Capítulo 30

Pov. Sofia

− Você parece cansada, amor. Não dormiu bem? – Minha mãe me perguntou, enquanto tomávamos café da manhã e eu fiz uma careta ao me lembrar da noite de merda que eu tivera.

− Não. Tive um pesadelo estranho que ficava voltando e voltando. Eu me sinto exausta. Parece que passei a noite toda em claro. – Eu reclamei e ela sorriu, se aproximando de mim e beijando meu rosto.

− E porque a senhorita não foi para a cama da mamãe?

− Você vai se casar logo, mãe. Assim, não poderei mais fugir para a sua cama no meio da noite. Então, o melhor é que eu me acostume a dormir no meu próprio quarto mesmo nas noites de pesadelos.

− Quando eu me casar, realmente dormir na minha cama estará fora de questão. Mas, se você tiver um pesadelo e precisar de mim, serei eu dormindo em sua cama com você, meu anjo. Não quero que nossa relação mude só porque eu terei um marido. Afinal, você é e sempre será o meu bebê. – Ela falou, acariciando meu rosto e eu fiz uma careta por ela me chamar de bebê.

− Mãe, eu não sou mais um bebê. – Eu resmunguei e ela riu. – E nossa relação não vai mudar. Eu prometo.

− Certo. Agora, termine seu café, pois preciso te deixar na escola e correr para o hospital. Tenho umas trezentas cirurgias hoje.

− Está gostando de ser uma médica titular? – Eu perguntei, enquanto levava a louça suja do café até a pia e minha mãe sorriu.

− Muito. É puxado. Afinal, agora, sou uma das responsáveis pelo departamento de cirurgia pediátrica do hospital. Mas, eu estou adorando. É a concretização de todos os meus sonhos profissionais.

− Eu estou muito orgulhosa de você, mãe. E fico muito contente em ver que tudo na sua vida tem dado certo ultimamente. Você concretizou os seus sonhos profissionais, vai se casar com o homem que ama, tem uma vida financeira ótima, uma filha linda... – Eu gracejei e ela riu, me abraçando e beijando meu rosto.

− Tenho mesmo. A melhor e mais linda filha de toda a Califórnia. – Ela falou e eu ri. – Agora, senhorita, vamos. Eu estou mesmo atrasada.

− Sim, senhora. Você não vai assistir o meu jogo hoje, né?

− Não vai dar, amor. Mas, peça para alguém filmar. Podemos discutir os passes depois.

− Lara não vai entrar hoje. Ela vai gravar. Tommy também não irá ao jogo. Ele tem treino no mesmo horário e, assim como você, gosta de discutir os passes do jogo comigo. – Eu falei chateada, pensando no quanto eu gostava de ter meu namorado assistindo meus jogos e minha mãe me lançou um sorriso compreensivo.

− Nos próximos jogos ele e eu estaremos com você. Prometo. Agora, partiu escola. – Ela falou, praticamente me empurrando para o elevador e eu ri de toda sua pressa.

Quando cheguei à escola, Lara me esperava no estacionamento e veio correndo em minha direção assim que me viu.

− Você está atrasada, senhorita Swan. Não podemos dar mole em matemática esse ano. Não quero perder meus finais de semana estudando álgebra. – Ela falou e eu revirei os olhos para seu drama.

− O professor não entrou ainda, então relaxa. Você viu Tommy? – Perguntei, enquanto nos apressávamos para a sala de aula e ela assentiu.

− Sim. Ele te mandou um beijo. Tinha aula no laboratório de química e não podia se atrasar. Disse que vê você no almoço. – Lara falou e eu fiz uma careta, me lamentando por não ter visto meu namorado antes da manhã torturante que eu teria, repleta de matemática e da companhia de Mary Jane e seu séquito, que mesmo depois de meses, ainda me odiavam por eu ser a namorada de Antony Cullen.

A manhã passou depressa, mesmo com tantas equações de reta que eu nem sabia para que serviriam um dia, mas que o professor insistia em nos fazer aprender.

No refeitório, Tommy e Ethan nos esperavam no lugar de sempre e eu sorri feliz quando finalmente pude passar um tempo com meu namorado lindo que eu não via desde ontem.

