Laços de amor
36 Capítulo 35
Capítulo 35
Pov. Sofia
Estar doente era horrível. Estar imóvel, então, era um verdadeiro pesadelo. Ainda mais quando se era obrigada a ficar olhando o dia todo para a cara de uma avó da qual eu não gostava e em quem não confiava.
Renée estava se esforçando para me agradar e conseguir ganhar minha afeição e confiança, mas eu simplesmente não conseguia encarar sua proximidade como algo natural. Ela me tratara mal à vida inteira e não seria só porque eu levara um tiro e quase morrera que eu a perdoaria e a trataria como minha avó preferida. Ela não era e, talvez, nunca chegasse a ser.
− Eu fiz bolo. Ficou melhor do que minha comida. Quer um pedaço? – Renée ofereceu, aparecendo no quarto de repente, e eu fiz uma careta, levantando o olhar do livro que lia para encará-la.
Bolo parecia algo bom, ainda mais depois do almoço horrível que ela me servira. Mas, eu não iria arriscar. Se a comida era ruim, o bolo não deveria ser muito melhor. Renée não nascera para a cozinha e quanto antes ela aceitasse isso, melhor para todo mundo.
− Não estou com fome. Mas, obrigada. – Eu murmurei e ela suspirou, vindo se sentar ao meu lado na cama.
− Sofia, eu estou tentando, mas para essa relação dar certo, você precisa se esforçar também. – Ela falou, tocando minha perna boa com suavidade e eu respirei fundo, lançando a ela um sorriso irônico.
Às vezes, o deboche era mais forte do que eu.
− Eu me esforcei a vida inteira, Renée. Mas, você sempre fez questão de deixar bem claro que a única neta que você amava era a Lara. Muito bem. Agora, eu não estou interessada em ter uma relação com você. Então, sugiro que pare de tentar, vovó, pois eu não vou mudar de ideia a esse respeito. – Eu declarei e ela engoliu em seco, levantando-se da cama e me olhando magoada.
− Como você quiser, Sofia. Com licença. – Ela murmurou com a voz embargada e saiu do quarto, enquanto eu usava todas as minhas forças para não derramar nenhuma lágrima.
Essa situação com Renée estava me fazendo muito mal. Conversaria com minha mãe a respeito. Ela tinha que me arranjar outra babá, ou eu acabaria enlouquecendo.
Não era birra. Acontece que eu simplesmente não conseguia confiar em Renée. Todavia, saber que minha frieza a magoava, mesmo depois de tudo o que ela fizera a mim e a minha mãe, me deixava mal.
Quando a fisioterapeuta chegou na tarde daquele dia interminável, eu senti vontade de gritar. Aqueles exercícios eram doloridos demais e eu não via a hora que àquela tortura acabasse. Meu ferimento estava latejando, assim como os músculos ao seu redor, e após a sessão, que durou cerca de duas horas, pedi a minha avó um remédio para dor que me deu um enjoo terrível. Vomitei tudo o que havia comido naquele dia e, após tomar um banho com a ajuda de Renée, eu aceitei experimentar seu bolo, pois estava com fome. Ela parecia tão feliz ao me trazer uma bandeja repleta de frutas, bolo e suco, que eu até me senti um pouco culpada por antes ter recusado sua gentileza. Comi o tanto que aguentei e dormi o resto da tarde na tentativa de esquecer a dor.
Quando acordei, já no início da noite, Renée anunciou que ia embora e que me deixaria sob os cuidados de Tommy, o que me fez respirar aliviada. Só esperava não ter que ficar na companhia dela no dia seguinte. Minha mãe teria que entender que aquela situação não estava fazendo bem para nenhuma de nós.
− Você parece cansada? Tá tudo bem? – Tommy perguntou, sentando-se ao meu lado na cama depois que Renée foi para casa de tia Alice e eu suspirei, me recostando em seu ombro.
− Lidar com Renée o dia todo me deixou exausta. Além disso, senti muita dor e o remédio me causou enjoo. E vamos combinar que ficar trancada aqui, sem ter o que fazer ou com quem falar, é muito chato. – Eu reclamei e ele sorriu, me abraçando de lado e beijando meu rosto.
− Podemos falar com nossos pais sobre Renée. Eles vão entender seus motivos, tenho certeza. E quanto a ficar sozinha aqui, será apenas por algumas semanas. Logo você estará totalmente recuperada e poderá voltar para sua rotina normal.
