Laços de amor
72 Capítulo Bônus 19: A vida de Tommy e Sofia
Laços de amor
Los Angeles
Sofia
Segundo o dicionário, pesadelo é um sonho perturbador associado com sentimentos ruins, como ansiedade e/ou medo. Já segundo a minha concepção, pesadelo era estar cara a cara com Melissa Flammer mais uma vez.
Aquela mulher tão linda e elegante despertava em mim os piores sentimentos e eu definitivamente não gostava da Sofia que eu me transformava quando estava próxima a ela.
Por isso, minha primeira reação ao me deparar com seu sorriso falsamente bonito foi me virar e sair. Mas, nunca havia sido fácil me livrar dela e, pelo visto, não era hoje que esse fato iria mudar.
― Não precisa fugir. Eu não mordo. ― Ela falou mais alto do que eu gostaria assim que eu comecei a me afastar e eu bufei, decidindo que o melhor era continuar andando para bem longe dela.
Mas, é claro que Melissa veio atrás de mim, gritando meu nome feito uma maluca, e como eu não queria chamar a atenção do shopping todo, mesmo que o shopping todo já estivesse nos encarando, resolvi parar e escutar o que ela tinha para me dizer.
― O que você quer? ― Falei de maneira ríspida e ela sorriu.
― Falar com você.
― Mas, eu não quero falar com você. Então, será que posso ir?
Melissa bufou e revirou os olhos. ELA REVIROU OS OLHOS PRA MIM, o que me deixou mais brava e frustrada do que eu já me sentia desde que dei cara com ela.
― Não seja mimada. É só uma conversa. Prometo não atravessar o seu caminho depois disso.
― Não estou sendo mimada. Eu simplesmente não gosto de você e, portanto, não tenho nenhuma obrigação de conversar com você.
― Eu sei que você não gosta de mim, carinha de anjo. Também não sou muito sua fã. Mas, vai ser rápido. Eu prometo. ― Ela falou, me encarando seriamente e eu não pude fazer outra coisa que não respirar fundo e me preparar psicologicamente para ouvi-la.
― Pode falar. Mas, seja rápida mesmo, pois eu já estou atrasada para o trabalho.
― Vamos até a praça de alimentação. Não dá para conversar no meio do corredor do shopping.
Eu ri.
Melissa só podia estar louca se achava que eu iria me sentar com ela em algum momento nessa vida. Ou na próxima.
― Não vou me sentar com você em lugar nenhum. Se quiser falar algo, fale de uma vez antes que eu vá embora.
Ela me encarou divertida e andou até um sofá que ficava no corredor, sentando-se e, de certa forma, me obrigando a fazer o mesmo.
Eu me sentei o mais longe possível e fiquei encarando-a seriamente, esperando que ela dissesse de uma vez que diabos queria comigo. Aliás, eu estava mais do que curiosa para saber o que ela estava fazendo em Los Angeles, mas jamais perguntaria. Só esperava do fundo da minha alma que sua presença aqui não estivesse relacionada ao meu namorado.
― Já faz algum tempo que eu desejo falar com você. Desde o nascimento do Arthur.
― Arthur? ― Eu perguntei confusa e ela sorriu.
― Meu bebê.
― ...
― Eu tive um filho, Sofia. Ele está prestes a completar um ano e desde que ele nasceu eu venho pensando em entrar em contato com você.
― Por que? ― Eu perguntei em um fio de voz, tentando não criar fanfics em minha mente, nas quais Tommy era o pai daquela criança.
Isso era impossível, porque Tommy não a via desde muito tempo e ela se referiu a criança como sendo um bebê.
Mas, nós ficamos separados por um tempo. Não muito tempo, claro. Será que os dois estavam tendo um caso? E se esse bebê fosse do Tommy, o que seria de nós?
― O pai do meu bebê não é o Tommy, caso seja isso que você esteja pensando nesse momento. ― Melissa falou divertida e eu tentei disfarçar minha expressão de alívio.
― Bem, se meu namorado não é o pai do seu bebê, o que você tem para falar comigo?
― Eu queria te pedir desculpas.
