Le Chant des Sirènes
69 Capítulo LXVIII
Notas iniciais
Capítulo LXVIII
A origem da humanidade se deu quando Prometeu criou moldes da forma física dos deuses a partir do barro e lhes deu a alma dos animais. E quando a deusa Atena admirou sua escultura, deram-lhe o sopro divino que consequentemente substituiu a alma pelo espírito.
Ah quem diga que o barro usado estava com o sangue de Cronos que quando fora assasinado pelos filhos, derramou sangue por todo local, sendo assim, dando vida a forma inanimadas. Haviam muitas lendas sobre a criação humana, todavia, todas se remetiam a uma única convicção, os seres humanos eram dentre todas as espécies, a mais frágil e dispensável.
Os deuses mantiveram sua existência quando observaram que aqueles seres supérfluos, poderiam lhe ofertar mais poder. Suas orações e benevolência agraciavam o ego daqueles que sempre estimaram abonações. Fora um manjar dos Deuses.
No entanto, alguns desses pequenos seres, se sentiam no direito de ousar ser mais que um Deus, de alcançar grandes feitos por si próprio. Deuses não se agradavam quando suas criações começavam a pensar por si mesmos, serem independentes. Fora por isso que Prometeu fora punido por ofertar fogo aos humanos o símbolo do conhecimento intuitivo.
Por consequência irritou o mais poderoso dentre os Deuses, Zeus, que se enervou com a evolução da criação. Enquanto o titã era acorrentando no alto de uma montanha tendo seu fígado bicado todos os dias por uma águia enorme, aos humanos fora enviado a caixa de Pandora contendo nela todas as desgraças do mundo.
Era por isso que a humanidade possuía diversos erros e sentimentos ruins que apenas os levavam a tragédias, contudo, ainda assim possuíam esperança.
Lucy jamais compreendeu como os humanos conseguiam se manter firmes em meio a tempestades, por muito tempo os usou de exemplo para jamais desistir de seu destino, mesmo quando tudo parecia coincidir para o contrário. Sobretudo, sua curiosidade pelos seres mortais sempre lhe causou dores de cabeças com castigos como consequência.
Sereias não deveriam sentir, pois nunca lhes fora ensinado a isso. Apenas deveriam servir a Deusa que lhes deram vida e significado a existência, não havia o que se questionar e entender, apenas aceitar. Porém, ela nunca fora assim.
Por vezes se perguntava quais seriam as consequências de suas ações, e ali deitada naquela maca a qual havia acabado de acordar. Compreendeu que seja quais fossem, não recairiam somente a ela.
Teve essa convicção quando se recordou do que aconteceu no portal de Scorpion, em como Natsu perdeu o controle que a dias estava se esforçando para obter.
Algumas pessoas levavam anos para aprender a controlar seu núcleo de energia, e compreender que a magia consistia de átomos e em como você os controlava. Devido a escassez da magia e em como os humanos eram considerados indignos para usá-las, apenas algumas criaturas possuíam tal poder, de controlar o que estava a sua volta. Todavia, Natsu aprendera em alguns dias como lidar com a energia que enervava de si a cada segundo.
Era notório o quão esforçado e forte o rosado era, e então, havia a questão: como ele estava lidando com toda a energia que atraiu do portal?
Passou os dedos pelo ouro que lapidava a chave de Scorpion a qual estava preso juntamente das outras, a energia que emanava do objeto era um indicativo de que Scorpion estava bem e o portal completamente limpo. Jamais imaginou que outra pessoa além de uma sereia celestial, conseguiria esse feito.
Porém, Natsu sempre a surpreendia de alguma forma, sejam elas boas ou negativas. Assim como havia limpado o portal, a havia retirado do tempo invertido do espírito. Lucy havia conseguido se movimentar no local por que havia retrogrado o tempo com sua magia que o próprio star dress do espírito a emprestava. Mas talvez só sairia de lá, quando conseguisse derrotá-lo, no entanto, não houve tempo para isso, o capitão o derrotou antes que pudesse fazê-lo.
De fato, ele sempre seria uma incógnita para si, e sendo assim, por ventura jamais conseguisse o compreender ou prever suas ações. Não era possível ler suas ações como um humano, por que Natsu não era um.
