Laura E Edgar - Um Novo Olhar
14 O encontro
Notas iniciais
O Encontro (capítulo 14)
Havia prometido para Edgar que me encontraria com ele em sua casa. Conversar com ele naquele momento, no Colégio, não seria conveniente, mas de que adiantaria adiar, mas ainda não tinha certeza se tinha, ou não, tomado a decisão certa. Na realidade, não sei se desejava me encontrar com ele. Tinha tantas dúvidas. Mas havia prometido. Encontrar Edgar, depois de todos estes anos... Não acreditava, sei que me encontraria com Edgar, em algum momento nos esbarraríamos, mas o vê, ali, em pleno colégio, foi um susto, era o Edgar... Mal consegui dá aula. Conservar ali era impossível, era meu local de trabalho. Mal conseguia pensar. Foi um custo tentar manter a calma, era o Edgar... Não tinha ideia de como reagiríamos.
Peguei o bonde e fui à direção do bairro de Botafogo, onde ficava minha antiga casa. Vi a casa onde vivi os momentos mais felizes e dolorosos de minha vida. Subi a escadaria, respirei profundamente, fechei os olhos, tomei coragem e bati na porta, tinha esperança que Matilde atendesse, mas não tardou de se aberta, Edgar o fez pessoalmente.
- Por favor, entre. – Sua voz parecia calma, mas seu semblante não.
- Com licença. — Entrei devagar, e percebi que tudo estava exatamente igual como eu deixe há seis anos.
- Por favor, sente-se. – Edgar convidou Laura a se sentar no sofá. Mas ele preferiu se sentar na poltrona próxima a sala de jantar.
- Deseja beber alguma coisa, um café, um suco, um chá... – Estava ansioso.
- Nada, obrigada. – Respondi apenas. Estávamos ali, mas havia um imenso oceano entre nós.
Era evidente nosso desconforto naquele momento. Eu e Edgar nos olhávamos, mas, estávamos extremamente desconfortáveis naquela situação.
- Preciso beber alguma coisa. – Edgar levantou-se de súbito e foi até a cristaleira onde no passado guardávamos as bebidas, Edgar pegou uma garrafa de Porto se serviu um copo e tomou tudo em um gole.
- Tem certeza que não quer um pouco. – Perguntou.
- Agora quero sim. – Respondi.
Edgar me deu a taça e tomei em um gole, naquele momento a bebida desceu com sabor mais amargo do que de costume.
Edgar voltou para seu lugar e tomou mais um gole, mas dessa vez devagar e colocou a taça em cima da mesa de centro. Eu preferi continuar a segurar minha taça.
Era estranho está ali, minha antiga casa onde havia sinto tão feliz, a casa continuava igual.
- Então você é a professora de Melissa. – Edgar tentava começar a conversa de algum lugar.
- É verdade, sou professora de Melissa, sua filha é minha menina maravilhosa. – Tentei responde amigavelmente.
- Ela fala tanto em você, imagina a minha surpresa quanto descobri que a professora dela era você.
- Eu também fiquei muito surpresa quando descobrir que Melissa era sua filha. Há principio eu desconfiei, mas ao ver você buscando-a no Colégio, foi quase que um choque. – Respondi tentando não demonstrar nervosismo...
- Você me viu ir buscar a Melissa e nem se dignou a falar comigo. – Edgar parecia inconformado.
- Falar o quê Edgar? Na hora nem tive reação. – Tentei justificar.
- Mas e depois, você poderia ter falado comigo, mas não fez.
- Edgar, eu nem sabia se queria que você soubesse da minha volta. Pensei seriamente deixar a escola quando soube que Melissa era sua filha.
- E me evitar Laura. – Edgar estava mais inconformado ainda. – Assim que Melissa me falou seu nome, a primeira coisa que quis foi ver você, ter certeza que era você mesma e não te evitar. Sabe por acaso o que eu passei estes anos todos. Você se separou de mim, mas eu continuei casado com você. – Edgar respirou fundo e parecia que ia explodir. — Eu continuei aqui casado com você, para te proteger, para que ninguém falasse de você. Sua mãe inventou uma mentira e eu aceitei participar apenas para proteger você. – Uma lágrima escorreu no rosto do advogado.
- Eu não pedi para você mentir por mim, e tão pouco participar da farsa que minha mãe armou. – Falei firme. Estava indignada.
- Fácil falar não é mesmo. Você se foi, nem se importou, apenas se foi sem olhar para o estrago que havia deixado para trás.
- Edgar, o quê quer que eu diga. Obrigada. Não, eu apenas segui a minha vida, deixei isso bem claro para você e para minha mãe. Eu fui seguir a minha vida, não fiz nada de mal. E eu não deixei nenhum estrago para trás, apenas não aceitei uma situação que me faria sofre. Se eu sou culpada por algo, foi por me manter digna, foi por seguir o que acredito, mesmo que para isso tivesse que abri mão de você. Apenas isso. E se pensa que me arrependo, não me arrependo, fiz o que achava certo e continuo pensando da mesma forma. – Estava mais indignada, estava com raiva e com uma imensa vontade de chorar.
Edgar estava tão transtornado que foi em direção a Laura, mas ela se manteve firme. Ele parou na frente dela, sua respiração era ofegante, tinha tanta raiva no olhar. Mas a professora não se deixou intimidar, encarava-o de igual para igual.
- Se foi para isso que você pediu para que eu viesse, então nossa conversa acaba aqui. – Laura virou as costas para Edgar e já ia ao caminho da porta, quando sentiu Edgar pegar seu braço e puxá-la de volta.