― O que? ― Perguntei pasma e ela sorriu divertida.
Aparentemente minhas reações aturdidas estavam sendo muito divertidas para ela.
― Eu, Melissa Flammer, gostaria de pedir desculpas a você, Sofia Swan Cullen, por ter transformado sua vida num inferno enquanto estávamos em Harvard.
De todas as coisas que eu imaginei que Melissa podia me dizer, desculpas não era definitivamente uma delas.
Porque sim, ela realmente transformou minha vida em um inferno sem fim. Ela foi a grande responsável pelo fim do meu namoro e nem mesmo quando eu já estava longe do Tommy ela deixou de me provocar. Mas, nem em um mundo paralelo, eu imaginei que ela poderia se arrepender de tudo e me pedir desculpas e a surpresa desta situação completamente inusitada me deixou sem fala.
― Eu imagino que você não esperava por isso e confesso que nem eu. Mas, quando conheci o Mark, meu atual marido, eu finalmente entendi o amor que você e Tommy sempre sentiram um pelo outro. E eu fui uma vadia invejosa que queria ter o seu namorado pra mim. Na verdade, eu queria que ele gostasse de mim da mesma forma que gostava de você, mas isso nunca aconteceu. Tommy adora você e mesmo quando estavam separados, ele não conseguiu deixar de adorar.
― Por que você queria tirá-lo de mim?
Melissa sorriu.
― Eu conheci o Tommy na primeira semana de aula. Eu o achei lindo e totalmente apaixonável, mas é óbvio que ele não me deu bola. Aliás, ele nem sequer olhou para a dezenas de meninas que estavam interessadas nele. E por que? Porque ele tinha você. Tommy sempre deixou muito claro que tinha uma namorada e que era completamente louco por ela. E isso me irritou, porque ninguém nunca havia resistido a mim. Quando eu te conheci e me deparei com essa sua carinha de anjo fiquei me perguntando como Tommy podia resistir a mim, que era bem mais experiente que você. Não que você, Sofia Swan, não seja linda. Porque você é. Muito bonita. Mas, era inocente demais e eu não achava que fosse a mulher ideal para o Tommy.
― Eu não era inocente, Melissa. Eu era apaixonada.
― É claro que você era inocente, carinha de anjo. Com quantos caras tinha transado antes de ir para Harvard?
Eu corei e ela riu.
― Isso não mede a inocência de ninguém, Melissa. Eu havia transado só com o meu namorado porque eu o amava. Mas, isso não significava que fosse inocente e nem que não soubesse satisfazê-lo, como você insinuou várias vezes.
― Hoje eu entendo isso. Mas, na época eu queria o seu namorado pra mim e não me importava quem eu fosse magoar no processo. Eu tentava manter tudo no nível sexual, mas a verdade é que eu queria que Tommy me amasse como ele amava você.
― Conseguiu?
Melissa riu.
― Você sabe que não. Tommy nunca foi meu de verdade. A gente transou e ele era ótimo, como você bem sabe. Mas, ele não estava realmente ali. Quando você foi pra Londres e ele descobriu que você estava morando com o Jones, Tommy pirou. Acho que depois disso ele nunca mais conseguiu ficar com garota nenhuma.
Fiquei em silêncio por algum tempo apenas tentando absorver tudo o que eu acabei de escutar.
― Eu perdi um bebê... ― Murmurei depois de alguns minutos e Melissa me encarou curiosa.
― Recentemente?
― Não. Eu perdi quando estava em Londres. O bebê era do Tommy.
Ela arregalou os olhos.
― Nossa... Isso é inesperado!
Eu sorri tristemente. Falar sobre isso sempre seria muito doloroso.
― Tommy só soube recentemente. Na época, quando eu decidi contar a ele, foi você que atendeu ao telefone e eu perdi a coragem. Quando ele descobriu, nós brigamos. Achei até que seria definitivo.
Melissa sorriu.
― Vocês sempre vão voltar um para o outro. E eu sinto muito pelo bebê. E também peço desculpas por ter sido odiosa ao telefone. Mas, na época provoca-la era o meu esporte preferido.
