Lauderdale

5 Capítulo 4: Um lugar peculiar


Os dias estavam ficando cada vez mais longos e tediosos para Claire. Afrodite vinha mantendo ela dentro da casa há uma semana e nem mesmo a deixou sair para respirar ar puro ou ver, de fato, como era a paisagem lá fora. De um coisa tinha certeza, não estava mais em Los Angeles, pois, o clima era diferente e pelo pouco que a garota conseguia ver pelas janelas, os coqueiros familiares, o céu bem azul e o sol quente não estavam presentes.

Logo, Claire descobriu que o lugar para onde a ruiva a havia levado era a Carolina do Norte. Uma distancia considerável da Cidade dos Anjos, o que a fez questionar sobre como uma única menina tinha conseguido transporta-la em pouco tempo para tão longe enquanto permanecia inconsciente? A resposta de Afrodite foi resumida em algumas palavras totalmente normais para ela, pelo modo indiferente como as pronunciou, mas muito estranhas para a loira.

Um portal. Claire ainda não havia se acostumado à ideia de ser uma bruxa ou, até mesmo, de possuir magia. De acordo com Afrodite, seu dom esteve escondido no fundo do seu subconsciente e como ela nunca soube sobre ou precisou dele, não existia a necessidade do mesmo se revelar a ela.

— A magia é ensinada as bruxas desde quando somos crianças. O conhecimento dos ancestrais é passado de geração a geração há muitos séculos. – A voz de Afrodite ecoou em sua mente, numa lembrança daquela mesma tarde.

A garota voltou os olhos para a porta de madeira quando o barulho a alertou de que alguém entrava. Os cabelos ruivos foram reconhecidos quase que de imediato por ela e em instantes, Afrodite já estava dentro do quarto, dessa vez, sem a bandeja com comida que ela trazia para Claire três vezes ao dia, mas sim, com um emaranhando de tecido esmeralda e um par de saltos altos de bico fino cor de areia.

— O que é isso? – Ela perguntou franzindo a testa.

— São para você. – Afrodite respondeu entregando tudo nas mãos dela. – Há uma festa e sua presença foi requisitada.

— Que festa? – Claire insistiu e notou que segurava um vestido e não dois. – E você?

As roupas que Afrodite vestia eram as mesmas de sempre, porém, no lugar de sua jaqueta, havia uma capa amarronzada com detalhes em verde, que desciam até os pés da garota. No ombro esquerdo dela, um broche mais parecido com uma árvore bem pequena prendia a capa. Claire ainda não descobrira o que era o pingente que sempre ficava escondido debaixo do decote. Tudo isso em uma mistura de tons terrosos e escuros... Tons que eram facilmente encontrados pela floresta. Talvez – a loira imaginou – tais cores ajudassem na camuflagem, ou, Afrodite apenas gostasse bastante deles.

— Eu já estou pronta. – A ruiva falou desviando a atenção para algo lá fora.

Claire espiou discretamente pela porta aberta e viu uma infinidade de grama, montanhas e caminhos de pedra que levavam a outras casas como a que estava e um grupo de crianças um tanto peculiares encaravam a dona da casa, ansiosos, para que ela retornasse.

Mesmo se assemelhando a qualquer criança do mundo, Claire sabia que eram diferentes. Talvez, fosse algo no olhar hipnotizante e estranhamente perverso, ou, na forma como sorriram para ela quando as olhou, uma mistura de curiosidade, ansiedade e um pingo de sarcasmo. Crianças não deveriam ser inocentes? Bem, aquelas não pareciam nada inocentes. A garota achou ter sentido uma pontada na boca do estômago, ela estava mesmo incomodada e intrigada com tudo aquilo.

— Vista isso. – Afrodite ordenou fazendo a garota voltar à realidade. – Estarei esperando aqui fora.

