Laços de amor

65 Capítulo Bônus 12: A vida de Tommy e Sofia


Laços de amor

Londres

Sofia

Alguns anos atrás...

Londres era, sem dúvida alguma, um dos meus lugares favoritos no mundo. Eu adorava o clima, a cultura, os pontos turísticos, os restaurantes, os museus e as bibliotecas... Até o jeito frio e impessoal dos britânicos me chamava a atenção de um jeito bom. Então, estar na terra da rainha e estudar em Oxford era a realização de um sonho de menina, pois eu sempre fui fascinada pela Europa.

E esse sonho seria ainda mais lindo se eu não tivesse perdido um bebê em minha passagem pela capital britânica. Esse triste e inesperado acontecimento seria sempre uma mancha nas lembranças da minha passagem por ali.

― Sofia? Tudo bem? ― Adam perguntou aos sussurros do meu lado, enquanto o professor falava algo sobre coloração de tecidos e eu o encarei rapidamente, me contendo para não revirar os olhos.

Desde que saí do hospital, há uma semana, ele não parava de me fazer aquela pergunta. E a resposta era sempre a mesma. Eu estava bem. Confusa e um pouco triste, mas bem. Pelo menos no que dizia respeito ao aspecto físico.

― Você sabe quantas vezes me perguntou isso só hoje? ― Ele fez uma careta.

― Eu me preocupo com você, Sofia. Apenas isso. ― Eu sorri e entrelacei nossas mãos.

― Eu sei e obrigada. Mas, eu estou bem. De verdade. ― Eu declarei e ele continuou me encarando por alguns segundos, provavelmente se perguntado se deveria acreditar ou não em mim.

Adam me conhecia bem e sabia ler perfeitamente minhas expressões e atitudes. Ele sabia que eu estava confusa e triste com a bagunça que minha vida tinha virado e sabia também que minha confusão não era exagero.

Em pouco tempo, eu havia terminado um namoro de anos, mudado de país, começado outro relacionamento e sofrido um aborto de um filho do meu ex-namorado, de quem eu precisava guardar segredo, já que ele era o filho do marido da minha mãe.

Suspirei.

Minha vida era mesmo muito complicada.

Depois da aula, Adam insistiu em me levar ao cinema, apesar do caminhão de coisas que a gente tinha para estudar. Acho que ele temia que eu entrasse em depressão e cortasse os pulsos ou algo parecido.

Meu entretenimento e felicidade pareciam ser sua missão agora.

― Gostou do filme? ― Ele me perguntou, enquanto olhávamos as vitrines na iluminada Picadilly Circus, e eu assenti.

― Era legalzinho. ― Adam gargalhou.

― Legalzinho, Sofia? É melhor dizer que não gostou e pronto.

― Eu gostei. Só não estou muito no clima, sabe? ― Ele assentiu e ficou em silêncio por algum tempo, apenas segurando minha mão e fingindo olhar as vitrines.

― Há quanto tempo você não fala com sua mãe?

― Já faz alguns dias. Trocamos mensagens e áudios, mas eu ainda não tive coragem de ligar. Isabella Swan me conhece bem e só de escutar minha respiração ela vai saber que tem algo errado.

― Eu sei que já te perguntei isso, mas... Sofia, porque você simplesmente não conta a ela o que aconteceu?

― Eu liguei para o Tommy. ― Eu confessei depois de algum tempo e ele me encarou surpreso.

― Sério? Quando?

― Ontem à noite. Eu pensei no que você vem me dizendo desde que eu decidi não contar a ninguém sobre o aborto. Tommy era o pai e tem o direito de saber.

― Então, você contou a ele? ― Eu sorri tristemente.

― Não. Melissa atendeu o telefone dele e eu perdi a pouca coragem que eu havia adquirido.

― Que merda! ― Adam falou e eu ri sem humor.