Eu revirei os olhos.
― Eu odiava você.
― Eu também não era sua maior fã. Mas, hoje eu entendo que o que eu sentia era inveja. Eu queria ser amada como você era. Mas, nunca deu certo até que eu encontrei o Mark. Ele me amou e me transformou. Fez aquela obsessão pelo seu namorado passar e desde que meu bebê nasceu, eu sinto que devo te pedir desculpas. Eu interferi na sua história de amor e fiz você e o Tommy sofrerem. Hoje você poderia até estar casada com o Jones ou com qualquer outro e, mesmo que estivesse feliz, eu seria o pivô do fracasso da sua história épica de amor.
― Eu realmente sofri muito depois que você entrou em nossas vidas.
Melissa suspirou e me olhou nos olhos.
― Eu queria o seu namorado pra mim e fiz de tudo para conseguir. Não me orgulho do que fiz, mas não tem como voltar atrás. Se isso te consola, é bom que saiba que Tommy nunca foi meu e nem de nenhuma outra garota com a qual tenha saído. Ele amava você e esse fato sempre impediu que ele se entregasse de verdade a qualquer relação. E eu sei que o mesmo aconteceu com você. Então, mesmo separados vocês estavam unidos por um sentimento que hoje eu sei que é bem real.
Eu respirei fundo e desviei o olhar, tentando absorver tudo o que eu acabei de ouvir. Afinal, era surreal demais estar sentada e conversando amigavelmente com Melissa Flammer sobre nosso passado conturbado.
― O que você quer de mim, Melissa?
― Eu queria apenas te pedir desculpas por tudo. E te avisar que estarei na festa da firma do seu pai amanhã. Mas, prometo não te provocar.
Eu ergui uma sobrancelha.
― Você vai estar na festa? Por que?
― Serei acompanhante do meu marido. Além disso, como uma ex-aluna de Harvard, mereço estar presente em uma homenagem de uma das melhores firmas do país ao nosso curso de Direito. Mas, como eu disse, não pretendo provoca-la. Se você quiser, eu nem chego perto do seu namorado.
Eu ri.
― Não tem como eu impedi-la de estar na festa, Melissa e nem mesmo de falar com Tommy. Mas, saber que você está casada e que não pretende me provocar já me deixa bastante aliviada.
Melissa sorriu.
― Você me desculpa, então?
― Um dia acho que eu vou conseguir desculpá-la sim, Melissa. Não agora, porque eu ainda estou muito machucada. Até um tempo atrás, eu não podia nem sequer ouvir o seu nome. Qualquer lembrança sua era motivo de brigas terríveis entre Tommy e eu. Quando ele descobriu sobre o meu aborto, mais uma vez brigamos e eu pensei até que o término seria definitivo. Não era o que eu queria, mas eu não via saída pra tanta mágoa entre nós. Estamos juntos outra vez, tentando superar nosso passado dia-a-dia. Hoje, lembrar de tudo o que passamos, em parte por sua causa, não dói tanto. Mas, dizer que eu te perdoo é mentir para mim mesma e para você.
Melissa suspirou.
― Saber que você não vai surtar por me ver na festa amanhã e que um dia pode me desculpar já me basta. Eu realmente desejo que Tommy e você possam ser felizes.
Eu sorri sinceramente pra ela.
― É o que eu também desejo, Melissa. ― Eu respondia aliviada, satisfeita por poder deixar aquele ranço todo para trás.
Melissa e eu nunca seríamos amigas, mas guardar rancor não era algo que fazia bem para ninguém. Eu acreditava que depois dessa conversa, eu poderia deixar Melissa bem guardada no meu passado e seguir em frente com Tommy, sem toda aquela mágoa e culpa. E o fato de ela sentir a necessidade de me pedir desculpas mostrava que tudo o que aconteceu em nossa época em Harvard a fez sofrer de alguma forma também. Acho que depois de hoje, Melissa também viveria melhor com sua consciência.
A gente se despediu com um simples aperto de mão e eu fui para o hospital, ainda me sentindo tonta com toda aquela conversa.