A perfeita representação de algo irreal a qual não deveria existir, assim como o que ela sentia por ele. A sensação de angústia que não a abandonava desde que acordou, era a certeza disso. Decerto que só aliviasse quando o visse a sua frente, bem.
A porta de madeira foi aberta atraindo sua atenção em direção a entrada, seu coração bateu acelerado se precipitando na esperança daquele que aguardava, no entanto se frustrou ao notar três gatos no lugar. Mas não deixando de sorrir para os amigos.
—Luxy, finalmente acordou! — Happy sobrevoou e se sentou em seu colo. – Pensei que jamais acordaria desse efeito que Makarov disse ser da magia de Scorpion. – como consequência de ser retirada a força do tempo, seu corpo levou algum tempo para acordar por completo.
—Desculpe preocupa-lo! — o pequeno azulado desfez o pequeno bico e se aproximou abraçando a sereia. Odiava a sensação que sentia sempre que ficava aguardando todos com Asuka do lado de fora do portal.
—Quero ir com vocês das próximas vezes, posso ser útil! – ditou convicto batendo o pé sobre a coxa dela e dobrando os braços sobre o peito. – Com as minhas asas, posso apenas jogá-la em cima do inimigo.
—Você não conseguiria por muito tempo! — Charles respondeu com sua cara de tédio. – Não tem magia o suficiente para sobrevoar segurando uma pessoa durante uma luta.
—Mas…- o azulado tentou refutar o que a pequena havia dito, porém, não poderia fazê-lo quando ela estava certa. – Por que não me transformo como você Lily?
—Levei anos para atingir essa forma, mas ela não dura por muito tempo pelo mesmo motivo. — A magia era limitada e aqueles que a usavam possuíam um receptáculo com sua quantidade, quanto mais evoluísse, mais poderia usá-la. Todavia, era algo que levava tempo.
—Isso não é justo! — resmungou se acomodando no colo da loira que acariciou sua cabeça em um carinho que fora muito bem recebido pelo azulado, que se aconchegou mais fechando seus olhos. Era apenas um gato afinal.
—Argh, você está fugindo do propósito de nossa visita. — Levou os olhos a gatinha branca que trajava um vestido rosa delicado. -Estamos próximos a ilha Tenroujima, todos a estão aguardando para um comunicado! — arregalou os olhos com as palavras da exceed.
—E que comunicado seria? — questionou ansiosa com a mente pensando em vários significados, e nenhum positivo.
—Vai saber quando chegarmos lá! — fora a única reposta sucinta da gata branca. A loira bufou com certa frustração e apenas se levantou com Happy em seu colo o deixando sobre a cama antes de correr até as botas ao lado do cômodo as calçando com certa pressa.
Ainda estava questionando o motivo de todos apenas irem para a ilha e a deixarem para trás com os três exceeds. Estariam eles de alguma forma irritados com ela? A culpando pelo o que acontecera no portal? Quase roera as unhas enquanto desciam o bote até o mar, com os quatros acomodados.
O falatório dos pequenos seres não fora o suficiente para distraí-la, no momento em que pousou os olhos na ilha a qual sustentava uma enorme árvore essa a qual apoiava uma pequena camada de terra em seu meio, formando assim uma pequena ilha acima da outra.
Seu coração se aqueceu de uma sensação acalentadora, que automaticamente lhe causara paz. Sensação essa que ela não sentia a muito tempo desde que não obteve mais aqueles braços quentes ao redor de si.
—Mamãe? — sua voz soou tão baixo que quase não pudera ouvir, apenas um sussurro com a surpresa.
—O que disse? — olhou para Lily que a olhava com curiosidade, se questionando se a sereia estava louca, murmurando sozinha.
—O que é essa ilha? Tem uma energia diferente que emana dela. — Observou as folhas em tons alaranjados como se estivessem no outono e não no início do inverno.
—É a ilha da Fairy Tail! — Happy respondeu com sua nítida empolgação em falar sobre.
—Zeref a descobriu junto de…Mavis. — Charles falou de forma contida a olhando. – Talvez seja isso.
—É, talvez! — respondeu sem muita convicção. Não possuía certezas sobre o que sentia naquele lugar, mas teve a plena certeza de que estava ligado à sua mãe quando pisou os pés em terra firme assim que atracaram o bote.