― Nem me fale. Ela foi odiosa ao telefone, como sempre. Aí eu resolvi que é melhor mesmo que o Tommy não saiba de nada. Nossa história acabou no dia em que eu terminei com ele e o deixei livre para curtir a vida, que era o que ele tanto queria e lutou para conseguir. A noite que gerou o bebê que eu perdi foi um erro e deve ser esquecida. Tommy e eu seguimos em frente e eu não quero mexer em uma ferida que ainda dói. ― Adam me abraçou de lado e beijou meu rosto com carinho.

― Eu sinto muito, Sofia. Pelo término do seu namoro, pois eu sei que você ainda gosta dele. ― Eu quis protestar, mas ele me calou com o olhar. ― Eu não sou bobo, princesa. Eu adoro você e quero muito que a gente dê certo, mas Tommy foi o seu primeiro amor e eu sei que vai levar muito tempo até que você o esqueça. Se é que um dia isso vai acontecer.

Eu sorri tristemente. Adam tinha razão. Talvez eu jamais superasse completamente minha história com Tommy, mas eu me esforçaria para esquecê-lo. Adam era um cara legal e merecia que eu me entregasse completamente ao nosso relacionamento.

― E eu também sinto muito pela perda do seu bebê. Eu te conheço o suficiente para saber que você amou esse serzinho que nenhum de nós chegou a conhecer. Mas, o que realmente me preocupa é você esconder isso da sua mãe. Ela é sua melhor amiga, Sofia... Imagina se um dia ela descobre que você escondeu dela algo dessa magnitude? Eu não a conheço, mas imagino que a Dra. Swan possa ficar magoada por você não dividir essa parte da sua vida com ela.

Adam tinha razão. Minha mãe não poderia não me perdoar se soubesse que eu escondi um aborto dela. Edward ficaria arrasado também. Além disso tinha Mia, Lara, Ethan... Todas pessoas muito próximas que ficariam muito chateadas se soubessem que eu guardei essa perda apenas para mim.

Mas, a opção era contar para todos e ter minha família em peso em Londres, incluindo Tommy, tentando curar uma ferida que já estava doendo o suficiente durante um processo forçado de cicatrização.

Respirei fundo.

― Me dói muito ter que esconder isso de todos e principalmente da minha mãe. Mas, eu realmente quero deixar essa história para trás. Meu corpo está se recuperando e um dia eu vou poder ter outros bebês. Esse que eu perdi será sempre uma triste lembrança, mas não pode mais afetar minha vida. Eu não quero Tommy aqui. Oxford é uma oportunidade de esquecê-lo e de seguir em frente e eu farei exatamente isso. ― Adam suspirou.

― Eu respeito sua decisão, Sofia. Não acho que é a melhor decisão, mas respeito. E só espero que você não se arrependa. ― Eu sorri com tristeza.

― Você vai guardar meu segredo então? ― Eu perguntei, esticando meu dedo mindinho e ele sorriu, enganchando seu dedo no meu.

― Enquanto você precisar que eu guarde. ― Ele garantiu e eu o beijei, selando nosso acordo.

O que aconteceu em Londres, ficaria em Londres. Era simples e assim ninguém além de mim precisava sofrer por um bebê que estaria vivo apenas na minha memória.

Los Angeles

Esquecer completamente o que aconteceu em Londres era impossível. A prova estava no fato de que eu quase desabei quando atendi na emergência uma paciente em uma situação muito parecida com a que vivi.

Mas, na maior parte do tempo eu simplesmente me desligava daquela parte do meu passado, como se nunca tivesse acontecido. E se Adam não tivesse gritado meu segredo para que todos no hospital pudesse ouvir, a lembrança da minha perda ainda continuaria sendo apenas minha.

Mas, agora eu teria que contar o que houve a minha mãe. Desenterrar mais uma vez aquelas lembranças e dividi-las com a pessoas mais importante da minha vida e, provavelmente ouvi-la gritar comigo por horas sem fim.

Olhei ansiosa para Isabella Swan Cullen, que segurou a porta da sala de reuniões para que eu entrasse e pedi aos céus que ela me desse a oportunidade de me explicar, mesmo com anos de atraso.