Eu estava tão atordoada com aquele encontro inesperado que estava funcionando no piloto automático.
― Está tudo bem com você? ― Adam me perguntou, enquanto eu atualizava uns prontuários muito lentamente e eu suspirei, encarando-o.
― Você nem imagina quem eu encontrei hoje.
― Quem? ― Ele perguntou curioso e eu sorri.
― Melissa Flammer.
O queixo dele caiu.
― Aqui em Los Angeles? E como foi?
― Foi estranho. Ela pediu pra conversar comigo. A princípio eu me neguei, é claro, mas depois acabei cedendo.
― E o que ela fez? Te provocou como sempre?
― Ela me pediu desculpas.
Adam riu incrédulo.
― Você tá brincando, né?
― Não. Ela realmente me pediu desculpas por tudo o que me fez passar. Disse que se casou e teve um filho e isso a fez repensar todo o mal que ela havia feito a mim.
― Estou chocado. ― Adam comentou e eu ri.
― Eu também estou. Nunca imaginei que Melissa Flammer tivesse consciência. Mas, embora ainda esteja atordoada com tudo o que conversamos, foi bom finalmente poder deixar essa história toda para trás.
― Mágoas não fazem bem a ninguém. Eu sei que ela te fez sofrer, mas conversar é um passo importante para a superação.
― É o que eu acho também. Foi bom falar com ela. Mas, penso que ainda vou me sentir perturbada por um tempo. Afinal, não é todo dia que a gente tem uma conversa amigável com uma inimiga declarada.
Adam riu.
― Realmente. Você vai contar para o Tommy sobre esse encontro?
Eu respirei fundo.
Queria não precisar ter essa conversa com ele, mas sabia que esconder sobre esse encontro inesperado não era uma opção.
― Vou. Melissa vai estar na festa da firma do meu pai amanhã e eu não quero que Tommy tenha um ataque de nervos ao reencontrá-la.
― É o melhor mesmo, né? Manter segredo nunca é o melhor caminho.
Eu fiz uma careta.
― Aprendi isso do pior jeito. ― Eu murmurei e Adam sorriu tristemente, apertando meu ombro de leve, entes de voltar ao atendimento na emergência.
O dia foi bastante puxado no hospital, pois atendemos a várias vítimas de um incêndio e eu participei de duas cirurgias, além de trabalhar por várias horas seguidas no atendimento da emergência.
Já era tarde da noite quando eu finalmente pude ir para casa, mas ao invés de dirigir para o meu apartamento, fui para a casa dos meus pais. Depois do dia de hoje, eu precisava muito do aconchego da minha família.
― Sofia? Tá fazendo o que aqui? Aconteceu alguma coisa com o vovô? ― Mia perguntou assim que me viu entrar e eu sorri, me aproximando para beijar sua testa.
― Não aconteceu nada. Eu só quis vir dormir aqui hoje. Estou carente. ― Eu declarei, indo para a cozinha em busca de comida e ela me seguiu até lá.
― Pensei que gostasse de morar sozinha.
― Eu gosto. A liberdade de morar sozinha é excelente. Durmo quando quero, como quando quero, limpo quando quero. Sem contar que posso andar nua sempre que desejo. Mas, às vezes, eu sinto falta de toda a loucura que é morar aqui. Hoje tive um dia difícil e precisava do aconchego da minha família. Além disso, embora eu ame o meu apartamento, essa casa será sempre o eu lar.
Mia sorriu.
― Você é mais do que bem vinda sempre que quiser voltar. Mas, vai ter que dormir no quarto da Elena, porque Noah está aqui hoje.
― Se o Noah pode dormir no seu quarto, eu posso dormir no quarto do Tommy. Então, não se preocupe, pois não vou tirar sua privacidade. ― Pisquei para ela, enquanto saboreava um delicioso macarrão com queijo e Mia riu.
― Está tudo bem entre vocês, então?
― Acho que sim. Depois de tantas idas e vindas, acho que agora vamos poder finalmente deixar as coisas ruins do passado para trás.
