Não conseguia olhar para Sarah, vê-la naquele caixão me deixaria com pesadelos para o resto da vida. Sua morte me deixaria com pesadelos pelo resto da vida. Eu sabia que ela estava doente, que o câncer não era brincadeira, e que poderia significar a morte, mas eu simplesmente não acreditava que isso fosse acontecer.

Talvez uma parte de mim, lá no fundo, aquela parte racional e que pensava, sabia que esse dia chegaria, e o dia que eu mais temia chegou. Era hoje, era agora, meus olhos viam o que não queriam acreditar ser verdade, minhas narinas inalavam o cheiro da morte, e meu coração bombardeava cacos de vidro por todo meu corpo.

Quando entrei novamente na sala, o olhar de todos pousou sobre mim. Eles sabiam, sabiam que apresar de não ter o sangue Nogueira, eu era parte da família, e que naquele dia eu enterrava uma irmã.

Acompanhei o culto ao lado de Camile e minha mãe, ouvindo o pastor da igreja dos Nogueira falar sobre Sarah, admirando sua força, o quanto confiou e foi fiel em Deus, em como nunca a ouviu reclamar do fardo que carregava. Um fardo que ela não gostava de dividir.

— Agora a amiga de Sarah, Rebeca, gostaria de dizer algumas palavras. – diz o pastor passando a palavra para mim.

— Obrigada. – agradeço enquanto me dirijo mais próximo de Sarah, engulo o choro e forço minha voz a sair – É difícil achar palavras suficientes que possam explicar a dor de perder Sarah. Porque elas não existem. Passei seis anos ao lado dela, parecem muitos? Mas eu sinto como se fossem poucos, mil anos ao lado dela seriam poucos. Eu a amei como a irmã que nunca tive, e ela foi a melhor irmã do mundo, nunca tivemos uma briga, e uma completava a outra, como yin e yang. Eu sei que foi Deus quem a colocou em meu caminho, e agradeço tanto, tanto por isso, por ter conhecido essa pessoa maravilhosa que não tinha medo de lutar, que enfrentou um problema de cabeça erguida, um problema que tantos adultos não tem coragem de enfrentar. Todos aqui sabiam, sabem, – corrigi – a pessoa bondosa que ela era. Eu tenho orgulho se Sarah, e espero um dia ser um terço da pessoa que ela foi. – lágrimas se acumulam em meus olhos, a voz falha, parece que as palavras ficam presas na garganta – Eu não consigo dizer adeus a ela, não posso dizer adeus para alguém que nunca vou substituir. Uma parte minha morreu com ela, a parte que ela fazia ser boa...

Existem tantas coisas para se dizer, essas pessoas precisam saber como Sarah era maravilhosa, mas não existe mais força para tal. Deixo os pais de Sarah me abraçarem e depois sou conduzida pelo pessoal do escritório até uma cadeira, onde passo o resto do tempo em estado catatônico.

A noite foi ganhando força, minha mente sabia que a temperatura estava diminuindo, mas meu corpo não sentia frio, não quando por dentro eu estava morta. Olhava para o nada quando o sol nasceu, e quando fui cutucada por minha mãe, levei um susto ao perceber que já era dia.

— Não quer dormir um pouco meu amor? – pergunta ela, engraçado como sua voz era tranquila, as palavras medidas com cuidado, como se uma frase errada pudesse me quebrar.

— Não. Já vão começar o culto.

O último culto de Sarah, depois disso ela seria enterrada, e minha mente não conseguia aceitar que estava enterrando minha irmã. Observo enquanto o pastor diz suas últimas palavras à garota, enquanto os fieis entoavam seus cantos com amor e carinho. Choro mais ainda – se é que fosse possível chorar mais – quando leem a homenagem da família Nogueira, quando leem o agradecimento em especial para família Torres, que foi uma mãe, avô, avó e irmã para Sarah. Quando falam irmã algo em mim desmorona, ouvir do coração dos seus pais que eu era irmã dela, fez algo em mim romper, algo que já estava se rompendo desde o dia anterior, e agora partiu-se para sempre.

Não vai embora minha irmã. Por favor não vai embora. Dizia em minha mente repetitivamente, enquanto observava o caixão ser fechado.

— Preciso que os pais, os irmãos e os avôs segurem cada lado do caixão. – diz o pastor, observo enquanto o caixão é conduzido para o carro da funerária.

Não pode ser verdade. Não é minha irmã ali naquele caixão, não pode ser, ela era tão cheia de vida, tão alegre com seu sorriso contagiante. Por que Pai? Eu sei que devo acreditar que tudo nessa vida acontece por um motivo, mas simplesmente não vejo motivo para uma pessoa tão doce quanto Sarah morrer aos vinte e quatro anos de câncer. Não vejo motivo para uma garota carregar uma cruz tão grande.