Decepcionar minha mãe foi algo que eu sempre evitei ao máximo.

Isabella Swan tivera uma vida muito difícil para me dar uma boa educação e eu devia apenas agradecê-la e amá-la incondicionalmente pelo resto dos meus dias por tanta dedicação, amor e amizade que ela dedicou a mim desde que soubera que estava grávida, aos quinze anos de idade.

Nossa relação sempre foi baseada na confiança e na amizade. Minha mãe sempre me contou tudo o que se passava em sua vida e me deixava a vontade para que eu fizesse o mesmo. Assim, ela soube do meu primeiro beijo, da minha primeira transa, das minhas decepções amorosas, das minhas aventuras, dos meus medos, cansaços, mágoas, alegrias, sonhos... Enfim... Isabella Swan sempre soube tudo o que acontecia em minha vida.

Ou quase tudo.

Esconder esse aborto dela foi necessário por ela ser esposa de Edward Cullen e mãe do Tommy, para todos os efeitos. Mesmo que eu implorasse, ela jamais guardaria esse segredo e nem poderia. Por isso, para proteger seu casamento e sua relação com o filho do seu marido, eu me calei.

Afinal, contar sobre o aborto só faria todos sofrerem por um bebê que não mais existia e que ninguém jamais iria conhecer.

Mas, agora, ao ver sua expressão perturbada por descobrir sobre um episódio da minha vida que não foi compartilhado com ela, eu me pergunto se eu não deveria ter escutado Adam e contado tudo aos meus pais e a Tommy na época em que aconteceu.

― Mãe, eu...

― Calada, Sofia... Seu tempo de falar já passou.

― Mas, mãe, eu quero explicar meus motivos. ― Ela me lançou um olhar frio e eu me encolhi.

― Motivos para que, Sofia? Para esconder da sua família um aborto? Para esconder de mim, sua mãe, um trauma pelo qual eu deveria tê-la ajudado a passar? Para explicar porque eu tive que descobrir sobre isso ouvindo seu ex-namorado gritar no corredor do hospital?

Eu respirei fundo, tentando manter a calma.

― Mãe, eu não queria que vocês sofressem. Eu perdi um bebê do qual nem sabia da existência e não podia fazer mais nada a respeito. Eu estava em outro continente, você e o papai cheio de trabalho, com crianças pequenas em casa... Eu teria sido muito egoísta se tivesse contado a vocês o que aconteceu, fazendo com que deixassem tudo para ir atrás de mim em Londres.

― Esse é o nosso papel, Sofia. Somos seus pais e não teríamos nos importado de largar tudo para cuidar de você.

― Eu sei que vocês não teriam se importado, mas não iria adiantar. ― Minha mãe bufou.

― Sofia, você estava grávida. Era o meu neto. Era o neto do... Quem era o pai? ― Eu corei.

Minha mãe sabia que eu não tinha tido muitos parceiros sexuais. Adam e Tommy eram os únicos caras com quem eu tinha estado, mas aquela pergunta, feita naquele tom, dava a entender que minha vida sexual havia sido mais agitada do que realmente foi.

― Tommy era o pai. ― Eu admiti e ela estreitou os olhos.

― Vocês não estavam separados? ― Eu corei outra vez.

Minha mãe nunca ficou sabendo da minha recaída com Tommy antes de eu ir para Londres. Aliás, ninguém sabia, pois, ele e eu combinamos de manter aquele interlúdio apenas para nós dois. Interlúdio esse que agora seria mais um motivo para minha mãe ficar triste comigo.

― A gente transou na noite antes de eu embarcar para Londres. Estávamos separados há algum tempo e porque o universo me odeia, eu acabei engravidando, mesmo nunca tendo me esquecido nem um dia sequer de tomar minha pílula. ― Ela fechou os olhos com força e sentou-se na ponta da grande mesa de reuniões, colocando o rosto entre as mãos.

― E você não pensou em contar sobre essa gravidez para ninguém? ― Minha mãe me perguntou depois de uns minutos de silêncio e eu respirei fundo, me sentando ao seu lado.