― Tudo o que eu mais quero é vê-los felizes outra vez. Não é justo que o meu shipper da infância termine por bobagens. Vocês são perfeitos demais juntos e se amam de verdade.
― Você sempre foi uma das maiores apoiadoras do nosso namoro, né?
― Eu sempre vi muita verdade nos sentimentos de vocês. Meu irmão era apaixonado desde que te viu pela primeira vez e vivia comentando com Ethan o quanto você era linda e encantadora. Eu era criança, mas conhecia Tommy bem demais. E quando te conheci, eu também me encantei e queria que meu irmão ficasse com você, que era realmente linda e legal como ele achava que era.
― Você também é maravilhosa, Mia. Obrigada por todo o apoio. Eu amo você. ― Eu falei, abraçando-a com carinho e Mia retribuiu o meu gesto. ― Mas, agora que já estou de barriga cheia, vou dormir. Não estou me aguentando de tanto cansaço e amanhã tenho que estar no hospital às sete da manhã.
― E a festa da firma do papai? Você não vai?
― Vou. E é por isso que tenho que ir para o hospital mais cedo, pois tenho que compensar as horas que vou perder a noite.
Mia fez uma careta.
― Ainda bem que não inventei de querer estudar medicina.
Eu ri.
― Ainda bem mesmo, Mia. Porque essa vida de residente de cirurgia não é para qualquer um.
Subi para o quarto de Tommy depois de desejar boa noite a minha irmã e o encontrei desmaiado na cama, rodeado por uma infinidade de papéis e com a TV ligada em um filme qualquer.
Sorri para a cena, mas antes de resgatá-lo de todo aquele caos, fui tomar banho. Senti meus olhos marejados quando percebi que minha escova de dentes, inconfundível pela sua cor rosa choque, ainda estava ao lado da sua no recipiente de louça, bem como minha toalha branca ao lado da sua no segurador.
Era como se eu nunca tivesse saído da casa dos meus pais.
Mas, eu sai. Sai para dividir uma vida com Tommy e acabei vivendo sozinha no apartamento que decoramos para iniciar uma vida a dois.
Encarei minha imagem refletida no espelho e soltei um longo suspiro.
Tommy e eu tivemos muitos encontros e desencontros no nosso relacionamento, mas o amor que sentíamos desde a adolescência foi mais forte e sempre fez com que voltássemos um para o outro. Nos tempos atuais isso até poderia não ser considerado algo saudável, mas Tommy e eu dávamos certo juntos. Eu tinha certeza. E era por isso que, mais uma vez, estava dando uma chance para o nosso amor.
Tomei um banho demorado e após vestir uma camiseta do Tommy que estava pendurada atrás da porta do banheiro, fui para o quarto e comecei a libertar meu namorado de toda a bagunça que o cercava.
Quando a cama já estava livre, eu ergui o edredom e me deitei. Tommy despertou com os meus movimentos e me olhou confuso.
― Sofia? O que você está fazendo aqui?
Eu me aproximei e beijei seus lábios de leve.
― O plantão acabou e eu não quis ir para o meu apartamento. Estou me sentindo carente e precisava da sua companhia.
Tommy sorriu e afagou o meu rosto.
― É muito bom ter você aqui.
― Digo o mesmo. ― Eu gracejei e ele riu, se aproximando e tocando minha testa com o dedo indicador.
― Mas, tem um vinco de preocupação aqui. O que aconteceu?
Fiz uma careta.
― Você me conhece muito bem, não é?
― São anos de convivência, princesa. Eu consigo lê-la muito bem. Então, simplesmente me diga o que houve.
― Tive um reencontro inesperado hoje. No fim deu tudo certo, mas acabou mexendo comigo mais do que eu gostaria.
Tommy enrijeceu ao meu lado e me encarou preocupado.
― Reencontro? Com quem?
― Melissa Flammer. ― Eu soltei e ele levantou da cama em um pulo, passando por cima de mim, e me fazendo encará-lo assustada, já que há apenas alguns minutos ele estava dormindo.
