci o assunto, focando-me única e exclusivamente em melhorar suas dores. Massageei o mais delicado que consegui a pele lesionada, com cuidado em passar a pomada nos lugares certos e não apertar demais. Sua pele era macia, gostosa, de um canela bonito demais aos meus olhos. Principessa suspirou, o som aliviado.
—Melhor?
—Sim, obrigada. – Ela agradeceu, a voz suave. Parei meus dedos, limpando o resto de pomada em minha calça mesmo. Ela resmungou um pouco, conseguindo toda minha atenção de volta. -Não para. Continua me tocando.
Franzi as sobrancelhas, preocupado por ela ainda estar sentindo dor.
—Por quê? Está doendo ainda? Eu posso colocar mais da...
—Eu gosto do seu toque. – Murmurou, de repente, me pegando totalmente de surpresa. Estanquei, congelado por alguns segundos. Ela estava mesmo insinuando algo daquele teor?
—Oh... uau, você é muito boa nesse negócio de flertar do nada. – Estrangulei como pude, afetado demais pelo quão excitado eu fiquei apenas em ouvir sua voz mansinha e envergonhada sussurrar aquilo. Sorri, animado com a ideia. -Como quiser, Amore.
Estava com saudades de tocá-la daquele jeito mais íntimo. Claro que ainda em alguns momentos eu, ou ela, nos descontrolávamos de saudade e passávamos bons minutos naquela cama, ou em qualquer outro lugar em que estivéssemos sozinhos, em nosso momento de pegação fervorosa, mas também nunca passávamos disso. Leah nunca mostrou interesse em ir até o fim e eu sentia também que ainda não era a hora. Não era como se fosse parte essencial em nosso relacionamento, estávamos indo com calma, e eu confesso gostar do jeito lento que as coisas andavam. Porém, isso não nos impedia de darmos prazer um ao outro.
Por isso, acatei a seu pedido e, de modo gentil, toquei suas coxas, fazendo-a abrir as pernas para que pudesse me encaixar ali, nos deixando grudados daquele jeito gostoso. Minha boca se moveu para a sua quase de modo automático, hipnotizado pela forma dos lábios grossinhos. O beijo dela me fazia flutuar, o gosto de sua língua, o jeito com que chupava minha boca, era alucinante. Eu comandei o osculo, mas foi só porque ela deixou daquela vez. Corri meus dedos por sua pele quente, ora apertando sua cintura com cuidado, ora buscando apoio em seu cabelo, puxando os fios daquele jeito que eu sabia que ela gostava. Um braço dela rodeou meu pescoço, acarinhando minha nuca, esfregando as unhas em minha pele de leve, só para me ver tremelicar. Sua mão segurava meu maxilar com carinho, quase me fazendo suspirar.
Fui pego de surpresa quando ela se mexeu, se acomodando mais no colchão e resvalando de leve em meu membro já teso dentro das calças, arfei, o som abafado por nossos lábios. Foi algo inocente, ela não fez de proposito, mas acionou o gatilho e, por conta disso, apertei sua coxa grossa, sentindo a pele se moldar à minha mão. Tão linda! Ela gemeu, num som tão delicioso que me deixou ainda mais alucinado por ela.
—Baixinho, Principessa. – Provoquei, um pouco ofegante, o coração aceleradíssimo no peito. -Sua mãe está dormindo e Seth está na sala assistindo televisão. Não os atrapalhe.
—Não enche! – Sussurrou de volta, seu peito encontrando o meu por nossas respirações instáveis. Seu tronco sem blusa tocando minha camiseta e me passando o seu calor, o jeito como seus seios se prensavam contra o meu tórax quando eu a puxava mais para mim me deixava louco. Qual é, era impossível não reparar, seus seios estavam quase na minha cara. Ela era perfeita! Beijei-a mais uma vez, uma mistura de mordidas e língua em toda parte. Minha mão criou vida própria e se instalou no interior de suas coxas, apertando e acariciando, tentada a subir mais um pouquinho.
