Laura E Edgar - Um Novo Olhar
15 Depois do encontro
Notas iniciais
Depois do encontro (capítulo 15)
A discussão com a Laura foi horrível, não queria que tivesse sido assim, mas quando vi já estávamos brigando mais uma vez. Realmente não queria. Por um momento era como se estivesse naquela época, as brigas que levaram ao divórcio. As nossas questões continuavam no mesmo lugar, nossos desentendimentos surgindo ali, na nossa frente, depois de seis anos. Apenas queria que tivéssemos conversado e nada mais. Nem sei direito como começou, mas apenas começou.
Ver a Laura na escola e depois em nossa casa, o lugar que no qual fomos felizes, queria tanto a minha vida de volta e estraguei tudo novamente. Minha culpa ter perdido a Laura e nosso filho. Nem eu imaginava o quanto ainda doía em mim tudo aquilo. Era horrível ver que Laura ainda não me entendia. Era horrível reviver tudo aquilo.
Naquela noite apenas quis ficar sozinho, mandei um recado a Catarina avisando que não poderia levar Melissa no dia seguinte na escola, e pedia que a criada levasse a minha filha, pedi a Matilde que buscasse e trouxesse minha Abelhinha aqui para casa. Não queria evitar Laura, mas não sei se ela desejava me ver, não queria impor minha presença a ela, doía perceber o quanto havia feito Laura sofrer, nunca quis isso, queria tanto a ter protegido, cuidado dela, mesmo sabendo o quanto é forte, mas apenas a queria ter por perto.
No dia seguinte, minhas recomendações foram acatadas e Matilde foi buscar Melissa na escola, enquanto esperava o retorno das duas, pensava na discussão, nos erros do passado, em Laura.
– Estraguei tudo, perdi a Laura por minha culpa, pela estupidez de me envolver com a Catarina, a única coisa boa de tudo isso era ter minha Melissa comigo.
Quando ela chegou da escola, me abraçou com tanto amor, parecia adivinhar que precisava daquele abraço, abraçava Melissa como abraçaria o filho que havíamos perdido. Ao menos tinha Melissa, enquanto Laura tinha apenas a dor da perda, esta dor que também era minha.
No dia seguinte deixei que a criada de Catarina e Matilde levasse e buscasse Melissa, ainda não queria impor minha presença a Laura, mas já sentia saudades, queria vê-la, mesmo que não falassem com ela, apenas queria vê-la. Tomei coragem e fui, a vi de longe, pensei em me aproximar, mas apenas acenei com a cabeça ela fez o mesmo para mim, parecia abatida ainda, mas era forte, provavelmente, muito mais do que eu. Dali eu fui até a redação do Correio da República.
– Edgar já estava preocupado com você, não aparece aqui faz dias já pensava em te procurar já consegui o endereço da Isabel...
– Guerra, a Laura foi até a minha casa, como lhe falei aquele dia.
– E então, vocês conversaram? Como foi?
– Brigamos.
– Brigaram Edgar, por quê?
– Nem sei como começou, quando vi, já estávamos brigando como no final do nosso casamento. Foi pior, tudo que não foi dito naquela época, todo ressentimento, toda mágoa, explodiu ali, diante nós. E não era apenas as minhas, mas as delas também.
– Edgar eu lamento...
– Guerra se você perguntar o que sinto, eu não sei... Até agora não sei o que sinto... Foi tudo tão confuso. A Laura ali e todas as questões que levaram ao divórcio estavam ali também, quando vi já estávamos brigando...
Edgar estava devastado, parecia perdido em seus sentimentos, estava arrasado com toda aquela situação.
– Certo, mas o que pretende fazer agora? Vão viver as turras?
– Eu não quero brigar com a Laura, já brigamos tantos e isso nos levou ao divórcio. Mas por outro lado ver o quanto ela ainda está ferida doeu demais em mim, saber que sou o causador do sofrimento dela, eu nunca quis isso Guerra.
– Sei que não meu amigo... – Guerra hesitou um pouco, mas com o papel na mão, falou para o amigo. — Edgar eu consegui o endereço da Isabel, você ainda quer?
Edgar olhou para Guerra sem saber que adiantaria ou não ter o endereço de Isabel.
– Eu acho que seria uma boa ideia você ficar com este endereço, se você quiser procurar pela Isabel quem sabe...