− Não sei se quero voltar para a escola... – Eu murmurei e Tommy respirou fundo, erguendo meu queixo para que eu pudesse encará-lo.
− Vai ser assustador. Eu não levei nenhum tiro e mesmo assim, andar por aqueles corredores me causa arrepios. Mas, eu estarei com você, Sofia. Você não vai passar por isso sozinha. Se precisar, basta me chamar que eu estarei ao seu lado. Nem que para isso tenha que brigar com todo o corpo docente da escola. – Ele falou e eu ri, beijando seu rosto em seguida.
− Obrigada. Provavelmente vou precisar do seu apoio.
− De nada, princesa. E, se for demais pra você, sempre temos a opção de mudarmos de escola. – Tommy declarou e eu fiz uma careta.
− Tommy, você vai tentar uma vaga em Harvard. Para isso, precisa de todo o prestígio que ser capitão do time de futebol te dá. Não podemos mudar de escola se isso significa que você não poderá acessar a universidade dos seus sonhos ao ter sua participação no time da escola interrompida. – Eu falei e Tommy suspirou, deitando-se na cama e me acomodando com cuidado sobre seu peito.
− Posso conseguir cartas de recomendação com meus treinadores. Além disso, sofremos um atentado. Qualquer examinador vai entender o fato de eu ter mudado de escola após um atirador tentar matar a gente durante a aula. – Ele declarou e eu suspirei. Esperava que Tommy tivesse razão, pois era provável que eu tivesse mesmo que mudar de escola.
− Aquele dia jamais vai sair da nossa memória, né? – Eu perguntei em um sussurro triste e ele suspirou, beijando o topo da minha cabeça.
− Não. Mas, com o tempo deixará de ser algo tão assustador e se tornará apenas uma lembrança ruim.
Era o que eu esperava.
***********
Mais tarde naquela noite Lara e Ethan vieram me visitar e fizemos uma sessão de filme, com direito a pizza, pipoca, refrigerante e bolo de chocolate.
Edward e minha mãe tinham ido à apresentação de balé de Mia e, por isso, voltariam tarde. Então, aproveitamos nosso tempo sem a supervisão dos adultos para falar alto, rir, beijar (e nisso eu incluo Ethan e Lara que estavam oficialmente se pegando) e comer besteiras. Eu estava mesmo precisando de uma noite como aquela depois da minha experiência de quase morte e agradeci aos céus por ter amigos tão sensacionais.
Depois que nossos primos foram embora, Tommy me ajudou a escovar os dentes e se deitou comigo na cama do seu pai para que pudéssemos conversar. Para minha sorte, antes de sair, Renée me ajudou com o banho e me deu um pijama para vestir. Seria muito constrangedor ter que pedir ao meu namorado que me ajudasse a trocar de roupa.
Ele e eu acabamos adormecendo a espera dos nossos pais e quando minha mãe me acordou para a sessão de medicamentos da madrugada, Tommy ainda dormia ao meu lado. Eram três da manhã e eu esperei em silêncio que ela surtasse por meu namorado estar na cama comigo. Não aconteceu. Ela inclusive permitiu que Tommy dormisse comigo pelo resto da noite, o que me fez sorrir satisfeita. Acho que minha mãe tinha superado a neura de sexo entre Tommy e eu.
Enquanto a Dra. Swan ministrava meus medicamentos, eu conversei com ela sobre Renée e minha mãe me prometeu que não me obrigaria mais a ficar sob os cuidados da minha avó, até porque, Renée teria que voltar para Forks em breve. Ótimo. Assim, todo mundo ficava feliz.
No dia seguinte, Emma aceitou ficar responsável por mim durante o dia e eu me esforcei o máximo para não dar nenhum trabalho a ela. Minha mãe me ajudara com o banho antes de ir para o hospital e, dessa forma, tudo o que Emma precisava fazer era me ajudar a chegar até o vaso e me dar comida. O resto era por minha conta.
As sessões de fisioterapia continuaram e, com o passar dos dias, eu fui percebendo uma melhora nos meus movimentos. Uma visita à Dra. Cooper me deixou tranquila quanto à cicatrização do meu ferimento e eu já começava a comemorar o breve retorno a minha vida normal.