− Ei, eu estava com saudades, princesa. – Ele falou, beijando meus lábios e eu sorri ainda mais, me aconchegando em seu peito.

− Vocês dois são muito exagerados. Saudade é um sentimento que se desenvolve quando passamos muito tempo sem algo ou alguém. E vocês se viram ontem, pelo amor de Deus. – Lara reclamou e nós rimos.

− Quando você namorar, vai entender que nossa saudade é verdadeira. Até lá, calada. – Eu falei divertida e ela revirou os olhos, voltando sua atenção para a comida.

− Ela podia namorar se quisesse. Basta apenas que ela olhe para o lado. – Tommy provocou, ganhando um olhar mortal de Ethan, que corou, assim como Lara. Se de raiva ou vergonha, não sabíamos.

− Namoros deixam as pessoas idiotas e melosas. Não estou interessada. – Lara falou brava e eu revirei os olhos para ela.

Minha prima estava muito a fim de Ethan, mas não admitiria aquilo nem sob tortura. E como o primo do meu namorado, apesar dos pais malucos que tinha, era a timidez em pessoa, eu temia que aquele namoro nunca acontecesse.

Eu estava comendo meu sanduíche, que Tommy tinha pegado para mim, quando o vi.

Um menino estranho e muito carrancudo, que se sentou em uma mesa a nossa frente. Eu tinha certeza de que nunca tinha o visto na escola antes, mas sentia que ele me era familiar. O garoto vestia uma jaqueta marrom muito maior que ele, calças largas e tinha os cabelos claros escondidos por uma touca de lã, apesar do calor que fazia em Los Angeles naquela época do ano.

Quando percebeu que eu o encarava, ele focou seus olhos escuros sobre mim, me obrigando a desviar o rosto. Algo naquele garoto me causava arrepios, eu só não sabia dizer o que era.

− Sofia? Tá tudo bem? – Tommy me perguntou, alternando olhares entre o garoto e eu, e eu sorri de leve, beijando seu rosto e olhando-o nos olhos.

− Está. Eu... Eu tive pesadelos e quase não dormi a noite. Acho que o sono está querendo me dominar agora. – Eu brinquei e ele riu, beijando minha testa.

− Pesadelo sobre o que?

− Não sei direito. Tinha muitos gritos, tiros e sangue. Eu acordei várias vezes durante a noite e sempre que dormia, voltava para o mesmo sonho.

− Deve ser ansiedade para o jogo de hoje, Sofia. O sangue deve ser relacionado a todo o ódio que você e Mary Jane alimentam uma pela outra. – Ethan falou divertido e eu fiz uma careta ao pensar em minha companheira de time que adoraria ser a namorada do meu namorado.

− Não odeio Mary Jane. Apenas não gosto do fato de ela gostar do meu namorado e se sentir no direito de me odiar por eu namorá-lo.

− Pois, eu a odeio. Por culpa daquela loira insuportável tive que aguentar minha mãe falando na minha cabeça por semanas, um castigo torturante e ainda fui afastada do time de vôlei durante quase um semestre. O sangue no seu sonho deve ser uma referência ao meu ódio, então. Não sou magnânima como você. – Lara falou brava e nós rimos.

− Não sou magnânima. Só não gosto de alimentar ódio por ninguém. Isso não faz bem nem à pessoa e nem a mim. Além disso, ela pode me detestar o quanto quiser sem que eu precise retribuir. Afinal, eu tenho o que ela quer e não pretendo deixá-lo para ela nunca. Então... – Eu dei de ombros e Tommy riu, beijando meus lábios.

− Sim. Você me tem. Para sempre. – Ele sussurrou no meu ouvido e eu sorri, beijando seu queixo e me aconchegando outra vez em seu peito.

− Ah, o amor! – Lara ironizou e Ethan riu, o que me fez mostrar a língua aos dois.

− Vai beijar a boca de alguém e deixe de ser amarga, Lara. – Tommy provocou e minha prima mostrou o dedo a ele, o que nos fez rir.

− Calado, Cullen. – Ela resmungou e Tommy riu outra vez.

− É... Calado. – Ethan falou bravo e eu revirei os olhos para os dois cabeçudos à minha frente que se queriam, mas que não tinham coragem para se assumirem.

