Lawrence
4 Olhares
Notas iniciais
Se gostarem, comentem ,por favor.
À tarde, a presença de Vince fora confirmada. Kyle ainda lutou um pouco consigo mesmo e com Hannah para que tivesse coragem suficiente para mandar a mensagem do dia. E mais uma vez, pouco tempo após ter enviado a mensagem, durante a aula de Matemática, o telefone vibrou, porém dessa vez de forma silenciosa, para que o professor não notasse. Mas a vibração fora uma vez só, e não várias, como numa ligação. Era uma resposta. Kyle abriu o celular com as mãos tremendo, e viu o nome do destinatário “Vince”.
“Mas eu não faço a mínima ideia de quem você seja... Não pode me dar uma pista?”
Hannah leu o conteúdo de forma silenciosa, e acalmou Kyle o suficiente para que ele pudesse segurar seu lápis direito, de tanto que seus dedos tremiam.
-- Você quer falar, já?
-- Não seja estúpida, é claro que não.
-- Então acho que pelo menos algumas pistas você pode dar. Deixe claro logo que você é um homem – disse a amiga, cochichando – Assim você descobre se ele é gay e se ele ficaria interessado em você de forma positiva.
-- Porque com certeza, ele está interessado em mim... – disse Kyle desanimado.
-- Eu escuto uma conversa...!
O professor notara que havia alguém falando e logo os dois se calaram. Discretamente, Kyle escreveu a nova mensagem. “Sou do Segundo Ano, e sou um garoto. Isto te interessa saber...?”
Depois de enviar, Kyle ficou esperando uma resposta, mas nada chegou. Durante o dia inteiro, nenhuma resposta lhe veio. E não soube de mais ninguém pesquisando seu número de telefone. Nada disso ajudou a amenizar a ansiedade do garoto.
“Droga” pensou ele “Por que será que ele não responde...? Será que ele não gostou quando eu disse ser um homem...? Será que ele não é...” Kyle parou sua linha de raciocínio. Não ia se permitir terminar esse pensamento nunca.
...
Talvez fosse paranoia, talvez não fosse, mas Kyle sentia que Lawrence passava o dia inteiro lhe observando. Durante as aulas juntos, durante os intervalos, durante a entrada e a saída. E toda vez que Kyle notava os olhos do garoto sobre ele, o aluno novo nem parecia tentar disfarçar. Não desviava o olhar, apenas estreitava os olhos um pouco mais e olhava com mais intensidade.
Numa dessas vezes, eles estavam no refeitório, Kyle e Hannah numa mesa e Lawrence sozinho em outra. Quando sentiu uma cosquinha em sua nuca, Kyle sabia que o garoto estava o observando. Olhou para trás e encontrou o olhar queimante de Lawrence fixo nele, com uma expressão que lembrava muito um gato prestes a começar a brincar com sua comida. Os cabelos negros e lisos do garoto lhe caíam por cima dos olhos em mechas pequenas, e aquilo lhe dava um ar sombrio. Kyle sentiu seu coração congelar por um minuto.
-- O que foi? – perguntou Hannah.
-- Ele está me olhando...
-- Hã? Ele quem?
-- O garoto novo... – disse Kyle sem se virar.
-- Aquele tal Porter? – Hannah olhou pra ele e notou os olhos de Lawrence sobre seu amigo – Anda, vem comigo.
Hannah pegou a mão de Kyle e os dois levantaram da mesa. O olhar de Lawrence o seguiu por um momento, e então voltou suas atenções para seu almoço. Os dois saíram pelas portas do refeitório e continuaram andando.
-- O que será que ele quer...?
-- Eu não sei... – disse Hannah – aquele garoto não é de falar muito... e as expressões dele são sempre difíceis de se decifrar...
-- Será que ele sabe que...?
-- Que você é gay? Hmm, não sei... por que isso é importante?
-- E se ele for... homofóbico e quiser... sei lá...
