Laços de amor
66 Capítulo Bônus 13: A vida de Tommy e Sofia
Laços de amor
Los Angeles
Tommy
Algumas semanas depois...
― Você nunca mais vai se levantar dessa merda de cama? ― Mia me perguntou, entrando de repente no meu quarto e eu a encarei irritado, sem responder a sua pergunta idiota, porque a resposta era óbvia.
Não, eu nunca mais iria me levantar, porque a merda da minha vida não fazia mais nenhum sentido.
Mas, ignorar Mia Cullen nunca seria uma tarefa fácil.
― Antony Cullen, eu estou falando com você! ― Ela gritou, batendo o pé no chão como uma garotinha mimada, o que na verdade ela era, e eu revirei os olhos.
― Eu não quero falar com você, Mia. Nem com ninguém. Então, por favor, saia do meu quarto. ― Ela revirou os olhos e marchou até minha cama, puxando as cobertas de cima de mim.
― Você fez merda, Tommy. Muita merda. Foi babaca, imbecil, cretino e machista e agora tem que lidar com as consequências dos seus atos e das suas péssimas escolhas. Mas, não é se trancando num quarto e fazendo greve de fome que você vai resolver sua vida. Então, levanta dessa droga de cama e vai trabalhar antes que o papai te despeça, como já ameaçou infinitas vezes desde que você iniciou este estado permanente de auto depreciação e reclusão. ― Eu bufei e puxei minhas cobertas outra vez, querendo mais do que nunca desaparecer da face da terra.
― Não quero me levantar e muito menos trabalhar. O papai pode me despedir, se quiser, pois não vai fazer diferença. Então, saia daqui e me deixe em paz com a minha dor, Mia.
Minha irmã respirou fundo e sentou-se na beirada da minha cama, me olhando com pena, o que me fez ficar ainda mais irritado.
Já fazia algumas semanas que as pessoas a minha volta me olhavam daquele jeito, como se eu fosse um cachorrinho sem dono e essa nova mania me deixava mais do que puto.
― Tommy, escuta... Foi justamente esse seu jeito infantil e imaturo que te levou a essa situação. Você tinha tudo... A namorada perfeita, a família perfeita e um futuro brilhante ao lado de uma mulher extraordinária. Aí, você resolveu ser um babaca e ela te chutou. Mas, sendo a garota maravilhosa e doce que é, Sofia te deu outra oportunidade e você jogou fora porque foi um idiota, machista e ciumento. Entretanto, você não vai reconquistá-la trancado aqui. ― Eu sorri com amargura.
― Eu não vou reconquistá-la de jeito nenhum, Mia. Sofia me chutou outra vez e não me quer mais ao seu lado. Ela foi bem clara, aliás. Sai daqui, pois eu não quero mais nada com você foram as palavras exatas dela. Então, nem que eu nascesse outra vez, poderia reconquistá-la.
Mia revirou os olhos.
― Eu também não ia querer um cara imaturo ao meu lado, Tommy. Por isso você tem que crescer de uma vez por todas. Por favor. Ver você assim me mata. ― Eu respirei fundo tentando não chorar.
― Eu só queria minha namorada de volta... ― Mia sorriu e acariciou meus cabelos.
― E você pode tê-la. Mas, vai ter que lutar como nunca e não vai ser deitado nessa cama que vai conseguir mudar o rumo da sua vida. Então, por favor, levanta, toma um banho, come alguma coisa e vai trabalhar.
Eu suspirei.
Não tinha vontade de fazer nada há semanas, mas Mia tinha razão.
Minha vida estava uma merda, mas se queria concertar tudo o que eu ferrei, eu precisava reagir.
Assim, depois de expulsar Mia do meu quarto sob a promessa de que eu ia tentar retomar a minha vida, tomei um banho demorado e me vesti para o trabalho.
― Nossa, você ainda está vivo. ― Elena comentou quando me viu na cozinha e eu sorri, me aproximando e beijando o topo da sua cabeça.
― Oi, pequena. Como vai?
― Eu vou bem. Só estou com saudades da Sofia. ― Eu sorri tristemente.
― Também estou com saudades dela. Mas, sua irmã está bem. Morar sozinha é o sonho de todo mundo que é adulto.