Um vento soprou seus cabelos os jogando para o lado como uma cortina, enquanto observava o local que emanava uma energia límpida e pura. Sua mãe não costumava contar sobre sua vida humana, tudo o que sabia consistia em fofocas ou o que lera no diário, apenas isso. Porém, sabia que aquela ilha era de alguma forma especial a ela.
—Vamos Luxy, todos estão a esperando! — o gato azul sobrevoava atrás de si, empurrando seu corpo com as pequenas patas, movimento esse que não surtira muito efeito, mas a sereia apenas assentiu guiando seus passos na direção que a levavam.
Estava escuro em meio as grandes árvores e apenas a luz da lua iluminava o caminho, este que parecia ser bastante conhecido pelos exceed. E após um pequeno percurso, notou uma luz amarela em meio a um bosque silencioso, porém, assim que colocou os pés no local uma grande multidão surgiu em meio às sombras.
—FELIZ ANIVERSÁRIO! — todos gritaram em uníssono a causando um leve susto, olhando embasbacada para todos ali presentes. Levou os olhos a amiga de cabelos azuis curtos a qual sorria de forma sorrateira, jamais pensou que a pergunta despretensiosa de Levy sobre seu aniversário seria para organizar uma festa.
Sereias não comemoravam aniversários, pois não fazia sentindo fazê-lo quando se poderia viver para sempre sem envelhecer. Por que comemoraria algo que sempre teria?
Contudo, no momento que observou a todos lhe abraçando e formando uma pequena roda com música tocando de seus instrumentos, comida postas a mesas e lanternas brilhantes sobre suas cabeças para iluminar. Ela se perguntou do por que não comemoraria.
Às vezes não fazia sentido comemorar algo quando não se tinha com quem fazê-lo. E agora, ela tinha uma tripulação de nome amaldiçoado e mortais lhe felicitando mais um ano de vida, e significou mais do que qualquer outro ano que possuiria de vida.
Seus olhos se iluminaram tanto que assemelhavam as estrelas sobre suas cabeças, os observando festejar coisas que para si eram únicas, a vida.
Não pestanejou quando suas amigas a puxaram em volta da fogueira para dançar e se divertir. Sorriu quando erravam os passos, e se alegrou quando acertava, mas não pode evitar que seus olhos procurassem por ele.
E o encontrou, assim como tinha certeza que sempre conseguiria achá-lo, mesmo em meio a uma multidão. Lá estava, Natsu Dragneel encostado em uma árvore conversando com Laxus e Gildarts, e apesar do leve sorriso em sua face, ela soube que era falso, algo em sua expressão indicava como estava pacato.
Como se sentisse seus olhos em sua direção, o rosado direcionou os seus para ela e então, ela pode ver aquele típico fogo que se acendia sempre que se olhavam.
—Gostou Lu-Chan? — Levy a distraiu da pequena conexão que estava sendo formada entre os dois, e observou a amiga que exibia um imenso sorriso.
—Não acredito que fez isso! — deu um leve empurrão no ombro da baixinha que gargalhou. – Não era necessário!
—Gostaria de levar o mérito, porém a ideia não foi minha.- ergueu uma sobrancelha a olhando de forma questionadora, e a amiga apenas balançou a cabeça em direção aonde ela olhava antes.- ele decidiu fazer isso quando eu contei que seu aniversário estava próximo, por sorte, conseguimos sair do portal a tempo. – Um grande suspiro saiu de seus lábios antes de olhá-lo novamente, é assim como anteriormente os olhos verdes escuros ainda a observava da mesma forma.
Se mantiveram assim por algum tempo, antes que alguém a puxasse de volta para a dança. Sua mente, no entanto, apenas se perguntava, por que ele não havia se aproximado? Por que estava se mantendo afastado? Tais perguntas a deixava cada vez mais frustrada.
Porém, decidiu aproveitar aquele momento com seus amigos e viver as pequenas vivências que estar em meio a Fairy Tail a permitia.
Do outro lado do bosque, sentado por sobre um tronco e bebendo seu costumeiro rum, Makarov observava aquele que julgava seu filho. Notou quando um sorriso ladino surgia nos lábios do rosado cada vez que a sereia gargalhava enquanto dançava com o restante das garotas.
—Como estes dois estão? — olhou de canto para a senhora de cabelos róseas que se acomodou ao seu lado, o mais longe o possível de qualquer outro humano.
—Bem, eu acho! — Deu de ombros bebericando de seu copo.