- Não terminamos, há muita coisa a ser tida.
- O quê, por exemplo? Diga-me Edgar o quê, por exemplo. – Laura estava irada.
- Você nunca deixou que eu me explicasse.
- Explicar o quê, o fato de não me mandar notícias enquanto estava tento uma gravidez difícil e depois a perda do nosso filho... Já sei, o fato de ter trago a Catarina para dentro de nossas vidas... Melhor ainda e eu ter que aceitar tudo aquilo, aceitar não, engolir a seco a presença daquela mulher... – Laura estava mais irritadíssima com as cobranças de Edgar. – Não ouse cobrar nada de mim.
- Eu teria dado um jeito em tudo Laura, apenas precisava de tempo.
- Realmente, eu não consigo acreditar, se passaram seis anos e você ainda não consegue enxergar... – Laura olhava para Edgar com tanta indignação. Mas continuou.
- Como você imagina como seria nossa vida se tivesse aceitado o que você me propôs Edgar, como nós estaríamos hoje? Pois eu lhe falo: pode ter certeza que odiaria, eu não suportaria olhar para você e também me odiaria e tão pouco me olharia no espelho. Não sou mulher de aceitar isso. Nunca fui e jamais serei. Se tivesse que abrir mão de você mil vezes, eu abria mão sim. Mas eu não abro mão é de mim mesma. – Fui enfática.
- Você fala como se eu gostasse de toda aquela situação, eu só pedi um pouco de compreensão.
- Eu compreendi melhor do que você imagina, apenas Edgar, não quis a vida que você me ofereceu. Não era para mim, por isso deixei você, por isso segui em frente. Refiz a minha vida sem você, estou em pé. Eu apenas quis ser honesta comigo e com você também, aceitar aquela situação seria aceitar uma mentira e isso eu não podia fazer, nem por você e nem por ninguém.
- Até quando vou ter que pagar por isso Laura?
- Isso já não é problema meu, é você com a sua consciência.
- Você age com se apenas você tivesse sofrido...
- Imagino que tenha sofrido também, mas não mais do que eu, você foi a Portugal em busca de uma filha, estar crescendo uma menina feliz, eu fiquei aqui e perdi o nosso filho, você Edgar, ao menos tem a Melissa, ela é linda, mas eu tenho apenas a lembrança de uma gravidez que não vingou. Você pode abraçar a sua filha, e eu nem isso. Nesse aspecto você teve mais sorte do que eu. – Por mais que tentasse não pude mais conter as lágrimas.
- Acha que eu não sofri pela perda do nosso filho. Tem razão, eu abraço a Melissa, mas não há um único dia que não quisesse abraçar o filho que perdemos, não há um único dia que não pense nessa criança. Eu queria este filho da mesma maneira que queria a Melissa ao meu lado. Não pense que ignorei meu filho, eu o queria tanto quanto você. – Edgar chorava.
Laura ficou sensibilizada com a imagem daquele homem na sua frente chorando, pela primeira vez via o sofrimento de Edgar em relação ao filho deles, assim com o ex-marido ela também chorava. Percebeu que aquela dor também pertencia a Edgar. Ela sempre teve consciência do seu sofrimento, mas não tinha sobre o sofrimento de Edgar.
Edgar se sentou novamente e abaixou a cabeça e colocou as mãos no rosto, apenas chorava.
Por sua vez Laura observava aquela cena e nunca via Edgar tão fragilizado, mesmo na época que tentava evitar o divórcio. Queria abraçá-lo, mas não se sentia no direito de fazê-lo. Também não queria ficar mais ali, queria sair, respirar, voltar para casa de Isabel, precisava do abraço da amiga.
- Edgar eu preciso ir. – Laura falou com a voz quase falhando.
Edgar me olhou, mas não disse nada, apenas me afastei e sai da nossa antiga casa. Ao sair dali, respirei fundo, buscava o ar, enxuguei as lágrimas e saí. Ao chegar à casa de Isabel, contei tudo a minha querida amiga, de como foi difícil aquele encontro, nunca imaginei que meu reencontro com Edgar fosse ser dessa forma, foi tão doído, estava tão exausta que cai na cama e fiquei ali durante horas, chorava mais ainda que na casa de Edgar, chorei por mim, por ele, pelo nosso filho, pela nossa separação, por tudo que se perdeu no tempo. Adormeci e apenas acordei na manhã seguinte.
Estava indisposta, mas mesmo assim fui à escola, por um momento tive medo de encontrar Edgar novamente, mas Melissa foi acompanha de uma criada, Edgar não foi levar a filha na escola e também não foi buscá-la, vi Matilde indo buscar a menina, antes Melissa se despediu de mim, me deu um abraço tão afetuoso, eu retribui como se abraçasse o filho que nós perdemos. Provavelmente Edgar precisava da menina ao lado dele, ao menos ele tinha a filha. Pelo jeito, nossa discussão o afetou tanto quanto a mim.
Nos dois dias seguintes Edgar não foi levar Melissa à escola, sempre era outra criada ou Matilde. Por um momento pensei que me evitasse, mas no terceiro dia ele foi levar a filha, nos vimos de longe e ele fez um aceno com a cabeça e eu lhe retribui o aceno, ele estava abatido, aquela discussão o havia afetado, assim como a mim. Durante o resto da semana mal nos falamos. Mas apenas nós sabíamos o que ambos estavam sentindo.
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