Depois do almoço, Lara e eu fomos para a aula de história. Esse ano, o pessoal da secretaria não foi tão escroto e nos deixou juntas em quase todas as turmas, o que eu agradeci, já que minha prima era, praticamente, minha única amiga na escola.

Já estávamos no último período, prontas para irmos para o ginásio participar do pré-treino do jogo de hoje a tarde, quando ouvimos o primeiro tiro, seguido, minutos depois, do alarme de incêndio.

A professora trancou a porta e nos orientou a deitar no chão, com as mãos na cabeça. E foi ali naquele instante que meu pesadelo se tornou a mais dolorosa realidade.

**********

Pov. Tommy

Eu ouvi o primeiro tiro e não quis acreditar que aquele som fosse real. Tiros na escola? Isso não era certo. Não deveria acontecer.

Mas, nos Estados Unidos, devido a uma série de atentados desse tipo, recebíamos treinamento nas escolas sobre como agir em situações como aquela. E, nossa primeira reação ao escutar o disparo de mais tiros e o alarme de incêndio, foi deitar no chão com as mãos na cabeça e torcer para que alguma força divina nos protegesse.

Eu pensei em Sofia e desejei que ela estivesse segura. Torci para isso, querendo desesperadamente estar ao seu lado naquele momento para protegê-la e garantir que nada de mal lhe acontecesse. E Mia? Será que o atirador poderia invadir o pavilhão onde as crianças estudavam e feri-las? Eu esperava que não.

− Atenção, pessoal. Tentem manter a calma. Vamos tirá-los daqui o quanto antes. Continuem deitados e, por favor, não usem os aparelhos celulares. Não queremos desesperar nenhum familiar. – A professora orientou e eu suspirei, pensando no aparelho em meu bolso e desejando poder avisar meu pai que estava tudo bem comigo.

Mas, eu seguiria a orientação da professora, até porque, se mandasse uma mensagem para meu pai, ele contaria para a família toda, preocupando todo mundo. E, por enquanto, estávamos todos bem.

− Cara, olha isso... – Ethan sussurrou após alguns minutos, me mostrando uma foto em seu celular e quando percebi que era de uma aluna baleada, eu senti meu coração falhar uma batida.

− Quem te mandou?

− O Roy. Segundo ano. – Meu primo respondeu preocupado e eu senti meus olhos marejados. Sofia e Lara eram do segundo ano. Será que elas estavam feridas também?

Escutamos o som de mais tiros, seguidos de gritos e barulhos de coisas pesadas caindo no chão, o que eu julguei serem carteiras sendo derrubadas durante a fuga dos alunos. O atirador parecia estar no prédio vizinho e eu fechei os olhos, rezando para que nada de ruim acontecesse com nenhum de nós.

O tempo passava e nós continuávamos deitados no chão. Alguns alunos choravam, outros rezavam baixinho, certamente pedindo para que todos nós saíssemos vivos daquela situação. Mas, no fundo, eu sabia que podia não ser assim.

− Tommy? – Ethan me chamou depois de algum tempo e eu o encarei, sentindo meu coração afundar no peito quando percebi que ele encarava a tela do celular mortalmente pálido.

− O que foi? Outra foto? – Ele engoliu em seco e assentiu, virando o celular para que eu também pudesse ver a imagem e eu senti meu estômago se revirar ao reconhecer Mary Jane Volturi ali, ensanguentada e com uma marca de bala em sua cabeça.

− Meu Deus do céu! – Eu falei, não conseguindo conter meu horror. Mary Jane não era próxima a mim. Nunca fora, nem mesmo quando nós ficamos naquela festa, mas era alguém com quem eu convivi e a quem eu não desejava nenhum mal, mesmo ela sendo uma pedra no sapato de Sofia desde que começamos a namorar.

E agora ela estava morta, atingida por um tiro na cabeça. Aquilo era horrível!

Além disso, ela e Sofia estavam em muitas turmas juntas. Se Mary Jane tinha sido atingida, era possível que Sofia estivesse ferida também ou até... Não. Eu não podia pensar naquela possibilidade ou acabaria enlouquecendo.

Mais tiros foram ouvidos, mais gritos desesperados e mais coisas caindo no chão. Nossa professora estava de olho na porta e quando, depois de mais de quarenta minutos deitados no chão, ela deu o comando para sairmos da sala em silêncio, com as mãos na cabeça, eu nem pensei em discutir.

