Laços da Magia
5 Capítulo IV
Notas iniciais
Capítulo IV
A jovem estava perdida em seus devaneios quando ouviu as batidas na porta. Imediatamente correu para abrir e encontrou seu irmão ali ofegante. Ele entrou rapidamente, mas antes a princesa olhou no corredor à procura de seus guardas e os encontrou desmaiados no chão.
— O que fez com eles, irmão? — perguntou preocupada.
— Coloquei um sedativo na bebida durante o jantar — respondeu Henry calmamente — Eu disse para deixar os guardas comigo, Alina. Não precisa ficar apreensiva. Eles devem acordar antes do sol nascer e por isso precisamos ser rápidos.
— Algum deles o viu? Por isso estava correndo?
— Não — respondeu o jovem príncipe — Eu fiquei com medo de alguma patrulha me surpreender e por isso vim mais rápido.
Alina apenas assentiu e observou que seu irmão trazia algo embrulhado em tecido.
— O que é isso? — questiona a princesa.
— Seu disfarce, irmãzinha — o garoto sorri.
Alina pega o embrulho dos braços do irmão enquanto o mesmo a aguarda do lado de fora do aposento. A garota olha para o uniforme de criada e o veste rapidamente. O plano era ir até a masmorra disfarçada para convencer Tessa a falar tudo o que sabia, mas Alina pressentia que aquela tarefa seria a mais difícil. Seu irmão tinha conseguido resolver o problema com os guardas. Mas será que a princesa iria conseguir executar a sua com tarefa tamanha perfeição?
Eles caminharam silenciosamente pelos corredores do castelo até a cozinha, sempre cuidando para não esbarrar em algum criado ou guarda, mas por sorte não se depararam com ninguém durante o trajeto. Alina e Henry tinham escolhido aquele horário porque era perto da troca de turnos entre os guardas. Após passarem pela cozinha vazia, onde a jovem pegou uma bandeja com sobras do jantar e uma taça de vinho, foram em direção à masmorra. Após chegarem a entrada Henry ficou para trás para ficar de vigia e Alina seguiu o restante do caminho sozinha. Agora era sua vez de agir.
(...)
Tessa estava tentando dormir quando escutou os passos pelo corredor e algumas vozes. Curiosa com o que estava acontecendo ela levantou do chão para aproximar-se das grades. Pela penumbra pode enxergar o guarda que fora designado para vigiá-la conversando com uma criada.
— O rei ordenou uma última refeição para a prisioneira antes da execução — disse a garota com voz doce — E aproveitei para trazer uma taça de vinho para o senhor. Afinal, deve estar cansado de ficar aqui a noite inteira.
O guarda sorriu maliciosamente para a jovem e pegou a taça que a criada ofereceu. Ela sentiu repulsa ao ver aquela cena. O homem tomou alguns goles do vinho e trocou mais algumas palavras com a garota.
Para a surpresa de Tessa poucos segundos depois o guarda ficou desacordado. A jovem criada largou a bandeja do chão, pegou a tocha e foi se aproximando da cela sem parecer ter medo da plebeia como a maioria das pessoas demonstraram.
— Você deve desejar muito algo para ter a coragem de vir até aqui — disse Tessa observando a garota.
— Sim — respondeu Alina sem deixar transparecer o quanto estava nervosa.
— Mas seja o que veio pedir, garota. Não posso ajudar. Ao menos que seja ingênua o bastante para acreditar que eu seja uma bruxa e que saia por aí fazendo poções do amor — debochou Tessa.
— Não acredito que seja uma bruxa — disse a princesa.
— Então, o que a motivou a vir até mim? — questionou Tessa com interesse na garota.
— Respostas — respondeu Alina rapidamente.
A garota olhou ao redor para certificar-se de que ninguém mais estava ali. Ela sabia que seu irmão estava na porta e que a avisaria quando fosse a hora de sair dali. A princesa aproximou-se das grades e encarou Tessa. A tocha iluminando o ambiente revelou a verdadeira identidade da criada. Imediatamente a expressão de Tessa tornou-se fria. Ela era alguns centímetros mais baixa, os fios de cabelo que estavam fora da touca de criada eram loiros, o rosto com traços angelicais e os olhos... Azuis intensos. Iguais ao do homem que matou sua mãe.
— Veio zombar de mim, princesa? Ou é apenas uma criatura tola e mimada que quer desafiar o papai? — disse Tessa com desprezo.
— Como soube? — Alina não esperava que Tessa fosse a reconhecer tão facilmente e recua alguns passos.
— É parecida demais com ele — revelou a plebeia de forma ríspida — Tem a mesma frieza no olhar.
Alina sentia a necessidade de se defender. Ela não possuía a frieza do rei. A princesa tinha herdado os cabelos loiros e os olhos azuis, mas sua personalidade era oposta a do seu pai. Só que naquele momento, por mais ofendida que estivesse com as palavras de Tessa, precisava focar no seu objetivo.
— Eu venho oferecer uma proposta.
— Proposta? — Tessa arqueou a sobrancelha desconfiada — Isso está realmente ficando interessante. O que pode me oferecer, princesinha?
Alina respirou profundamente.
— Escutei a acusação que fez contra o rei no julgamento — começou a garota lembrando dos acontecimentos mais cedo — Quero que me conte exatamente tudo.
Tessa soltou uma gargalhada.
— E o que vou ganhar em troca?– indagou zombeteira.
— A sua liberdade — respondeu Alina com convicção.
— Quer mesmo que eu acredite nesse truque, princesinha? — Tessa não podia acreditar que a filha do rei estava disposta a deixá-la escapar em troca de meras respostas. O que ela pretendia com tudo aquilo? Mas a plebeia tinha de admitir que a princesa era corajosa.
— Não acho que tenha outra opção, bruxa — rebateu Alina com audácia.
— Primeiro me liberte — Tessa mostrou as correntes.
— Responda minhas perguntas e depois a libertarei — A princesa disse mostrando a chave que roubou do guarda adormecido.
A plebeia suspirou indignada por Alina não querer soltá-la primeiro. Mas decidiu entrar no jogo da garota e depois escaparia dali sem olhar para trás.
— O que deseja saber, criança?
A princesa revirou os olhos. Elas deveriam ter quase a mesma idade.
— Quero saber o que houve entre sua mãe e o rei.
— O seu querido papai matou ela — Tessa respondeu com raiva na voz.
— Sob qual acusação? — instigou Alina.
— Nenhuma. Ela era apenas uma parteira...
— Alina — gritou Henry correndo na direção da cela — Os guardas estão vindo. Temos que ir.
Tessa encarou o garoto, mas ele nem pareceu se importar com isso.
— Preciso de mais tempo — insistiu a princesa.
— Eles vão nos encontrar aqui, irmã — Henry começou a puxar o braço da garota — É o máximo de tempo que consegui os manter afastados.
Alina apenas assentiu.
— Vá indo na frente — ordenou ela — Estarei logo atrás de você.
Henry voltou correndo pelo corredor e desapareceu em poucos segundos na escuridão
— Não pretendia me libertar, não é? — sussurrou Tessa.
— Estenda sua mão — exigiu Alina.
A plebeia desconfiou da princesa, mas mesmo assim fez o que foi solicitado. Ela depositou a chave no chão de Tessa e saiu correndo atrás do irmão. Rapidamente ela soltou as correntes dos seus pulsos e abriu a porta da cela.
Perfeito. Agora tenho uma dívida com a princesinha.
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