Seus braços desceram conforme minha mão subia mais, contornando meus músculos e me desconcentrando. Prendi-os acima de sua cabeça para que conseguisse me focar no que queria fazer. Não consegui medir totalmente minha força, mas fui cuidadoso. Ela murmurou algo inaudível, de um jeito sensual demais para a minha sanidade aguentar.
—Não, Amore. Devagar, lembra? Hoje é só sobre você, mio bene. – Avisei, descendo beijos estalados por seu pescoço, mordendo todo pedaço de pele que encontrava. Adorava mordê-la, queria poder deixar marcas, mas nossa condição não permitia, portanto me contentava com meu cheiro se misturando ao dela. Passei por sua clavícula marcada, me perdendo em sua forma.
—Derick... – Chamou arfante, o nome saindo com uma entonação diferente pelo sotaque. Parecia uma obra de arte feita exclusivamente para mim. Meu pau pulsou e o ar ao nosso redor se tornou tentadoramente perfumado, porque ela também estava excitada.
Entretanto, num momento primordial desse, batidas na porta cortaram todo o clima. Travei, parando em cima dela em choque. Que não seja Dona Sue, que não seja Dona Sue, que não seja Dona Sue!
—Dá pra vocês pararem com essa safadeza? Eu vou dormir e não quero ouvir essas coisas! – Seth ralhou, a voz arrastada de sono. -Arranjem outro quarto para isso, pelamor!
Meu cérebro deu delay e ficou em error 404 por alguns segundos, divido entre agradecer por, realmente, não ser Dona Sue, ou se lamuriar por termos sido pegos por Seth. Não consegui segurar a gargalhada, contagiando Leah também. Beijei sua boca uma última vez, revivendo seu gosto, e me joguei ao seu lado. Ainda meio bobo naquele conhecido efeito Leah Clearwater.
—Seth é um pé no saco, sério. – Xingou, as bochechas rosadas pelo calor.
—Eu acho que preciso de um banho gelado. – Quase me engasguei, ainda sentindo o efeito da excitação em minhas calças. Senti meu rosto esquentar, porque, sério, era meio constrangedor ficar com a barraca armada assim. Felizmente, Leah não comentou nada sobre isso.
—Tem uma bermuda sua aqui. Pode ir tomar seu banho e acalmar seu amiguinho. – Se levantou, andando pelo quarto escuro até acender a luz e começar a procurar em seu guarda-roupas. Achei muito bem cabível me sentar e puxar seu travesseiro para meu colo.
—Por que você não vem tomar banho comigo e acalma ele você mesma? Ele adora que façam carinho nele. – Tentei, sorrindo safado para ela.
—Eu sei que ele fica muito feliz toda vez que me vê, mas sinto muito. Chega de safadezas... por hoje.
Se ela soubesse quão animado meu amiguinho realmente ficava quando a via, ela não brincaria desse jeito. Joguei a blusa molhada que usava em seu rosto como vingança pela audácia.
—Vou deixar a porta aberta, caso mude de ideia e queira se juntar a nós. — Pisquei, porém ela não viu, já que estava muito mais ocupada em observar meu peito desnudo.
—Bom mesmo, estou com uma dor de barriga daquelas e estou com preguiça de descer lá embaixo. -Mesmo com o clima sexual no ambiente, ela ainda teve coragem de jogar uma dessa. Indignei-me e caminhei até o banheiro, desolado.
—Meu imprinting é uma porca, Dio. Troca um homem gostoso como eu e um pênis a ponto de bala por duas horas cagando. Eu não mereço isso.
Entrei no chuveiro gelado e consegui acalmar os ânimos. Meus hormônios todos se desestabilizavam perto dela, era incontrolável! Quando saí, ela já tinha arrumado minhas roupas e uma toalha na alça do box, mesmo sem eu ter pedido. Eu nem tinha lembrado que havia esquecido de pegar a toalha.
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O tempo passou tão depressa que eu me assustei quando minha mãe avisou que iria fazer uma comemoração de halloween. Tudo estava muito corrido com os treinamentos e o meu novo emprego que me roubava quase todo o meu tempo. John pagava muito bem e o trabalho não era pesado, porém ainda assim era desgastante. Na maioria das vezes, quando o dia terminava, tudo o que eu queria era dormir. Sem pic para qualquer coisa. Leah não gostava muito, muito menos minha mãe, mas precisávamos do dinheiro. E quanto mais horas extras fizesse mais em paz poderíamos ficar.