Edgar pegou o papel dobrado e abri e finalmente leu o endereço da casa da melhor amiga de Laura. Fechou novamente e colocou no bolso do paletó.
– Nem sei se ainda preciso dele...
– Tenta se acalmar. Foi apenas uma primeira reação, não quer dizer que as outras serão assim Edgar, foi uma briga, mas olha pelo lado bom, foi o começo de um entendimento, você e a Laura, talvez no futuro, possam até conversar sem tanto ressentimento.
– Foi isso que restou? Ressentimento?
– Edgar é apenas um primeiro momento... Dê tempo ao tempo, não procure a Laura nesse primeiro momento, a deixa esfriar a cabeça e aproveita e esfria a sua também, aí sim, você poderão conversar, sem mágoas, sem brigas. Só dê um tempo.
– Será Guerra? Será que um dia vamos conversar sem brigarmos?
– Edgar, vocês dois viveram tantas coisas juntos. Mas uma coisa eu sei indiferentes um ao outro vocês não são. E talvez essa briga seja sinal disso.
– Mas ela voltou e não me procurou Guerra, estava me evitando.
– Esta resposta que pode lhe dá é a Laura, mas se ela não te procurou é porque tinha algum motivo.
– Não querer me ver. – Edgar tentava ser irônico apesar da tristeza...
– Edgar pensa que a Laura voltou e você queria tanto saber notícias dela e agora ela está aqui perto de você.
– Depois daquela briga estamos mais distantes do que nunca.
– Distantes? Será Edgar?
–Sei lá Guerra, a única coisa que sei é que foi como uma tempestade se abatesse sobre minha cabeça...
– Não dizem que depois da tempestade vem a bonança...
– Você ainda faz piada Guerra...
– Quero te animar... Você é meu amigo... – Guerra esboçou um leve sorriso.
Edgar apenas olhou para o amigo.
– Guerra eu fiquei dois dias sem levar Melissa na escola, depois da nossa briga, eu não quis impor minha presença a Laura, mas hoje eu senti tantas saudades dela e acabei levando minha filha ao colégio, ela estava lá, mas não conversamos, apenas nos vimos de longe. Apenas queria vê-la. Olhar para ela.
Guerra observava seu amigo e via o quanto o encontro com a Laura tinha afetado Edgar. O advogado ficou mais um tempo conversando com seu melhor amigo.
Edgar voltou para casa, pegou e endereço no bolso do paletó e leu aquele pequeno papel mais de mil vezes, tinha dúvidas se procurava ao não a dançarina. Resolveu ir até a casa no Cosme Velho, ao chegar lá, Isabel abriu a porta e não parecia assustada com a visita surpresa do advogado.
– Desculpa Isabel por vim a sua casa dessa forma, mas preciso saber onde está Laura.
– Aqui. – A voz conhecida de Laura veio de dentro da casa.
– Vou deixá-los sozinhos. – Isabel se retirou da sala deixando o casal sozinho.
– Edgar, como conseguiu este endereço? – Laura indagava Edgar.
– É o que menos importa. Desculpa por vim assim Laura, mas tive medo que não quisesse me receber. Mas mesmo assim eu precisava vim, falar com você.
– O quê quer Edgar? Se você veio brigar novamente, sinceramente, eu não tenho forças no momento para isso...
– Eu vim para saber como você está?
Laura hesitou um pouco...
– O quê disse?
– Quero saber você como está? – Edgar me observava, mas seu semblante estava cansado, mas calmo.
– Ia bem até aquele dia.
– Lamento muito por aquela briga, eu não queria brigar, juro que não queria, não foi para isso que a chamei a nossa casa. Desculpa por aquilo.
– A culpa não foi só sua, tenho meu quinhão também.
– Laura, eu não quero brigar com você, eu nunca quis.
– Eu também Edgar, mas brigamos... Por que você me evitou no colégio?
– Evitei? Eu não te evitei Laura, apenas pensei que não quisesse me ver. Não quis impor minha presença a você, foi apenas isso. Não queria causar um constrangimento maior ainda. Não queria que ficasse incomodada com a minha presença.
Laura observava Edgar com admiração, mesmo que naquele momento estivessem próximos, ali naquela sala, mas distantes por vários outros motivos, era bom está ali, com ele...