— Eu vou sair? – Claire questionou e se arrependeu, pois, existia a possibilidade de ter feito a ruiva mudar de ideia sobre ela finalmente sair para o exterior.

— Não era o que queria?

Por fim, Afrodite saiu, fechando a porta atrás de si e deixando a garota sozinha novamente.

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O tecido escorregou perfeitamente pelas curvas de Claire, como se tivesse sido feito excepcionalmente para ela. Mas, como alguém naquele lugar poderia saber suas medidas? Os sapatos pareciam tão familiares quanto os quais costumava usar antes de seu mundo todo despencar em uma bomba de segredos escondidos por anos e ela amava saltos altos. Apesar de tentar várias vezes fazer com que Davina também os usasse, a irmã se recusava e sempre preferiu algo mais confortável como o velho e vermelho All Star dela.

Mesmo não sabendo por que a queriam em uma festa entre pessoas que nunca a viram, ou sequer a conheciam, Claire pensou em algo para fazer com seu cabelo — ela não tinha maquiagem e nem mesmo um pó rosado para dar cor às bochechas e duvidava que Afrodite tivesse – por isso, penteou os cachos – que assumiam o tom dourado às vezes, como naquele dia — com os dedos e puxou duas mechas para trás da cabeça, prendendo-as em um nó.

Ela quase se reconhecia novamente. Estava melhor nesse dia do que nos últimos sete e o tom esmeralda realçava sua pele clara e combinava com seus olhos. Em frente ao espelho, deu mais uma ajeitada e foi em direção da porta, abrindo-a e finalmente saindo do interior quente, aconchegante e tedioso da pequena cabana.

O ar puro e a brisa leve do vento acariciou sua pele e balançou minimamente seus cabelos para trás. Claire avistou Afrodite em meio às mesmas crianças de antes e pareciam estar ansiosos e exaltados com o que quer que fosse que a ruiva estava dizendo a eles. Ao se aproximar, o grupo dos pequenos se dissipou olhando-a um pouco descontentes.

— A rainha nunca erra. – Afrodite comentou observando o vestido e como a loira havia ficado nele.

— A rainha? – Claire questionou um tanto quanto surpresa.

— Sim. Ela adora dar presentes e sempre sabe escolhe-los muito bem. – A ruiva respondeu conduzindo-as por um dos infinitos caminhos de pedra rodeados por árvores de vários tamanhos e formas.

Claire não sabia o que observar primeiro. Ela podia admirar as árvores e as flores que exalavam aromas nunca sentidos antes, olhar para cima e ver o céu em vários tons pastéis iluminados pelos últimos raios solares com suas nuvens feitas de algodão, ou, analisar as pessoas ao seu redor, encarando-a como a estranha menina estrangeira que era.

As pessoas, de fato. Peculiar... Sim, a palavra certa era essa. Os rostos de uma beleza inexplicável – como anjos – porém, carregados com gotas de sarcasmo, perversidade, diversão e talvez, um pingo de crueldade. Pareciam anjos com mentes poluídas. Seres celestialmente demoníacos, se é que isso era possível.

— O que são eles? – Claire perguntou em voz baixa com medo de que algum deles ouvisse. – Anjos?

— Anjos? Não... – Afrodite falou deixando escapar uma pequena risada. — Parecem com eles, mas estão mais para pequenos diabinhos.

A loira sentiu que alguém a encarava mais do que deveria e o olhar penetrante de uma garota de cabelos prateados a incomodava. Ela e mais um grupo de cinco giravam em uma roda ao som de uma melodia incrivelmente viciante tocada por um flautista ao lado. Claire não saberia dizer como seria a sensação de ser cortada de dentro para fora, mas ela teve quase certeza de que tinha descoberto naquele instante. Mesmo não tendo ideia de como, a garota parecia estar dentro de sua cabeça, vasculhando sua mente e trazendo suas memórias para a realidade.