Kyle engoliu em seco. Hannah soltou o ar pela boca, revirou os olhos e fez um movimento com a mão.
-- Kyle... você sabe como são as pessoas dessa escola. NINGUÉM ia deixar qualquer um encostar a mão em você para te machucar.
Isso era verdade. Kyle nem sempre morara naquela cidade, tinha se mudado uns três anos atrás, por causa de sua família. Aquilo foi uma bênção para o garoto, pois em sua cidade anterior, ele não era praticamente ninguém. Era o saco de risada da escola, a maioria das zombarias era direcionada a ele. E o pior, nenhum dos motivos parecia ser um dos “tradicionais”. Não aparentava ser gay na época, não era “nerd”, não era muito feio. Era apenas sozinho. Ele não conseguia se integrar no grupo dos meninos. Os assuntos eram sempre sobre coisas que não lhe atraíam. Eram sempre sobre esportes que ele odiava, programas que não assistia, livros e quadrinhos que ele não lia. Mas quando ele ouvia por acaso as meninas conversando do desenho de super-heroínas ou do novo artista bonitão, ele se interessava no mesmo minuto. Mas elas sempre diziam as mesmas coisas. “Desculpe, conversa de mulher...”, “Não, isso não te interessa...” E essas atitudes só pioravam, tornando a insistência de Kyle em assuntos de menina algo chato. Então essa passou a ser a desculpa para a zombaria. “Você é um chato!”, “Não admira que ninguém queira ser seu amigo!”, “Resolveu entrosar do nada por quê...?”, “Anda, sai, não estou com paciência para te aturar”. Kyle era só. Ele não tinha ninguém para chamar de amigo. E as pessoas que pensava ser suas amigas, na eram.
Este tratamento durou até mesmo um ano após Kyle e a família se mudarem para a cidade nova. O mesmo tipo de zombaria. Mas quando foi para o Ensino Médio e mudou de escola, tudo mudou do nada. As pessoas passaram a ser amigáveis com ele, sobretudo as meninas. Os garotos pareciam ser mais tolerantes com certas atitudes, e as pessoas em geral, menos apegadas a estereótipos e padrões de comportamento. Sentiu que poderia ser ele mesmo.
A primeira amiga para quem contou que era gay foi Jessalyn, sua melhor amiga na época. Depois que contou a ela, a segunda a saber foi Thammy, uma garota loura e extremamente doce. Por causa desse comportamento calmo e expansivo, Kyla contou a ela no mesmo dia em que se conheceram. E daquele momento em diante, não parou mais, contando a qualquer menina que fosse ficando íntima dele. Ferny, Jessalyn, Lauren, Hannah, Andrea...
Aquela escola o aceitou de braços abertos. Não demorou para que o “gaydar” de Kyle, que sempre fora muito sensível, ficar ainda mais poderoso. Em pouco tempo, o garoto conseguiu descobrir um bom número de gays, lésbicas e bissexuais na escola, Hannah e Andrea incluídas, e descobriu que nenhum deles era intimidado por gostar daquilo que gostava. Aquilo era ótimo, um lugar seguro de gente presa a mitos e preconceitos.
Mas o surgimento de Lawrence na escola fez Kyle repensar sobre esse seu julgamento. A avidez com que o garoto o observava parecia ter sido desperta pelas atitudes de kyle, que depois de ser tão bem aceito, não escondia mais que era gay. E por ser novo, Lawrence podia pensar que essa sua atitude seria plausível entre alguns garotos. Kyle estava começando a ficar com um certo medo.
-- Se bem que – começou Hannah – o olhar dele não parece de alguém que queira te matar...
-- O que você quer dizer com isso?
-- Sei lá... ele pode... te achar interessante...
O estômago de Kyle deu uma volta e despencou. Sentiu seu rosto se avermelhar rapidamente, suas faces arderem. Um calor fora do normal começou a correr o seu corpo e fazer coçar suas costas. Hannah notou a falta de palavras e o rosto surpreso do amigo.
-- O que houve?
-- Nada...