― Mas, vocês não iriam se casar?
Senti a conhecida dor apertar meu peito como garras de aço, mas respirei fundo e sorri para a minha pequena irmã.
― É, a gente ia. Mas, namorados brigam e nem sempre as coisas saem como a gente espera. Isso também faz parte do que é ser adulto. ― Ela fez uma careta.
― Não quero crescer, então. ― Eu ri.
― Eu também não queria. Mas, é inevitável. Então, vou te dar um conselho. ― Eu falei e ela me encarou atenta.
Elena era muito parecida com Sofia e olhá-la me fazia sentir ainda mais saudades da minha princesa, a quem tão descuidadamente eu magoei.
― Quando você for adulta, ou quase, vai conhecer alguém que vai se tornar o seu mundo. Você vai se apaixonar e namorar, provavelmente. Então, por favor, jamais magoe a pessoa por quem você se apaixonar. Não a deixe por nada, não seja egoísta e nem imatura, porque a dor de estar longe da pessoa amada é muito difícil de superar.
― Você e a minha irmã vão se entender, Tommy. ― Ela falou suavemente, tocando meu rosto com carinho e eu sorri, abraçando-a.
― Tomara, princesa. Vou torcer muito para que você esteja certa. Mas, agora, preciso trabalhar.
― Isso é algo bom. Papai não vai mais ter uma síncope. ― Eu ri, pois era isso que Edward Cullen dizia todos os dias enquanto eu me recusava a voltar ao trabalho.
“Eu vou ter uma síncope nervosa, Antony Cullen e a culpa vai ser toda sua”!
― É, acho que dessa vez a vida dele será poupada. ― Falei, piscando para Elena e ela riu, retribuindo meu gesto e saindo em seguida para sua aula de dança.
Depois de tomar café da manhã, segui em direção a barbearia, pois precisava dar um jeito no meu cabelo antes de voltar ao trabalho. Não queria assustar os funcionários da firma com minha aparência de zumbi.
Quando eu cheguei ao escritório, notei que todos me olhavam de um jeito estranho e por mais que disfarçassem, eu sabia que estavam se perguntando o motivo do meu sumiço e da minha cara de acabado.
― Olha só quem apareceu com o vento. Pensei que tivesse desistido da carreira de direito. ― Lara falou, assim que me viu entrar na sala que dividíamos e eu bufei por ter que encará-la já nas primeiras horas de trabalho.
Ela era a última pessoa que eu queria encontrar hoje.
― Eu apenas tirei umas férias. Jamais desistiria da minha carreira. ― Ela me encarou divertida.
― Férias, é? Minha prima chutou o seu traseiro e você ficou depressivo. Mas, se quer dar outro nome à grande merda que sua vida virou por sua própria culpa, o problema é todo seu. ― Lara falou ácida e saiu da sala batendo os saltos, me deixando ali tremendo de ódio e frustração por não poder responde-la como eu realmente gostaria.
Maldita seja Lara Swan e todo o seu deboche certeiro!
Olhei para minha mesa e percebi uma pilha de processos, o que quase me fez desistir. Mas, respirei fundo e tentei ao máximo me concentrar no trabalho, pois realmente precisava ocupar minha cabeça com algo produtivo
Já era quase hora do almoço quando meu pai chegou ao escritório depois de uma audiência, ficando bastante surpreso ao me ver ali.
― Resolveu sair da cama, então?
― Não quero que você tenha uma síncope por minha culpa. ― Eu respondi sem encará-lo e meu pai suspirou, sentando-se de frente para minha mesa.
― Tommy, eu estava preocupado. Você ficou duas semanas praticamente sem se levantar da cama. Eu sei que você está triste e perdido, mas não pode simplesmente parar sua vida só porque o seu relacionamento terminou. ― Eu o encarei.
― Não quero falar sobre isso. ― Meu pai revirou os olhos.
― Mas, nós precisamos conversar, filho. Você e Sofia são da mesma família e filhos dos mesmos pais. Não podemos simplesmente jogar esse término para debaixo do tapete e agir como se nada tivesse acontecido.