—E como está o garoto? — questionou levemente curiosa sobre a situação do capitão.
—Digamos que ele estava se saindo muito bem desde que começou a estudar o livro de Levy, e com a sereia o ajudando. – Makarov uniu as sobrancelhas brancas pensativo os observando de longe. — Sempre percebi que de alguma forma, Lucy conseguia trazer a paz que Natsu sempre buscou sentir, ela acalma as vozes e sensações que sempre o perseguiram.
—Isso é algo bom, certo? — questionou com uma sobrancelha em pé o encarando curiosa.
—Sim, claro!- suspirou girando o copo e observando o líquido dentro.- porém, ao mesmo tempo que ela é a calmaria, ela pode ocasionar uma destruição.- Porlyusica o encarou tentando entender o que o velho estava dizendo.- eu vi ele a tirar do tempo invertido e quase matar um espírito, apenas por feri-la. – A rosada assentiu pensativa. – Natsu pode destruir o mundo por causa de Lucy!
—Entendo!- ajeitou sua capa ao se sentar ao lado dele. – digamos que o garoto está por muito tempo preso em um receptáculo, este que possui um tempo determinado de duração, então, cada vez que esse receptáculo fica mais frágil, mais energia é liberada em um corpo que estava acostumado a não possuir nada, e cada vez mais irá ser liberado até o ponto que talvez, Natsu não se reconheça mais.
—Espero que Lucy seja o suficiente para trazê-lo de volta! — ditou com certo pesar em seu coração. Aos poucos tem percebido que Natsu estava deixando de ser o homem brincalhão e descontraído, se tornando cada vez mais irritadiço e sério. Ou apenas quieto como agora. E piorara desde o portal de Scorpion.
—Creio que ela pode ser uma porta para ajudá-lo, mas isso, infelizmente será algo que ele terá de fazer sozinho.
**
Não se recordava da última vez em que sentira tamanha paz e felicidade, dois sentimentos tão similares, mas tão difíceis de vivencia-los juntos. Seu repertório de memórias felizes era pequeno e representado com sua mãe e agora, com a Fairy Tail.
Sentia no fundo do seu ser, que jamais esqueceria o que vivera ali, mesmo que tudo coincidisse para ser o contrário, ela fora mais feliz aquele ano com os mortais do que em toda sua vida.
E todos os pensamentos intrusivos que insistiam em surgir em sua mente a lembrando que ela não pertencia ali, pareciam pequenos e irrelevantes.
No entanto, mesmo se divertindo e aproveitando seu primeiro aniversário desde o exílio de sua mãe, seu coração ainda parecia insatisfeito todas as vezes em que Natsu parecia a ignorar. E no momento que o observou caminhar por entre as árvores, se esgueirando na floresta escura, não pensou duas vezes antes de segui-lo.
—Você está me ignorando? — despejou a falar como uma ave assim que ele parou observando as estrelas. Por um segundo achou que não havia percebido sua presença, mas então, notou as mãos dele tremendo como se tivesse uma doença crônica o impedido de se manter firme. -Está tudo bem? – observou quando levou um cigarro aos lábios.
—Por que não estaria? — a voz grossa soou firme enquanto soltava a fumaça pelos lábios, os olhos a encaravam com firmeza sob o luar.
—Não sabia que possuía um hábito tão nocivo. — falou olhando o objeto em seus lábios que se ascendida toda vez que seu pulmão tragava a nicotina.
—Todos meus hábitos são nocivos amor! — a forma despretensiosa que ele disse, causava um arrepio em sua nuca. Os olhos castanhos o encararam em busca de algo que sua expressão pudesse dizer o qual não saia de seus lábios. Mas não havia nada, Natsu não demonstrava nada além de apatia. – Mas eu costumo fazer uso desse quando estou nervoso.
—E por que está nervoso? — questionou cruzando os braços sobre os seios, podia sentir seu olhar a observando como uma brasa queimando sua pele. Como se a tocasse sem colocar os dedos.
—Quando não estou nervoso? – revirou os olhos para a resposta dele, e um mínimo sorriso surgiu em seus lábios, atraindo a atenção da sereia a eles. – Feliz aniversário Lucy! – permitiu que seus braços caíssem ao redor de seu corpo e apenas suspirou.
—Obrigada… por tudo! — ela o agradecia não somente por aquilo ou a festa, mas por tudo em que ele tem feito e representado. E ao observar seus olhos castanhos límpidos ele compreendeu.