Kyle virou o rosto e não falou mais nada. Começou a se lembrar da noite do dia em que desenhara o seu Lawrence. Estava deitado na cama já fazia algumas horas e ainda não conseguia dormir. A possível descoberta de Vince sobre ele ser o responsável pelos torpedos misteriosos o fez ficar acordado a noite inteira, rolando de um lado para o outro. Ficou pensando se Vince se interessava por ele. Se tinha sentimentos ocultos, se ele estava fazendo a mesma coisa, rolando na cama, desesperado por não saber se a pessoa que gostava era quem estava lhe mandando um torpedo tão revelador. Começou a fantasiar com Vince. Teve visões dos dois andando juntos por um praça, sem mais ninguém por perto, de mãos dadas. Dos dois conversando animadamente, correndo e saltando, um do lado do outro. Imaginou os dois juntos, num abraço, cantando um para o outro músicas apaixonadas. E então começou a imaginar os beijos apaixonados que um dia trocariam, e como seria o mundo lindo que o namoro dos dois construiria.
Kyle parou de fantasiar e começou a falar consigo mesmo, mentalmente:
“Você é um estúpido... não tem ninguém, e fica aí fantasiando com uma pessoa que provavelmente nem te ama... você é como aquela personagem de ‘Les Misérables’, você está sozinho, fantasiando. E quando acorda, percebe que isso não passa de sua imaginação, e que nunca irá tocá-lo nem cantar para ele”
Kyle enxugou uma lágrima que embaçava seu olho. Aquilo não devia estar lá. Kyle não devia estar lá, sozinho. Devia estar nos braços de alguém, devia estar feliz apenas por sentir um toque em seu braço, em sentir um cheiro diferente. Percebeu qual era seu problema.
Kyle se apaixonava fácil. Não era a primeira vez que aquilo acontecia. Várias vezes Kyle teve sentimentos por garotos que não o correspondiam, ou pior, eram heterossexuais. Era só ver alguém bonito ou legal e pronto, se sentia diferente. Ficava feliz apenas em ver aquela pessoa. Até que aquele sentimento com intenção vouyerística não era o suficiente. Não se contentava apenas em olhar, precisava tocar, sentir, apertar. Hannah já estava acostumada com isso, mas com Vince fora a primeira vez que eles realmente fizeram alguma coisa.
Kyle levantou de sua cama, acendeu o abajur e olhou o desenho de Lawrence. Observou o cabelo preto e liso, o cigarro em sua mão, o braço levantado com a mão atrás do corpo, sua calça com o cinto e o zíper abertos. Olhou naqueles olhos que pareciam entediados e disse, apenas para ele e para o desenho:
-- Desse dia em diante, você vai ser a única pessoa por quem vou me apaixonar. Não quero saber de paixões novas até você aparecer.”
Claro que quando Lawrence Porter apareceu no dia seguinte com seus olhos entediados e seu cabelo preto, nada pareceu uma coincidência para Kyle. Aquilo era estranho demais para ser só um acaso. Mas o que seria senão um acaso? Kyle não sabia responder. Então passou a negar esse pensamento. Mas Hannah veio e trouxe-o de volta. Será que ele era quem devia ser...? Resolveu não contar nada disso a ela. Pelo menos por enquanto.
Após a saída, Kyle conversando com algumas amigas na esquina quando algo chamou sua atenção. Lawrence estava do outro lado da rua, encostado numa parede. Ele tinha um cigarro na mão e um dos braços levantados com a mão atrás do corpo. Com um pé, se apoiava numa lixeira próxima, e seus olhos miravam Kyle com uma intensidade poderosa. E estava sem camisa. Kyle ficou observando aquela cena tão familiar estupefato, com o coração assustado e acelerado.
Algo vibrou em seu bolso. Kyle pegou seu celular e leu a mensagem:
“Continuo sem fazer a menor ideia de quem você seja... precisamos mesmo nos conhecer, quem sabe não rola alguma coisa...?”
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