Os lobos evoluíram muito como treinamento, tanto que alguns conseguiam manter a ligação homem/lobo por vários minutos enquanto lutavam. Leah era uma, e eu me orgulhava muito dela. Allan sabia ensiná-la como ninguém, Joseph treinava pontaria pacientemente por horas e horas com Leah em seu encalço, e Klaus era ótimo em fazê-la enxergar qual movimento fazia errado. Eles ficaram muito mais próximos conforme os dias passavam, cada vez mais ligados, tanto que, às vezes, Principessa conseguia ouvi-los claramente quando transformada. Ainda através de nossa ligação, porém mais claro e alto que antigamente. Isso se dava por eles passarem muito mais tempo com ela do que comigo. Eu não podia reclamar, já que o culpado da falta de tempo era eu mesmo, no fim das contas. Mas ainda sentia ciúme, não conseguia controlar. Sentia-me horrível quando não tinha animo para ir para seu quarto no fim de algum dia cansativo o suficiente para me desmontar e no outro dia encontrar seu olhar acusador.
Sempre me desculpava como podia, rezando para que ela aguentasse só mais um pouco. Mas, no quarto pedido, Leah não esbanjou mais reação, parecendo se conformar com a rotina e eu pensei que tudo ficaria bem. Entretanto, algo em seu olhar me incomodava, um brilho entristecido de quem sabe que alguma coisa ruim vai acontecer, mas tenta disfarçar. Ela sempre se esquivava de minhas perguntas, sempre dando desculpas esfarrapadas, agoniando cada vez mais meu coração.
Ela estava triste com alguma coisa e eu estava envolvido, tinha certeza. Não aguentava mais sentir a aura cabisbaixa dela. No dia da festa, passei horas e horas pensando em como me resolver com ela, cheguei à conclusão nenhuma. Leah era um pouco fechada, uma conversa normal poderia deixá-la acuada e eu não queria ser o estopim para que ela se escondesse mais.
Quando meu horário acabou, quase dei graças de joelhos. Passei na mercearia que mamma havia pedido e peguei alguns doces como me fora recomendado. Apressei o passo, pois sabia que minha Principessa estaria lá e estava maluco de saudades. Não cumprimentei quase ninguém em minha casa, jogando as sacolas para Allan e correndo de encontro ao cheiro dela.
Leah estava sentada, na minha cadeira, na cozinha com minha mãe. Dona Stella parecia animadíssima em tagarelar sem parar, já Leah estava pensativa, distraída. Sem me conter, beijei seu pescoço carinhosamente em uma saudação tímida, arrastando a cadeira ao seu lado para ficar mais pertinho dela.
—Feliz Halloween, Principessa. – Testei para ver como seu humor estava hoje. Beijei sua bochecha com demora, sentindo sua pele em meus lábios. O conforto aquecendo meu coração só pela simples presença dela.
—Feliz Halloween, Rick. – Felizmente, sem hostilidade. Ela devolveu o beijo em meu queixo, quase ronronando quando a apertei em meus braços.
—Então, Leah, como estávamos dizendo: Alexander era muito bagunceiro e certo lobinho puxou o pai até nisso. Era um pé de guerra lá em casa, porque nenhum dos dois conseguia manter a casa em ordem por mais de duas horas.
Mamma continuou, mas não dei muita bola, arrastando a cadeira de Leah para que pudesse deitar minha cabeça em seu colo, sentia falta de seus carinhos. Seus dedos imediatamente se arrastaram por meus cabelos, relaxando-me. Contudo, mamãe estava a monopolizando demais, sempre a chamando ou encarretando outro assunto e nunca deixando-a nem olhar para mim. Assim, não foi intencional quando eu, às vezes, me remexia para a cadeira fazer barulho, ou balançava a perna da mesa fazendo nhec, etc. foi só instinto, eu não tive nada a ver.
—Acho que o lobinho quer atenção, querida. Eu vou lá para dentro, os meninos estão muito quietos, e isso não é do feitio deles. — Mamma disse, levantando-se e seguindo rapidamente para fora da casa, onde todos já tinham saído para alguma competição idiota, fechando a porta.