Eu já conseguia andar bem pela casa apenas com as muletas, mas ir sozinha ao banheiro ainda era um desafio, uma vez que eu ainda não podia apoiar o pé no chão. Assim, tirar a roupa enquanto tentava me equilibrar em uma perna só era algo bem difícil e, portanto, eu ainda precisava de ajuda no banheiro.
− Emma, você pode vir aqui um pouquinho. – Eu gritei para que ela pudesse me ouvir do primeiro andar e como não obtive resposta, voltei a chamá-la. Eu estava muito apertada. – Emma?
− Precisa de ajuda, princesa? – Tommy me perguntou, aparecendo do nada, e eu dei um pulo assustada.
− Tá fazendo o que aqui? Você não tinha treino hoje?
− Fomos dispensados. E como tia Rosalie ficou de buscar Mia na escola, pois hoje ela e Candyce vão fazer a última prova da roupa para a apresentação de balé, eu pude vir para casa mais cedo a fim de ficar com a minha namorada linda. – Ele explicou e eu suspirei, sentindo minha bexiga latejar de tão cheia.
− Certo. Chame a Emma pra mim. – Eu pedi e ele deu de ombros, se aproximando mais da cama.
− Emma foi ao supermercado. Somos só nós dois em casa. – Ele falou e eu gemi baixinho, amaldiçoando minha perna ruim e o desgraçado que me acertara um tiro. Como diabos eu ia fazer xixi agora? – Do que você precisa? Eu posso te ajudar.
− Não, você não pode. – Eu declarei brava e ele me olhou com estranheza, certamente se perguntando o porquê da minha irritação.
− Claro que posso. Sou seu namorado. Dou conta de qualquer coisa por você. – Ele falou decidido e eu bufei, encarando-o zangada.
− Eu quero fazer xixi. Preciso que alguém tire minha roupa enquanto eu me equilibro nas muletas para não forçar a perna. Você dá conta disso, Antony Denali Cullen? – Eu perguntei brava e ele engoliu em seco, enrubescendo e desviando o olhar do meu.
− O quanto você está apertada? – Ele murmurou envergonhado e foi minha vez de enrubescer.
− Em uma escala de zero a dez, onze. – Eu lamentei e ele suspirou, vindo até mim.
− Eu te ajudo. Pior do que tirar sua roupa é ter que te ajudar no banho depois de você ter feito xixi na cama do meu pai. – Ele falou levemente divertido e eu bufei, encarando-o de maneira mortal.
− Isso não é engraçado, Tommy. E eu não vou deixar você tirar minha roupa. Seria muito constrangedor! – Eu declarei e ele revirou os olhos.
− Vai ser mais constrangedor quando você urinar na cama do meu pai. – Ele ponderou e eu gemi, querendo que um buraco se abrisse no chão e me engolisse.
− Tá, Tommy. Mas, depressa, antes que eu faça xixi em você e essa situação fique pior do que já está. – Eu resmunguei e ele riu, enquanto me pegava no colo e me levava até o banheiro.
− Se apoie na pia e fique de costas pra mim. Assim, só tenho que ver o seu bumbum. – Ele falou e eu respirei fundo, sentindo meu rosto pinicar de tanta vergonha enquanto seguia seus comandos.
− Eu já cheguei a imaginar você tirando minha roupa. Mas, em nenhuma das vezes que isso esteve em meu pensamento eu estava com um buraco na perna ou morrendo de vontade de fazer xixi. – Eu resmunguei e ele riu, beijando meu rosto enquanto desabotoava meu shorts e o puxava para baixo junto com minha calcinha. Por sorte, eu estava com uma blusa comprida, que ia até minhas coxas.
− Eu também já me imaginei tirando sua roupa inúmeras vezes. Claro que não em um banheiro com você morrendo de vergonha por eu ter que fazer isso. Mas, relaxa. Namorados são para essas coisas. Não é o fim do mundo eu te ajudar a fazer xixi. Agora, segura na minha mão e sente-se no vaso. Prometo ficar com os olhos fechados. – Tommy falou e eu suspirei, seguindo suas instruções, enquanto me certificava de que ele estava realmente de olhos fechados.
− Já sentei. Agora, me espere lá fora. Não vou conseguir fazer nada com você aqui me ouvindo. – Eu falei e ele suspirou, saindo do banheiro e fechando a porta.
Quando terminei, tentei me levantar sozinha, mas sem apoiar a perna era impossível. Subi minha calcinha, me contorcendo no vaso, e chamei meu namorado para que me ajudasse com o shorts. Pelo menos ele não veria nada que não devia.
