Lauderdale
1 Prólogo
Los Angeles, Novembro de 2002
Katherine atravessou a avenida assim que o sinal fechou, bloqueando a passagem do único carro daquele quarteirão.
As noites de Los Angeles costumavam ser quentes ao longo do ano, mas entre os meses de outubro e dezembro, o frio chegava e com ele uma chuva fina e gélida, fazendo com que as pessoas ficassem em suas casas tomando chocolate quente e comendo biscoitos, deixando as ruas da cidade praticamente desertas.
Apesar do tempo ruim, as lojas e os cafés continuavam abertos a espera de um ou dois procurando uma bebida quente para se aquecer enquanto conversam um com o outro na mesa mais afastada do café. Katherine decidiu que entraria no lugar quando sentiu uma brisa fria contra o rosto ao mesmo tempo em que seus cabelos foram jogados para trás.
O tilintar de um sino preso a porta anunciou a sua chegada, mas as únicas duas pessoas não se preocuparam em olhar e muito menos a garota de cabelo rosa e avental mascando chiclete atrás do balcão.
— Um café para viagem, por favor! – Katherine se pronunciou abraçando o próprio corpo com os braços.
A garota não deveria ter mais de dezesseis anos. A pele pálida em contraste com os olhos escuros e o batom combinando com a cor do cabelo enrolado caindo sobre os ombros em ondas singulares. Seu nome – bordado delicadamente na camiseta verde escura de seu uniforme — era visível na parte descoberta pelos fios coloridos. Ammy Turner.
Sem dizer nada, Ammy se virou e foi até a máquina de expresso, apertando botões e colocando um copo de isopor debaixo da mesma. O cheiro da bebida atingiu Katherine como uma bomba de calor e aconchego, pegou o copo nas mãos, agradeceu e pagou algumas notas para a garota.
Sem pensar muito no clima lá fora, ela saiu do café e dobrou a direita, depois à esquerda e novamente à direita, seguindo reto pela Hart Avenue. A chuva havia diminuído e se transformado em um inocente chuvisco com gotas aqui e ali.
As casas da Hart Avenue eram simples comparadas com as dos bairros nobres da cidade. A última casa no fim da rua pareceu familiar a ela, não somente por que a energia ao seu redor era diferente, mas sim, o nome pintado na caixa do correio na entrada.
Malttoni.
Katherine não pôde acreditou quando sua irmã disse que deixaria a família na Carolina do Norte para viver em Los Angeles com um mortal. Francamente, ainda não acredita que viver numa casinha com cerca branca com alguém que você ama – ou, pelo menos acha que ama – seja melhor do que as infinitas possibilidades que o dom que sua família possui lhe oferece.
O som da campainha ecoando no interior da casa, passos apressados vindo em direção a porta principal e o destrancar da chave na fechadura enviaram um arrepio pela espinha de Katherine. Uma mistura de ansiedade e medo de que a irmã a mandasse embora depois de horas de viagem. A porta se abriu revelando uma mulher de longos cabelos loiros, quase brancos; alguns fios eram dourados como barras de ouro e outros pareciam cobre. Katherine nunca soube definir a cor exata dos cabelos de Rose, apesar de ter tentado inúmeras vezes quando eram crianças.
Os olhos da irmã eram iguais aos dela, castanhos claros, quase alaranjados. Eles pareciam surpresos e confusos ao olharem para Katherine parada na porta com suas roupas úmidas e o cabelo escuro um tanto bagunçado devido às gotas de chuva que ficaram presas nos fios lisos e no casaco preto e fino, impotente contra o chuvisco e o frio.
— Não acredito que deixou a nossa casa para morar nisso aqui. – Katherine disse após observar cada detalhe da sala de estar decorada nas cores bege e marrom, a falta de brilho no piso de madeira e o pó sobre o aparador encostado a uma das paredes, ela constatou isso por causa da poeira grudada em seu indicador quando o passou sobre o móvel.
Katherine se virou para olhar a irmã novamente. Rose não parecia feliz em vê-la e ela sabia o porquê daquilo. A irmã tinha deixado de confiar nela há muito tempo como conseqüência de uma coisa que Katherine fizera também há muito tempo.
— O que faz aqui Katherine? – Quis saber Rose apertando as mãos uma na outra na frente do corpo. Bolsas roxas de horas sem dormir se encontravam sob seus olhos e as roupas amassadas diziam que ela tinha adormecido em alguma hora do dia – quando pôde – com elas.