Eu precisava encontrar Sofia e ter a certeza de que ela estava bem. Só assim eu ficaria tranquilo.

Saímos escoltados por três policiais e quando chegamos ao estacionamento, a cena ali era de guerra. Tinha umas cinquenta viaturas da polícia na frente da escola, ambulâncias e carros do FBI, sem contar na população local, pais e familiares, que ao saber do acontecido, vieram para se certificar que seus entes queridos não estivessem feridos ou mortos.

O prédio principal estava isolado por uma fita amarela e os policiais faziam uma barreira humana para que nenhum aluno ou professor, que já tivesse sido retirado da escola, pudessem voltar.

Eu olhava para todos os lados, procurando por Sofia, mas ela não estava em lugar nenhum.

Ouvimos mais tiros e mais gritos e eu fiquei desesperado, querendo notícias da minha namorada, mas não encontrando ninguém que pudesse me ajudar.

− A Sofia e a Lara não estão aqui, cara. A turma delas ainda está lá dentro. – Ethan falou, enquanto digitava loucamente em seu celular e eu suspirei, tentando conter as lágrimas de desespero que ameaçavam escorrer por meu rosto.

− Como você sabe?

− Roy está pedindo ajuda por mensagem. Disse que várias pessoas da turma dele foram atingidas.

− Ele está na mesma turma que Sofia? – Eu perguntei desesperado e ele negou com um gesto de cabeça.

− Não. Lara e Sofia estavam na turma de história. Ele estava com Mary Jane. Aula de Biologia. – Ethan falou e eu respirei fundo, tentando não me desesperar.

Sofia não estava com Mary Jane, o que significava que ela poderia estar segura. Ela tinha que estar segura.

A imprensa começou a chegar e eu percebi que era questão de tempo até que o país inteiro soubesse o que estava acontecendo ali. Meu pai, Bella, tia Rosalie, os pais de Lara e meus avós iam pirar quando tomassem conhecimento do atentado, mas eu não tinha tempo para falar com ninguém agora. Eu só queria saber onde minha namorada estava.

Depois do que me pareceram horas, eu vi Lara correndo em nossa direção chorando e como eu não vi Sofia com ela, comecei a me desesperar de verdade.

− Foi horrível. Ele matou quase todo mundo na turma de biologia. Invadiu nossa sala e pediu para que corrêssemos sem olhar para trás. Ele atirou em nós... – Ela falou chorando, sendo abraçada por Ethan e eu senti minha respiração falhar quando todos do segundo ano saíram da escola e eu percebi que Sofia não estava entre eles.

− Cadê a Sofia, Lara? – Eu perguntei desesperado e ela me encarou confusa.

− Não sei. Ela estava logo atrás de mim. Nós corremos quando ele começou a atirar. – Ela explicou, olhando ao redor em busca da prima e eu comecei a sentir uma vertigem ao me dar conta de que minha princesa poderia estar ferida ou morta dentro da escola.

− Ela não está aqui. Não está. – Eu falei desesperado, passando a mão pelos cabelos e puxando-os e Lara começou a chorar novamente.

− Será que ela está ferida? Ai, meu Deus!

− Eu vou atrás dela. – Eu falei decidido, seguindo em direção à escola e Lara e Ethan vieram atrás de mim.

− Tommy, não. O atirador ainda está lá dentro. Você pode acabar morto. – Ethan falou, tentando me deter, mas eu soltei meu braço do seu aperto, encarando-o com raiva.

− Sofia está lá em algum lugar, provavelmente ferida ou morta. Eu tenho que ir até ela. E eu vou. – Eu gritei e ele de um passo atrás, temendo minha explosão.

− E como você vai passar pelo isolamento da polícia? – Lara me perguntou fungando e eu respirei fundo, me preparando para correr.

− Assim. – Eu falei, tomando distância e começando a correr, pulando o cordão de isolamento e fugindo dos policiais que tentaram me deter.

Consegui entrar no prédio e fui diretamente para onde eu sabia que Sofia poderia estar. O cenário era horrível. Tinha uma dezena de corpos espalhados pelos corredores e eu prendi a respiração para que o cheiro forte de sangue não me fizesse vomitar.

