Laços Imperfeitos
33 Resoluções
Notas iniciais
Capítulo vinte e seis — Resoluções
Kyouraku olhava os papéis em suas mãos tão seriamente que seria incrível eles não incendiarem de repente. As anotações de Ukitake eram quase revoltantes, principalmente nas circunstâncias em que chegaram até si. Sua cabeça doía e a pressão atrás de seus olhos não ajudava em nada. Queria vomitar, sentar, chorar, fazer drama. Justamente quando as coisas pareciam tão bem...
Ukitake estava meio encolhido, um olhar culpado estampado no rosto, enquanto o observava atentamente com os exames de seu último check up em mãos. Isso quase fez Kyouraku sentir-se mal. Quase.
– Quando você pretendia me contar? – sua voz soou gélida aos próprios ouvidos e o psicólogo encolheu-se mais, parecendo mais frágil que jamais visto.
(Ukitake nunca foi realmente, realmente frágil a seus olhos. Ele era bonito, gentil e delicado, mas não verdadeiramente frágil. Era forte e corajoso, além de honrado e sábio. Algo nele lhe lembrava as rosas que sobreviviam ao inverno: ramas singulares, poderosas e imponentes ao seu modo. Apenas suas simples presenças calavam os admiradores da beleza verdadeira, ou seja, todos. É de nossa natureza admirar e temer a beleza, afinal.)
– Eu ia contar assim que...
– Assim que o que, Ukitake? – interrompeu o balbucio do outro com brusquidão atípica. – Assim que uma aparência cadavérica te denunciasse e não fosse mais possível esconder? Quando você precisasse ir para um hospital e então todos soubessem? – Shunsui soube naquele momento que atingiu um ponto fraco e que isso não ficaria assim. Era questão de tempo até que suas raivas explodissem.
– Não! Eu ia contar quando estivesse pronto porque sabia que você faria todo esse escândalo infantil e desnecessário!
– Desnecessário!? – a pergunta raivosa mal pairou no ar.
– Sim! Desnecessário!
– Desde quando eu me magoar por você esconder que não toma os remédios de forma correta há duas semanas e que seu quadro piorou consideravelmente é desnecessário!?
– É desnecessário porque você é um babaca que ainda não está compreendendo! Eu não sou mais aquele garotinho doentil e patético! Eu queria que descobrisse isso sozinho, mas não acho que seja capaz.
– Eu nunca achei que você fosse patético. – Ukitake visivelmente engoliu em seco e Kyouraku fechou os olhos. – Eu nunca duvidei ou pensei algo cruel sobre sua atual condição. Eu sempre te achei forte. Você era um ser humano incrível a todo e qualquer olho. Você é quem não entende.
– Não! Eu era uma pobre criança a esses mesmos olhos. Você que ainda não entendeu.
– Ukitake,... por que estamos discutindo isso?
– Porque você ainda não percebeu... – ele de repente parou de falar. Fechou os olhos solenemente e sorriu, tênue e quase cruel. Kyouraku sentiu um aperto no coração.
– O que eu não percebi? – sua própria voz saiu mais como um murmúrio angustiado.
– Que eu estou morrendo. – ele jogou a bomba. Kyouraku respirou fundo, olhando a face que sempre lhe pareceu tão transparente. Desejou não conhecer seu amigo tão bem assim. Riu de forma anasalada, a fim de esconder o terror crescente. O desespero nunca foi tão terrível.
– Você ainda não é muito bom com piadas. Deveria treinar mais.
– Não é uma piada, seu idiota! – o enfermeiro exaltou-se.
– Ukitake, por favor... Não. – Kyouraku apelou, mas não foi ouvido.
– Você mesmo sabe disso; acho que, psicologicamente falando, você tem medo de perder uma parte de seu passado, sei lá, apenas não admite para si mesmo o que todo mundo já sabe. Eu nasci fadado a isso, infelizmente. Os remédios não funcionam direito há algum tempo. Você sabe que eu sou o único usuário da droga que sobreviveu por tanto tempo. Então eu vi que estava apenas retardando o processo natural das coisas. – O diretor piscou atordoado. Ukitake respirava de forma irregular, quase com dificuldades.
– Você está bem? – indagou inseguramente.
– Estou... Me desculpa, eu acabei descontando a minha raiva em você. Desculpa, desculpa mesmo, eu sei que isso não basta, eu sei disso, mas... – A frase morreu em sua garganta. De repente, todo seu corpo esbelto tremia com o acesso de tosse que lhe acometia. Ukitake rapidamente levou a mão a boca, cobrindo-a como podia. Depois de segundos que lhe pareceram eternos, ele parou. A mão ainda na boca, os olhos ainda fechados. Parecia mais calmo, mesmo que cansado.
Kyouraku imaturamente não se segurou. Andou até ele, puxando a mão pálida de dedos finos com delicadeza. Jushirou acenou negativamente com a cabeça, mas, pela primeira vez, Shunsui achava mais importante negar-lhe um pedido a atendê-lo. A doença de Ukitake não era transmissível, obviamente, mas se fosse, ele não se importava. Ele abraçaria essa maldição sorrindo com sua costumeira preguiça se isso ajudasse a pessoa que amava. Colou gentilmente seus lábios aos dele, sentindo a maciez. Eles eram mornos, como Kyouraku sempre achou que seriam. Ninguém se moveu. As respirações quentes colidiam, trêmulas e profundas. Kyouraku fez o primeiro movimento. Abriu suavemente a própria boca, e Ukitake fez o mesmo. O sabor metálico de sangue temperava o ósculo, e logo um gosto salgado também se fez presente.
