Leão do Inverno
1 Livro Um — Prólogo
Notas iniciais
Na quarta semana de outono na Inglaterra, boa parte da paisagem já estava pintada de laranja e amarelo e as árvores começavam a perder suas folhas. Em bairros residenciais e comerciais todos davam início aos preparativos para o Halloween, atirando falsas teias de aranha pelos muros, pregando morcegos de cartolina escura nas paredes e encomendando toneladas de abóboras para cortar e fazer suas lanternas sorridentes.
Foi neste clima agradável que Katherine Winter entrou em trabalho de parto, duas semanas antes do estipulado por seu obstetra, para o desespero de Ethan, seu marido.
Depois de cerca de uma hora na sala de cirurgia, a Senhora Winter deu a luz a duas garotinhas gêmeas. A primeira, Kate chamou de Alexandra, e a outra deu o nome de Samantha.
Quando Ethan foi visitar as filhas, todo envolto numa roupa-higiênica azulada, usando máscara, luvas e touca, deparou-se com dois bebês absolutamente idênticos. Eram saudáveis, mesmo sendo um pouco prematuras; tinham tufos de cabelo castanhos, como os de Katherine, e a pele azeitonada era de um cor-de-rosa adorável.
A princípio era quase impossível diferenciá-las. Era como encarar um reflexo no espelho. Os intensos olhos muito azuis eram os mesmos, as bochechas coradas eram iguais e os cachos de um chocolate profundo permaneciam idênticos.
Com o passar do tempo a personalidade passou a diferir-se, e era mais simples reparar em como Alexandra dormia mais ou em como Samantha organizava seus brinquedos por ordem de cor.
Dois anos depois do nascimento das gêmeas, Katherine Winter descobriu que estava novamente grávida, porém, desta vez, de um menino. Thomas chegou durante a primavera, numa noite muito abafada de abril, e Alex segurou forte na pequena mão de Sam quando viram o irmãozinho pela primeira vez, comprimindo os rostinhos rosados contra a vidraça da maternidade.
Aos três anos as meninas estraram para a pré-escola e até então participavam do mesmo circulo de amizades. Kate achava extremamente fofo vesti-las com roupas iguais, e isso confundia tanto os professores quanto as próprias crianças que frequentavam o Young England Kindergarden, que ficava praticamente ao lado da Catedral de Westminster e a vinte e cinco minutos, de carro, da Arkwright Road, onde a família Winter vivia.
Com o passar dos anos, porém, os estilos traçaram linhas tão desiguais, que, mesmo Sam e Alex ainda sendo surpreendentemente idênticas, já não era mais possível confundi-las.
Samantha era delicada como um lírio, usava seus cabelos muito bem penteados e invariavelmente era vista com vestidos, saias e laços. Alexandra preferia usar largas camisetas de bandas desconhecidas para combinar com seus cabelos propositalmente desordenados, colecionar quadrinhos e jogos de videogame e jogar RPGs na internet. Enquanto uma pintava e tocava piano, a outra preferia ouvir músicas indie e rechear as prateleiras com literatura fantástica.
Os contrastes, porém, nunca afetaram no relacionamento que tinham. Eram muito unidas, absurdamente vinculadas, confidentes e amigas.
Alexandra aprendeu a pedalar primeiro, e quando Sam tirou as rodinhas de sua pequena bicicleta, foi a irmã quem lavou seus joelhos ralados e a encheu de beijos para que os soluços parassem – instantes depois Samantha já não podia se lembrar do motivo do choro.
Na segunda série, um valentão chamado Mark Stewart cortou os cabelos da Barbie Ginasta de Sam. Ela chorou por horas, mas Alex segurou seu rosto molhado entre as mãos e encarou os imensos olhos azuis que eram a cópia dos seus:
— Não chore.
— Mas ele co-cortou os cabe-belos da mi-minha boneca! – A gêmea mais jovem soluçou, esfregando os olhos com as costas das mãos gordinhas.
— Lembra-se do Aslam, de As Crônicas de Nárnia? – Alex esperou a irmã assentir, e então prosseguiu. – Há leão como ele no nosso mundo; chama-se Kitty...
— Um leão chamado Kitty? – De repente Samantha parou de soluçar e ergueu os olhos irritados e úmidos para encarar seu reflexo. – Tem certeza?
— Absoluta! – Exclamou a outra, sorridente. – Kitty é um bom leão. Ele não é assustador; é apenas bondoso, como Aslam. E Kitty costuma presentear as crianças que realmente acreditam nele.
Houve um momento de silêncio, e então Sam perguntou, timidamente:
— Ele pode restaurar minha Barbie?
— Mas é claro que pode!
Naquela noite Alexandra esperou acordada por muito tempo depois de sua mãe ter deixado o quarto. Abriu delicadamente seu baú de brinquedos e tirou de lá uma caixa nova e intacta que continha uma imaculada Barbie Ginasta.
Ela, com toda sua sabedoria profunda de oito anos de idade, odiava aquelas bonecas de rostos plásticos, cabelos de palha e sorrisos vazios, mas carregou-a com todo o cuidado para o quarto da irmã, substituindo a sósia de cabelos arrasados pela que trazia.
Na manhã seguinte, Alex acordou com Samantha sobre si, sacudindo-a pelos ombros e chacoalhando a boneca nova.
— Ele veio, Alex! – Ela dizia enquanto saltava sobre seu abdômen. – Seu leão mágico veio!
As gêmeas Winter eram dois pedaços de um todo, incompletas se afastadas. Talvez não houvesse um casal de irmãs mais próximo e interligado.
E foi por esse motivo que Alexandra passou a sentir-se mal depois da puberdade.