Quando se deu conta, ela estava entre elas, no meio da roda, atordoada e sem conseguir desviar os olhos de nenhuma delas. E então, a loira imaginou ter visto o rosto de Davina e logo depois o de sua mãe.

— Você fugiu! Me deixou lá para morrer e á mamãe também! – A irmã disse.

— Não... Eu sinto muito... – Claire murmurou sentindo as lágrimas queimar na garganta.

— Covarde. – Foi a vez da mãe. – Era para ter sido você!

— Mamãe eu não queria... Me perdoem... Por favor... – A garota implorou deixando as lágrimas escorrerem.

— Esse era para ter sido o seu destino...

Foram as palavras finais ecoadas pela voz de Rose.

A loira estremeceu de susto quando Afrodite puxou seu braço, levando-a para fora da roda e tirando-a do estado hipnótico da musica e da dança. As lágrimas ainda escorriam e seu nariz e bochechas estavam rosados e úmidos.

— Fique longe dela Ivy! – A ruiva avisou colocando Claire atrás de si.

— Acalme-se Afro! – A menina de cabelo prateado disse esbanjando sarcasmo no sorriso. – A gente só queria se divertir um pouco.

— Achem outra coisa para se divertirem ou Endaria saberá que perturbaram sua convidada especial. – Afrodite ameaçou trocando olhares cheios de uma complexa conversa com Ivy.

— Eu peço desculpas a ela. – Ela se dirigiu a Claire, encolhida. – Não precisamos incomodar a Rainha com tal coisa.

Afrodite sorriu amargamente e deu as costas, trazendo a loira consigo para longe da roda dançante.

— Cuidado! As fadas gostam de brincar com nossas mentes. – Ela explicou guiando-a para o caminho da esquerda, o qual passava por um túnel iluminado apenas por tochas acesas nas paredes de rocha, ignorando completamente o fato de que Claire havia chorado.

— Fadas? – A garota repetiu em uma interrogação soluçada. – Elas não deveriam existir. – Completou com a raiva e a vergonha queimando dentro dela.

— Bruxas também não. – A ruiva retrucou pegando um lenço branco e macio magicamente do ar e estendendo-o a loira.

Em qual momento elas tinham descido para debaixo da terra? Claire se perguntou confusa demais para pensar em uma resposta ou esperar uma de Afrodite. Ambas permaneceram em silêncio enquanto dobravam para direitas e esquerdas tantas vezes, que qualquer um se perderia se não conhecesse muito bem o caminho. Um labirinto de infinitos e escuros corredores subterrâneos.

Ao fim de um deles, uma enorme e pesada porta esculpida em madeira, metal e ouro surgia conforme se aproximavam mais. Dois homens com uma espécie de armadura azulada e lanças nas mãos guardavam a mesma.

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Uma claraboia circular deixava que a luz da lua e das estrelas penetrasse o amplo e arredondado salão dourado. Vinhas verdes e marrons se entrelaçavam no topo da claraboia de vidro e pendiam até certa altura formando um elegante lustre de cristal que parecia emanar luz própria. Como poderiam estar sob a terra e ainda conseguir ver o céu noturno? Uma arquitetura um tanto estranha para Claire. Entretanto, ela concluiu que havia magia envolvida ali.

A garota nunca tinha visto tanto luxo em um só lugar. As paredes eram brancas com detalhes em dourado, o chão uma madeira mais escura e brilhosa que a terra, os lustres e castiçais espalhados pelo ambiente eram forjados em ouro e prata, alguns degraus levando a uma espécie de altar ao norte com uma única poltrona estofada em veludo branco – que mais se assemelhava a um trono, provavelmente da rainha – e um longo tapete feito com pétalas de rosas brancas – Claire reconheceu pelo cheiro e por, também, serem as flores que mais gostava – percorria a distância entre o altar e a porta pela qual passara. Flores decoravam o lugar em belos arranjos no chão e pelas paredes harmonizando-se com a leve melodia tocada por um grupo de músicos ao lado do altar da rainha. Uma fonte jogava a água para cima na extremidade oeste.