― Melissa? Como assim? O que ela está fazendo em Los Angeles? Sofia, eu juro por tudo o que é mais sagrado... Pelo meu pai, pela Mia, pela minha mãe ou pelo que você quiser, que eu não tenho nada a ver com isso... Eu nunca mais falei com ela. Eu nem sequer penso nela.
― Calma, Tommy. Respira. ― Eu pedi, quando ele se afastou de mim bruscamente e começou a andar pelo quarto, balbuciando juramentos que eu não entendia e mexendo com as mãos como se discutisse com alguém. ― Tommy?
― O que ela queria? Foder com a minha vida outra vez?
― Ela queria me pedir desculpas. ― Eu expliquei e ele parou de andar, me olhando pasmo.
― O que?
― Ela queria me pedir desculpas.
Tommy gargalhou e eu fiquei encarando-o, sem saber como lidar com as suas reações estranhas.
― Tommy, você vai acordar a casa toda.
― Me. Desculpa. Mas. É. Improvável. Que... Que Melissa Flammer tenha te pedido desculpas. Ela... Ela jamais se desculpa. ― Ele falou entre um riso e outro e eu revirei os olhos, me levantando da cama e indo até ele.
― Tommy, olha pra mim... ― Eu pedi, segurando seu rosto e ele me encarou enquanto tentava conter o riso. ― Eu a encontrei por acaso e ela pediu para conversar. Melissa se casou e teve um filho. Aparentemente a maternidade a fez ver os erros do passado e ela quis se desculpar. Fim. Agora, para de ser louco antes que você acorde a casa toda.
Ele ficou me encarando em silêncio por alguns segundos.
― Ela não te envenenou contra mim?
Eu neguei com um gesto de cabeça.
― Não fez insinuações maliciosas sobre nosso breve relacionamento?
Neguei outra vez.
― Não te ofendeu nenhuma vez?
― Não. Ela foi até bem gentil.
― Não era a Melissa. ― Ele concluiu e eu ri, me abraçando a ele.
― Era sim. Mas, ela se transformou em uma nova mulher, oras. A maternidade e o casamento a mudaram.
― E você está de boa com esse reencontro? ― Ele perguntou em dúvida e eu o encarei.
― Eu fiquei meio perturbada, claro. Acredito que nunca vai ser muito fácil lidar com o que ela representa, mas foi bom conversar. Acho que agora estou realmente pronta para deixar o passado para trás.
Tommy respirou aliviado e sorriu.
― Você me assustou. De verdade. Quando você disse que reencontrou a Melissa eu já nos imaginei brigando e nos odiando outra vez. Não posso lidar com isso de novo. Melissa Flammer representa todo meu egoísmo, imaturidade e machismo e para mim também não é fácil lidar com ela. Não é fácil saber que você tem que lidar com ela e com as minhas péssimas decisões e escolhas. E... Eu tenho tanto medo de te perder, Sofia...
― Você não vai me perder, Tommy. A gente se ama e vamos fazer dar certo desta vez. Realmente não é fácil lidar com tudo o que a Melissa representa. Mas, hoje eu coloquei uma pedra em cima de tudo. Acabou. Não posso dizer que a perdoei, mas eu consigo finalmente seguir em frente sem sofrer todas as vezes que o nome dela surgir em uma conversa.
― Fico aliviado em ouvir isso. Mas, o que será que ela está fazendo em Los Angeles? O tal marido é daqui?
― Ela veio para a festa.
― Que festa?
― A firma do papai vai homenagear o curso de direito de Harvard, não é? ― Eu perguntei e ele gemeu, assentindo. ― O marido dela é um dos convidados de honra. E como ela fez parte do mesmo curso, achou justo acompanha-lo.
― Isso só pode ser castigo. Tá ok, Deus, eu fui um escroto babaca. Mas, nem no dia da minha promoção eu mereço ter paz? ― Tommy falou olhando para o teto e eu ri do seu drama.
― Relaxa. Eu sei que ela vai estar lá e você também. Não vai ser uma surpresa desagradável. Então, vai dar tudo certo.
― Não sei não. Não se esqueça que a Lara vai estar no mesmo ambiente que a Melissa e isso não pode dar certo. Acho que sua prima a odeia mais que você.