Ela sempre soube que era diferente em relação às outras meninas. Quando brincava de casinha com Samantha, ela sempre era o papai, e esporadicamente trocava um selinho ou dois com a irmã.
Quando citavam família e casamento, Alex Winter simplesmente não conseguia se imaginar passando o restante de seus dias com um homem. Todas as suas amigas falavam de namorados e encontros, mas ela apenas não era capaz de se interessar por nada daquilo.
No último dia de aula da sétima série, início do verão, ela estava sentada no jardim de sua antiga escola com Olivia Gold, sua melhor amiga, quando Samantha apareceu, vinda de lugar nenhum, portando bochechas muito vermelhas e um sorriso gigantesco.
— Preciso falar com você – e Via prontamente se retirou. Antes não o tivesse feito. – Eu o beijei! – Sam disse num tom muito agudo, quase saltitando. – Eu beijei Arthur Kingsley!
Alex não teve reação; apenas observou a irmã suspirar e concentrar todas as suas forças para não entrar em combustão. Depois de ter conseguido absorver a notícia, a única coisa que pôde fazer foi forjar um sorriso e grunhir um “legal” absolutamente sufocado pelo nó em sua garganta.
Ficou nauseada pelo restante do dia e foi incapaz de comer até o desjejum da manhã seguinte. A ideia de alguém tocando Samantha lhe provocava uma ânsia sem precedentes.
Durante aquela madrugada ela descobriu muito claramente que seus sentimentos por Sam excediam as linhas da fraternidade; talvez ela já soubesse disso em algum ponto cego de seu íntimo, soterrado pela moralidade e pudor. Mas estas muralhas de conceitos simplesmente se desintegraram à simples menção da imagem de Arthur Kingsley e sua língua nojenta violando os delicados lábios de sua irmã.
Sua irmã.
As palavras pareciam ecoar por sua mente enquanto as lágrimas escorriam por suas bochechas.
Narcisista. Desequilibrada. Egoísta. Egocêntrica. Eram tantas as palavras que poderiam descrevê-la... Incesto era algo absolutamente inaceitável por si só, quando se lidava com gêmeos, então... Céus! Que tipo de doente era ela?
Ela poderia jurar que nem mesmo Hitler se amava tanto a ponto de se imaginar beijando o próprio reflexo. Porque Samantha era isso. Seu próprio reflexo.
E aquela situação tornava-se cada vez mais sufocante. Ela desejava Samantha descomunalmente, com todas as suas forças, de forma gritante e incontrolável. Seu corpo tremia ao vê-la sorrir, cada átomo de seu ser parecia vibrar ao provar da voz delicada ou do riso melodioso. Quando recebia seus beijos – demorados e estalados beijos na bochecha – todo o ar de seus pulmões parecia fugir.
Era impossível vê-la desfilar pela casa com seus vestidos curtos e shorts minúsculos sem sentir as bochechas corando. Já tornara-se um ritual fugir cada vez que se deparava com Sam usando apenas roupas íntimas e depois ser assombrada pela imagem sensual que a fazia apertar as coxas e gemer o nome da irmã contra o travesseiro enquanto seus dedos trabalhavam em sua intimidade úmida.
Sentia-se culpada. Muito culpada. Mas não podia fazer nada para evitar.
Buscou outras garotas, várias delas. Conheceu os prazeres que poderiam lhe proporcionar, e, ainda assim, tudo o que continuava querendo era sua irmã gêmea.
Este pensamento a fez afundar o rosto nas mãos, escondendo a pele manchada por olheiras e maquiagem borrada. Passara a noite no apartamento de Belle Parker, a psicóloga da Westminster School. Acidentalmente chamara-a de “Sam” enquanto se desfazia contra sua boca pela terceira vez naquela noite, e ficara com vergonha o suficiente para sair sorrateiramente pela manhã – não que fosse a primeira vez que fazia aquilo.
— Onde dormiu? – Samantha surgiu pela porta da cozinha, com o roupão aberto revelando o vale entre seus seios redondos.
— Na casa da Olivia – mentiu, encarando fixamente sua xícara de café forte e sem açúcar. – Avisei o papai.
—Certo – Sam assentiu, apanhando uma caixinha de suco na geladeira. – Hoje é meu último ensaio para o recital de sábado.
— Hm – foi tudo o que pôde dizer.
Seja legal com ela, garota estúpida. Seja legal com ela!
— Quero dizer – retomou, percebendo a decepção no rosto da irmã assim que tomou coragem de erguer os olhos – muito bom. Você se sairá bem. Gostaria... Gostaria de usar minha camiseta do Batman sob o figurino? Para dar sorte.
E o rosto de Samantha iluminou-se. Um sorriso imenso se abriu, revelando os dentes muito brancos. Os olhos azuis brilharam no rosto perfeito e ela jogou-se nos braços de Alexandra, fazendo a xícara de café oscilar perigosamente sobre o vidro frio da mesa.
Alex não se atreveu a respirar, sentindo seu baixo-ventre esquentar ao perceber que estava com o rosto entre os seios macios da irmã.
— Claro que gostaria – Sam respondeu, acariciando suas bochechas e mantendo sua cabeça erguida para olhá-la nos olhos.
Delicadamente a garota beijou a testa da irmã mais velha, afastando-se apenas para suspirar um:
— Você é a melhor irmã do mundo.
Saltitando, Samantha Winter deixou a cozinha, sumindo pelas portas envernizadas e deixando uma Alexandra atônica, respirando com dificuldade e com um pensamento fixo na mente conturbada:
Estou perdidamente apaixonada.

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