Não existe mais chão sobre meus pés, não há mais ar em meus pulmões, sinto um arrepio percorrer a ponto dos meus dedos do pé até o último fio de cabelo, e não é um arrepio bom, é mais do tipo que correi cada célula do seu corpo.

— Não. – digo, por um momento meu eu interior nega acreditar naquelas palavras – Ela tava bem. – lembro da conversa sobre a coceira, a colega de quarto enxerida, da sua voz tão normal...

Olhando nos olhos marejados por lágrimas de minha família, a ficha cai.

Grito. Grito tão alto que meus tímpanos doem, tão alto que todos no prédio devem ter escutado. As lágrimas caem como chuva, misturando o som de meu choro desesperado as palavras de todo. Esse era o som de um coração se partindo.

Minha melhor amiga, minha irmã, morreu. Nunca mais iríamos trocar mensagens até tarde da noite, nunca mais discutiremos para escolher um filme, nunca mais terei conselhos dela. Nunca mais. Nada.

Sinto todos os nossos planos escorrer pelos meus dedos, sem conseguir segurá-los, a viagem que prometi levá-la, sua vontade de conhecer o mundo. Seguro com firmeza a metade do nosso colar que estava comigo, um coração dividido ao meio.

De repente estou sentada em meu sofá, com muitas pessoas paradas na porta, querendo saber o que aconteceu, quando Júlia lhes conta, lágrimas surgem em seus olhos. Era muito, muito fácil amar Sarah.

Camile chega poucos minutos depois, me jogo em seus braços, misturando a sua dor com a minha, suas lágrimas com as minhas. Nenhuma palavra foi dita, porque dizer eu sinto muito, meus pêsames, pelo menos ela não vai mais sofrer, nada disso adianta, e ela, diferente de todos ali, sabia.

Sabia porque ela entendia o meu amor e o de Sarah, porque ela viu tudo em primeira mão, o quanto eu a amava e me preocupava com ela, como éramos conectadas, e essas míseras palavras de consolo não vão consolar a mim, porque naquele momento eu havia morrido com Sarah.

O resto do dia passou muito lentamente e silencioso, não conseguia dizer nenhuma palavra, minha voz simplesmente havia sumido. O corpo de Sarah estava vindo de Florianópolis, não era para minha melhor amiga voltar em um caixão.

Junto toda força que me resta para um último adeus.

Chegamos na casa de Sarah antes de o corpo chegar, quando entro na pequena casa de madeira encontro sua avó sentada chorando. A abraço antes de seguir para a tarefa mais dura, ver o Sr. e a Sra. Nogueira. Nenhum pai nesse mundo deveria enterrar um filho, não é certo, é desumano. Se minha dor era tão grande a ponte de estraçalhar meu coração, multiplique essa dor por cem, e mesmo assim não chegaria aos pés da dor deles.

Eles estavam no quarto dela, sentados na cama de casal, os dois irmãos mais novos de Sarah também estavam ali, com alguns primos e outras pessoas que não conhecia. O Sr. Nogueira se levantou para me abraçar.

— Rebeca, a tua irmã se foi Rebeca. – disse ele. Eu não pude dizer eu sinto muito, meus pêsames, nenhuma palavra de consolo saiu de minha boca, porque simplesmente não havia nenhuma palavra que pudesse consolar um pai que perdeu uma filha – Ela amava você Beca.

— Eu também amava ela. – respondi em meio aos soluços e lágrimas.

Eu poderia viver cem anos, ou até mesmo mil, que nunca esquecerei aquele dia. Talvez as boas lembranças ao lado de Sarah definhem com o tempo, desaparecendo de minha mente, mas não esse dia, não o dia em que ela foi tirada de mim, quando fui sugada para um mundo cinza e sem vida, quando experimentei a pior dor possível. É triste saber que as boas lembranças partem com o vento, enquanto as más permanecem em você como uma cicatriz.

Poderiam me arrancar uma perna, um braço, torturar-me da pior maneira possível, que a dor nunca vai sair maior do que a dor que sinto agora.

De repente a casa se tornou pequena para tanta gente. Muitos colegas nossos apareceram para se despedir, até que finalmente Sarah chegou. Antes de vê-la abri a porta de seu armário, guardado na caixinha de joias estava a outra metade do colar que eu usava. Segui para meu adeus, sabendo que não seria capaz de fazê-lo.

O caixão está na sala, diversas flores preenchem o recinto. Quando a vejo sinto meu corpo desabar. Seu rosto está muito inchado, a peruca castanha – que ela insistia ser ruiva – não cabia mais em sua cabeça. Não era ela. Aquela não era a minha pequena Sarah, não era a minha irmã.

Meus olhos repousam em suas mãos. Eram as mão dela, aqueles dedos que voavam pela teclado do celular, as unhas que eu havia pintado várias vezes de azul. Com minhas próprias mãos tremulas, coloco o colar sobre sua mão, quase não conseguia enxergar por sobre as lágrimas, e minha mãe teve que me ajudar.

Pouso minha mão sobre a sua, a única coisa que realmente era de Sarah. Fecho os olhos. Eu te amo minha irmã, eu sempre vou te amar. Uma mão pousa sobre a minha e abro os olhos para ver a quem elas pertenciam. Era a Sra. Nogueira. Aquele gesto, aquele simples gesto de uma mãe com o coração despedaçado consolando-me, consolou-me mais do que todas as palavras ditas nesta noite.

