Lauderdale

6 Capítulo 5: O espelho de Ariadne


Claire se enfiou por entre a multidão de fadas. Elas formavam um circulo deixando um grande espaço aberto ao redor do altar e do trono da rainha. Algo interessante logo aconteceria ali e a curiosidade da garota a fez dar mais alguns passos para poder ver melhor. Ela ficou imaginando como aqueles seres escondiam suas asas, ou se teriam asas, pois, ninguém ali as mostrava. Por outro lado, Claire agradeceu, por que seria impossível se embrenhar entre elas com algo no mínimo delicado e não machuca-las. Entre cabeças, ela tinha uma visão quase completa do espaço, por hora, vazio.

A rainha estava sentada em seu trono, a coroa em sua cabeça brilhava e sua postura era de dar inveja. Endaria possuía uma graça e uma elegância que Claire chegou a sentir ciúmes. Porém, era mais fria quanto um cubo de gelo e mais cruel que uma assassina. Seus olhos cobres encontraram os da garota e um arrepio gélido percorreu todo o corpo da loira. Dois soldados estavam parados um de cada lado dos degraus segurando lanças afiadas e prontos para qualquer comportamento suspeito.

De repente, a música parou e a rainha se levantou, olhando seu povo de cima.

— Olá a todos! Agradeço por virem. – Falou sorrindo como de costume, o que não significava que ela estivesse feliz ou de bom humor.

— Como se tivéssemos escolha. – Alguém murmurou ao lado de Claire e não foi somente ela quem escutou.

— A cerimônia vai começar! Aproveitem a festa. – Endaria terminou fuzilando o ser que pronunciou aquelas palavras por segundos demais para quase convencer a loira de que quem havia dito fora ela.

Foi então, que a garota olhou para o lado e viu quem teve coragem o bastante para desdenhar das palavras reais. Um garoto feérico, bronzeado e de cabelos e olhos negros vestindo roupas verdes e marrons, uma versão masculina das de Afrodite. O mesmo símbolo entalhado no broche da capa da ruiva estava bordado no peito do casaco dele. Ele a encarou de volta e sorriu de lado.

— Então é verdade? – Perguntou de braços cruzados sobre o peito, exibindo os músculos. – A nossa rainha tirana abrigou mais uma bruxa?

— Como? – Claire questionou um tanto indignada com a audácia dele.

— Não que eu não goste de Afrodite, eu admiro ela, na verdade. – Ele explicou em voz baixa para não chamar mais a atenção da rainha ou de qualquer um que se incomodasse. – E antes que jogue um abracadabra em mim, não tenho nada contra você ou seu povo. Claire não é?

— Não tem, ou só está dizendo isso porque sou convidada da rainha? – Claire retrucou cruzando os braços e continuou olhando para frente, sem manter contato visual com ele.

Seus ouvidos captaram uma pequena e tímida risada que ficou presa na garganta dele. A loira virou a cabeça e encontrou os olhos dele, com aquele pingo de diversão das fadas que a irritava.

— O que foi? — Disse irritadiça.

— Língua afiada para uma bruxa. – Ele retrucou sorrindo.

— Palavras demais para alguém que eu não conheço. – Claire respondeu e estava sorrindo por dentro. Pela primeira vez, ela não se deteve para responder a altura um feérico.

— Perdão senhorita... – O garoto falou com certa ironia e chegou perto da orelha dela. – Sou Nate, membro da corte e pertencente ao Norte.

A loira não tinha ideia do que ele quis dizer com aquilo. A parte da corte era simples, mas, membro do Norte? O que seria aquilo? Uma coisa estava bem clara, Claire não entendia nada de fadas ou do mundo que diziam que ela fazia parte. Nunca conheceu uma bruxa além de Afrodite. Bem, Davina e a mãe sempre estiveram com ela, mas não contava, ela não sabia o que eram.

A melodia já havia começado a tocar enquanto a garota trocava palavras com Nate. A mesma canção que antes, como se fosse infinita, acompanhada por vozes doces de um coral de fadas e de um grupo de quatro pessoas caminhando em fila na direção de Endaria. Todos carregavam objetos diferentes nas mãos. Um dos membros era Afrodite e ela estava na frente de todos.