Eu olhava para aqueles alunos mortos, todos com tiros na cabeça, e torcia para não encontrar Sofia entre eles. Ela tinha que estar bem e viva em algum lugar.

Quando cheguei à frente do laboratório de biologia, encontrei a pulseira que eu havia dado para Sofia durante nossas férias em Boston jogada no chão, perto da porta e notei ali um rastro de sangue diferente, como se alguém ferido tivesse se arrastado até o laboratório. A maçaneta tinha marcas de dedos ensanguentados e eu abri a porta silenciosamente, espiando primeiro antes de tomar coragem e entrar.

Olhei ao redor, tentado focar meu olhar na escuridão da sala e já estava prestes a sair, quando escutei uma respiração ofegante vindo debaixo de uma das bancadas. Fui até lá e para minha felicidade, percebi que era Sofia.

− Sofia? – Eu sussurrei, me ajoelhando ao seu lado e ela abriu os olhos assustada, sorrindo quando percebeu que era eu.

− Tommy... – Ela murmurou e eu me aproximei dela, beijando sua testa e agradecendo aos céus por tê-la encontrado viva.

Mas, ela não estava bem. Mesmo com sala escura eu percebi que ela estava pálida e suada. Olhei para sua mão, que apertava o alto da sua coxa com força e ao me aproximar melhor do seu corpo, percebi que ela estava ferida e perdendo muito sangue.

− Ele te atingiu! – Eu falei alarmado, deitando-a no chão e baixando sua calça ela gemeu de dor, apertando o ferimento com ainda mais força.

− O tiro atravessou... – Ela sussurrou e eu olhei alarmado para o ferimento em sua coxa, que como ela dissera, havia atravessado de um lado para o outro.

− Eu tenho que tirar você daqui. Tem ambulâncias no estacionamento.

− Não dá pra sair. Ele está lá fora ainda. É o menino do refeitório. Ele atirou em todo mundo. Na cabeça. – Ela sussurrou, gemendo de dor, enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto pálido e eu chorei com ela, não conseguindo me conter. – Tommy, ali naquele armário, à esquerda, têm um Kit de primeiro-socorros. Traga-o até aqui. – Ela pediu com a voz fraca e eu obedeci, indo buscar o Kit e me ajoelhando ao seu lado o mais rápido que consegui.

− Aqui. Mas, eu não sei o que fazer. – Eu falei desesperado e ela sorriu fracamente.

− Primeiro, lave suas mãos. Depois, abra a Kit e pegue todas as ataduras que estiverem aí. Precisamos conter o sangramento, se não eu vou morrer em menos de cinco minutos. – Ela sussurrou e eu a olhei desesperado, torcendo para que Sofia estivesse brincando. – Pegue sua camiseta e aperte no meu ferimento. Vai encharcar de sangue. Aí, você pega as ataduras e vai apertando, uma por cima da outra, até o sangramento diminuir. – Ela orientou e, após lavar as mãos, eu fui seguindo seus comandos. Era muito sangue, mas com o tempo e com a pressão das minhas mãos, o sangramento foi diminuindo.

− O sangramento está diminuindo. O que eu faço?

− Pegue uma atadura limpa. Vamos fazer um torniquete. – Ela orientou e eu a olhei admirado, enquanto desenrolava a atadura.

− Como sabe de tudo isso?

− Eu ajudava minha mãe a estudar para as provas e exames da residência e especialização. Aprendi muita coisa nessa época. – Ela sussurrou e eu sorri, beijando sua testa e fazendo o torniquete em sua perna do melhor jeito que consegui sem mexer muito com sua perna. Eu estava com medo de movê-la e isso fazer com que o sangramento recomeçasse.

Depois que terminei com ela, fui até a porta do laboratório e olhei para o corredor, tentando encontrar algum policial que pudesse nos ajudar. Mas, estava tudo vazio e silencioso.

Voltei para onde Sofia estava e notei que ela tremia.

− Você está com frio? Seus lábios estão roxos. – Eu falei alarmado e ela assentiu.

− Eu perdi muito sangue. Acho que o tiro deve ter lacerado alguma artéria. Estou, provavelmente, entrando em choque. – Ela sussurrou e eu gemi desesperado, tomando seu pulso e notando que ele estava fraco.

