Lawrence
3 Fofocas
Notas iniciais
Kyle chegou em casa e a primeira coisa que fez foi correr para o quarto, largando seu casaco e sua mochila no meio do caminho. Subiu na cama e encolheu-se contra a parede, em cima do travesseiro. Pegou seu celular e procurou, com os dedos tremendo, o número de Izobel, uma amiga sua. Quando encontrou, fez uma ligação para ela.
-- Izzy?! Preciso te pedir uma coisa... – o garoto mal conseguia falar direito – Se qualquer pessoa te pedir o número do meu telefone, pelo amor de Deus, não dê! Ouviu? Pra NINGUÉM!
Quando a aula do professor Luke acabou e Kyle e Hannah saíram para os corredores, a garota não parou de perturbar o amigo até que ele enviasse a mensagem secreta para Vince. Com as mãos tremendo, o garoto conseguiu enviar a mensagem. Mas, para aumentar o desespero de Kyle, Vince devia ter usado o número que apareceu na mensagem e retornou a ligação. Quando o aparelho começou a vibrar na mão dele, o garoto entrou em pânico.
-- O que você está esperando, Kyle, atende! – Hannah parecia estar tão nervosa quanto o amigo.
-- Você pirou?! – Kyle arregalou os olhos para a menina – Se eu atender, ele vai saber que sou eu!
-- Mas não é isso que você quer?!
-- Sim, mas não quero que ele me descubra AGORA! Senão, qual seria o sentido dessa história toda?!
Hannah ficou quieta e esperou o telefone parar de tocar. Kyle fechou os olhos e soltou o ar, mas logo depois o aparelho começou a vibrar novamente em sua mão. Hannah ergueu as sobrancelhas e apontou com a cabeça o celular de Kyle, que apenas sacudiu a cabeça. Não faziam nenhum som, como se temessem que Vince já pudesse ouvi-los.
O telefone não tocou novamente, e os dois amigos foram para a penúltima aula. O celular de Kyle tocou no final dela, deixando o garoto em estado de choque de novo, e na saída, quando ele tinha esquecido o incidente por um momento, novamente o aparelho começou a tocar o mesmo trecho de “Someone Is There Waiting For My Song”. Quando parou, Andrea se aproximou de Kyle e Hannah, quando estavam à porta da escola.
-- Ei, Kyle, me diga, aconteceu alguma coisa?
O garoto fez uma cara confusa e franziu o cenho.
-- É porque várias meninas do Primeiro Ano saíram perguntando por aí se alguém tinha o número do seu telefone. Aliás, elas me perguntaram, mas desde que você mudou de chip, eu não tenho o número novo. Quer que eu passe pra elas?
Kyle ficou paralisado, olhando para Andrea. Os olhos da menina começaram a ficar confusos com a falta de resposta do amigo. Finalmente, o garoto reagiu.
-- Para quais meninas elas perguntaram...?
-- Apenas amigas nossas, a Jasmine, a Nathalya, a Isidora... Mas elas também não têm.
Kyle, aterrorizado, passou os olhos pelas redondezas. Não viu nenhuma de suas outras amigas.
-- Não passe para ninguém – disse, com a voz trêmula – E se vir qualquer amiga minha, QUALQUER, avise discretamente para que não passem. Hannah, isso vale para você também.
E desceu a escada num pulo, indo parar na calçada e saiu correndo. Ainda teve tempo de escutar Andrea perguntar o porquê, mas não respondeu. Virando a esquina, encontrou Jessalyn, uma amiga sua, indo embora.
-- Ei, Jessie...
A garota virou-se e viu o amigo.
-- Ah... olá Kyle.
-- Jessie, não tenho tempo para falar o porquê, mas se qualquer pessoa pedir o meu número para você, não o passe, O.K.?!
Kyle saiu correndo de novo, deixando uma Jessalyn aturdida para trás.
Já em casa, passados alguns minutos depois de ligar para Izobel, Kyle decidiu que precisava parar de pensar em Vince e distrair-se. Levantou-se da sua cama, sentou na frente do computador e ligou-o. Acessou a sua página num site que frequentava, um no qual podia postar fotos de seus desenhos na Internet. Desenhar era um de seus hobbies, e na verdade era muito bom nisso. Sempre que gostava muito de um desenho, escaneava-o e postava em sua página no site.