—Você fez muito mais por mim. — Deu de ombros como se não fosse nada e se encostou em uma árvore, observando os vagalumes brilhando ao redor.
—Que conversar sobre o que aconteceu no portal? Acho que devemos! — se aproximou a ponto de sentir o calor que seu corpo emanava.
—Acho que não devemos, não hoje! — a olhou de canto e notou o pequeno bico de indignação que se formava. – Está tudo bem Luce, tive um momento de descontrole e permiti que as vozes tomassem conta de mim, mas você me trouxe de volta, como sempre faz. – forneceu um sorriso acanhado em seus lábios antes de erguer a mão e tocar delicadamente a pele delicada.
—Eu não fiz nada! — tudo o que fez foi acordar naquela maca após tudo ter acontecido sem ter ideia do que se passava. Lucy fora apenas um peão inutilizável.
—Não precisa fazer muito, basta que eu olhe em seus olhos. — Virou se de frente para ela e segurou com firmeza seu rosto. – Eu não vou mentir, tem um arrepio na espinha a cada segundo com uma sensação de que posso perder o controle a cada segundo, com mil vozes em minha mente, mas está tudo bem. – Levou a mão até a dele e segurou seu pulso com firmeza, acariciando a pele com os dedos. – Por que eu só preciso de você ao meu lado para que tudo passe. – Seus olhos não desviaram um do outro, uma avalanche de emoções o atingia. – Vem comigo!
Segurando em sua mão, ele a guiou por mais afundo da floresta. Não tinha ideia aonde ele poderia a estar levando, porém, os passos firmes em meio ao escuro, indicavam que o rosado conhecia cada canto daquela ilha.
Chegaram então a um tipo de lago que brilhava como se as próprias estrelas estivessem ali. A sereia pode compreender do por que o local emanar tanta energia, era recheado de vida em todas as suas formas e consequentemente obtendo uma forte ligação com seu ser.
—É lindo! — observou o lago tão brilhante que chegava a iluminar o local apenas com suas luzes amareladas.
—Sim! — assim como todas as vezes ele confirmou enquanto mantinha seus olhos nela. -vem! — a puxou em direção ao lago.
—Natsu…- não houve tempo de dizer mais nada, antes que ele a levasse de roupa e tudo a jogando na água. Emergiu o olhando com certa raiva, enquanto ele apenas sabia rir.
Aproximou devagar apenas para segurar em sua nuca, enfiando as mãos dentre os fios loiros os segurando com firmeza, somente para alcançar seu rosto ao dela. Seus narizes tocaram devagar antes de seus lábios se esbarrarem em um pequeno choque.
Havia algo de diferente naquele beijo, não fora rápido ou bruto, fora delicado assim como as mãos dele em seu corpo. A delicadeza em que ele a tomou para si naquela noite, fora diferente, a forma em que ele beijou e tocou com calidez cada parte de seu corpo, como se quisesse eternizar e gravar cada momento e adora-lo. Fora como se dissessem eu te amo sem dizer as palavras. Fora como uma despedida.
**
A primeira coisa que notou quando abriu os olhos, fora o teto da pequena caverna que se acomodaram, e posteriormente o braço de Natsu sobre sua cintura, o rosto dele em meio às suas madeixas escondido em seu pescoço, causando cócegas em sua pele. Virou-se delicadamente para observá-lo dormir, e gravou na mente a expressão de paz em seu rosto, a forma como seu nariz era charmoso mesmo que um pouco torto de alguma vez que o quebrara ou como os lábios eram grossos e quentes.
Tocou-lhe delicadamente, perpassando de leve os dedos sobre a pele quente em um desenho invisível de seu semblante.
No entanto, sentiu algo pulsar em seu colo e ao abaixar os olhos, observou o colar de Anfitrite brilhando como uma chama a atraindo. A deusa a estava lhe chamando.
Tal constatação lhe causara certo desconforto em seu coração, de alguma forma Lucy sabia que não era algo positivo.
Desprendeu-se devagar do corpo do homem e vestiu suas roupas com agilidade e quando já estava vestida, se abaixou ao lado dele e tocou levemente seus lábios nos seus.
—Eu te amo Natsu! — soou em um sussurro quase desesperador e enfim aliviado, como se estivesse preso por muito tempo.