Mas ela não carregou sozinha. Diz uma voz em meu interior, eu tentei carregar sua cruz, mas ela era muito teimosa para deixar qualquer um carregar por ela. Seus pais, seus tios, seus primos, seus amigos, todos estiveram com ela, ajudando a carregar o peso que era de mais para seus pequenos ombros.

A caravana segue para o cemitério, Sarah morava no interior de Presidente Castelo Branco, e seria enterrada perto de casa, no cemitério de sua comunidade.

— Olha Beca, – diz minha mãe em meus ouvidos quando chegamos ao local – ela vai ficar descansando em um lugar bonito. Com vista para o lago.

Acompanho o olhar de minha mãe e vejo um grande lago perto do cemitério, ela merecia algo bonito, mas como explicar que ela não deveria estar descansando ela deveria estar voltando para casa, planejando no caminho de volta tudo que iria comprar e visitar na nossa viagem para os Estados Unidos.

Vejo o caixão ser levado para o fundo de um buraco, todos jogam flores, arranco um ramo da coroa dada por minha família, a flor era azul. A cor favorita de Sarah.

Não consigo olhar, não consigo ver minha melhor amiga partindo, não consigo suportar a dor em meu peito, é forte de mais para mim. Eu poderia suportar a dor de ter minha pele arrancada, mas não conseguia suportar a dor de perdê-la.

Aos poucos as pessoas vão partindo, o pai de Sarah me convida para o almoço, não sei se sou capaz de entrar naquela casa de novo sem ela. Não preciso recusar o convite, minha mãe o faz por mim, alegando que estava muito cansada. O Sr. Nogueira diz que Sarah havia comprado um presente para mim, mas não teve coragem de me entregar, fico curiosa, Sarah sabia que não precisava ter vergonha de mim, e ela não tinha.

Prometo passar buscar o presente daqui a alguns dias. Minha mãe insiste em voltarmos para nossa cidade, mas eu recuso. Preciso ficar sozinha com Sarah.

Poucos minutos depois é exatamente isso que acontece. Minha família segue a família Nogueira até sua casa, e me deixam sozinha.

— Sarah? – digo em meio as lágrimas – Se você puder me ouvir, eu quero que você saiba que eu te amei de mais. Me perdoe se errei em algum momento, você sabe que eu erro mais do que acerto. Deus eu não sei viver sem você! – caio de joelhos em frente ao seu túmulo rodeado por flores, as mãos no rosto e as lágrimas caindo como chuva – Eu não consigo dizer adeus Sarah! Você é a irmã que eu nunca tive, e não quero ter mais nenhuma! Você será a única! ME DIZ QUE ISSO É MENTIRA! – grito alto, sem medo de alguém me ouvir – NÃO É VERDADE! Volta Sarah! Volta pra mim!

Por um longo momento sou dominada pelas lágrimas, choro e choro, soluçando a cada momento. Não há mais nada que eu possa fazer. Não posso leve-la para São Paulo e tentar achar outro tratamento, não posso mais salvá-la, porque eu falhei nisso.

— Por que você não veio se despedir de mim Sarah? Por quê?!

— Se eu soubesse que você ficaria chorando loucamente no meu túmulo, eu teria te preparado melhor para esse momento. – a voz de alguém surge atrás de mim, mas eu sei que não é de um alguém desconhecido, é a voz de Sarah.

— Sarah? – tiro as mãos do rosto e levanto lentamente, viro-me e ali está Sarah, ela não está usando peruca, não, aquele era o cabelo de verdade dela, castanho com algumas ondulações na ponta, não aquele castanho meio ruivo cheio de volume que era sua peruca. Os olhos que eram tão parecidos com os meus, verdes.

Graças a Deus! Isso foi só um sonho. Corro em sua direção.

— Sarah! – tento abraça-la, mas não toco em nada sólido, pelo contrário, eu ultrapasso Sarah. Olho para minhas mãos, lentamente me viro em sua direção, e o sorriso que antes estava em seus lábios é substituído por um olhar triste.

— Eu sei o que você está pensando, Beca. Eu estou aqui, mas não estou aqui. Eu morri de verdade, isso não tem como mudar.

— Mas... Eu te vejo! – as lágrimas que pararam por um momento voltam com força total, tento tocar seu braço mas não consigo – Não! Você tá viva, estou te vendo!

— Você está vendo meu espírito, Rebeca. Meu corpo infelizmente já morreu.

— Mas... Como... Como eu te vejo? Você não deveria estar no céu?

— Deveria, mas não poderia partir sem me despedir.

— Então você é real?

— Sou tão real quanto você Beca.

— Então não se despeça! Fique aqui!

— Não posso ficar, há um lugar maravilhoso esperando por mim. Mas não posso partir agora, não sem terminar uma última missão.