— É bom ver você também Rose. – Katherine respondeu com certo sarcasmo na voz e um sorriso, que se não a conhecesse, Rose diria que foi forçado. — Faz quanto tempo? Uns quatro anos desde que você deixou a sua família para se casar com um mortal? – Dessa vez, o tom de voz se tornou provocativo e acusador.
Rose sabia que a irmã não havia superado sua decisão. Katherine não suporta mortais, ela diz que eles são um perigo para pessoas como elas, como sua família e tantas outras espalhadas pelo mundo. Há séculos atrás, eles foram sim perseguidos e mortos por pessoas que não possuíam ou entendiam o dom, mas hoje, todos vivem em paz, pelo menos, os que sabem sobre isso, e os que não sabem, apenas vêem isso como conto de fadas ou lendas para serem contadas ao redor da fogueira.
Katherine se aproximou da irmã com pequenos passos. O salto da bota de cano alto estalando no chão de madeira. Uma de suas mãos acariciou os cabelos macios de Rose. A sensação que ela sentia todas às vezes quando eram crianças e a pequena Kat precisava proteger a pequena Rose de encrencas surgiu novamente. Katherine sempre foi à irmã mais velha, e as mais velhas protegiam e ensinavam coisas para as mais novas.
— Respondendo a sua pergunta — A chuva começara mais uma vez, fazendo barulho nos telhados da casa e aumentando a velocidade do vento lá fora – Eu vim ver as minhas sobrinhas.
— Como sabe sobre elas? – Rose questionou dando um passo para trás, para longe da irmã. Ela sabia que Katherine tinha algo mais além do dom, mas não imaginou que ela de fato viria se descobrisse.
— Rose... – Katherine deixou escapar num suspiro. – Sabe que nada passa despercebido por mim. — A voz aveludada. Kat sempre teve o poder das palavras ao seu favor, sempre soube articulá-las muito bem para conseguir o que queria. Ela sorriu mais uma vez para a irmã e depois se virou para olhar debaixo do arco que ligava a sala de jantar com a coxinha. – Não é mesmo, Henry?
Henry enrijeceu ao perceber que foi notado, ouvindo a conversa das duas irmãs. Ele não tinha nada contra Katherine, mas, nada a favor também. Sim, ele sabia sobre o dom de Rose e da família dela desde o dia em que a conheceu. Sua irmã salvou a vida dele, se não fosse por Katherine, ele teria morrido. Porém, o preço por ele ainda estar vivo, tirou delas uma pessoa que amavam, mas, Henry não pôde fazer nada, pois, nada sabia sobre magia e suas forças. Claro que, isso não releva a culpa.
— Olá Katherine. Não sabia que viria nos visitar. – Henry disse se aproximando das irmãs.
— Eu adoro fazer surpresas! – Katherine respondeu ainda com o mesmo sorriso no rosto, mas agora, um pouco mais amargo. Então continuou sem olhar para a irmã: — Já que as meninas estão dormindo, que tal me oferecer um chá, Rose? – Ela finalmente se virou e a encarou apreensiva e séria pela primeira vez desde que chegou ali. – Precisamos conversar. A sós.
Henry segurou o olhar da mulher primeiramente, mas, depois, os olhos castanhos alaranjados da irmã dela, convincentes e de certa forma perigosos. Ele sabia do que ela era capaz e não a confrontava. A magia é perigosa por si só. Mas, se torna ainda mais perigosa nas mãos de Katherine.
✣✣✣ ☾✣✣✣
O calor do chá na xícara de porcelana branca aquecia as mãos de Katherine. O vapor subia esquentando a pontinha de seu nariz congelado pelo vento da noite que entrava por uma janela aberta no escritório da casa. Um simples e quadrada sala amadeirada com uma mesa no centro cheia de papeis, prateleiras entupidas de livros velhos e quadros pintados por desconhecidos.
Rose puxou as duas cadeiras que se encontravam a frente da mesa, e indicou uma delas a irmã. Ambas se acomodaram com suas xícaras de chá de hortelã e canela nas mãos.
Katherine mal tocou no chá e o deixou sobre a mesa.