Ela me encarou, acariciando meu rosto com seus dedos macios, enquanto fazia cachinhos suaves em meu cabelo. O olhar que ela me mandou fez com que eu me sentisse um adolescente tendo sua primeira crise infantil de ciúmes.
—Desculpe por aquilo. Não queria atrapalhar sua conversa, só...
—Só queria atenção. – Terminou por mim, beijando minha bochecha. Fechei os olhos pelo breve momento de êxtase de seus lábios em mim.
—Soa meio patético quando você diz em voz alta.
—Soa mesmo. – Concordou comigo, rindo quando eu ri. -Semana ruim?
—Totalmente. – Suspirei, percebendo bem o brilho triste em seus olhos.
—O que posso fazer para melhorá-la?
—Pode me contar o porquê de estar diferente comigo. – Joguei de uma vez. Ela franziu as sobrancelhas, como se não soubesse do que eu falava. -Eu sei que fiz algo que te incomodou. Pode, por favor, me dizer o que foi? Eu realmente não tenho ideia.
—Você não fez nada.
—Então, o que há? – Inquiri com mais urgência. -Você não me ligou mais, não brigou comigo, nem me chamou de idiota essa semana. Você me olha como se estivesse magoada. Está me olhando desse jeito agora.
—Eu não te liguei porque você estava trabalhando e eu não queria te incomodar ou atrapalhar em algo, não briguei com você porque não fez nada de errado... pelo menos, eu espero que não tenha feito nada de errado. – Rolei os olhos, desacreditando que ela havia mesmo tentado me distrair com piadinhas. -Eu realmente pensava que você odiava quando te chamava de idiota, e eu não estou magoada.
—Esqueceu com quem está falando? Qual é, eu te conheço mais do que você pensa, sei quando está mentindo.
—Qual é, digo eu, idiota. Faz semanas que não podemos ficar sozinhos assim e quando podemos você quer falar sobre isso?
Isso. Falar sobre isso. Agora era certeza. Eu havia feito alguma coisa.
—Sim. Eu quero. Eu fiz alguma coisa, agora é certeza, e eu acho que tenho o direito de saber o que foi.
—Apenas releve, okay? Nós estamos bem, é isso o que importa. Quer dizer, estamos bem, né?
Estávamos bem mesmo?
—Claro que estamos. Tudo bem, como quiser. Mas, quero que saiba, que o que eu fiz foi totalmente sem intenção. E que a única culpada por não receber uma explicação de minha parte ou uma desculpa adequada é você.
—Certo, Abbado. Eu estou ciente disso.
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A ligação de John logo pela manhã não foi surpresa, minha confirmação de que compareceria também não. O único elemento fora do comum foi Leah quase se afundar nas cobertas, claramente acordada e emburrada com algo. Ri de sua irritação, me jogando nela, tentando desembrulha-la.
—Ei, Amore, o que acha de tomar café comigo antes de eu ir?
—Não, obrigada. Vou ficar aqui dormindo. – Resmungou, abafada pelos cobertores.
—Vamos, por favor. Estou morrendo de saudades! – Estava mesmo, louco para ter um tempo com ela. Mas minha animação caiu quando ouvi sua risada amarga.
—Pois não parece.
Sentei-me corretamente ainda pertinho dela, tenso com sua frase. Ela estava usando aquele tom de voz, aquele magoado.
—O que quer dizer com isso?
Suspirou, descobrindo sua cabeça para me olhar. Não consegui decifrar o que se passava dentro dela.
—Não queria dizer nada. Não quero te atrasar. Vá se arrumar.
—Leah, por favor, vamos resolver isso. Eu odeio te ver assim, e não é de hoje que está incomodada com algo. – Quase implorei. Estava claro que não estávamos bem e isso me matava. Não queria fazê-la infeliz.
Ela respirou fundo, parecendo buscar coragem. Vendo isso, segurei sua mão como incentivo. O peso do anel em seu dedo contra minha palma conseguiu me garantir alguma confiança.