― Eu não sabia que estava grávida, mãe. Eu não tive enjoos e continuei menstruando... Quer dizer, o médico disse que não era menstruação, mas como eu podia saber? Só soube que estava grávida no dia que sofri o aborto.

― Não foi proposital, então? ― Eu arregalei os olhos.

― Claro que não, mãe. Eu jamais faria algo assim. Acho que toda mulher tem controle e direitos sobre o seu próprio corpo, como médica e mulher eu luto por isso, mas eu jamais faria um aborto. Eu teria sim o meu bebê, mesmo que me tornar mãe aos vinte e dois anos virasse toda minha vida do avesso.

― Eu estive em Londres, Sofia. Por que você não me disse? Por que não confiou em mim? ― Ela me perguntou com a voz sofrida e meus olhos se encheram de lágrimas.

Como eu odiava magoá-la!

― Mãe, quando você esteve em Londres, já fazia alguns meses que eu havia sofrido o aborto e eu tentava superar esse trauma dia a dia. Adam me ajudou. Ele foi muito mais que meu quase namorado na época em que estávamos em Oxford. Foi meu amigo, conselheiro e confidente e sempre insistiu para que eu contasse a vocês. Eu estava decidida a guardar esse segredo, mas um dia eu cheguei a pensar em contar a Tommy. Afinal, ele era o pai daquele pequeno embrião que nem chegou a se desenvolver... Mas, no dia em que liguei para ele, quem atendeu foi Melissa Flammer e eu resolvi que era melhor que ninguém além de mim e Adam soubesse.

― Guardar esse segredo foi uma forma de punir o Tommy por ele estar com Melissa? ― Minha mãe perguntou brava e eu neguei com um gesto de cabeça.

― Não! Pelo menos não intencionalmente. Eu só não queria que ninguém mais sofresse. Não havia nada que Tommy, você ou o Edward pudessem fazer... Nosso namoro estava terminado, a gente estava com outras pessoas e o bebê não existia mais. Não havia motivos para contar. Só isso.

― Sofia, o sofrimento e o luto também são direitos. Tommy tinha o direito de sofrer a perda de um bebê. Edward e eu tínhamos direito de sofrer a perda de um neto. Você não podia ter escondido isso de todos nós.

― Eu sei. Mas, eu estava confusa e na época achei que era a melhor decisão. ― Minha mãe riu sem humor.

― Você reatou com Tommy pouco tempo depois que voltou de Londres. E por que não contou a ele? Resolveu que era melhor mentir?

― Omitir é diferente de mentir, mãe.

― Na prática é a mesma coisa, Sofia. Nenhum relacionamento pode ser baseado em omissões, ainda mais dessa natureza. Era um filho. Um filho que vocês fizeram juntos.

― Um filho que eu não conheci e que morreu antes que eu ao menos soubesse da sua existência no meu corpo... Dói me lembrar disso, mãe. Dói, porque mesmo que eu fosse jovem e ainda tivesse um longo curso de medicina pela frente, eu queria o meu bebê. ― Eu desabafei, chorando toda a dor que não me permitir chorar quando perdi meu bebê e minha mãe suspirou, levantando-se e vindo me abraçar.

― Eu sinto muito por você ter passado por isso, filha. Posso imaginar sua dor, porque um dia eu quase te perdi. Mas, acredite em mim, amor, esconder isso de toda sua família não é solução para nada, nem para a dor. A prova disso é o quanto a paciente de hoje te afetou. Você foi brilhante como médica. Claro. A Dra. Clay não parou de te elogiar. Mas, eu sei que apesar da sua eficiência, a história da paciente trouxe de volta tudo o que aconteceu em Londres, tanto para você, quanto para Adam. Do contrário, ele não teria gritado aquilo num corredor para que todos pudessem ouvir. ― Eu fiz uma careta.

Isabella Swan me conhecia bem.

