Laís Lilás

2 Onde está meu raio de sol?


Notas iniciais
Esse capítulo é pra Ysllia, coisa mais fofa da minha vida que me pede pra postar mais capítulos e ainda me dá ideias. Liamu ♥

Os dias caminham lentos e a mão do destino se estende ao improvável. As ruas bêbadas sorriem diante do caos humano, assim como o ser humano se ri do caos que vive nas ruas. Humanos nem sempre tão irmãos. Nem sempre tão humanizados.

Bárbara ia trabalhar enquanto Laís ficava em casa com Bruno e Alice (a irmã mais nova). Júlio era escritor e passava os dias quase sumido, trancafiado em seu escritório, pensando, olhando o ser das pessoas, dos carros, das ruas. O vento roçando nas plantas com sensualidade. O sexo das coisas, a reprodução da vida.

Seu mundinho. Seus mundinhos. Cada um no seu

De vez em quando, Júlio saía de sua toca poética e ia conversar com Alice.

Era ela quem dava espaço pro homem ter uma ponta de amizade. Tinha que dar, afinal, era sua única filha de sangue. Bruno conversava às vezes com ele sobre política ou algo tão babaca quanto, e eles quase sempre divergiam, mas se respeitavam.

Laís era quem nem ligava e escassamente trocava palavras com o padrasto, de quem não gostava de nenhuma forma. Simplesmente não conseguia. Apesar dos anos de casamento da mãe com ele, não tinha como.

Os livros da casa estavam acabando pra ela, e quase já conheciam as suas digitais, seu toque, seu carinho. Tinha uma edição antiga, antiga, de Pássaros Feridos (seu livro preferido), e outra mais antiga de Orgulho e Preconceito (seu livro do coração). Há alguns anos atrás, quando o lera pela primeira vez, o fato de Darcy ser fictício não a impediu de se apaixonar por ele. Tão meigo…

Já pássaros feridos fora-lhe emprestado por uma professora sua de literatura, a melhor que já tivera, um ser que admirava inigualavelmente. E já o lera tantas vezes que até apelava pra minissérie, que estava assistindo pela internet.

Também se apaixonou por Lolita, do Nabokov, um livro doentio em todos os sentidos: temática, escrita, e na sua rapidez em fazer alguém viciar-se nele. Outra história que vira nessas suas férias prolongadas (as duas versões, de 1997 e a de 1962).

Abria os vídeos e ficava horas com o notebook no colo, deitada, assistindo. Quando não estava fazendo isso, estava lendo algo novo, ou repetido. Ou Harry Potter, que não se encaixa em nenhuma das categorias, já que, apesar de repetido, sempre era novo. Outro grande amor.

Nunca sequer lera um livro de Júlio, e se recusava, quase tão veementemente quanto a ler Paulo Coelho. Ele também nunca a pediu que lesse.

Era nesse silêncio que prosseguiam.

E, assim, o tempo passeara, devagar para Laís, rápido para a mãe — uma enfermeira que quase não podia respirar de tão atarefada- e quase que em equilíbrio pros demais. Bruno estudava engenharia na faculdade e, no fim de janeiro, Alice voltara a frequentar a escola.

Por chegar em casa sempre muito cansada, Bárbara mal via os filhos. O máximo que fazia era ir ver a filha mais nova, de então 12 anos, à noite. Bruno era quem mais cuidava dela e de Laís. Quase sempre viviam em paz, apesar de que Alice (que é de Gêmeos) e Laís de vez em quando tinham algumas faíscas.

Mas, ultimamente, algo diferente acontecia. Laís só dormia o dia inteiro, e, quando estava acordada, às vezes sentia muita dor. Achava que era sua gastrite atacando, então tomava o remédio de sempre e esperava melhorar. Não tinha apetite. A preguiça cada vez mais tomava conta dela, pois sentia um cansaço quase intrínseco ao seu respirar.

Enquanto isso, Micael continuava quase que ausente.

Ele voltara a aparecer na internet, mas se falavam cada vez menos, e, quando saiam, a emoção dele parecia sempre mais escassa. Os sorrisos eram menos felizes, e a relação de quase um ano foi se desgastando.

Começo de março, as aulas de Micael se iniciaram na quinta-feira. No sábado da semana seguinte, ele e Laís foram ao cinema. Assistiram algum filme e Laís nem se lembrava de qual era quando eles sentaram na mesa da praça do Shopping, pois estava muito absorta em seus pensamentos e tentava controlar a sensação de mal estar, sem querer incomodar o namorado com sua gastrite estúpida.

– Laís, o que cê tem?

– Nada, Mika, por quê?

– Cê tá muito estranha.

– Ah, tô com uma dor boba, nada demais.

– Não agora, cara. Ultimamente você tá muito estranha.

– Não sei te explicar, de verdade.

Micael olhou pro chão e ficou segundos intermináveis tomando coragem pra falar:

– Laís, não tô mais contente. Sinceramente, o nosso namoro anda muito esquisito e eu não quero continuar com isso.

Laís tomou um susto e ficou sem reação por alguns minutos.

– Por quê? Não tô entendendo sua reclamação, de verdade. Cê tá terminando?

– Você tá muito diferente da Laís que eu conhecia. Onde está meu raio de sol? Nem sequer sorri da mesma forma. Parece que não gosta mais de mim…

– Como parece que — enfatizou — EU não gosto mais de você? Não fui eu quem ficou dois meses sumido. Na boa, Micael, eu já vi muita desculpa ruim pra terminar, mas essa é digna de Oscar.

– De qualquer forma, eu também já não sinto o mesmo.

Isso era um motivo.

Ela ficou calada. Já tinha até esquecido a dor que antes sentia.

– Mas, por favor, podemos continuar amigos?

Laís o olhou com sua melhor cara de deboche, soltou um muxoxo e riu ironicamente.

– Ok, Micael, seremos amigos. Na próxima vida. Agora me deixa em casa.

Os dois seguiram no carro sem olhar um pro outro e Micael pediu desculpas de novo quando ela ia descendo.

– Você tem problema, certeza! Me esquece, seu babaca.

E bateu a porta.