― Você quer que eu fale o que, pai? Eu fiz merda. Muita merda, aliás. Fui machista, imaturo, ciumento, inseguro e cretino. Fim de papo. Não há nada que eu possa fazer para concertar isso e fazer com que Sofia volte para mim.
― Vocês se amam ainda. ― Eu sorri tristemente.
Ele tinha razão quanto a isso, mas às vezes apenas o amor não era suficiente.
― Pai, eu vou sempre amar a Sofia e eu sei que esse amor é recíproco, mas como ela mesmo disse, já faz algum tempo que fazemos mal um ao outro. ― Meu pai estalou os lábios.
― Não sei se concordo... ― Ele resmungou e eu suspirei.
― Pois, eu concordo. Eu estava fazendo a Sofia sofrer, pai. Faço isso desde a época de Boston, pois sou imaturo, inseguro e fui muitas vezes machista. A pressionei por um casamento que ela não queria, surtei com a volta do Adam Jones para a vida dela e fui um imbecil quando soube do aborto que ela sofreu em Londres. Sem contar que Sofia nunca vai superar o fato de eu ter ficado com Melissa Flammer, mesmo tendo feito isso depois que ela chutou minha bunda. Então, é melhor mesmo que a gente tenha terminado. Eu a amo demais para fazê-la sofrer e aprendi sofrendo que amor é também sobre libertar.
Meu pai expirou.
― É uma pena. Eu sempre torci pelo amor de vocês. Quis te matar quando vocês terminaram e vibrei quando reataram. Mas, se o relacionamento de vocês a faz sofrer, é melhor mesmo que tenha terminado. Sofia é uma garota extraordinária e não merece nada além da felicidade.
― Exatamente. ― Eu murmurei e meu pai suspirou, levantando-se.
― Mas, fico feliz que você tenha voltado para o escritório. Você faz falta aqui, filho. ― Eu sorri.
― Também estou feliz por ter voltado, pai. ― Eu falei sinceramente e meu pai sorriu.
O trabalho era a única coisa que me restava agora e eu não podia abandoná-lo, pois realmente gostaria de ser promovido e não era trancado em casa que eu iria conseguir isso.
― Esses processos estão acumulados e sua tarefa é eliminá-los. Aliás, eu espero que você compense tantas faltas fazendo o seu melhor. ― Contive um revirar de olhos.
― Eu sempre faço o meu melhor, Edward Cullen. ― Ele riu.
― Certo. Bem-vindo de volta, então.
Trabalhei como um louco o dia todo e consegui revisar boa parte dos processos.
Não saí para almoçar e tampouco interagi com alguém. Ethan até tentou conversar, mas quando viu que eu não ia colaborar, desistiu e me deixou em paz.
Lara simplesmente fingiu que eu não existia, o que era ótimo, pois eu realmente não estava paciência para o seu deboche.
Voltei para casa tarde da noite e para minha infelicidade topei com Sofia na cozinha. Ela parecia exausta, mas estava linda como sempre vestida sua calça jeans preferida, moletom de Harvard e os longos cabelos presos em um coque frouxo no topo da cabeça.
― Oi... ― Eu falei baixinho e ela me olhou surpresa, sorrindo em seguida.
Como senti falta daquele sorriso.
― Oi, Tommy. Tudo bem? ― Ela me perguntou casualmente, como fossemos bons amigos e eu sorri tristemente.
― Eu estou sobrevivendo. ― Comentei e ela desviou o olhar, voltando sua atenção para o prato de torta a sua frente.
― Eu vim roubar comida. Essa semana tive um plantão atrás do outro e não tive tempo para cozinhar. ― Eu ri.
― Você não cozinha, Sofia.
― Cozinho sim. Não sou nenhuma chef, mas sei me virar. ― Ela resmungou e eu senti uma vontade quase incontrolável de beijá-la, mas me contive.
Sofia não me queria mais daquela forma e eu precisava respeitar sua decisão.
― Bom, sinta-se em casa. Vou subir e tomar banho, pois estou exausto.
― Fico feliz que você tenha voltado a trabalhar. ― Ela comentou quando eu já estava quase saindo da cozinha e eu me voltei para encará-la.
― A vida continua, né?
― É... A vida continua. Além disso, nossos pais merecem nossa maturidade, Tommy. Lembre-se de que prometemos que nossa relação jamais iria interferir no casamento deles.