— Não vim apenas ver minhas sobrinhas, Rose. – Disse ela olhando profundamente nos olhos preocupados da irmã. – Eu tive uma visão. — Rose suspirou pesadamente e afundou a cabeça nas mão após deixar sua xícara ao lado da outra na mesa. – Eu sei que você não gosta quando minhas visões envolvem a nossa família, mas eu achei que você iria querer saber.
— Não, Kat. Eu não quero. Foi por isso que eu fui embora. Fui embora por que não queria mais a magia interferindo na minha vida! – As palavras jorraram da boca de Rose como uma cachoeira de letras e mais letras.
O silêncio pairou por alguns segundos. Segundos, que pareceram intermináveis até que uma delas conseguisse dizer algo novamente. Foi Katherine quem falou:
— Apenas escute. Por favor.
Rose respirou fundo para acalmar os nervos e mandar embora as sensações ruins que começara a sentir logo de manhã. Por mais que ela tivesse deixado a magia para trás há mais de quatro anos, a magia não o fez. Pelo contrário, a mesma permanecia com ela e a relembrava do dom que tinha a cada dia, com pequenos gestos e em pequenos detalhes, como no florescer de uma flor murcha sempre que Rose a tocava, em como as horas congelavam — mesmo sem saber que o faziam — sempre que ela queria aproveitar um momento, ou, como naquela manhã de sábado chuvosa, um mar de sensações ruins e um aperto do coração.
Ela segurou o olhar da irmã, esperando que continuasse.
— Algo ruim está chegando, Rose. – Katherine começou com a mesma voz aveludada de sempre, mas agora, sem nenhum pingo de sarcasmo ou provocação. – Alguma coisa ou alguém, eu não sei exatamente, virá atrás de Claire. – Um arrepio percorreu a espinha de Rose e se espalhou por todo seu corpo. – Você tem que protegê-las Rose! Não somente Claire, mas Davina também e...
— Como sabe o nome delas? – Rose interrompeu a fala da irmã se levantando rapidamente da cadeira onde estava sentada. Katherine também o fez, ainda olhando nos olhos da irmã.
— Eu sei que isso assusta Rose. Eu também estou. – Katherine avançou lentamente e tentou seguras as mãos da irmã, mas ela as recuou junto ao peito, mantendo-as longe do toque de Kat. – Você não confia em mim. Tudo bem, eu sei disso. Eu posso não saber como parar essa coisa ou impedi-la de acontecer, mas eu posso escondê-las Rose. Eu posso protegê-las... Se me deixar...
Naquele instante, Katherine segurou o rosto da irmã nas mãos aquecidas e o ambiente sólido e real virou fumaça, girando ao redor das duas.
Rose observou a fumaça branca se tornar negra e subir ao céu, em seguida, descer e se chocar contra o chão, formando um lago de águas esverdeadas, montanhas ao fundo e pinheiros altos. Claire estava em pé a beira do lago junto a uma menina a qual Rose não pôde ver o rosto. Sua filha sorria para ela.
Então, a visão mudou:
A paisagem natural desapareceu e se transformou em escuridão. Aos poucos, uma parede rochosa foi tomando forma, uma caverna iluminado por algumas poucas tochas a meia luz. Lá, havia um altar de pedra, e sobre ele, um corpo de mais uma mulher, que Rose não reconheceu, mas sabia ser diferente do da primeira. Um garoto observava o corpo, agachado ao seu lado.
Era loira. Parecida com ela. Rose percebeu tarde demais, que a garota no altar era se não uma cópia exata, uma parecida com ela. Mas, não era ela.
Era Claire. Crescida. Jovem.
Por fim, uma última mudança na paisagem: O mundo que conhecia sendo tomado pelas trevas e destruição. E, através de toda essa escuridão e maldade, sua filha mais uma vez. Em pé e envolta em um belo manto negro. Mais, o pior, foi o sorriso perverso e o olhar frio e cruel quem ela lançou a Rose.
Rose não havia percebido antes, mas uma voz citava alguma coisa por entre as visões. Um poema talvez? Contudo, ela só pode entender claramente os últimos versos:
“E a escuridão se torna maior,
maior até mesmo que a do mundo mais sombrio”.
Como alguém a agarrando, Rose voltou à realidade. As pernas bambas e o coração acelerado querendo pular para fora das costelas. A única coisa que a segurava em pé eram as mãos de Katherine, firmes em seus braços.
— Rose? – Kat chamou a irmã procurando seus olhos. – Você está bem?