— Meu bem, — sussurra minha mãe em meus ouvidos – mais pessoas querem se despedir.

Concordo com a cabeça e deixo que ela me conduza para um canto. Camile aparece, apoio minha cabeça em seu ombro enquanto ela passava um braço ao meu redor. Serei eternamente grata por tudo o que ela fez hoje, ficando ao meu lado o tempo todo.

Sinto que não consigo respirar, eu não conseguia ficar ali, olhando para Sarah – que não era a minha Sarah –, minha visão começou a se distorcer, sabia que se não saísse dali, iria desmaiar. Com o auxilio de Camile sigo para fora, encostando-me no muro.

— Está tudo bem? – pergunta ela. Olhei em seus olhos e encontrei a resposta ali mesmo, ela sabia que eu não estava bem, que eu nunca mais ficaria bem. Mesmo assim balanço a cabeça positivamente, era a reposta que ela queria.

Braços me envolvem, era Helena, prima de Sarah e Clara sua tia.

— Sinto muito Rebeca, queria ter te ligado para dar a notícia, – diz Clara – mas não consegui.

— Tudo bem Clara. – minha voz sai estranha, falhada.

— Sexta-feira antes de ir para Florianópolis, Sarah passou lá em casa me abraçar. Ela disse que não voltaria dessa vez, que estava cansada de causar tanta dor aos pais. Pareceu uma despedida. – olho para ela espantada, se Sarah achava que ia morrer, porque não passou se despedir de mim?

— A dor de perdê-la com certeza será maior. – responde Camile – Ela não nos disse que estava mal, o que foi que aconteceu?

— Ela estava a alguns dias sem conseguir respirar, – responde Helena – fui ficar com ela no hospital na sexta para deixar o pai dela descansar, ele não dormia a dias. Sarah não conseguia dormir porque não conseguia respirar, e ele ficava com ela. Quando fizeram o raio-x do pulmão a mandarão com urgência para Florianópolis.

— Ela me disse que ia só fazer transfusão de sangue por causa da anemia. – digo com o coração partido.

— Nem eu sabia que ela estava tão mal. Eu soube naquela sexta-feira que não a veria de novo. Mas você sabe como Sarah era, ela não gostava de contar aos outros quando estava mal.

Ela tinha razão, para fazer Sarah falar sobre seus problemas era difícil. Quando ela ficou doente, dentre todas as outras amigas que tínhamos na faculdade, ela escolheu a mim para guardar seu segredo do câncer, para ajudá-la com tudo. Esse foi o inicio da nossa irmandade, quando dentre todas as pessoas, ela escolheu a mim. Mas sempre fora difícil falar com ela sobre seu problema, até mesmo Helena que era da família sabia de poucas coisas. Nos últimos meses ela havia se aberto um pouco mais para mim, quando vomitou sangue correu me contar, mas não me contou que respirar se tornou uma tarefa tão difícil.

— Como ela morreu? – pergunto.

— Hoje pela manhã ela acordou e pediu um copo d’água para a mãe, enquanto Marcela colocava o copo de volta na mesinha, ela virou para o lado e dormiu. – responde Clara – Ela simplesmente dormiu.

Sarah não sofreu, aquilo foi um alivio para mim. Nunca entendi porque Deus daria a uma garota tão boa quanto ela, uma doença tão terrível, mas pelo menos Ele a levou sem dor alguma.

— O câncer trancou a entrada de ar dos pulmões. – completa Helena enquanto se senta no muro, observando Clara e Camile partiram de volta para casa. Sento ao lado dela – O pulmão dela devia estar repleto desses malditos.

— O que nós vamos fazer Helena?

— Eu não sei. – uma lágrima escorre de seus olhos, como um reflexo das minhas – Só me resta acreditar que agora ela não sofre mais, o câncer só estava progredindo Beca, ela não movia mais metade do corpo, como seria a vida dela daqui para frente?

— Agora eu não consigo pensar nisso, só consigo pensar na dor. Mas você tem razão. Seria crueldade nossa querer que ela vivesse, quando ela mesma não queria mais, não é? – preciso que ela concorde com minhas palavras, eu não sei porque, mas preciso.

— Seria. Mas não é fácil vê-la partir.

— Não é. Nunca é fácil ver quem amamos partir.

— Essa dor vai passar Beca? – olho em seus olhos castanhos, eu queria lhe dar uma reposta diferente da que dou, mas não existe.

— Não. Nós vamos nos acostumar com ela, mas nunca irá embora, ficará em nossos corações como uma cicatriz, as vezes ela vai latejar com muita força e não seremos capazes de ficar em pé. E toda a vez que olharmos no espelho, poderemos a cicatriz causada pela dor. Ela estará sempre conosco.

Abraçamo-nos e deixamos as lágrimas cair, dizem que as lágrimas carregam a dor para fora, se isso for verdade, então há muito mais dor do que elas podem carregar.

— Beca, você quer dizer alguma coisa após a missa? – não havia percebido o retorno de Clara, mas ali estava ela, trajada em sofrimento.

Eu não conseguiria falar sem chorar, mal tinha forças para falar, tive que reunir muita só para responder Helena. Mas meu coração sabia o que precisava ser feito.

— Sim.

Notas finais
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