― Eu sei. Não vai interferir. Afinal, não somos mais noivos, mas ainda pertencemos a mesma família, não é?
― Sim. E, por isso, eu quero te ver bem.
― E você está bem? ― Ela sorriu.
― Estou sim. Está sendo ótimo passar esse tempo comigo mesma, sozinha e livre. Eu e você não sabemos o que é estar só desde os dezesseis anos, já que mesmo quando terminamos, nos envolvemos com outras pessoas. Então, esse tempo só para mim tem sido ótimo.
― Que bom. Pelo menos alguém está feliz. ― Falei com um traço de amargura e ela levantou uma sobrancelha.
― Não vamos por esse caminho, Tommy. Sem culpa. ― Eu suspirei.
― Certo. Me desculpa. Foi um longo dia. Mas, foi bom te ver. Boa noite, Sofia...
― Boa noite, Tommy... ― Ouvi sua voz suave e respirei fundo, me esforçando para deixá-la para trás e seguir em frente, como era a vontade dela.
Mas, acho que nossa discussão final, dias depois de eu descobrir sobre o aborto, nunca sairia da minha cabeça, nem que eu vivesse cem anos.
Pouco nos falamos depois da nossa discussão sobre os acontecimentos na terra da rainha. Sofia estava fria e distante e eu também não fazia muita questão de interagir, pois estava me sentindo traído e magoado pelo seu silêncio.
A merda da criança que vivia em mim não me deixava procura-la e o que era para ter sido uma semana feliz, já que estávamos finalmente sozinhos em nosso apartamento depois de muito tempo, se tornou apenas uma sucessão de dias sombrios, nos quais nos assemelhávamos mais a estranhos obrigados a dividir o mesmo espaço do que a duas pessoas apaixonadas há anos.
O que me consolava era saber que eu não era a única vítima da frieza da minha noiva. Mia, durante nosso almoço semanal, havia me contado que Sofia também havia discutido com a mãe e que as duas estavam distantes.
Lara surtou, – é claro! – ao descobrir sobre o segredo que Sofia escondeu de todos nós, mas, minha noiva a mandou a merda e as duas também não estavam se falando, apesar das inúmeras tentativas de reaproximação da Lara, que não aparava de se lamentar com Ethan e dizer que a culpa era toda minha.
Podia ser que Lara tivesse razão, mas essa mania de sempre me acusar de tudo me irritava profundamente.
Adam, o guardião dos segredos, também entrou para a lista de desafetos de Sofia Swan já que, segundo Nicky, ela se recusava a trocar qualquer palavra com o ex-namorado que fugisse ao âmbito profissional, o que me deixaria feliz se não fosse o fato de que ela também não estava trocando muitas palavras comigo.
Assim, quando já fazia uma semana da nossa discussão, eu resolvi que precisávamos conversar. Éramos adultos e devíamos encarar nossos problemas de frente. Mas, ao chegar em nosso apartamento, para minha surpresa, encontrei algumas malas na sala.
Sofia estava sentada no sofá e mantinha o rosto escondido entre as mãos.
O clima estava pesado e eu sentia que algo grave tinha acontecido.
― Sofia? Tudo bem? E essas malas? Você vai viajar? ― Eu perguntei e ela me encarou. A frieza que vi em seus olhos me assustou.
― Eu não vou viajar, Tommy. É você que vai embora.
― Embora? Para onde? ― Eu perguntei confuso e ela sorriu.
― Aí é você que decide.
― Sofia, eu não estou entendendo... ― Ela riu, limpando com raiva as lágrimas que escorriam por seu rosto.
― Eu cansei, Tommy. Cansei de tentar ser a filha perfeita, a namorada perfeita, a irmã perfeita, a amiga perfeita... Eu sou apenas uma humana que se engana e comete erros. Não posso e não quero mais agradar todo mundo. Não quero mais estar nesse relacionamento onde não tenho compreensão e nem apoio. Cansei das suas crises de ciúmes, da sua falta de empatia e da sua infantilidade eterna. Portanto, quero que você vá embora do meu apartamento.
Eu senti meu coração falhar algumas batidas.
Sofia estava terminando comigo?