Mais fadas perambulavam pelo salão, comendo comidas estranhas e bebendo algo levemente rosado. A loira tinha certeza de uma coisa, ela não iria experimentar nada ali, nada que Afrodite não lhe desse. Obviamente, a garota não confiava totalmente nela, mas, era o que restava se não quisesse morrer de fome ou sede.

— Espere aqui, está bem? – Pediu Afrodite parando frente a um pilar. – Preciso falar com a rainha.

— Procurando por mim, Afrodite?

Assim como todos ali, a rainha era linda e seu vestido de renda vermelha se ajustava e modelava as curvas de seu corpo, terminando em uma longa calda. Os cabelos eram os mais compridos que Claire já havia visto e eram negros como a noite, presos em um emaranhado de tranças enfeitadas por uma coroa dourada. Era quase pálida demais, seus olhos castanhos acobreados brilharam ao notar a convidada e foram acompanhados de um sorriso em seus lábios escarlate.

— Majestade. – Afrodite se curvou. – Gostaria de apresentar, Claire. – Em seguida, ela se dirigiu à loira. – Claire, apresento Endaria, a rainha das fadas.

Claire repetiu o mesmo gesto de se curvar. Ela não sabia o que dizer ou como agir, pois, nunca esteve diante a uma rainha ou qualquer autoridade de muita importância.

— Prazer em conhecê-la, majestade. – A garota falou tentando desviar o olhar do rosto de Endaria e falhando logo depois.

A pele da rainha tinha um tipo de brilho que Claire não entendia como era possível, o que a deixava mais encantadora e jovem, já que, nenhum poro era visível na face real dela. Endaria era toda angelical. As bochechas magras e angulosas, o nariz levemente levantado, os cílios longos, os lábios cheios e o queixo fino e delicado. Isso, sem falar no decote do vestido que mostrava mais de seu colo avantajado do que era permitido ser mostrado para uma rainha normal. Um lindo colar de rubis pendia no pescoço, anéis enfeitavam seus dedos e um bracelete se prendia no braço direito.

— O prazer é todo meu, querida. – Endaria respondeu com a voz parecida a de Afrodite. Na verdade, a loira concluiu ao ponderar sobre isso durante o caminho até o Salão dourado, todas as fadas tinham o tom aveludado e sedutor quando falavam. – Bem vinda. Espero que esteja gostando da minha casa. – Ela terminou ainda sorrindo, o olhar impondo uma única resposta de Claire.

— É claro, majestade. – Respondeu dando o máximo de si para pronunciar cada palavra sem gaguejar.

— Vou te contar um segredo, Claire. – A rainha se aproximou até tocar as orelhas da garota com os lábios gélidos. – As fadas sabem quando alguém mente. — Um arrepio percorreu a espinha da garota. Ela podia sentir o frio que emanava de Endaria nos segundos em que permaneceram perto uma da outra. Como um ser humano poderia ser tão gélido? Bem, a rainha não era um ser humano comum.

— Mas, eu entendo. Nem todos gostam de onde vivemos. Um tanto peculiar, não acha? – Completou com a única palavra que Claire havia usado para descrever tudo o que vira, fazendo com que mais uma arrepio a percorresse.

A loira apenas entreabriu os lábios, mas não disse uma palavra. Não conseguia respirar e talvez, não falar nada fosse melhor. Os olhos daquela mulher pareciam facas que a machucavam lentamente.

— Está pronta, Afrodite? – Endaria perguntou se voltando para Afrodite, que somente observou a cena de segundos atrás sem poder intervir.

— Sempre, majestade. – A ruiva respondeu.

A rainha passou seu olhar crítico e frio sobre a garota e depois sorriu o mesmo sorriso divertido e perverso das outras fadas.

— Perfeito. Então, podemos começar.