Notas iniciais
Esse é pra Nanda, que é a melhor.Pequenininho feito ela. ♥

Almoço de domingo e Laís já não comia há dois dias. Desde a sexta feira, dia anterior ao término com Micael. Bruno se descabelava de preocupação.

– Se eu pego esse Micael, eu mato, Laís, EU MATO!

– Deixa disso, Bruno. Essas coisas vem e vão — respondeu a mãe, preocupada com o que o filho faria. Ele era um rapaz muito bom, mas, na raiva, seu gênio afobado prevalecia e ele fazia besteira. Era forte e lutava, então Micael realmente podia se dar mal numa dessas.

Laís afastava a comida no prato de um lado pro outro. Seus ossos do pescoço estavam estilo saboneteira, e seus olhos mais amarelos que o sol. Bruno a assistia com desgosto e tristeza.

Como odiava ver sua irmãzinha assim…

A irmãzinha de quem cuidara quando era menor, com quem brincara. A que amava mais que tudo no mundo. E vem um marmanjo desses e faz isso com ela?! Ah, não…

– Bruno, para. Eu já fui grossa com ele e até me arrependo disso. Fui infantil. Como mamãe disse, essas coisas vêm e vão. Tô triste, sim, muito. Mas não vou morrer por isso…

Laís tentava apaziguar, mas, no fundo, ainda sentia raiva de Micael e não entendia sua decisão descabida, quase aleatória.

– Vai morrer se ficar mais um dia sem comer. Come. Agora.

Seguindo a ordem do irmão, Laís pegou uma garfada e pôs na boca. Mastigou lentamente, quase que com nojo. Engoliu.

– Que cara é essa, minha filha? Tá ruim desse jeito? — Perguntou Bárbara, ao ver a cara da filha.

– Bá, essa menina não tá bem há dias — falou Júlio, pela primeira vez se manifestando na conversa, preocupado com a entiada.

– O que você tem, Laís?

Laís olhou com cara de reprovação pro padrasto. Por que ele tinha que se meter nisso? Intrometido! Aliás, COMO ele percebeu, se ela ficava o dia inteiro no quarto?

Pelo visto a cobra era mais perspicaz do que ela pensava..

– Nada demais, mãe. A gastrite atacando. Acho que minhas diabetes também não tão legais, nesses últimos meses de férias andei abusando.

Alice estava calada na mesa desde o começo. Odiava como Laís sempre conseguia ser o centro das atenções. E não importava se era a única cujo quarto a mãe se dava ao trabalho de visitar toda noite. Ela não conseguia respirar, parecia que Laís tomava seu ar. Até bruno gostava mais dela, pensava.

Por que tinha que ser a irmã mais nova? Por que não podia ser a do meio, ser Laís, que era cercada pelos cuidados do irmão?

Ela só era uma chata, nerd, irritante, puxa-saco. Por que todos a achavam tão linda?

Alice era mais rebelde, não ligava pra opinião da mãe. Se comparada aos padrões de beleza, era até mais bonita que Laís. Mais magra, dentes retos, cabelos quase lisos. E tinha um estilo peculiar, chamava atenção com sua beleza -mas só, por ser meio antipática.

Apesar disso tudo, a mãe tinha um carinho especial por Alice. Por ser filha de seu atual marido, tinha sido a melhor gravidez, a mais em paz que tivera. Sentia uma conexão especial com ela, apesar do seu jeito difícil. E a achava tão bonita!

Isso, contudo, não causava inveja nos outros irmãos, por ela ser a mais nova. O problema era que a mãe relevava quase tudo que a menina fazia de errado. Nisso, Bruno discordava, pois não achava certo mimar a garota dessa forma.

– Não basta ter que gastar a maior grana por causa dessas suas diabetes, tu ainda não cuida direito? Legal, ein, Laís. — Disse Alice, num tom malicioso.

– Não se mete na minha vida, Alice. Que saco. — Laís não aturava como a irmã gostava de ser irritante. E talvez fosse infantilidade de sua parte, mas realmente não conseguia lidar com isso. O que ela fez de errado pra irmã odiá-la tanto?

– Laís, não seja grossa. E Alice, cuida da tua vida. — Disse a mãe. — Mas, Laís, de algum jeito ela tá certa. Você tem que se cuidar, não é mais criança pra mamãezinha ficar no seu pé, né!

– É, não pode exagerar, NEM FICAR SEM COMER DOIS DIAS POR CAUSA DE UM BABACA — enfatizou Bruno.

– Não é por causa do babaca, Bru. A dor anda muito forte ultimamente, tá difícil, viu. — respondeu ela.

De fato, estava triste. Tanto pela dor que a acompanhava há dias, tanto pelo término do relacionamento. Sentia falta dos abraços de Micael... Mas não era isso que lhe causaria tamanha dor.

– Laís, eu até poderia te dar um remédio pro estômago, mas você já tá tomando, né? Vou te levar ao médico, amanhã marco a consulta e te falo.

Alice começou a conversar com Júlio e Bruno, enquanto Laís comia silenciosamente — depois da primeira garfada, ficou menos difícil — sem discordar da mãe.