− Prontinho. Agora, lave as mãos, pois eu tenho que levá-la de volta para a cama, princesa. – Ele declarou e eu bufei, me apoiando nele para lavar minhas mãos.
− Isso não vai sair daqui. Se você contar pra alguém o que aconteceu nesse banheiro, eu te mato, Antony Cullen. – Eu ameacei quando já estava de volta ao quarto e ele riu, sentando-se atrás de mim e me puxando para os seus braços.
− Tudo bem. Não precisa me ameaçar. Prometo não contar a ninguém. Além disso, eu não vi nada demais. Apenas o seu bumbum. – Ele declarou divertido e eu bufei, levantando o rosto para encará-lo.
− Isso não é divertido, Tommy. Foi sem dúvida a situação mais constrangedora da minha vida. Então, esquece que esse episódio existiu. – Eu pedi e ele riu outra vez, beijando meu rosto.
− Beleza. Nunca aconteceu. Seu lindo bumbum ainda é um mistério pra mim. – Ele gracejou e eu revirei os olhos para sua bobeira, desejando mais do que nunca me recuperar completamente.
Outra dessas e eu não conseguiria mais encarar o meu namorado.
***********
Algumas semanas depois...
− Você tem certeza de que está pronta, amor? Podemos adiar o seu retorno para a escola um pouco mais. Basta apenas um parecer da psicóloga para que você ganhe mais uns dias em casa. – Minha mãe ofereceu, enquanto tomávamos café da manhã e eu respirei fundo, encarando-a.
− Não aguento mais ficar trancada aqui, mãe. Eu estou pronta para voltar. Além disso, Tommy, Ethan e Lara vão estar comigo o tempo todo. Não se preocupe. – Eu falei e ela bufou.
− Não tem como não me preocupar. E mesmo sabendo que eles estarão com você o tempo todo, eu ainda penso na carga de emoção que vai ser voltar ao lugar onde você quase morreu. – Minha mãe falou e eu engoli em seco, tentando não pensar no dia do tiroteio.
− Bella, eu não vou deixá-la sozinha. Fique tranquila. E, se em todo o caso for demais pra ela, ligamos pra você imediatamente. – Tommy prometeu e minha mãe respirou fundo, trocando um olhar preocupado com Edward.
− Vai ficar tudo bem, amor. Eu também vou estar com o celular a postos. Qualquer coisa, vamos todos pra escola socorrer nossa menina. – Edward falou, enquanto apertava a mão da minha mãe e piscava pra mim e eu sorri pra ele.
− Sofia, leve o Half com você. Ele sempre me protege quando eu estou com medo. – Mia falou, me entregando seu chaveiro de coelhinho e eu sorri para ela, beijando seu rosto.
− Obrigada, meu anjo. Half vai ser um grande companheiro hoje. – Eu declarei e ela sorriu satisfeita, voltando para suas panquecas.
− Edward, deixei nossas malas prontas. Você se importa em mais tarde levá-las ao nosso apartamento? Tenho uma importante reunião de departamento hoje no hospital. – Minha mãe comentou e Edward e Tommy bufaram. Eles não queriam, de jeito nenhum, que minha mãe e eu voltássemos para nossa casa.
− Sim, eu me importo. Não quero levar suas malas para lugar nenhum que não seja o meu closet. Bella, você e Sofia ficaram aqui por um mês. Qual o problema se ficarem até o nosso casamento? – Edward perguntou emburrado e minha mãe revirou os olhos, enquanto enchia o prato de Mia de frutas, ganhando um olhar irritado da minha irmãzinha.
− O problema é que eu tenho um apartamento que não pode ficar abandonado por tanto tempo assim. Além disso, essa distância vai ser boa para nosso relacionamento. Vai dar tempo de sentirmos saudades um do outro.
− Isso é bobagem. Eu já sinto saudades de você durante as horas em que ficamos separados no trabalho. – Edward resmungou e minha mãe riu, beijando a bochecha dele.
− São apenas dois meses até o casamento, Edward. Até lá, eu preciso resolver algumas coisas, como por exemplo, o que vou fazer com o meu apartamento. Alugar, vender...
− Você pode resolver daqui... – Ele insistiu e minha mãe bufou.
− Sofia e eu voltamos para casa hoje. Agora, pare de reclamar e come, ou chegaremos todos atrasados. – Minha mãe falou e eu disfarcei um sorriso para o bico de Edward. Ele parecia uma criança, às vezes.
