Lauderdale
2 Capítulo 1: O fogo vai queimar
Los Angeles, Outubro de 2018
O toque quente da mão macia de Rose sobre os ombros de Davina a despertou de seu sono profundo e do sonho que estava sonhando. Bem, estava mais para pesadelo, pois as correntes de adrenalina que corriam pelas veias e esquentavam seu sangue eram perceptíveis. Os pelos dos braços e nuca arrepiados e gotas de suor em sua testa. Ela já havia se acostumado com aquele sonho ruim, mas, não significava que aquilo não a incomodava. Sempre o mesmo sonho desde...
— Davina acorde! Acorde!
As palavras que eram dirigidas a ela pela mãe se perderam no ar nos primeiros instantes em que seu cérebro se recusava a processá-las e entende-las. Apenas ecos da doce voz da senhora Malttoni, como quando se está mergulhando em uma piscina e a água entra pelos ouvidos. Porém, seus olhos observavam cada detalhe do rosto aflito de Rose e assistiam os acontecimentos ao seu redor:
Claire levantando-se da cama ao lado da sua, desatenta e confusa, assim como ela. O pai ao lado da irmã apressando-a para se levantar, do mesmo modo que a mãe o fazia. O senhor Malttoni vestia as mesmas roupas daquele dia mais cedo, como se não as tivesse tirado para dormir, ou, como se não tivesse dormido ainda. Davina notou que sua mãe também permanecia com o mesmo vestido preto liso até os pés e seu xale estampado com flores de diversas cores sobre os ombros. Contudo, o cabelo impecável de Rose, antes preso em uma bela trança sobre o ombro direito, continha fios soltos do longo cabelo loiro. Ou seria prateado? Talvez com algumas mechas douradas? Davina nunca soube dizer realmente – o que a indignava, pois, sua irmã, Claire, havia herdado o mesmo cabelo e ela sempre se questionou como era possível ter vários tons claros em uma mesma cabeça. Em dias chuvosos, os fios pareciam prata, já em dias quentes, quando o sol brilhava muito forte, o dourado prevalecia. Naquela noite, eles estavam da cor dos grãos da areia da praia.
O tic-tac do pequeno relógio sobre seu criado mudo fez a atenção de Davina se voltar para os ponteiros, e mesmo com a visão um pouco embaçada por ter despertado e se levantado as pressas, ela pôde ver que o mesmo marcava quatro e meia da manhã. Mas por que os pais estavam acordando-as a essa hora da madrugada e por que tanta pressa de tirá-las da cama? O que estava acontecendo?
Um som agudo, alto e ensurdecedor penetrou as paredes do quarto fazendo com que todos ali tampassem seus ouvidos com as mãos até o que o grito se dissipasse. Davina se afastou da janela semi aberta entre ambas as camas e foi para perto da senhora Malttoni, enquanto seu pai colocava Claire atrás de si, como se estivesse protegendo-a de algo. Entretanto, quando aquilo acabou, ela pôde sentir o calor. Um calor diferente e que não estava ali antes. O cheiro de queimado veio logo depois, invadindo os narizes dos quatro naquele ambiente.
— Papai, o que foi aquilo? O que está acontecendo? – Claire perguntou em uma mistura de confusão e medo.
Os olhos de Henry, que costumavam serem compreensivos gentis e alegres, estavam banhados por preocupação e angústia. A garota nunca tinha visto o pai naquele estado e aquilo tornou as teorias que já havia elaborado em sua mente, um pouco pior. O sentimento cresceu. Medo. Claire nunca soube o que era ter medo das coisas, pois, nada nunca a assustava, mas desta vez, ela estava de fato, assustada.
— Vocês têm que ir, Claire. Temos que tirar vocês daqui! – Ele respondeu segurando firme os braços da filha por segundos suficientes para olhar fundo em seus olhos, dando força a suas palavras e depois a puxando pela mão para fora do quarto.
Davina tão pouco conseguiu pensar em uma resposta decente para todas as perguntas que rodavam em sua mente e para a pergunta que sua irmã fizera a seu pai, já que, a mãe a estava puxando-a pela mão porta a fora.
— Esperem! O que está acontecendo? – Davina questionou soltando-se de Rose antes que começassem a descer para o primeiro andar da casa.
O corredor que levava aos quartos estava mais escuro que o normal e o ar um tanto pesado devido às nuvens de fumaça cinza que subiam direto da porta debaixo da escada — a mesma levava ao porão onde todas as coisas velhas, usadas ou decorações de quando as irmãs eram crianças estavam guardadas em caixas de papelão empilhadas e cheias de poeira – e se uniam ao nevoeiro que atravessava as portas dos cômodos do andar em que estavam.