Ele e Ukitake surpreendentemente choravam. Lágrimas cristalinas pendiam nos cílios compridos que emolduravam os olhos brilhantes e desciam pela bochecha sempre tão sem cor, agora graciosamente rosada, do psicólogo. Shunsui soube naquele momento que ninguém chora de forma bonita, como dizia as canções e poemas. Ukitake, entretanto, conseguia quebrar isso. Ele ainda era incrivelmente bonito, como um arco-íris ou o pôr-do-sol.
A proximidade o fazia sentir quase tudo. O ar que saia por seus lábios entreabertos e os batimentos acelerados de seu coração. Seu próprio coração parecia fora de controle. Um fino filete de sangue descia do canto da boca ao queixo, e por alguma razão, isso o fazia ainda mais belo. Ele era como uma brisa fresca no verão. Ele fazia bem por onde passava, ele lhe fazia bem. Kyouraku mais uma vez o beijou, como que para selar o pensamento, sendo gentilmente retribuído.
– Pare... Por favor, por favor, eu te imploro, pare... – murmurava palavras desconexas por entre os lábios. O rosto de Ukitake estava entre suas palmas, e as mãos dele seguravam firmemente nas costas de sua camiseta. – Eu sei que tem tratamento e que ainda há cura. – O enfermeiro abriu a boca como se fosse rebater, mas Kyouraku foi mais rápido. – Você só tem que querer, ninguém pode te obrigar. – Abraçou o amigo com força, sendo abraçado de volta igualmente. O cheiro suave dele invadiu seus sentidos; era agradável, como todo o resto. As sardas claras entre o pescoço e o ombro eram claramente vistas. – Eu não digo tudo isso porque você faz parte do meu passado. É porque você faz parte do meu presente. Do meu futuro. – Kyouraku não era dado a declarações. Seus namoros até então eram movidos à palavra com "s". Claro, ele já gostou de algumas dessas garotas de verdade, porém, era mais como amigas do que qualquer coisa. Nenhuma delas se importava, entretanto. Com Ukitake era diferente. Ele não se sentia constrangido, encabulado ou hesitante. Ele apenas faria milhares de vezes se isso se implantasse na cabeça teimosa dele.
– Eu não entendo, eu... – Ele se afastou do abraço, agora cara a cara com o amigo. – Kyouraku, já que estamos tendo essa conversa, vamos deixar tudo claro aqui. Eu te amo. – Os olhos de Shunsui cresceram consideravelmente. Ué... – Mas é isso. Apenas eu amo, já entendi. Eu não quero que você se sinta obrigado a ficar comigo por pena, porque acha que eu vou sumir da sua vida ou qualquer coisa. Se você não me amar, e eu sei que você não me ama, eu não vou me chatear, eu vou entender, vou continuar sendo seu amigo. Então tire todas as minhas esperanças com algumas frases para que eu possa voltar a ter paz. Por favor.
Kyouraku esperou alguns segundos para que Ukitake revelasse a pegadinha, mas era sério mesmo... Não se aguentando, começou a rir. A simples risada transformou-se em uma gargalhada alta.
– Fala sério... Ukitake, se quer tanto deixar as coisas claras aqui, tudo bem: eu te amo. Eu te amo tanto que não aguento, você tem que parar com essa estúpida mania de achar que fazem tudo por pena da sua situação. Eu quero estar com você, quero estar no seu futuro. E não como um amigo. Eu já te tive como amigo por tempo demais. E não pense que eu digo isso porque sei que você vai se afastar.
– Eu não vou me afastar.
– Vai sim. Porque você acha que eu sou tão inescrupuloso a ponto de ti fazer sofrer.
– Mas... Francamente, você não é tão idiota pra me querer por perto. – Kyouraku quase se sentiu ofendido.
– Eu apenas não acho que você me queira lá, nunca achei. Nunca foi eu. Ainda que meus sentimentos estivessem na cara. Se você realmente me ama, se pelo menos gosta de mim, você vai continuar o tratamento. Vai tomar os remédios e nunca mais vai repetir essas merdas. Por favor. – Shunsui se aproximou novamente. Beijou-lhe a bochecha e sussurrou perto de sua orelha. – Por mim... – Ukitake suspirou.
– Certo. Mas ainda precisamos conversar. Vai me contar direitinho essa história toda. Ainda estou confuso.
– O que você quer saber? Eu te amo, viveria por você.
– Mesmo?
– Mesmo. – Ukitake respirou fundo e limpou o rosto com as mãos o melhor que pode. Logo, seu melhor sorriso brilhante apareceu.
– Ótimo. Comece provando. Eu quero que durma comigo essa noite. Só dormir, seu idiota! – consertou assim que sentiu o corpo do amigo vibrar com o riso.
– E eu disse alguma coisa? Depois que formos ao hospital, eu durmo com você pra sempre. Do jeito que quiser.
– Espero que sim. – Apertou-se mais no outro. Planejava tornar aqueles planos verdade. O mais rápido possível.
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