Uma criança muito divertida, inclusiva. Ele era muito atrapalhado e amoroso e tê-lo como pai era simplesmente maravilhoso. Agora eu entendia porque Mia tinha tantos ciúmes dele. Pais com Edward Cullen eram raros.
Depois do café, minha mãe levou a gente para a escola, já que Edward tinha uma audiência, e eu pude ver no rosto dela enquanto nos despedíamos que ela não se sentia segura em me deixar ali.
− Eu estou bem, mamãe. Prometo te ligar se alguma coisa acontecer. – Eu falei e ela respirou fundo, me abraçando apertado e beijando o topo da minha cabeça.
− Da última vez que te deixei sozinha aqui você voltou pra mim praticamente morta. Você pode estar bem, Sofia, mas eu não estou. Meus instintos estão gritando pra que eu a arraste pra longe dessa escola. – Minha mãe declarou e eu sorri, enquanto me apertava a ela.
− Eu vou ficar bem. Prometo. Pare de se preocupar. Ninguém vai atirar em mim hoje. – Eu falei de brincadeira e ela me olhou irritada.
− Não brinque com isso, Sofia Swan. Agora, entre de uma vez antes que eu realmente te arraste comigo. Qualquer coisa, me ligue. Estarei com o meu celular ligado o tempo todo. Tommy, cuide dela. – Minha mãe orientou e Tommy assentiu, pegando minha mão e me puxando pra ele.
− Vou cuidar. Fique tranquila. – Ele falou e minha mãe suspirou, entrando no carro e seguindo seu caminho até o hospital, depois de me abraçar e me beijar por mais algumas dezenas de vezes.
Eu me virei para o prédio da escola assim que o carro da minha mãe desapareceu na rua e depois de respirar fundo umas dez vezes, fui andando lentamente ao lado de Tommy, que segurava minha mão com firmeza.
Alguns alunos me encaravam curiosos. Eles sabiam que eu havia sido baleada. Eles sabiam que eu era uma sobrevivente e deviam estar admirados ou até mesmo felizes em me verem bem. Entretanto, aqueles olhares estavam me sufocando.
− Ignore-os. Continue andando. – Tommy sussurrou no meu ouvido, enquanto me segurava pela cintura e eu respirei fundo mais uma vez, me sentindo aliviada quando finalmente consegui chegar ao prédio principal.
Mas, estar ali outra vez estava sendo mais apavorante do que eu imaginava que seria.
− Sofia! Que bom que você chegou. Achei que tinha desistido. – Lara falou animada, aproximando-se de mim e de Tommy e eu respirei fundo, encarando-a apavorada.
−Eu estou mesmo prestes a desistir. – Eu murmurei e ela suspirou, se aproximando de mim e segurando minha outra mão com firmeza.
− Você está viva, Sofia. É uma sobrevivente. Aquele atirador quase a matou, mas o fato de você ter sobrevivido te dá a obrigação de seguir com a sua vida normalmente. – Ela falou séria e eu senti meus olhos marejados.
− Lara tem razão, princesa. Tenho certeza de que Roy, Richard, Jessica, Kayla, Amanda, Mary Jane e tantos outros queriam estar em seu lugar hoje, voltando para a escola depois de terem superado o trauma deixado naquele dia. Eles não podem, pois não sobreviveram. Mas, você sim. Pense nisso todas as vezes que o pânico ameaçar te tomar. Essa é a sua segunda chance de viver, amor. Você precisa aproveitá-la. – Tommy falou, enxugando minhas lágrimas e eu assenti, me aninhando em seus braços.
− Prometo tentar. – Eu falei baixinho e ele beijou o topo da minha cabeça.
− Se precisar, basta me chamar que eu venho correndo. – Ele falou e eu assenti, dando um beijo em seu rosto e me deixando ser conduzida por Lara para nossa primeira aula do dia.
Geografia foi fácil. A professora me cumprimentou, dizendo estar feliz em me ver bem e não tocou no assunto tiroteio nem uma vez sequer.
Matemática também foi suportável. O professor apenas me olhou por alguns segundos, mas não comentou nada. Era como se eu nunca tivesse me afastado das aulas.
Na aula de artes, a professora trabalhou com a turma algumas técnicas teatrais e eu pude relaxar e até me divertir um pouco. Foi muito bom poder deitar no chão e me imaginar sendo uma borboleta livre de qualquer lembrança ruim ou medo.