—É só que... Bem, você anda afastado e sempre ocupado demais. E nós quase não nos falamos e quando falamos tem que ser super-rápido porque você está atrasado para fazer não sei o que e... Isso me fez lembrar de quando Sam me deixou. Ele também ficou distante e sempre ocupado demais. Ele tinha se cansado de mim, mesmo antes do imprinting acontecer. E... Isso é tão patético! Esqueça o que eu disse. Você não é o Sam e eu sei disso. Vá, antes que se atrase. Estou falando sério agora. – Se virou de lado, querendo se esconder de mim. Mas eu não fiz nada além de encarar o teto, estático na cama, me xingando de todos os nomes. Dio, quão burro eu conseguia ser! -Derick, você dormiu aí? Levante logo!
Era obvio que ela se sentiria insegura! Leah era frágil, tinha consciência disso e mesmo assim continuava persistindo no erro. Mas, apesar do erro ser meu e de ela ter toda razão ao se sentir magoada, Principessa ter nos comparado naquele nível doeu. Eu não era Sam, nunca a trocaria assim. Éramos pessoas totalmente diferentes, vivências totalmente opostas. Saber que ela ainda tinha desconfianças sobre mim, sobre o meu amor, o nosso imprinting, me deixou mal.
—Eu fui tão idiota por não ter percebido. Me desculpe, eu não fazia ideia que isso te traria lembranças de... Eu vou ligar para o John, tenho um tanto de folgas pelo trabalho extra que fiz, não preciso ir hoje. – De qualquer maneira, doendo em mim ou não, Principessa era a mais magoada na história, portanto meu ponto de concentração era ela. E ela merecia desculpas a altura.
—O quê?
—Vou ficar com você, hoje seremos só nós dois. Te deixei de lado, deixei nosso relacionamento de lado, e isso não foi certo.
—Derick, o que...
—Vamos a um encontro. Agora, por favor. Eu... Vamos naquela lanchonete que você adora, ainda não tive a oportunidade de tomar um milk-shake de casal com você. Podemos comer alguma coisa e depois iremos ao cinema em Port Angeles, lembra? Você gostou daquele dia, não gostou? – Falei meio afobado, sem ideia nenhuma do que fazer, soltando a primeira coisa que veio em minha mente. Ela estreitou os olhos, querendo negar.
—Não acho que...
—Amore, estou em débito com você. Por favor, me deixe ter a chance de me desculpar devidamente. Eu não menti quando disse que era terrível nessa coisa de relacionamento e tudo aquilo.
—Você não é terrível. — Murmurou, coçando sua nuca, denunciando seu desconforto.
—Leah, por favor, eu quero me divertir com você. Por favor! Por mim!
Ela me encarou nos olhos, um pontinho de desconfiança no olhar, mas assentiu. Meia hora depois, estávamos a caminho da lanchonete de Forks que ela adorava ir nos tempos de colégio. Era grande, iluminada, e tinha uma decoração bem legal, além, claro, do preço ser bem em conta também. Leah dizia que ela sempre fora cheia de gente, mas nessa manhã estava lotada. As garçonetes zapeavam para lá e para cá em seus patins rosa chiclete, descontroladas com a quantidade de pessoas e pedidos.
Nos dirigimos a uma mesa um pouco afastada, num cantinho bem fresco e mal iluminado. Sentei-me ao lado dela, encaixando-a em meu enlaço e a enchendo de beijos pelo rosto, ansiando por um sorriso dela. O que, graças a Dio, consegui ganhar.
Quando a garçonete chegou para pegar nossos pedidos, fiz questão de pedir um daqueles milk-shakes com dois canudos de casalzinho clichê e mais um monte de rosquinhas de chocolate, porque Leah adora chocolate. Não demorou muito para que ela voltasse, a bandeja cheia de copos equilibrados demonstrando sua experiência. Ela sorriu para Leah, simpática.
—Seu cabelo fica muito bonito curto assim. – Ela elogiou, o sorriso gentil ainda nos lábios. Sorri, concordando com ela. Leah ficava linda de qualquer maneira, mas de cabelo curto seu pescoço ficava mais amostra, deixando seu rosto um pouquinho mais redondo, harmonizando com todo o seu corpo. Ela ficava sexy, despojada daquele jeito.