Rose segurou firme ambos os braços da filha e a olhou profundamente nos olhos azuis, claros e brilhantes como grandes estrelas no sombrio corredor tomado pela fumaça e pelo cheiro forte de queimado. A senhora Mattoni não sabia exatamente o que aconteceria naquela noite, porém, sua irmã, soube há muito tempo, mas, no fundo ela sempre manteve a esperança de que a visão que Katherine havia lhe mostrado quinze anos atrás nunca se tornasse realidade. Mas, ali estavam eles e o fogo logo consumiria toda a casa a suas filhas se ela não as tirasse dali.
— Davina, me escute. – Ela começou se esforçando para manter a voz serena para não piorar a situação. Em seu peito, o coração acelerava a cada segundo que permanecia no mesmo lugar, quase pulando das costelas. – Eu sei que está assustada, mas, quero que pare de ter medo. Você e a Claire ficarão bem, eu prometo! Mas, agora eu quero que preste atenção!
— O que?! Por que está dizendo isso?! – Davina questionou resistindo às diversas tentativas da mãe de levá-la escada a baixo, assim como seu pai fazia com sua irmã, que também relutava.
— Não importa o que aconteça nunca se separe de sua irmã. Vocês têm que ficar juntas para o que vai acontecer. – Rose continuou ignorando as perguntas da filha. Ela podia sentir os tremores pelo corpo de Davina.
— Do que ela está falando Davina? – Claire perguntou se soltando das mãos do pai e se aproximando delas.
A senhora Mattoni segurou a mão de cada uma e acariciou a pele macia com o dedo polegar. Claire pôde ver um pequeno sorriso maternal nos cantos dos lábios da mãe, um sorriso que não fazia sentido naquele momento.
— Está bem, vocês têm que sair daqui. – Rose disse após alguns segundos observando os rostos delicados e inocentes das meninas. Ambas com sua característica marcante. Os cabelos loiros de Claire e os olhos azulados de Davina.
E mais uma vez, o mesmo grito de minutos antes irrompeu o ar. Desta vez, mais alto e mais agudo do que antes. Então o barulho de vidro se quebrando e de algo pesado caindo sobre o chão, fez com que todos congelassem nos segundos em que o chão estremeceu com a força do que quer que seja que tivesse adentrado o corredor e estilhaçado a janela.
Claire pensou que sua mente estava brincando com ela. Criando coisas e as tornando supostamente real, pois, monstros deveriam existir somente em pesadelos e em contos de fadas. No entanto, uma mulher coberta por um manto esbranquiçado — que se assemelhava a neblina das madrugadas – pousou a frente dela. Sua delicada silhueta era contornada por uma luz celestial que iluminava e hipnotizava. A garota ergueu o olhar para a face da mulher de branco. Nada. Apenas cavidades preenchidas com a mesma luz de seu entorno no lugar onde deveriam estar os olhos. Não havia boca e nem nariz. Ela não tinha rosto e ainda sim era a coisa mais bonita que Claire já tinha visto. Os olhos... Pareciam encará-la. Um anjo? Ela se perguntou.
Anjo ou não, a mulher levantou o braço e o esticou em direção de Claire. Sua mão, a centímetros de seu rosto. Mas, esses segundos acabaram no instante em que seu pai a puxou para trás, se pondo a frente dela.
— Não toque nela! — Ele gritou avançando na criatura.
No mesmo instante, a mulher de branco esticou a mão em direção ao senhor Malttoni, enterrando-a em seu peito. O sangue manchou a camisa branca formando uma grande roda escarlate. Nenhuma delas pode ver a expressão de Henry, apenas suas costas. Porém, elas também conseguiam ver os buracos ocos no lugar dos olhos dela, algo frio e cruel, sem misericórdia ou clemência.
Rose sentiu seu sangue gelar. Seu coração parou e sua mente reprisou aquela cena vezes demais. Ela já conhecia aquela sensação, perder um amor... Só que desta vez, ela não tinha ninguém para salvá-la da dor. Rose não tinha a Katherine.
Tal lembrança se dissipou assim que as unhas de ambas as irmãs cravaram em seus dois braços a puxando para trás. Ela sabia exatamente o que tinha que ser feito, por mais que não quisesse, ela iria fazer.
— Vão! – Rose mandou pegando a mão de Davina e a colocando na de Claire. Ambas as filhas a olhavam confusas e com medo.
—Não! Não vamos deixar vocês! – Claire elevou a voz, as lágrimas rolando bochechas abaixo como uma cachoeira. Ela sentia a corrente de energia e adrenalina passando da mão de sua irmã para a dela.
Rose olhou por cima do ombro para se certificar de que a criatura ainda estava entretida com seu marido. Por mais que doesse, ela não tinha escolha.
— Está bem, vamos logo! – ela cedeu aos pedidos das filhas, empurrando ambas para os degraus da escada em direção da sala de estar.
Davina desviou a atenção do pai e da mulher de branco quando a irmã a puxou de supetão pela mão, quase as soltando se ela mesma não as tivesse segurado mais forte. O calor do fogo já aumentara, apesar da tempestade lá fora e o cheiro de queimado entupia seus narizes ao mesmo tempo em que a fumaça – agora mais espessa – secava suas gargantas impedindo a passagem do ar.