Ninguém havia comentado em seus novos uploads, então Kyle foi checar nos uploads de seus amigos. Um deles chamou a atenção do garoto. Um de seus amigos havia feito um desenho do vocalista do 30 Seconds To Mars, Jared Leto, sem camisa, com grandes asas brancas, uma auréola vermelha como sangue e fumando um cigarro. Jared Leto sempre foi um dos seus cantores favoritos, não só pela voz, mas também porque era bem bonito. Apesar de o desenho representá-lo com seu cabelo preto liso antigo, Kyle gostava mais do moicano rosa.
O garoto perdeu um bom tempo olhando para aquela imagem. Olhou e sentiu a mesma vontade que sentia toda vez que via um desenho legal ou tinha a ideia de uma imagem bacana. Resolveu fazer uma versão sua do desenho. Sem tirar os olhos da ilustração, Kyle pegou sua prancheta, lápis, borracha e seu caderno escolar. Sabia que não devia desenhar no meio do caderno, mas não pôde resistir. Começou a rabiscar a folha com energia, por cima das linhas azuis, começando pela cabeça, fazendo o esboço do corpo, corrigindo alguns erros de proporção...
Depois de alguns minutos, Kyle ergueu a prancheta e olhou o seu trabalho pronto. No final, ele tinha ficado muito diferente do original. O cabelo, a pose, a falta da camisa e o cigarro permaneceram, mas Kyle mudou alguns detalhes ao seu gosto. Mudou ligeiramente as feições do personagem, para que pudesse ver seu rosto direito. As asas também não eram mais brancas e cheias de penas. Eram menores, negras e angulosas. As nuvenzinhas negras em volta davam a aparência de que as asas eram feitas de fumaça negra. A calça jeans dele também estava desabotoada e aberta, revelando um pedaço de sua roupa íntima. Kyle riu perante esse detalhe. Era muito mais cômico do que erótico e servia para quebrar a seriedade da expressão do rapaz desenhado. O garoto pensou que, juntando tudo, ele havia criado um personagem ácido e atrevido.
Percebeu que estava dando uma personalidade ao desenho e resolveu dar um nome a ele. Queria um nome de classe, que parecesse sério e que fosse um nome inglês. Pensou... Sebastian... Sheldon... Leonard... Lawliet... Law... Law... Lawrence...
Lawrence? Sim, aquele nome parecia estar de acordo. Escreveu à lápis, do lado da cabeça de Lawrence, o nome dele, de leve. Olhou de novo para o desenho e soltou uma risada pelo nariz.
-- Você tem mesmo cara de Lawrence...
Decidiu que não ia postar aquela foto em seu site. Lawrence ia ser só seu, pelo menos por algum tempo.
Kyle acordou no dia seguinte muito ansioso. Não sabia o que podia acontecer no dia seguinte, e como não tinha falado com mais ninguém desde que chegara da escola no dia anterior, não sabia se todas suas amigas receberam seu aviso e se cumpriram a promessa. “Não devia estar me preocupando com isso logo de manhã...” pensou. “Depois me aconselharei com Hannah.”
Kyle viu Hannah enquanto os dois chegavam à escola, e entraram juntos.
-- Acho que você devia mandar um novo torpedo para o Vince; mas dessa vez com algo que o fizesse entender que você está por dentro de tudo que está acontecendo.
Kyle olhava para a amiga, esperando ela falar.
-- Você também precisa saber se ele já tem cem por cento de certeza se é você mesmo. E com isso, você pode fazer com que ELE venha falar com você, já que você tem essa frescura que chama de “timidez”. Faz o seguinte, escreve assim...
Kyle tirou seu celular do bolso e começou a digitar. “Perguntando o número dos outros por aí? Se você acha que sabe quem sou, venha falar comigo...” Hannah avaliou a mensagem e disse:
-- Não mande agora. Vamos primeiro ter certeza que o Vince veio à escola hoje. Senão, podemos correr o risco dos pais dele ou outra pessoa ver antes dele.
Os dois olharam em volta e não localizaram o garoto nem suas amigas risonhas em volta.
-- Vamos esperar até o almoço – sugeriu Kyle – Aí podemos ver se ele veio ou não. Até lá, vou deixar a mensagem salva.