― Eu já atendi casos de aborto antes e sim, eles sempre mexem comigo. Mas, antes Adam não estava aqui para me encarar e me lembrar a cada cinco minutos que eu escondia um segredo de todos. Acho que foi por isso que hoje eu fiquei tão mexida...

― Se essa lembrança te afeta tanto, amor, significa que você ainda não superou. E algo me diz que isso só vai acontecer quando você contar ao Tommy tudo o que se passou em Londres. ― Eu gemi e coloquei o rosto entre as mãos.

― Mãe, eu não posso contar isso pra ele. Tommy não vai entender, principalmente porque Adam está envolvido. É capaz de ele desistir de tudo... Do nosso apartamento, do nosso casamento... De tudo! ― Minha mãe levantou uma sobrancelha, me encarando com ironia.

― Você nem quer esse casamento mesmo, Sofia. Que diferença vai fazer?

― Mãe, eu amo o Tommy. Quero sim dividir uma vida com ele. Eu... Eu sou residente de cirurgia. Trabalho quase vinte horas por dia, assim como Tommy. Não é a hora ideal para um casamento. Só isso.

Minha mãe riu.

― Sofia, eu era mãe durante a residência cirúrgica e não tinha muito dinheiro e mesmo assim se naquela época o amor da minha vida tivesse aparecido, eu me casaria sem pensar. O que me faz pensar que sua hesitação tem mais a ver com esse pequeno segredo que você mantém escondido dentro do armário. ― Eu estralei os lábios, mas sabia que ela poderia ter razão.

― Mãe, Tommy vai me odiar se souber sobre o aborto. Não posso contar isso pra ele agora.

― Claro que pode. Pode e vai. Conta você ou conto eu. Você não vai dividir uma vida com o meu filho escondendo algo assim dele.

― Eu também sou sua filha. ― Eu resmunguei e ela bufou.

― E a filha que eu criei é uma mulher íntegra, honesta e corajosa, que não vai esconder um filho do futuro marido. ― Eu suspirei.

Conhecendo bem minha mãe, ela não me deixaria em paz enquanto eu não contasse a verdade para Tommy.

― E o papai?

― O que tem o seu pai?

― Será que ele vai me odiar? ― Minha mãe riu.

― Seu pai não seria capaz de te odiar nem que você cometesse um assassinato. Edward Cullen tem a péssima mania de passar a mão na sua cabeça. Ele sempre acha uma desculpa para suas atitudes, mesmo quando são péssimas como essa.

― Mas, você me odeia, né? ― Eu perguntei baixinho e ela sorriu, segurando meu queixo e me fazendo encará-la.

― Você é o meu primeiro amor, Sofia. É o meu coração que bate fora do meu peito e eu jamais poderia odiá-la. Mas, eu estou decepcionada com o seu egoísmo e com suas péssimas decisões. Eu sempre fui sua amiga e confidente, Sofia e não entendo porque você me deixou de fora dessa vez.

― Eu só não queria que vocês sofressem... ― Eu murmurei e ela suspirou, tocando meu rosto com carinho.

― Errar é humano, meu anjo. Você sempre foi perfeita em tudo. Linda, inteligente, médica... ― Eu sorri. ― Mas, tem um ditado que diz que persistir no erro é burrice. Você vai contar ao Tommy o que aconteceu e lidar com as consequências. É assim que enfrentamos nossos problemas, filha... De frente e com coragem.

― E se ele me deixar? ― Confessei meu maior medo e minha mãe expirou.

― Você vai lidar com isso se acontecer. O que não pode é continuar guardando escondendo isso do cara com quem pretende dividir uma vida.

Minha mãe tinha razão. Eu precisava contar para o Tommy o que tinha acontecido em Londres, mas eu estava com medo. Com muito medo, pois eu sabia que ele iria surtar. E o pior: ele ficaria magoado e eu me odiaria eternamente por fazê-lo sofrer.

**********

Depois que saí do hospital, fui praticamente me arrastando para o meu apartamento.

Era para ser uma noite feliz, já que seria o primeiro dia oficial da minha nova vida com Antony Cullen. Entretanto, ironicamente, ele e eu teríamos que relembrar uma parte do passado que eu sinceramente preferia esquecer.

