Laís Lilás

1 O brilho da pele nem sempre reflete a cor da alma.


Notas iniciais
Primeira vez que posto algo aqui. Espero que alguém goste (?)

Laís. 17 anos. Sagitário.

Caminhava, meio que pulando, meio que dançando pelo corredor, girando num passo que aprendera no ano anterior nas suas aulas de Jazz e Ballet. Adorava a preguiça e adorava estar sedentária, na verdade, se fosse um animal, provavelmente seria do tipo que vive escorado numa pedra, mas, no fundo, no fundo, sentia saudades daquelas aulas, da escola, de ter matéria pra estudar, das pessoas e até da cobrança dos professores.

Já era fevereiro e suas aulas da faculdade deveriam começar só em abril, já que houvera greve e ela iria estudar na UFPE. De fato, estava feliz porque realizara a sua vontade e de sua mãe. Sempre quisera estudar numa faculdade pública, trabalhar muito, viver bem, muito melhor do que seus pais, cuja condição não era lá ruim.

Sua mãe sempre lhe dissera isso: estude, estude, estude. E foi difícil educar a menina de espírito brincalhão a ser mais disciplinada, mas ela acabou aprendendo. Talvez por influência de Bruno, seu irmão mais velho, e, com toda a certeza, com a ajuda dele, que também tinha suas ideias revestidas pelos ideais dos pais.

Ou seriam todos esses sonhos apenas reflexos de anseios criados pela mãe?

De qualquer forma, ela estava feliz por satisfazê-la. Sempre ficava. Gostava de deixá-la feliz. A mãe, que já sofrera tanto.

Mas o tempo de espera era quase doloroso, e ela se sentia meio sozinha sem o convívio diário dos loucos que com ela costumavam estudar. Era difícil se desgarrar do passado, mesmo pra ela, que era uma pessoa tão adaptável e costumava ser otimista.

Alguns iriam pra faculdades particulares, alguns pra alguma pública, outros fariam cursinho. E as saudades de suas amigas, e de Micael, eram difíceis de lidar.

Parou de rodopiar. Sentindo dor abdominal forte, que se irradiava para as costas, jogou-se na cadeira do computador. Já sentada, logou no facebook e esperou ser chamada pelo garoto, cujas aulas começariam no mês seguinte. Sorte dele, que não ficaria mofando em casa com os pensamentos nos amigos deixados pra trás, pensou ela. Na verdade, Micael nem era realmente ligado aos meninos da classe, então talvez de uma forma ou de outra não fosse se importar.

"Oi, La!"

"Oi, Mika, como vai?"

"Saudades de você, garota. Você sabe."

"Saudade também. Faz tempo que cê não aparece. Tá tudo bem aí?"

"Sim, tive uns problemas em casa, tava sem internet e sem tempo, cê sabe. E como você tá?"

"Tô boa. Só hoje hoje quase não consegui levantar, acho que de tanto que dormi, meu corpo ficou meio mole, LOL"

"Vish. Ó, toma cuidado, ein. Cê já comeu hoje?"

"Nah, nem consegui. Mas relaxa, já tô boa, daqui a pouco como algo."

"São cinco da tarde e você não comeu nada ainda? Vou passar aí e te levar pra comer, que do jeito que cê é, não come nada."

"Não tô com vontade de sair, Mika, tô com a maior preguiça" — pra não dizer que não conseguiria levantar da cadeira.

"Passo aí em meia hora. Esteja pronta."


Laís se arrumou mais lentamente do que todas as outras vezes na vida. Seu corpo estava meio mole. Devia ser a preguiça, pensou.


– Vai aonde, Lá? — Perguntou Bruno.

– Sair com o Mika, amore mio! — Disse, dando um abraço no irmão querido.



– Tô de olho nesse moleque, ein! — Retrucou, fazendo cara de bravo.


A garota riu e foi se encaminhando até a porta.

– Mãe, tô saindo aqui, volto mais tarde.

– Volta que horas, Laís? Vai sair com Micael?

– Sim, e devo voltar cedo, não tô me sentindo muito bem. Vou só comer.

O carro de Micael, que já tinha 18 anos e o ganhara dos pais no dia que recebera sua carteira de habilitação, buzinava na porta;

– Tá bom, cuidado com a vida, menina!

Laís assentiu e saiu.

Micael estava de vidro aberto olhando em direção à porta; moreno, nariz torto, olhos e pele claros, sorriso estonteante e um jeito de homem com H maiúsculo, a despeito da pouca idade. Esse era o Micael, namorado de Laís.

No geral, um gostava bastante do outro, e se ajudavam nas matérias da escola e tudo mais. Na verdade, quase todas as vezes, era Laís quem o ensinava, mas ele retribuía cuidando bem dela. A mãe apoiava o namoro, já que o rapaz era de boa família, tinha boa aparência e parecia ter boa índole.

Quem não gostava tanto dele era Júlio, o padrasto de Laís. Mas ela o considerava um babaca, chato de galocha, e apenas ignorava sua opinião em relação a tudo. Bruno também não ia com a cara dele, mas Laís achava que era puro ciúme do irmão.

Ela sentia algo inexplicável por Micael, que não era tão inteligente e só tinha uma beleza comum. Talvez a forma com que a tratasse fosse o segredo de tal apreço. Já ele sentia uma forte atração pela garota, por sua inteligência, otimismo, e, principalmente, por seus seios fartos.

De todo, ela era muito bonita, e sempre que aparecia Micael sentia como se os ares mudassem, como se mesmo a rua mais escura estivesse clareado. Era fácil sentir-se assim na presença daquela garota alegre e, em geral, sorridente. Por mais que não estivesse sempre feliz, dificilmente transparecia tristeza, por seus amigos serem tão legais em sempre fazê-la sorrir. E isso era um motivo pra ficar bem, mesmo que o brilho da pele nem sempre reflita a cor da alma.

Quando viu o portão se abrir, esperou o magnetismo de Laís apagar o brilho das estrelas e comprá-lo pra si, mas, dessa vez, não foi isso que aconteceu.

Ela estava apagada.

Não parecia tão bem quanto antes, apesar de não estar feia. Mas seu brilho parecia ter sumido, como as forças do super-homem perto da Kriptonita. Não que estivesse infeliz, mas ela estava mais magra, e sua pele, geralmente alvíssima, estava meio amarelada.

Ficou meio decepcionado ao vê-la assim.

Talvez estivesse imaginando coisas, pensou, após ficar tanto sem vê-la. Dois meses inteiros. Tivera problemas esses últimos tempos, só tinha tempo e condições de ligar pra ela uma ou duas vezes por semana, mas agora estava tudo bem e eles poderiam voltar a se falar e sair como antes.

O sentimento de admiração tinha sido deixado e não fazia tanta falta, assim como Laís não fizera tanta falta nos meses em que não pudera vê-la.

Eles comeram juntos, conversaram normalmente, trocaram beijos e abraços em que ela confessava uma saudade que parecia ter evaporado dele, e depois ele a deixou em casa.