– Laura já que voltou, será que não poderíamos ter um convívio cordial?
– Convívio cordial?
– Eu não quero brigar com você, mas entre brigar com você e evitá-la eu prefiro brigar com você, mas na realidade eu apenas quero conviver com você, sem brigas e sem nos evitarmos. – Edgar era sincero em suas palavras.
– Edgar, eu também não quero brigar e tão pouco evitar você.
– Pelo menos nisso nós concordamos. – Finalmente Edgar esboçava um sorriso e Laura retribuiu o gesto.
– Tem razão.
– Laura, eu nunca vou conseguir olhar para você e ver uma desconhecida, alguém que não teve importância em minha vida. Tivemos intimidade demais para sermos agora dois estranhos.
– Eu também não consigo olhar para você e ver um desconhecido, nem conseguira, mesmo que quisesse isso.
– Eu quero lhe fazer um convite? Quer jantar comigo, amanhã, em casa?
– Jantar? Não sei se é uma boa ideia. – Laura estava receosa, tinha medo de uma nova discussão.
– É apenas uma jantar e posso pedir a Matilde que faça aquele assado que você adora. – Edgar parecia sutilmente entusiasmado.
– Nossa. Há anos que tenho vontade de comer esse assado...
– Então é um ótimo motivo para aceitar meu convite. – Edgar esperançoso.
Laura dá um leve sorriso para Edgar, mas ainda em dúvida sobre ir ou não ao jantar.
– Será? Pensando bem Edgar, não é uma boa ideia, principalmente, depois daquela briga, acho melhor não. – A dúvida persistia no coração da professora. Mas a vontade de estar com Edgar falava mais alto.
– Eu não aceito não como resposta. – Edgar estava decidido a ter um jantar com Laura.
– Edgar, talvez seja melhor não, não é o momento, a possibilidade de outra briga... Melhor não Edgar.
– Prometo que eu não vou brigar, por favor, reconsidere, é apenas um jantar. – Edgar insistia com Laura. — Por favor, Laura, eu não aceito não com resposta. E também não vou entender se não aceitar meu convite.
Por mais que deseje estar com Edgar, se sentia ainda muito abatida com a briga.
– Por favor, é apenas um jantar, eu prometo, não haverá nenhuma briga. – Edgar praticamente implorava.
– Se eu não tenho outra escolha, então aceito jantar amanhã com você, apesar de achar que ainda não é uma boa idéia.
Naquele momento o rosto de Edgar se iluminou com um belo sorriso. Há muito tempo que não se sentia tão feliz.
– Então espero você amanhã, às sete?
– Até amanhã, às sete.
Laura acompanhou Edgar até a porta, eles se despediram. Mas algo diferente entre eles, não havia o clima pesado do encontro anterior.
Edgar foi para casa mais leve, não lembrava aquele homem angustiado e triste que tinha brigado com Laura dias antes. Sua alma estava mais leve, era como um bálsamo, uma imensa paz tomava conta dele. Há muitos anos não se sentia assim, na realidade não se sentia assim desta época que era casado com a Laura, antes de toda aquela tormenta. Estava feliz e em paz consigo mesmo. Amanhã teria um encontro com a Laura, sua Laura. Sabia que não seria um jantar romântico, mas seria um jantar com a Laura e para ele isso já bastava para está contente. Ao chegar em casa comunicou a Matilde que no dia seguinte teria um jantar muito importante e que a convidada era a antiga dona daquela casa. A criada ficou entusiasmada com a notícia e jurou que iria fazer o seu melhor assado e que deixaria a casa mais impecável ainda para próxima noite.
Edgar, naquela noite, mal dormiu, mas não pelos motivos das outras noites, mas porque finalmente teria Laura consigo, mesmo que por algumas horas naquela casa. Tinha consciência que o jantar não era um encontro romântico, ao menos achava melhor acreditar nisso, mas ficou feliz apenas com a promessa da presença de Laura ali, não queria ter esperanças, mas não queria pensar na possibilidade de ter Laura longe novamente. Ao menos poderia ter uma bela amizade, mesmo que possa parecer pouco, era muito mais que tivera nos últimos seis anos em que tiveram separados. Foi adormecer pouco antes de amanhecer, mesmo que dormisse pouco, teria um sono tranquilo, depois de tantos anos. Edgar adormeceu tranquilamente.
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