− Vamos ter que sair daqui. Agora.

− Não. Ele pode te ferir. Nossos pais não precisam perder dois filhos hoje. – Ela murmurou e eu a encarei assustado.

− Para de falar essas coisas! Você não vai morrer, entendeu? Não vai. – Eu falei com firmeza, segurando seu rosto e ela chorou silenciosamente, o que só aumentou meu desespero.

− Tommy, eu sinto meu corpo morrendo aos poucos. Eu estou entrando em choque hipovolêmico e não temos como chegar a uma ambulância. Meu pesadelo... Ele me avisou. Eu vou morrer hoje.

− Não vai. Eu não vou deixar. Eu vou te levar até uma ambulância mesmo arriscando minha vida.

− Não. Eu só quero que você saiba que... Que eu te amo. – Ela sussurrou e eu chorei mais, enterrando meu rosto em seu pescoço, querendo desesperadamente que aquele pesadelo acabasse. – Você foi a melhor coisa que me aconteceu.

− Não se despeça, Sofia. Eu te proíbo de se despedir de mim. – Eu falei com raiva, encarando-a e ela sorriu fracamente, pegando minha mão e beijando-a. Seus lábios estavam frios.

− Fala pra minha mãe que ela foi a melhor mãe do mundo. Que eu a amo e que eu fui muito feliz sendo filha dela. Fala pra ela que eu sinto muito orgulho de ter saído dela... – Ela sussurrou e eu comecei a soluçar, não querendo acreditar que minha princesa morreria ali, naquele laboratório, vítima de um louco que saíra atirando em alunos sem motivo nenhum.

− Você mesma vai dizer isso pra sua mãe.

− Fala pra Mia que eu a amo também. – Ela continuou, ignorando minhas palavras e eu voltei a soluçar. − Que ela é e sempre será a minha irmãzinha. E diga ao seu pai que ele é incrível e que eu teria sido muito feliz sendo filha dele. Fala pra Lara parar de enrolar e beijar logo o Ethan, porque a vida é curta e quando menos se espera, ela acabou... – Ela sussurrou, cada vez com mais dificuldade e eu chorei mais, beijando seus lábios, enquanto colocava sua cabeça sobre meu colo.

− Você é a minha princesa. Não pode morrer, Sofia. Nós vamos para Harvard juntos e vamos arrastar toda nossa família para Boston. Vamos tomar nosso primeiro porre na faculdade, vamos transar muito e quando nos formarmos, vamos nos casar e ter filhos. Você não pode morrer. Não pode. – Eu falei, beijando seu rosto e ela chorou silenciosamente, fechando os olhos e demorando a abri-los outra vez. – Não dorme, Sofia. Não feche os olhos. Fica comigo.

− Eu estou com sono, com frio e sede. O ferimento está doendo muito. Eu perdi muito sangue... – Ela sussurrou, fechando os olhos outra vez e eu respirei fundo, tentando manter a calma.

Ela não ia morrer. Eu conseguiria salvá-la.

− Eu vou te tirar daqui. Você vai ficar bem. – Eu falei decidido, me levantando e tomando-a nos braços e ela gemeu de dor.

Tomei o cuidado de deixar sua perna mais esticada o possível e saí com ela pelo corredor vazio da escola. Sofia estava praticamente desmaiada nos meus braços enquanto atravessávamos a escola em direção ao estacionamento, o que de certa forma era bom. Assim, ela não veria os alunos mortos pelos corredores.

Eu já estava quase chegando à porta principal quando escutei um barulho e me escondi com ela no depósito de materiais de limpeza. Fiquei com ela nos braços, atento a qualquer movimento do lado de fora e quando percebi que os policiais tinham invadido a escola, eu respirei aliviado. Eles prenderiam o atirador e eu poderia sair com Sofia dali.

Esperei até não ouvir mais ninguém e saí do depósito, correndo com ela em direção à saída.

Quando me viram saindo da escola com Sofia nos braços, os policiais se apressaram em me ajudar e rapidamente a colocaram em uma maca para que os paramédicos pudessem atendê-la.

− Foi você que fez esse torniquete, rapaz? – O paramédico me perguntou e eu assenti, enquanto observava eles colocando uma máscara de oxigênio em Sofia. – Isso provavelmente salvou a vida dela. – Ele falou e eu respirei aliviado.