Paguei a conta e dei uma boa gorjeta para a garçonete, agradecendo. Leah me esperou para tomar o milk-shake e quando comentou sobre como Embry havia ficado após levar um bolo nessa lanchonete eu não consegui controlar a gargalhada, fazendo parte do milk-shake recém engolido sair pelo meu nariz. Não foi algo proposital, na verdade, foi meio nojento e eu sufoquei por longos minutos, mas a gargalhada verdadeira de minha Single compensou qualquer vergonha.
—Você é linda. – Murmurei, perdido na beleza que era Leah Clearwater sorrindo. Seus olhos se fechavam por conta de as bochechas subirem, virando duas meia luas fofas, sua boca avermelhada esbanjava um sorriso perfeito de dentes alinhados. Sua expressão toda fazia com que meu coração quase arrebentasse de amor. -Sorrindo assim para mim então, eu nem tenho palavras.
Suas bochechas coraram adoravelmente, mas antes que pudesse dizer alguma coisa foi interrompida pela fala das duas garotas atrás de nós.
—Até quando aquele deus vai ficar com ela? Fico até com pena. O joguinho que ele está mantendo já anda longe demais.
—Pena de quem? Dela por ser trouxa outra vez, ou dele por estar com ela? Por quê, cara, quem aguenta Leah Clearwater?
Elas gargalharam em deboche, nem se importando em serem discretas. Principessa murchou na hora, a alegria brilhante dando lugar a uma tristeza ruim, cinza. Não combinava com ela. Leah não merecia nada daquilo. Minha vontade era me virar para aquelas duas e gritar em suas caras que eu ficaria, sim, com ela, com muito prazer alias! Casaria com ela, se Leah assim permitisse. Viveria a vida toda com ela! Que era perdidamente apaixonado por aquela garota tão linda por fora, mas ainda mais maravilhosa por dentro! Que elas não chegavam aos pés da mulher que minha Single era! Senti-me tremer, descontrolando-me por um instante, pela primeira vez por causa de humanos.
Respirei fundo, buscando a paz que minha Leah precisava no momento. Puxei-a pelo queixo delicadamente, querendo encará-la nos olhos.
—Não, por favor, não fique triste. Elas não fazem ideia da pessoa extraordinária que você é. – Ela tentou sorrir para mim, tentando esconder sua tristeza óbvia. Quase rosnei de frustração. Justo agora que ela finalmente tinha me perdoado! Justo agora que tínhamos começado a voltar a harmonia de antes! -Olha só o que fizeram! Me desculpe, Principessa. A culpa é minha. Eu que insisti para que me trouxesse aqui. Você quer voltar? Podemos dar uma volta pela praia. Você gosta de lá, não gosta?
Estava na cara que ela não queria mais ficar lá. Deixa-la longe do veneno daquelas pessoas mesquinhas era o mais sensato a se fazer.
—Se quiser ficar eu... – Nem a deixei terminar, estendendo minha mão para ela, já a esperando para irmos embora.
—Vamos, Amore Mio.
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Andávamos pela areia fofinha da praia, nossas mãos entrelaçadas com força, os pés descalços sentindo os floquinhos de terra molhada. Me prontifiquei a segurar seus sapatos também já que estava com os meus na mão, foi difícil coloca-los de um jeito certo para segurá-los apenas com uma mão, mas consegui. Leah se manteve estranhamente quieta, respondendo em monossilábicos e não progredindo com os assuntos que eu tentava puxar. Voltamos a etapa zero, Dio!
—Ei, é sério. Não dê atenção para elas.
—Não estou dando.
—Então por que está tão quietinha?
—Não tenho nada para falar.
—Vou fingir que acredito.
—Derick, não tente... Olha, eu estou bem. Não vão ser piadinhas idiotas que irão me derrubar, okay? Sou mais forte do que aparento.
—E mais sensível também. Você acha que não sei que pode ser machucada? Eu te conheço, Leah... Por favor, converse comigo. – Parei de andar, fazendo-a parar também. Estava farto de ela esconder seus olhos de mim. —Eu estou aqui para você também, não tem que ser essa peça de concreto firme toda hora. – Bufei, agoniado com seu silêncio e expressão cansada. —Confie em mim. É só o que estou te pedindo.