― Até que enfim, Sofia. Achei que você tivesse desistido da nossa noite. ― Tommy falou assim que me viu entrar e eu suspirei, jogando minhas coisas sobre o sofá. ― “Amor, eu também estava com saudades e ansiosa para te ver”. ― Ele falou debochado, tentando imitar minha voz e eu sorri, me aproximando e beijando-o com carinho.

― Eu estava ansiosa pela primeira noite em nosso apartamento. Mas, enfrentei um plantão interminável e estou bem cansada. ― Ele fez uma careta.

― Acho que você deveria mesmo ter cursado literatura. ― Eu ri.

― É... Acho que eu seria menos estressada.

― Mas, como sabia que você provavelmente chegaria estressada e cansada depois de mais um plantão interminável, eu comprei uma pizza. De mozzarella. E tem vinho também. Safra de 1949. Foi o papai que me deu de presente para comemorarmos o fato de finalmente estarmos morando sozinhos. ― Eu tentei sorrir, mas a única coisa que conseguia pensar era que eu teria que contar a Tommy sobre o que aconteceu em Londres.

E eu sabia que depois disso sua vontade de me mimar iria a zero.

Então, eu poderia simplesmente comer a pizza, brindar nossa nova casa com um vinho de uma excelente safra, tomar um banho e fazer amor com Tommy, fingindo que estava tudo bem.

Mas, eu não podia mais esconder nosso bebê dele.

Nosso filho não existia mais, mas o segredo sim e eu não poderia seguir em frente sem dividi-lo com o cara que eu mais amava na vida.

― Tommy, nós precisamos conversar.

Ele me encarou preocupado.

― Sempre que essa frase é dita, a gente acaba brigando.

― E acho que hoje não será diferente.

― O que aconteceu? ― Eu respirei fundo e me sentei, pedindo que Tommy fizesse o mesmo. ― Sofia?

― Tommy, você se lembra da noite anterior a minha viagem para Londres?

― Eu estava me sentindo um lixo porque ficaria longe de você, nossa família se reuniu em Boston, na casa dos nossos avós, para sua despedida e nós transamos. Eu me lembro de todos os detalhes desse último acontecimento, inclusive...

― É... Nós transamos.

― Foi uma despedida. Você não quis falar sobre o que aconteceu e aí...

― Eu fiquei grávida de você naquela noite. ― Eu confessei de uma vez, antes que perdesse a coragem e Tommy arregalou os olhos, me encarando assustado.

― O que?

― Eu engravidei naquela noite.

― Sofia, uma gravidez tem como resultado um bebê. Um bebê que eu nunca vi. Que brincadeira é essa? ― Tommy perguntou irritado e eu mordi os lábios, tentando não chorar.

― Eu perdi o bebê, Tommy.

― Perdeu? Sofia, que merda de história é essa? Como eu nunca fiquei sabendo disso?

― Eu nunca contei a ninguém. A única pessoa que sabia sobre minha gravidez e aborto era Adam e ele prometeu não contar a ninguém. ― Eu expliquei e Tommy bufou, passando as mãos pelo cabelo.

― Você está me dizendo que foi para Londres esperando um filho meu e não me disse nada? Que você sofreu um aborto e ao invés de me ligar, resolveu esconder tudo de mim, dividindo um segredo com aquele babaca?

― Eu não sabia que estava grávida. Soube apenas depois que sofri o aborto. Adam estava comigo lá, então, de qualquer jeito ele ia saber...

― Eu tinha o direito de saber, Sofia. Eu era o pai do bebê. Eu sou o filho dos seus pais, irmão dos seus irmãos... Temos a mesma família e uma história de amor que você devia ter respeitado. ― Foi a minha vez de me irritar.

― Eu devia ter respeitado, Antony Cullen? Eu? Gostaria de lembra-lo de que eu sempre respeitei nossa história. Quem não fez isso foi você, que resolveu bancar o idiota e curtir a vida com aquela vadia da Melissa.