− Ela vai ficar bem? – Eu perguntei e ele sorriu fracamente, enquanto colocava uma manta térmica sobre ela.

− Faremos o possível.

− Tommy... – Lara chamou por mim e eu olhei em sua direção. − Meu Deus, Sofia! Ela está ferida? – Ela se aproximou, correndo até a maca, mas os paramédicos já colocavam Sofia na ambulância.

− Ela levou um tiro na perna. Perdeu muito sangue. – Eu falei e ela começou a chorar.

− Levem ela para o hospital em que a mãe dela trabalha. California Hospital Medical Center. – Lara falou e o paramédico assentiu, falando com alguém pelo rádio e avisando para qual hospital levaria Sofia.

− Posso acompanhá-la? – Eu perguntei aflito e o rapaz negou com um gesto de cabeça.

− Sinto muito garoto. O estado dela é grave. Nesses casos, não é possível acompanhar a vítima. Mas, você pode ir na cabine da ambulância. – Ele ofereceu e eu assenti. Não me separaria dela agora.

− A gente te encontra lá. Vamos pegar Candyce e Mia na escola e vamos direto para o hospital. – Ethan falou e eu assenti, aceitando o moletom que ela me oferecia, já que minha camiseta havia sido usada para estancar o sangramento da perna da minha namorada.

O caminho até o hospital foi longo demais. O trânsito estava caótico nos arredores da escola e mesmo com as sirenes ligadas, os carros demoravam a dar passagem para a ambulância. Eu não conseguia ouvir o que estava acontecendo na parte de trás, mas devido ao aperto que eu sentia no peito, eu sabia que algo grave estava acontecendo com a minha princesa.

Quando chegamos ao hospital, Bella estava na porta de entrada da emergência, a espera da ambulância. Ela não devia fazer ideia que a paciente era Sofia e, eu quis evitar que ela descobrisse assim, do nada, mas já era tarde demais quando eu consegui sair da ambulância e me aproximar dela.

− Paciente do sexo feminino, quinze anos, vítima de ferimento com arma de fogo na coxa direita. O projétil atravessou a perna. Ela entrou em choque hipovolêmico devido à hemorragia intensa e sofreu duas paradas cardíacas a caminho do hospital. Pressão sistólica baixa. Recebeu os primeiros socorros de um colega de classe. ­– O paramédico informou e Bella empalideceu quando percebeu que a garota na maca era Sofia.

− Sofia? Meu Deus! Sofia! – Ela começou a chorar em desespero, tentando se aproximar da filha, mas a Dra. Cooper, minha pediatra e de Mia, a segurou pelos ombros, fazendo com que Bella a encarasse.

− Bella, o estado dela é grave. Vamos levá-la para a cirurgia agora e você vai se manter calma. Está dispensada pelo resto do dia para ser apenas a mãe da paciente. Entendeu? – Ela falou séria e Bella assentiu, enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto. – Ótimo. Pessoal, sala de cirurgia 2. Chamem um cardiologista e um ortopedista imediatamente. – A Dra. Cooper comandou sua equipe, correndo com a maca de Sofia para dentro da emergência e eu me aproximei de Bella, abraçando-a.

− Tommy? Tá fazendo o que aqui? – Ela perguntou me apertando contra ela com força e eu funguei, encarando-a.

− Eu vim com a ambulância. Fui eu que a tirei da escola.

− O que aconteceu? Porque ela está ferida? Um tiro? – Ela perguntou desesperada e eu assenti.

− Um atirador. Ele matou um monte de aluno, Bella. E quase matou Sofia também. – Eu falei chorando e ela me abraçou outra vez.

− Ela vai ficar bem, Tommy. Ela tem que ficar bem. Eu não sobreviveria se Sofia morresse. – Bella murmurou em agonia e eu fechei meus olhos com força, rezando para que os médicos conseguissem salvá-la, pois eu também não saberia sobreviver sem a minha princesa.

Eu não conseguiria.

Notas finais
Pessoas, eu sofri muitas ameaças ontem. kkkkkkk Só por isso, está aí o capítulo 30. Não se esqueçam de comentar. Aliás, conheci leitoras novas ontem. Sejam bem vindas e continuem comentando sempre! Até mais!