Durante o almoço, muitos alunos vieram falar comigo e eu apenas sorri para todos eles, me mantendo em silêncio na tentativa de não trazer a tona todas as lembranças do dia do tiroteio.
Tommy, Lara e Ethan ficaram comigo o tempo todo e eu me sentia segura e até um pouco animada por tê-los ao meu lado.
Mas, olhar para os lugares onde Roy, Richard, Jéssica e Kayla costumavam sentar me trouxe um imenso vazio e uma profunda tristeza. Até mesmo não receber os olhares mortais de Mary Jane e seu séquito por estar com Tommy ao meu lado fazia com que eu me sentisse estranha. E triste. Aquele atentado não devia ter acontecido. Não em uma escola. Aliás, atentados não deviam acontecer em lugar nenhum. Ninguém merecia ter a vida alvejada, de repente, daquela forma tão terrível. Aqueles adolescentes, funcionários e professores mortos tinham muito o que viver, mas jamais poderiam fazê-lo.
− Tá tudo bem? – Tommy me perguntou baixinho, quando eu permaneci algum tempo em completo silêncio, perdida em meus pensamentos e eu assenti, beijando seu rosto.
− Estou sim. Só pensando. – Eu respondi e ele sorriu, beijando minha testa.
− Não pense demais. Não sobre aquele dia. – Tommy falou e eu assenti, respirando fundo e me aconchegando mais em seus braços. Meu namorado tinha razão. O dia do atentado tinha que sair da minha cabeça ou eu não suportaria vir à escola todos os dias.
Depois do almoço, fui andando lentamente com Lara até nossa próxima aula e quando descobri que teríamos práticas no laboratório de biologia, senti meu corpo estremecer.
Meus olhos se encheram de lágrimas quando me deparei com bancada onde Tommy me encontrara baleada e sangrando. Eu não suportaria ficar ali. Era demais pra mim. Eu sentia meu ferimento latejar. Era como se eu ainda estivesse ali, me esvaindo em sangue e sentindo minha vida abandonar o meu corpo aos poucos enquanto Tommy tentava me salvar de todas as formas possíveis. Coloquei a mão sobre minha perna, onde a bala havia me atingido, e fechei os olhos com força, sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. As lembranças eram tão reais que eu podia sentir até mesmo o cheiro do meu sangue e aquilo era muito assustador.
Num rompante saí correndo do laboratório e mesmo trombando com a professora na porta e escutando os gritos de Lara eu não parei de correr até chegar ao ginásio, onde sabia que Tommy estava.
Ele estava jogando basquete, mas assim que me viu, deixou a quadra e veio correndo em minha direção, ignorando totalmente o chamado do professor.
− Sofia! O que houve, princesa? – Ele perguntou preocupado, me tomando nos braços assim que me alcançou e eu solucei, enterrando meu rosto em seu peito.
− Eu não consigo, Tommy. Não consigo. Eu quero ir pra casa. – Eu falei chorando e ele estalou os lábios, me abraçando com força.
− Vamos ligar para sua mãe. – Ele falou decidido e eu assenti, tirando o celular do bolso da calça jeans que eu usava e entregando a ele.
Tommy procurou o número da minha mãe na discagem rápida e assim que começou a chamar, ele me passou o celular. Minha mãe não demorou a atender, o que me fez agradecer mentalmente.
− Filha? Está tudo bem, amor?— Minha mãe perguntou aflita e eu funguei.
− Mãe... Eu não consigo. Vem me buscar, por favor. – Eu pedi chorando e ela me garantiu que logo estaria comigo.
− Antony Cullen volte para a quadra. Sofia, vá para sua aula agora. – O treinador Johnson ordenou e Tommy o encarou seriamente, me abraçando com ainda mais força.
− Não, treinador. Sofia não vai para a aula. Ela está assustada e eu vou ficar ao seu lado até que a mãe dela chegue. – Tommy falou e eu treinador bufou.
− Vou ter que comunicar a direção sobre sua atitude desafiadora, Antony.
− Faça como quiser, treinador. Mas, eu não irei sair do lado dela. – Tommy respondeu e o treinador saiu pisando duro em direção à saída da quadra.
− Um pouco de compreensão seria bem vinda. – Eu murmurei e Tommy suspirou, beijando minha testa.