― Sofia, nós precisamos conversar sobre o que aconteceu em Londres.
― Eu sofri um aborto. Foi isso o que aconteceu em Londres. Eu estava grávida e perdi o bebê. Não quis contar a você porque não estávamos mais juntos e eu precisava te esquecer. Eu precisava tirar você da minha mente, porque não suportava imaginá-lo com aquela garota que eu detesto e vou detestar sempre. Detesto porque ela foi nociva ao nosso relacionamento e porque você a deixou interferir em nossa vida. Teve inúmeras chances de se afastar e não quis, e ela me infernizou o quanto pôde, mesmo quando já estávamos separados. Eu não sou capaz de superar Melissa Flammer, Tommy. E ela é um dos motivos para eu querer que você vá embora da minha casa.
― Você não pode estar falando sério, Sofia... Nós vamos nos casar. ― Ela riu.
― Não vamos, Tommy. Eu não quero me casar agora... Aliás, essa foi outra decisão que você não respeitou. Que ninguém respeitou. Eu quero terminar a residência antes de me casar e quando isso acontecer, não vou querer uma grande festa. Não vou passar por isso só para agradar você, minha mãe ou quem quer que seja.
― Tá, a gente não casa, então... Podemos viver sem uma certidão de casamento e uma aliança, como sempre foi...
― Não vamos viver juntos, Tommy. Você vai embora. ― Eu bufei impaciente.
― Sofia, olha, vamos conversar. Eu sei que fui um idiota quando me contou sobre o aborto, mas... ― Ela me interrompeu.
― Você foi um idiota muitas vezes, Tommy. Sabe do que eu mais sinto falta? Do garoto doce por quem me apaixonei e que invadiu uma escola para me salvar de um atirador maluco. Você preparou uma noite de amor no meio de uma festa de Natal para fazer da minha primeira vez uma lembrança maravilhosa. Mas, Boston te mudou, Tommy. A faculdade fez de você um babaca infantil e eu não quero mais ter que lidar com sua birra. Cansei. Não tenho mais sanidade mental para esse relacionamento.
― Você me faz parecer um monstro abusivo... ― Eu comentei com raiva, já meio desesperado com o rumo daquela discussão, e Sofia riu.
― De certa forma você não deixa de ser abusivo, Tommy. Você é ciumento e eu vivo pisando em ovos para que você não se zangue com minha interação com outros homens, principalmente no que diz respeito ao Adam. Você me manipula sempre para que eu ceda às suas vontades e não me apoia quando eu mais preciso, como no caso do aborto. Meu psicológico fica em frangalhos e esse fato torna sim essa relação bastante abusiva. ― Ela desabafou entre lágrimas e eu fiquei em silêncio, apenas encarando-a e me dando conta do quanto minha imaturidade a estava fazendo sofrer.
Eu não fazia por mal. Muitas das minhas atitudes eram involuntárias, como o ciúme louco que eu sentia ao vê-la próxima à Adam. Era irracional e incontrolável, o que não queria dizer que eu não confiava nela. Apenas não gostava de vê-la próxima ao ex-namorado.
Quanto ao fato de eu tê-la pressionado para que aceitasse se casar comigo, eu o fiz porque a amava e queria que nós dois fôssemos para sempre.
Eu jamais quis ser abusivo.
Deus, eu a amava mais do que a mim mesmo.
― Durante essa semana, eu repassei nossa discussão em minha mente inúmeras vezes e cheguei à conclusão de que nós estamos fazendo mal um ao outro. Nós não estamos felizes, Tommy. E para que a gente não acabe se odiando, acho melhor que a gente termine. Eu preciso de um tempo sozinha. Preciso me dedicar apenas à residência. Preciso estar apenas comigo por um tempo.
― Sofia, eu sei que fui um babaca, mas vamos conversar. Você não pode me mandar embora. Eu amo você. Me dá mais uma chance de... ― Ela me interrompeu.
― Tommy, eu perdi um filho seu. Um bebê que eu desejei ter nos braços quando soube da sua existência, embora já fosse tarde demais. Eu sei que já faz anos, mas eu esperava que você sentisse essa perda, ao menos um pouco. E tudo o que você fez foi se revoltar com o fato de que Adam e eu compartilhávamos um segredo. Era um pedacinho nosso e você nem se importou... ― Ela falou com a voz sofrida e naquele momento eu comecei a me dar conta da grande besteira que eu fiz. Outra vez.