E se virou saindo da caverna sem olhar para trás, pois temia que perdesse a coragem que necessitava para encontrar a Deusa. Como uma de suas servas, Lucy tinha a obrigação de ir sempre que sua mestra a chamava sem pestanejar. Era essa a vida das sereias, servir a deusa dos mares Anfitrite.
Não precisou caminhar muito, apenas chegar a praia para encontrar a deusa em sua forma humana a aguardando sobre uma pedra grande. Seu pulso dera um salto e parecia acelerar mais cada vez que se aproximava da mulher de cabelos escuros.
Os deuses não podiam aparecer em sua forma natural quando estavam em terra, pois o seu brilho poderia matar quem os olhasse diretamente, por isso apareciam em suas formas humanas ou tomavam a forma de um. Assim como é em sua majestosa aparência de deusa, Anfitrite era tão bela quanto em sua humana.
—Mandou me chamar? — representou uma pequena reverência sob os olhos clínicos da outra.
—Só assim para vir, não é mesmo? — havia um quê de sarcasmo no tom de sua voz, e ali a sereia teve a certeza de que algo havia acontecido. – Pensou que eu jamais descobriria Lucy? — arregalou os olhos enquanto observava a areia, sentindo um pavor tomar conta de seu ser. – você acha que pode apenas ignorar o seu dever? Seu lugar não é aqui!
—Eu ia voltar…
—Mentira! — berrou a impedindo de prosseguir. Ergueu os olhos apenas para ver o desprezo nos de Anfitrite. — Assim como a mãe a filha é uma mal-agradecida! – Lucy apertou as mãos tão forte que os nós de seus dedos ficaram brancos. – Você desobedeceu minhas ordens, você foi contra seu propósito!
—E qual propósito seria esse? Viver em função daqueles que não se importam comigo? — o choque trespassava toda a feição da mulher.
—Está falando como eles, se tornando estupida como um humano! – ergueu o queixo a subjugando. – Achou que não teria consequências suas ações? — arregalou os olhos se aproximando.
—A maldição foi quebrada! — a risada da deusa a causou calafrios feito o vento frio no inverno.
—Vocês nunca estarão livres da maldição, ela sempre vai fazer uma forma de contornar e tentar obter o que lhe foi roubado. – Negou com a cabeça, a balançando de forma que seus fios dourados batessem em seu rosto. Se negando a acreditar.
—Lucy! — a voz lhe chamando em direção a floresta lhe causou pânico e observar os olhos azuis atentos na direção, não lhe causou paz.
—Por favor, não faça nada a ele! – implorou atraindo a atenção da mais velha que a observou com curiosidade, mas seus olhos se voltaram ao garoto que saiu em meio mata vestindo uma camisa aberta e calças.
—Sabia que fora nessa ilha que os pressupores da maldição se entregaram ao amor? — não conseguiu disfarçar a surpresa estampada em seu rosto. – E também fora aonde Mavis a teve. – E aonde ela tentou lhe esconder, mas não contaria aquela parte a ela.
—Lucy? — ainda estava digerindo as informações quando ouviu a voz que arrepiou todo ser corpo, como um mal agouro.
Antes que Natsu pudesse perceber a água do mar se elevou se agarrando a ele, como uma corda, permitindo que apenas sua cabeça estivesse de fora.
—Deixe-o, eu vou com você! — gritou desesperada para a deusa que apenas a olhou com indiscrição.
—Vai porra nenhuma! — o rosado berrou tentando se desprender das amarras líquidas que possuíam a força do metal mais duro.
—Você precisa ser punida Lucy, porém, mesmo que eu a leve comigo, ainda não seria suficiente. — Os olhos castanhos tremeluziam sobre o escrutínio da deusa, naquele momento ela se sentiu pequena e soube que jamais estaria párea aos imortais dos céus. – Seu martírio será com aquele que você deu sua devoção. – Seu corpo estava paraliso feito uma estátua, não somente o medo a impedia de se movimentar como também a água do mar presa aos seus pés como uma vaga lembrança de que ela jamais poderia abandoná-lo. A água que prendia o corpo do rosado suspenso ao chão, subira por sua cabeça como uma espécie de mão que o segurava com certa brutalidade.