― Esquece a Melissa, Sofia...

― Não tem como esquecê-la, Tommy. Eu fui para Londres para não ter que ver vocês juntos. Mas, aí, eu transei com você naquela noite porque simplesmente não podia esquecê-lo e engravidei. E eu teria sim te chamado para estar ao meu lado em um dos piores momentos da minha vida se não estivesse tentando esquecer tudo o que vivemos e tudo o que eu sofri por sua causa e por causa daquela maldita garota.

― Melissa não tem nada a ver com o que você escondeu de mim, Sofia. ― Eu sorri com amargura.

― É... Foi minha decisão. Mas, eu te liguei, sabia? Adam insistiu durante semanas que eu deveria contar a você e a nossa família o que tinha acontecido e eu achei que talvez fosse mesmo o certo a fazer. Mas, aí, advinha quem atendeu ao telefone?

― Sofia, eu...

― Advinha, Tommy? Melissa atendeu e foi odiosa como sempre. E aí eu pensei que não faria nenhuma diferença se você soubesse ou não, afinal, não existia mais bebê. Eu estava sofrendo, mas em algum momento iria passar. Eu precisava te esquecer, Tommy, antes que eu enlouquecesse de uma forma irremediável. Então, me desculpe por eu ter mantido você de fora. Minha mãe me fez entender aos gritos que eu não tinha esse direito. Mas, na época foi melhor assim.

― Foi melhor dividir a perda do meu bebê com Adam Jones? ― Eu ri. Era claro que esse seria o maior problema de Tommy.

― É. Eu dividi essa parte da minha vida com ele e sinto muito por não ter sido madura o suficiente para separar um bebê do nosso namoro fracassado. Mas, eu era apenas uma garota apaixonada e desiludida que estava tentando seguir em frente.

― E aposto que você não pretendia me contar esse pequeno segredo do nosso passado, não é?

― Não. Eu sempre me esforcei muito para esquecer o que houve em Londres e contar pra você e nossa família não fazia parte do meu plano de esquecimento. Mas, hoje uma paciente me fez lembrar do bebê que eu perdi e uma discussão entre Adam e eu fez com que minha mãe descobrisse o segredo que eu não dividi nem com ela.

― Ela obrigou você a me contar?

― Pois é. Isabella Swan me fez entender que não dava para começar uma vida a dois guardando de você um segredo como esse. E eu tive que concordar. Então, estou aqui, tirando meu único fantasma do armário e deixando o futuro do nosso relacionamento em suas mãos.

Tommy respirou fundo e ficou olhando para as próprias mãos por longos minutos.

E eu esperei, torcendo para que Tommy pudesse superar o que eu havia acabado de contar a ele, caso contrário, nosso relacionamento corria um sério risco de terminar para sempre.

― Eu preciso de tempo. ― Tommy falou e se levantou, pegando as chaves do carro.

― Pra onde você vai?

― Pra longe de você, Sofia. Preciso pensar e não quero te ver. Não quero nem ouvir sua voz nesse momento.

Meus olhos se encheram de lágrimas e eu engoli o choro iminente.

― Tommy...

― Não, Sofia. Agora não. Eu vou para a casa dos nossos pais e você fica aqui. Casar nunca esteve em seus planos mesmo. Não vai fazer diferença... ― Tommy falou e saiu, sem ao menos se despedir, me deixando ali, no nosso apartamento, chorando por um bebê que não existia mais e por um relacionamento que provavelmente eu havia destruído.

Minha vida estava realmente muito ruim.

Notas finais
Olá, pessoas. Como vai a quarentena eterna? Vocês não imaginam o quanto escrever essa fanfic me faz bem. Eu amo os personagens e escrever sobre eles é sempre muito bom. Tem sido meu alento nesses tempos difíceis. Então, agradeço por lerem o que eu escrevo e por comentarem. Vocês são excelentes companhias nesse tempo de isolamento social. Espero que tenham gostado do capítulo e aguardo os comentários. Beijos!