― Sofia, eu fiquei surpreso e com raiva por você ter escondido algo grave de mim. Afinal, o bebê também era meu e...
― Mas, estava no meu corpo. ― Ela gritou e eu me encolhi. ― Meu corpo e, portanto, minha decisão. Foi egoísta, eu admito. Mas, eu só não queria que vocês sofressem. Eu não queria mais sofrer. Era preciso seguir em frente e foi o que fiz. Talvez um dia eu te contasse, mas essa era a minha decisão, que me foi tirada pelo idiota do Adam e pela minha mãe. Lembrar-me disso ainda dói e eu não deveria ter sido obrigada a compartilhar algo que me faz sofrer. Não enquanto não estivesse pronta. Mas, aí eu contei e você reagiu da pior maneira possível... ― Eu passei as mãos pelos cabelos, me sentindo perdido.
― Sofia, eu sinto muito pela perda do bebê e por você ter passado por tudo longe da mamãe e sem o meu apoio. Mas, nós podemos ter outros filhos, um dia. Sofia, a gente se ama. ― Eu implorei e ela sorriu tristemente, enquanto lágrimas grossas desciam por seu rosto.
― Sim, a gente se ama. Mas, amor é sobre libertar também. Eu não quero mais estar nesse relacionamento. Eu não quero mais estar em relacionamento nenhum. Então, por favor, respeite minha vontade.
― Sofia, você não pode terminar comigo. ― Eu implorei, já desesperado e ela respirou fundo, me encarando decidida.
― Vai ser melhor, Tommy. Se for para ficarmos juntos, vai acontecer. Mas, agora eu preciso mesmo de um tempo.
― Não faz isso, amor... Por favor!
― Eu preciso. Por favor, não me pressione e respeite minha decisão. É o que eu quero.
Eu queria negar o seu pedido. Eu não podia ir embora do apartamento que reformamos para nossa nova vida e deixa-la ali. Ficar sem a Sofia outra vez seria minha morte.
Mas, ela dizia precisar de um tempo e por amá-la resolvi aceitar seu pedido, ainda que meu coração estivesse despedaçado.
― Você vai ficar aqui sozinha?
― Vou. Quero morar aqui e me dedicar a minha carreira e a mim. E eu sei que você investiu dinheiro no apartamento, mas eu posso... ― Eu a interrompi.
― Não termina essa frase, Sofia. Eu e você vamos viver juntos aqui um dia. E mesmo que isso não aconteça, não quero receber de volta o que eu investi em um sonho de amor. ― Eu falei e fui em direção as malas, me contendo para não chorar feito um bebê.
― Obrigada por entender. ― Ela falou suavemente e eu sorri, me virando para olhá-la.
― Eu não entendo, Sofia. Mas, respeito. Não quero forçar nada... Não mais. Mas, preciso que você saiba que eu te amo e vou amar sempre. Sei que sou imaturo, mas isso faz parte do fato de eu ser humano e estar propenso a cometer erros.
― Eu também te amo, Tommy. Mas, sua propensão a cometer erros me machuca. Sua imaturidade eterna me faz mal e é por isso que sei que é melhor que a gente se afaste agora. ― Eu assenti.
― Posse te dar um beijo? ― Eu pedi e ela respirou fundo, concordando.
Beijá-la foi doloroso, mas eu precisava para conseguir me manter firme até reconquistá-la. Se é que eu teria forças para tanto.
Saí do apartamento sem olhar para trás e depois de jogar minhas coisas no porta-malas, fui para um bar, onde me embebedei e me lamentei pelo resto da noite.
E foi assim que minha história com a garota mais incrível que eu já conheci acabou.
Ela não me queria mais, mas o importante era que Sofia estava feliz. Feliz sem mim e sem nós...
Os dias passaram e eu segui com minha vida da melhor maneira que consegui. Trabalhava feito um louco o dia todo e voltava para a casa dos meus pais apenas na hora de dormir. Quase não via e nem interagia com ninguém.