—Por favor, não o mate! — implorou sem se importar em qual impressão estava causando ou em como havia abandando sua armadura de indiferença frente aos seres aquáticos. Não se importava que seus olhos estivessem cheios com lágrimas que insistiam em cair por suas bochechas, lágrimas essas que não deveriam existir em seres mitológicos como as sereias.
Anfitrite analisou a reação da sereia que por muito tempo considerou sua filha, desde o seu nascimento Lucy havia carregado um grande peso em seus ombros e por muito tempo obteve dificuldade em carregá-lo, até que se tornou forte o suficiente para nunca demonstrar o quão pesado era. No entanto, naquele momento a Deusa pode observar sua fragilidade em apenas ponderar com o que aconteceria ao homem, se colocando frente a ele sem ponderar as consequências.
Era como se visse a própria Mavis ali quando pediu ajuda da deusa para se unir ao seu amado ou quando pediu que a filha fosse livre dos mandamentos dos mares. Aquilo fora um baque maior do que esperava, não estava habituada a lidar com sentimentos expressivos, muito menos eles vindo de suas servas.
—Sua condenação será ter de viver sem poder tocar! — ergueu uma sobrancelha em questionamento, sem compreender o que a deusa proferia. Natsu por sua vez, estava com os lábios presos sendo impedido de proferir xingamentos mais pesados que sua mente orquestrava a mulher a frente. – Pior do que não ter quem se ama ao lado, e ter de conviver com a indiferença daquele que amou. – E então, a mão líquida que segurava Natsu se ascendeu como uma lanterna em meio a escuridão da praia, coberta apenas pelas estrelas.
Os lábios foram destapados apenas para que os berros ensurdecedores do capitão da Fairy Tail fossem libertados, aquilo era como um fomentador a deusa que exibia um sorriso satisfeito em observar seu sofrimento.
Enquanto a sereia observava tentando se soltar e o livrar da agonia, porém, apenas mantinha alguns centímetros de espaço entre eles e ainda assim, não conseguia salvá-lo. Teve de visualizar sem poder interferir Anfitrite o ferindo.
—Pare! — berrou já não suportando as lágrimas que inutilmente tentou segurar. Anfitrite por outro lado observava com curiosidade o selo na mente do garoto, feito por algum xamã que usava de magia negra, e algo estava sendo preso por aquele selo. Aquilo havia atraído sua atenção.
E então, como se um interruptor fosse desligado, o silêncio reinou pela praia aonde apenas as ondas do mar se eram ouvidas. O corpo do rosado caiu desacordado ao chão quando a água o soltou como se não fosse nada. Lucy correu até ele assim que desprendeu seus pés, se abaixando ao seu lado e conferindo seus batimentos, ainda estava vivo e suspirou aliviada ao constatar.
—Vai permanecer na sua missão de limpar os portais e vai ser obrigada a conviver com a indiferença dele. – seu corpo paralisou ao fim das palavras melodiosas e olhou para a mulher que apenas ergueu a mão se abanando. – Eu tomei dele aquilo que não deveria existir. — Odiava que deuses falassem apenas em metáforas, mas ela havia entendido, e aquilo doeu como uma faca em seu peito. – e cada vez que pisar em terra firme vai sentir como se cacos de vidro enfiasse em seus pés, apenas para lembrá-la que aqui, não é seu lugar. — Uma luz azulada iluminou toda sua perna até os pés com o encantamento da deusa, ou por assim dizer, maldição. Deuses apenas puniam aqueles que se achavam no direito de desobedece-los ou o enfrentarem, seu fim era apenas uma maldição o punindo para sempre se lembrar o quão insignificante ele era. – E assim é! — e com isso a mulher desapareceu deixando para trás suas palavras proferidas ao vento, com as estrelas de testemunha.
Levou suas mãos até o rosto do rosado e acariciou sentindo sua quentura, observando a umidade desaparecendo lentamente, evaporando com seu calor. Seu coração ainda estava angustiado e apenas aliviou quando viu as pálpebras se abrirem e as orbes verdes a encararem com certo assombro.
—Quem é você? — aquelas três palavras foram como uma dor física concentrada em seu coração.
Anfitrite havia apagado Lucy da memória de Natsu, e com elas, seus sentimentos.
Fim!
“Esses prazeres violentos tem fins violentos,
E morrem em seu triunfo, como o fogo e a pólvora,
Que, ao se beijarem, se consomem.”
—William Shakespeare-
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