— Não Katherine! Eu não estou bem! Chega de magia! – O grito se espalhou pela sala, ecoando para fora da janela aberta e levado pelo vento gélido na rua. Katherine deu um pulo para trás devido ao susto. Rose se aproximou da irmã chocada, uma das mão caída ao lado do corpo e a outra sobre a barriga, um gesto de puro instinto, lembrança da gravidez. As próximas palavras foram num sussurro: – Você não entendeu? Eu já as estou protegendo mantendo-as longe desse mundo, longe da magia!
— Longe da magia ou de mim?! – Quem gritou dessa vez foi Katherine, diminuindo ainda mais o espaço entre elas, ficando cara a cara.
— Saia da minha casa. – Rose murmurou sem olhar para a irmã.
Katherine podia sentir o sangue correndo quente por suas veias junto à adrenalina. Porém, ela mesma se forçou a calma. A testa franzida e os olhos parecendo facas afiadas e prontas para ferir.
— Você é muito ingrata, sabia disso? – Falou.
O choque causado pela frieza com que a irmã pronunciou suas palavras foi demais para Rose. Ela sabia que Kat estava certa. Rose não estava somente mantendo as filhas afastadas do dom delas, mas da família também, mais especificamente de Katherine. Rose também sabia exatamente sobre o que ela estava se referindo. Ou melhor, sobre quando Kat se referiu.
— Eu não te pedi para fazer aquilo. – Rose atacou.
Uma risada repleta de indignação saiu de Katherine. Suas mãos na cintura fina e a cabeça negando varias vezes, como se não acreditasse no que a irmã havia dito, contudo, encontrou os olhos dela novamente.
— Se não fosse por mim, Henry teria morrido! EU fiz o que fiz por você! EU salvei o seu marido! – Katherine retrucou.
— E quanto ao Jam? – Rose atacou novamente. As lágrimas queimaram na garganta ao se lembrar do irmão de oito anos.
— Não! Você não vai colocar a culpa em mim! Por isso não, Rose! – Kat retrucou mais uma vez, porém, agora com menos força do que anteriormente, pois, aquelas palavras foram como um soco em seu estômago, um soco que fizeram lágrimas brotarem em seus olhos.
O grunhido da porta se abrindo fez com que ambas olhassem imediatamente para a entrada do cômodo. Certamente, aquela porta precisava de óleo.
Henry congelou em seu lugar, sem saber se seu cérebro impediu seus pés de darem mais um passo ou se foi a intensidade de ambos os olhares sobre ele.
— O que está acontecendo? – Ele olhou para a mulher. Parada, frente a frente com Katherine. Claramente estavam discutindo e não foram apenas os gritos que ele ouviu, mas o clima tenso e cheio de magoa ao redor delas.
Katherine secou as lágrimas que escorriam pelas bochechas e forçou um último e singelo sorriso para ambos.
— Nada. – Disse. – É melhor eu ir. Está ficando tarde.
Ela deu as costas para a irmã e caminhou alguns passos em direção a Henry e a porta, mas, se aproximou de novo de Rose.
— Quando isso acontecer, e acredite em mim Rose, isso vai acontecer, eu não estarei aqui para te ajudar. – Kat notou a veia pulsante sobre a pele clara da irmã no pescoço e olhando profundamente em seus olhos, completou: — E eu vou dizer, eu te avisei!
— Está me ameaçando? – Rose questionou.
— De forma alguma, só achei que devia saber. – Por fim, Katherine foi até a porta e sorriu para Henry – Dê um abraço em minhas sobrinhas por mim.
Segundos depois, ela já estava do lado de fora da casa. Sua irmã era teimosa, sempre foi. Mas, Kat não podia voltar para a Carolina do Norte sabendo que as bebês corriam perigo e entendia que se pedisse a Rose, ela nunca deixaria que fizesse o que pretendia fazer.
Katherine só parou de andar quando chegou à calçada. A rua continuava deserta e a maioria dos moradores já tinham ido dormir, pois, o relógio em seu pulso indicava mais de meia noite. Um tanto tarde para um visita, ela tinha consciência disso, mas ela precisava ter dito, mesmo que a irmã não tivesse aceitado.
E ela precisava tomar uma atitude sobre isso.
Estendendo as mãos paralelamente a frente do corpo, Katherine deixou que certas palavras mágicas escapassem por entre seus lábios: “Hostibus Veniat Conburet Igni”.
Fale com o autor