A ruiva carregava uma espada prateada, longa e afiada. Pedras, que mais pareciam esmeraldas, reluziam conforme ela andava. Os fios ruivos e enrolados dela caiam como uma cachoeira de um cabelo comprido e volumoso.

Atrás dela, vinha um homem vestindo diversas cores de azul, levando um cálice rústico em bronze com pequenas pedras — topázios — circulando a borda e havia água dentro do mesmo. Depois dele, uma mulher de vermelho e laranja segurando um castiçal de ouro puro com as chamas das velas acesas. Por último, mais um homem — um pouco mais jovem que o primeiro — com roupas brancas exibia um grande e oval espelho nas mãos esculpido com diamantes e cristais.

— O que eles estão fazendo? — Claire perguntou á Nate, sem tirar os olhos da cerimônia.

— É uma cerimônia que a rainha faz todo ano. Ela acha importante que os guardiões renovem seus votos á ela. — Ele explicou também observando o que acontecia. — Eu acho perda de tempo.

— E o que eles juram? — A loira continuou, entretida demais para deixar de olhar a cena.

Os quatro pararam antes de chegarem aos degraus que levavam ao altar e a rainha se levantou do trono, parando antes de descer o primeiro degrau. Ela sorriu e acenou com a cabeça, confirmando algo para Afrodite.

Então, a ruiva se ajoelhou, apoiando-se em apenas um dos joelhos, curvou a cabeça e estendeu a espada à Endaria.

— Eu, Afrodite Adams, guardiã das florestas do Norte, juro proteger á vossa majestade e ao reino que nos pertence, assim como a magia preciosa que nos escolheu. — As palavras fluíram para fora da boca da garota como um discurso decorado há muito tempo. — Oferece-lhe está espada, símbolo das árvores, da terra e da fauna, como prova de minha devoção.

Um segundo de silêncio deixou tudo um tanto desagradável. A rainha observava e desvendava Afrodite com os olhos, tão afiados quanto aquela espada. Claire estava confusa, sim, mas estava impressionada demais para demonstrar. Para todos ali, era normal, para ela não.

— Abençoada seja, Afrodite. — Endaria respondeu, concedendo ao pedido da ruiva.

A garota se levantou, subiu alguns degraus e se deteve em um abaixo da rainha. A espada ainda nas mãos, gloriosa e perigosa. Seus olhos verdes procuraram Claire pela multidão e a encontrou murmurando algo para um dos seus. Ela não sabia do que se tratava e o porquê de Nathaniel estar conversando com a loira.

— Todos fazem isso? — Claire questionou o garoto, olhando-o desta vez.

— Sim. — Nate respondeu e indicou o homem que vinha atrás da ruiva. — Aquele ali, é o guardião do oeste, dos rios e das águas, o nome dele é Fergus. Aquela é Gwen, ela guarda o sul, o calor e as chamas do fogo. — Por último, ele indicou o único que sobrou dos quatro. — Este é Samuel, guardião do leste, dos ventos e do ar. Cada elemento natural tem sua própria direção e seu representante. — Nate retribuiu o olhar da loira e completou: — A corte é enorme e uma rainha não consegue administrar tudo sozinha, apesar de ela afirmar que tudo está sempre perfeito.

Claire assistiu a cada um dos guardiões dizerem a mesma coisa que Afrodite dissera — cada um jurando em nome do que representava — e depois se colocarem ao lado da rainha, degraus abaixo do anterior, como se a ordem importasse ali. Seus olhos fizeram novamente um contato com os da ruiva e ela a encarava com certo incômodo. A garota não sabia explicar o porquê Afrodite estaria incomodada com ela ou pelo quê.

— Posso sentir a inveja em você, bruxinha. — Nate comentou com um sorriso sarcástico.

— O que? Eu não estou com inveja! — A loira retrucou. Ela realmente não sentia nada naquele momento. Era muito para associar em sua cabeça com tudo o que aprendera hoje sobre corte e suas festas. Não havia espaço para sentir. — Só tentando entender por que ela está me fuzilando com os olhos...

— É por que você está comigo. Afrodite não gosta que peguem o que é dela. — O garoto respondeu olhando para a guardiã do Norte.