Eu fiz uma careta.
Lara realmente poderia ser um problema.
― Vamos pensar nisso amanhã. Agora precisamos descansar, pois eu preciso trabalhar amanhã cedo e temos uma festa para comparecer.
― Uhull... Estou muito animado! ― Tommy zombou e eu estapeei o seu ombro, fazendo-o rir.
― É a sua promoção. Não seja chato.
― Vamos transar? ― Tommy perguntou assim que nos deitamos e eu o olhei divertida.
― Agora?
― É... Amanhã teremos um longo dia. E sexo ajuda a aliviar a tensão, não? Além disso você está gostosa pra caralho vestida com a minha camiseta.
Eu ri e sentei sobre seu corpo.
― Seu último argumento me convenceu, bonitão. Vamos transar.
― Oba... ― Foi a última coisa que ele disse antes de nos perdermos completamente um no outro na tentativa de aliviar as tensões existentes e as que ainda estavam por vir.
**********
― Você está gata pra caralho. Tommy vai ter trabalho esta noite. ― Nicolly falou, me elogiando pela décima vez naquela noite e eu sorri.
Hoje, depois do nosso plantão, ela me pediu para passar a noite no meu apartamento, pois o prédio em que ela morava teve problemas com o encanamento e todos os moradores estavam sem água.
Quando disse que tinha uma festa para ir, ela se ofereceu para me maquiar, dizendo que não se importava em ficar sozinha. E ali estava ela, me elogiando a cada cinco minutos, enquanto dava o último retoque no meu batom.
― Meu ego adora nossa amizade, Nicky. ― Eu brinquei e ela riu.
― Seu ego não precisa de elogios, Sofia. Você sabe que é bonita. Mas, estou falando sério quando digo que você está muito gostosa nesse vestido. E essa maquiagem também ficou incrível. Você vai arrasar.
― É um evento importante. Grandes nomes do direito estarão presentes. Além disso, eu sou a filha de um dos donos. Tenho que estar apresentável.
― Uma pena que seu avô não vai participar, não é?
Eu suspirei.
O quadro clínico do Carlisle era estável. O plano cirúrgico já estava quase pronto e o tumor não havia invadido nenhuma área sensorial. Mas, mesmo afirmando estar bem, ele não foi liberado pela equipe para estar na festa de hoje, pois deveria aguardar a cirurgia em completo repouso.
― Pois é. Tommy, Ethan e Lara gostariam muito que ele estivesse presente na primeira promoção deles. Mas, Carlisle precisa de repouso até a cirurgia. Ele não gostou muito, mas concordou com a recomendação da equipe.
― Esse tumor é uma droga. Mas, pelo que consegui espiar do plano cirúrgico, vocês vão aniquilar ele.
Eu sorri.
― Assim espero. Não vejo a hora de ver meu avô fora daquela cama de hospital.
― Em breve isso será possível. Mas, agora tenta esquecer a situação do Dr. Cullen e entra no clima da festa, pois seu motorista gato chegou. Ele acabou de te enviar uma mensagem. ― Ela falou, me mostrando o celular e eu revirei os olhos para sua intromissão.
Nicolly não conhecia limites.
― Avisa que já estou descendo. E a senhora se comporte, viu... Não transforme meu apartamento em um antro de perdição.
Ela riu.
― Pode deixar. Hoje eu só quero dormir. Estou cansada demais para transar. Divirta-se por mim. ― Ela recomendou e eu pisquei em sua direção, me despedindo dela com um beijo.
Tommy me esperava em frente ao prédio e assoviou quando me viu, me fazendo corar.
― Você está perfeita, princesa. Maravilhosa, ne verdade.
― Obrigada. Você também não está mal. ― Eu falei, admirando-o em seu smoking e ele sorriu, abrindo a porta do carro e me ajudando a entrar.
― Pronta para a festa?
Eu respirei fundo, pedindo silenciosamente por proteção divina.
― Prontíssima. ― Eu declarei, entrelaçando nossas mãos e sorrindo confiante para ele.
Que Deus nos ajudasse!
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