—Não é falta de confiança, Derick. Eu confio minha vida a você. Eu não confio em mim mesma, no que eu sempre faço com as pessoas. É tão patético me sentir assim só por causa de paranoias, mas eu não consigo controlar. Me desculpe! Eu... Não quero sentir isso, não quero ser chata com você, ou quero que você pense que eu sou pegajosa assim, ou que você precisa me... Mas... Você estava tão longe e ... Eu não sei só... Eu realmente não sei explicar.
Atropelou-se em algumas palavras, contudo não precisei de muito para entender onde ela queria chegar. Meu “afastamento” repentino a fez reviver a insegurança de antes. Ela só... só precisava de uma certeza, desconfiada como era. Encaramos o mar a nossa frente, as ondas quebrando com fúria e vigor, o céu cinza e escuro, profetizando a chuva forte que cairia em breve. Eu também não conseguia me expressar tão bem, por isso algumas vezes sempre acabava em encrenca. Éramos dois panacas inseguros que não conseguiam lidar com o sentimento que nos entrelaçava.
—Me desculpe se minhas ações te fizeram ficar insegura sobre os meus sentimentos. Nunca foi a minha intenção. – Apertei seus dedos, tentando ter sua atenção em mim novamente. -Você não tem noção do quão intenso é o que eu sinto por você, e eu tento, tento muito mesmo, externar nem que seja um pouquinho do que explode aqui dentro do meu peito quando chego perto de você. Nada se compararia a isso, Leah. Ninguém mais me faria sentir isso. Só você. Perché tu sei il mio Single. (Porque você é a minha única.) – Não medi tanto as palavras, nem sequer pensei para proferi-las, apenas deixei meu coração me guiar. Se continuássemos fechados daquele jeito, tudo iria ruir. E só o pensamento disso acontecer me deixava desolado. Eu sabia que ela entenderia quando a encarei pedindo um abraço, que me foi dado sem demora. Apertei-a em meus braços, finalmente começando a entendê-la melhor. Ela acariciou minha nuca, o cheiro familiar me embalando. -Quando tiver esses pensamentos, ou quando eu fizer algo que você não goste e te incomode, por favor, converse comigo, me diga. Eu não vou poder adivinhar todas as vezes, e não quero, de jeito nenhum, estremecer o que temos.
—É difícil! Eu não sou como você, não consigo, eu...
Subi minha mão por suas costas, num carinho leve, só para ela sentir que estaria ali para tudo. Tudo mesmo. Nos momentos ruins e nos bons também.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!—Eu sei, eu consigo perceber esses detalhes, Leah. Mas você não pode guardar tudo para você, isso te faz mal. Não pode se esconder dos seus problemas, tem que enfrentá-los de cabeça erguida, como a loba que é. Você consegue desafiar um alfa, contesta as ordens do seu próprio comandante, faz lobos adultos se comportarem como criancinhas, briga com vampiros centenários, lida com ofensas de estranhos e de irmãos, você é forte, Amore, consegue, sim, vencer o seu medo. Eu vou te ajudar, só quero que tenha um pouquinho de confiança em si mesma, em mim, e no que sentimos um pelo outro.
Leah só precisava disso, compreensão e paciência. Amor e carinho também, mas isso eu já dava aos montes. Sempre soube que ela era uma pessoa doce, desde que botei os olhos nela. Lá dentro, lá no fundo, enterrada nas frustrações, mágoas, incertezas e inseguranças, brilhava uma mulher esplendida. E que sorte eu tinha daquela pessoinha ali, encaixada em meu peito, retribuir tudo o que eu sentia.
—Promete que vai me ajudar? Promete que vai ficar comigo?
—Prometo, Principessa. – Sempre prometeria, e sempre manteria minha promessa, custe o que custar. Mas ela teria que me prometer também. -E você? Promete me deixar entrar? Agora de verdade, com todos os defeitos, com todas as falhas, com tudo o que estiver aí dentro.
—Prometo.
Sim, ficaríamos bem.
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