A primeira aula do dia era de Física, o que significava que iriam ter ala com o professor Luke. Kyle e Hannah sentaram em sua mesa habitual e esperaram o professor entrar. Quando o homem entrou pela sala usando seu suéter de zíper de sempre, deu uma piscada discreta para Kyle. Hannah olhou para Kyle com um sorriso. Luke era o professor favorito dos dois, e saber que estava sendo amigável com eles era um bom sinal. O homem encostou-se em sua mesa, pigarreou alto, fazendo a classe ficar quieta, e falou:
-- Bom dia, pessoal. Daqui a pouco, a diretora irá nos apresentar um novo aluno, que vai começar a fazer parte da turma de vocês hoje – a classe de repente ficou mais ruidosa com os cochichos interessados dos alunos – Vocês, com 16 anos, já estão crescidinhos para eu ficar dando esses avisos, mas ainda assim é bom lembrar. Eu quero que todos vocês tratem bem o novo aluno. Não importa de ele for diferente da maioria, não quero saber de nenhum de vocês o apelidando ou incomodando nos corredores ou banheiros. Também quero – e quando disse isso deu uma olhada para Kyle – que sejam amigáveis e hospitaleiros, não importa que escolhas ele faça. Muito bem, já devíamos ter começado, hoje nós falaremos sobre as trocas de calor...
Kyle se curvou para Hannah e cochichou:
-- Oba, um colega novo! Adoro receber gente nova.
-- Eu também – cochichou a menina de volta – sempre há a possibilidade deles serem novos amigos nossos.
-- O que será que o professor quis dizer com aquela olhadela quando ele comentou sobre as “escolhas”...? Você acha que o aluno novo pode ser gay...?
Hannah riu.
-- Você sempre acha que os caras possivelmente legais ou possivelmente bonitos podem ser gays...
-- Sim, mas só quando eu gosto deles... não é como se eu me apaixonasse por qualquer pessoa do sexo masculino...
De repente, alguém bateu na porta, que se abriu ligeiramente, exibindo um cabelo louro com um penteado grande, como dos anos 60. A dona dele era a diretora Lenina, uma mulher atarracada e risonha. Era uma senhora bondosa, mas de vez em quando o sorriso a deixava com cara de boba. A mulher botou apenas sua cabeça para dentro da sala, exibindo seu sorriso engraçado.
-- Com licença, professor – disse ela, mostrando seus dentes brancos – queria introduzir o novo aluno...
O professor Luke apenas acenou afirmativamente com a cabeça e fez um sinal para entrarem. A diretora Lenina deu uma risadinha e entrou com um rapaz.
-- Bem, pessoal, este é seu novo colega de classe, Lawrence Porter. – ao ouvir esse nome, Kyle levantou a cabeça – Infelizmente, estou ocupada e só posso dizer para tratarem-no bem e que sejam amigáveis. Digam olá ao Lawrence, pessoal.
A sala soltou um longo e desanimado “olá, Lawrence”, bem sincronizado, mas Kyle não disse nada. Estava muito espantado com a aparência de Lawrence. Não que ele fosse feio, muito pelo contrário. Era mais bonito impossível. Na verdade, ele era igualzinho ao desenho que Kyle fizera na véspera. O cabelo preto, o olhar atrevido através das pálpebras semicerradas... Kyle podia quase sentir o cheiro de cigarros. A única diferença era que ele estava completamente vestido e não tinha asas, lógico.
A diretora se retirou e deixou Lawrence nas mãos do professor Luke, que estendeu a mão e apertou a do garoto com energia.
-- É um prazer tê-lo aqui conosco, Sr. Porter. É um nome inglês, acredito...
-- Sim... Morava em Londres...
A voz do garoto era grave e introvertida, já que ele estava tímido. Hannah notou a falta de palavras de Kyle e comentou:
-- O que foi que você disse...? Que não era verdade que você se apaixonava por qualquer pessoa do sexo masculino...?
Kyle não a xingou de volta. Ficou olhando para Lawrence com o olhar espantado. O professor Luke o mandou sentar na mesa vazia na terceira fileira. Na mesa que ficava bem do lado de Kyle. O garoto caminhou até ela, passando os olhos pela sala. Quando encontrou os de Kyle, fixou o olhar neles e estreitou o olhar, como se olhasse algo muito interessante. A íris do rapaz era bem negra, o que fez o garoto sentir estar sendo dragado para dentro daquele olhar. Como num livro estrangeiro que tinha lido uma vez. “Olhos de ressaca”, que o puxavam para dentro.
Lawrence sentou na mesa ao lado de Kyle e estendeu a mão ao garoto.
-- Oi – disse com sua voz leve – Eu sou Lawrence Porter.
Kyle demorou um pouco para perceber que o cumprimento era para ele. Pegou a mão do garoto sem muita convicção e sacudiu-a de leve.
-- Kyle – respondeu – Kyle Rivers.
As pontas dos dedos de Lawrence esfregaram de leve na palma da sua mão, e o garoto sentiu como se esse pequeno movimento em falso sugasse toda sua energia vital.
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