― Vamos sair para beber hoje e isso não é apenas um convite. É uma ordem. ― Ethan falou, fechando a pasta que eu lia e eu o encarei irritado.
― Não quero sair para beber. E tire a mão da pasta, pois preciso terminar de revisar esse processo, já que teremos a primeira audiência na segunda-feira. ― Ethan bufou.
― Você está mais do que preparado para a audiência, Tommy. E precisar voltar a ter uma vida. Vamos beber e conversar. Sinto sua falta, primo. ― Eu suspirei.
― Tá. Apenas algumas bebidas e sem sua namorada. Se ela for, eu não vou. ― Ethan riu.
― Ela não vai. Pode ficar tranquilo. ― Eu respirei aliviado. O mundo era pequeno demais para que Lara e eu coexistíssemos.
Depois do expediente, Ethan e eu fomos para um bar em Santa Mônica. Estávamos no verão e naquela época aquele era um dos bairros mais badalados de Los Angeles.
― Adoro esse lugar... ― Ethan comentou, olhando sorridente para um grupo de garotas seminuas que passavam próximo a nossa mesa e eu revirei os olhos.
― Vê se cresce, Ethan... ― Eu falei, tomando minha cerveja e ele riu.
― Eu cresci, Tommy. Acho que até mais que você, já que continuo com a minha namorada depois de anos. ― Eu ri.
― Isso me soa como um castigo, considerando quem é sua namorada. ― Ele fez uma careta.
― Você costumava gostar da Lara. Se bem me lembro, ela foi uma das maiores apoiadoras do seu namoro com a Sofia.
― Isso foi na adolescência, antes de eu me tornar um grande babaca e ferrar com tudo. Desde que Sofia e eu terminamos nosso namoro em Boston, Lara passou a me odiar e a me infernizar.
― Era difícil pra ela ver o quanto a Sofia sofreu e ainda sofre. Tommy, você realmente se tornou um grande babaca quando passou a andar com Tyler e Melissa. Sabe aquele garoto doce que enfrentou um bloqueio policial e invadiu uma escola para salvar a namorada? Ele foi soterrado em idiotice, se perdeu e nunca mais se encontrou. A prova disso é que você está aqui e não com sua namorada. ― Eu suspirei e entonei toda minha cerveja.
― Se eu pudesse voltar atrás, Ethan, eu juro que nunca teria feito amizade com Melissa, considerando que Sofia nunca vai conseguir esquecê-la.
― Melissa desestabilizava Sofia totalmente. A perturbava, provocava e insultava sempre que podia, mesmo quando ela já estava com Adam. O ódio dela é totalmente justificável, então. ― Eu expirei.
― Eu sei. Eu ainda amo a Sofia. Desesperadamente. Mas, ela tem razão quanto ao fato de que fazemos mal um ao outro. Ela não supera Melissa e eu não consigo superar Adam Jones e cada vez que o que nossos relacionamentos voltam à tona, a gente sofre. Somos autodestrutivos nesse departamento.
― Então, talvez seja mesmo melhor que vocês sigam em frente sozinhos, Tommy. ― Eu respirei fundo, contendo com muito custo a vontade de chorar.
Era sempre assim quando eu pensava na merda que eu tinha transformado minha vida.
― Eu sei... Olha, Ethan, eu tenho plena consciência de que fui um babaca, idiota, ciumento e até abusivo em muitos momentos. Mas, como eu disse, eu ainda a amo e a quero de volta. Mas, não sei se algum dia Sofia vai querer reatar.
― Levando-se em consideração o quanto ela está sorridente e feliz, acho bem difícil ela querer reatar tão cedo... ― Ethan falou, olhando para algum ponto atrás de mim e eu não precisei me virar para saber que Sofia estava no mesmo bar que nós.
E Ethan tinha razão.
Sofia estava feliz e sorridente, bebendo com as amigas e eu fiquei olhando-a por longos minutos, tentando aplacar um pouco da saudade que eu sentia.
Mas, aí ela me viu e seu sorriso lindo morreu em seu rosto.
É... Pelo visto ela não podia ser mesmo feliz ao meu lado.
E a pergunta era: será que isso algum dia iria mudar? Será que Sofia iria querer ser minha outra vez?
Fale com o autor