Cada degrau era uma pontada de medo no estômago de Claire, pois seus pés mal os tocavam e faltava bem pouco para que ela tropeçasse e rolasse escada a baixo levando sua irmã junto. Os olhos embaçados por conta das lágrimas, o coração acelerado e os pulmões clamando por ar puro, ar que as chamas consumiam avidamente.
Quando seus pés finalmente tocaram o chão amadeirado da sala, Claire não parou para ver o quanto da casa ainda sobrava, ou, até mesmo, se a mãe as seguia. Foi quando ela sentiu a mão de Davina soltar da dela, e a voz da irmã ecoar entre a o fogo e a fumaça escura.
— Não! Mamãe... – Davina gritou se livrando da mão da irmã.
Claire virou-se por um segundo, a tempo de ver Davina correndo de volta para a escada e a mãe caída nos últimos degraus. Sua perna estava presa entre uma madeira e outra que partira com todo aquele calor das chamas.
— Davina! – Claire falou o mais alto que pôde entre um ataque de tosse seca. Ela tentou alcançar a irmã novamente, mas, o lustre pesado que ficava pendurado no teto despencou — quase acertando-a na cabeça – caindo a sua frente, levantando uma nuvem negra de queimada e faíscas amareladas, aumentando o fogo e a impedindo de chegar a elas.
Ela tentou avançar, tentou enxergar mais do que os olhos permitiam naquela escuridão que a sala se tornara, já que ainda era madrugada. Mesmo se sentindo culpada, mesmo sabendo que se saísse agora e salvasse sua vida, duas seriam perdidas, a garota deu as costas e correu para a porta, passando por ela instantes antes de uma parte do gesso do teto se soltar e bloquear parcialmente a saída.
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Ainda sem ar, com a garganta seca, os olhos lacrimejando e o cheiro de queimado em seu nariz, Claire parou no lugar, extasiada e esgotada. Seu corpo doía e sua cabeça latejava pela falta de oxigênio. Pela primeira vez depois de alguns minutos agonizantes, o ela expirou o ar seco e quente da noite mais escura que o normal. Não havia estrelas e a lua estava encoberta por grandes e pesadas nuvens de chuva.
Chuva. As gotas caiam agressivamente do céu sobre a pele dela, pequenos beliscões gélidos. O vento também embalava seu pequeno e delicado corpo. O que vestia, era algo parecido com uma blusa felpuda vermelha vinho uns dois números maiores, as mangas caindo pelos braços, deixando a mostra parte dos ombros e parando até metade de suas coxas. Por mais quente que parecesse não a aquecia nada depois que a tempestade a encharcou.
Novamente, ela achou estar vendo coisas. Uma silhueta se aproximava dela com passos rápidos. Um garoto com roupas pretas, jaqueta de couro e dotado de músculos. Claire conseguiu ver melhor do que desejou ter visto a expressão em seu rosto: Crueldade e sarcasmo. Um sorriso de canto de lábio e um olhar ameaçador estavam cada vez mais perto.
Sua mente estava cansada demais para pensar em correr e seu corpo se recusando a se mexer ou obedecer a seus comandos. Contudo, algo dentro dela gritava para que fugisse ou se afastasse. Mas, para onde? Foi somente naquele momento em que Claire percebeu que estava parada no meio de um cruzamento entre duas ruas. Como correu tanto e nem notara? Como deixou tão rápido sua casa em chamas e sua família para trás?
Não demorou muito para que sua paranóia a fizesse acreditar que aquilo era real e não uma alucinação devido à falta de oxigênio no cérebro. Ele continuou avançando em sua direção e seu coração bateu mais forte. Aquilo era medo? Ela nunca mais queria ter aquela sensação. Parecia um pesadelo, daqueles em que não se consegue correr e um assassino está vindo para te matar. Era horrível.
Num piscar de olhos, outra silhueta juntou-se a dele, mas, um tanto quanto menor – bem menor e mais ágil. Desta vez, uma garota. Os longos e enrolados cabelos cobre alaranjado voaram pelo ar, acompanhando o movimento de seu corpo quando ela surgiu de trás das costas dele, voando por cima de sua cabeça em uma única cambalhota, caindo em pé a frente dele, fazendo-o parar. Claire não pôde ver a expressão no rosto de ambos, apenas uma bola de luz se expandindo entre eles e logo depois, o jogando longe. Aquilo, definitivamente era coisa da sua cabeça.
O brilho da luz foi intenso o bastante para fazê-la fechar os olhos, recuar alguns passos e perder o equilíbrio. Claire caiu sobre o asfalto molhado e áspero, machucando certas partes descobertas pelo tecido do pijama. A tentativa de se levantar foi em vão, ela já não tinha mais forças e o ar estava começando a falta de novo.
Sua mente permitiu apenas poucos segundos de consciência antes de ela se entregar a profunda escuridão. Segundos o suficiente para observar a garota ruiva se aproximando dela e ouvir o barulho da sirene ao fundo.
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