− O treinador também está abalado com tudo o que aconteceu. Mas, eu não me importo com os surtos dele. Posso até ser expulso, mas não vou sair do seu lado, princesa. – Ele me garantiu e eu sorri de leve, agarrando-o um pouco mais. O pânico ainda estava vivo dentro de mim. Eu precisava sair daquela escola o quanto antes.
Minha mãe chegou ao ginásio acompanhada da diretora e do treinador Johnson e Tommy me soltou para que eu pudesse correr para os seus braços. Estar com ela era o suficiente para que eu me acalmasse.
− Senhorita Swan, não posso deixar que leve Sofia. Nossa psicóloga disse que...
− Não quero saber o que sua psicóloga disse, Sra. Connor. Minha filha levou um tiro naquele atentado e está aterrorizada por voltar à escola. Ela vai comigo e isto não está em discussão. E quanto ao fato de Tommy ter interrompido seu precioso jogo de basquete, Sr. Johnson, eu sinto muito. Mas, ele está apoiando minha filha em um momento difícil. Interromper um jogo não é um crime tão grave assim. – Minha mãe falou brava e o treinador ficou vermelho, mas teve o bom senso de permanecer em silêncio.
− Senhorita Swan, vamos até o meu gabinete. Precisamos conversar sobre o quadro emocional de Sofia.
− Não temos o que conversar, Sra. Connor. Sofia passou por um trauma e precisa de tempo para se recuperar totalmente. Preciso apenas da dispensa para que possa levá-la para casa. E Tommy vai conosco. E isso não é um pedido, diretora. – Minha mãe falou decidida e a diretora apertou os lábios, mas fez o que lhe fora solicitado.
Em pouco tempo, minha mãe nos levava para casa, após avisar Lara e Ethan do motivo por estarmos saindo mais cedo.
Quando chegamos na casa de Edward, minha mãe sentou-se comigo no sofá e Tommy se acomodou ao nosso lado.
Eu ainda podia sentir o pânico que me tomara quando eu entrara no laboratório de biologia, mas, estar com minha mãe e Tommy, era o suficiente para que eu me acalmasse.
− Vamos mudá-la de escola, amor. Você nunca mais terá que voltar àquele lugar. – Minha mãe prometeu, me apertando contra ela e eu suspirei, sentindo novas lágrimas se acumularem nos meus olhos.
− Estava tudo indo bem. Mas, de repente eu me vi no laboratório de biologia e tudo veio à tona. É muito difícil me lembrar daquele dia, do tiro, do medo... – Eu falei chorando e minha mãe me apertou mais contra seu corpo, enquanto Tommy acariciava minhas costas suavemente.
− Vai ficar tudo bem, amor. Vamos pensar juntos em uma solução. Edward e eu já estamos pesquisando por escolas que tenham um programa parecido com a de vocês. Enquanto isso, vou tentar conseguir uma autorização para que você estude em casa. Nada de se expor a esse trauma novamente. Isso não vai te fazer bem, Sofia.
− E eu posso te ajudar com as matérias. Lara e Ethan também. Até que a gente mude de escola, você será nossa aluna. – Tommy falou e eu sorri, saindo dos braços da minha mãe para poder abraçá-lo.
− Obrigada por estar comigo, Tommy. Se não fosse você, eu teria surtado completamente. – Eu murmurei e ele sorriu, beijando minha testa.
− Estarei sempre às ordens, princesa. – Ele falou e eu sorri, sentindo minha mãe abraçar a nós dois. – Bella, você não pode tirar Sofia de casa agora. Ela precisa de mim, do meu pai e de Mia. Sinto muito, mas acho que seu apartamento vai ficar sozinho por mais um tempo. – Tommy declarou contente e minha mãe bufou, se afastando de nós e me olhando seriamente.
− O que você prefere, amor? Ir ou ficar? – Ela perguntou e eu troquei um olhar com Tommy, antes de voltar a encará-la.
− Mãe, eu adoro nosso apartamento. E até sinto falta de lá, principalmente de estar próxima à praia. Mas, aqui eu me sinto completa. Tommy, Mia e Edward são a nossa família. Então, se eu posso escolher, escolho ficar aqui. De preferência para sempre. – Eu declarei e ela sorriu, beijando meu rosto.
− Acho que os Cullen vão gostar disso. – Ela declarou divertida e Tommy riu.
− Pode apostar que sim, Bella. Pode apostar.
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