— Eu não sou dela! — Claire se apressou em dizer antes que ele a interrompesse de novo com suas justificativas e piadas de fada.

— Mas está sob a proteção dela e digamos... Que ela não gosta de mim. — Nate suspirou quando a garota o olhou franzindo a testa, confusa. — Eu infernizei a vida dela por anos, por que eu sabia que quando ela se tornasse guardiã, teria que escolher um Segundo, e eu queria que me escolhesse.

— Espera... — A garota o parou, tentando organizar as ideias na cabeça. — O que é um Segundo?

Foi como se ela tivesse golpeado ele no estômago. Nate desvencilhou o olhar para os próprios pés. Entretanto, não foram as palavras dela, e sim dois olhares perfurantes como facas. A rainha e Afrodite o olhavam e pareciam saber sobre o que se tratava a conversa. Talvez, fosse melhor que a loira parasse com as perguntas. Mas, como poderia? Nate era o único que respondia o que perguntava e ela precisava das respostas, mesmo que, fossem perguntas sobre algo que não a envolvia.

— Caso alguma coisa aconteça com o guardião, tem que ser substituído. — Ele explicou depois de alguns instantes em silêncio, com a voz ainda mais baixa.

— Um vice? — Claire insistiu. Ela queria mais informações. Precisava saber mais. — Por que não pede a ela?

— Não é simples, Claire. — Ele continuou respirando profundamente. — Primeiro, ela me odeia e depois, eu e mais dezenas de fadas queriam o cargo. No fim, Thomas venceu. — Nate indicou mais uma vez com a cabeça para um homem de meia idade encostada na parede do outro lado do salão.

Claire não via nada demais nele. Um pouco baixo e pálido demais. Porém, era forte e parecia de alguma forma, nada ameaçador. A barba recém-feita e uma cicatriz na lateral do maxilar. Até que, ela sentiu uma pisada em seu pé.

— Aí! — Reclamou para Nate. — Por que fez isso?!

— Não sabe disfarçar?! — Ele repreendeu e soltou o ar dos pulmões, deixando a irritação sair junto.

— Como exatamente a escolha funciona? — A loira continuou, como se nada tivesse acontecido antes.

— Chega de perguntas! — O garoto falou e ela procurou os olhos dele para fazer os olhinhos que sempre convenceram os pais a dar o que ela queria. Nate bufou e revirou os olhos. — Para uma bruxa você manipula as pessoas muito bem! — Claire sorriu vitoriosa. — Tem uma competição... Os que quiserem ser escolhidos, devem se enfrentar em uma luta. Os quatro últimos que sobrarem, estarão mais preparados para o cargo e para receber os ensinamentos dos guardiões.

— Deixe-me adivinhar... Você perdeu? — A garota disse e ele concordou um tanto triste com a cabeça. O tom irônico do começo da frase foi sumindo quando ela recebeu que Nate estava realmente triste, o que era raro, já que as fadas são insensíveis e ignoram qualquer sentimento. — Não queria qualquer um, não é? — Questionou, mesmo já sabendo a resposta quando ele olhou para Afrodite. — Queria ela.

O garoto deu um sorriso pequeno e triste, apenas repuxando o canto do lábio, cabisbaixo. Parecia estar envergonhado e ela causou isso com todas suas perguntas invasivas. Ele não podia ter dito nada daquilo, mas disse. Claire entendeu naquele momento que nem todas as fadas eram ruins como Ivy — a feérica de mais cedo, aquela que brincou com sua mente — e também concluiu que Nate não queria ser apenas treinado pela ruiva, mas sim, deveria haver algo mais ali. Um interesse a mais.

— A princesa de ferro. O braço direito da rainha. — Nate falou com admiração depois de minutos com ambos sem dar nenhuma palavra. A loira detectou um pingo de ciúmes ali. De repente, Claire entendeu por que Afrodite estava apenas um degrau abaixo de Endaria e os outros ainda mais abaixo dela. O braço direito da rainha, vulgo princesa. — Uma princesa de ferro treinada para matar.

Nate completou e o Salão Dourado explodiu em fumaça e fogo. Os gritos começaram logo depois.

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Em meio ao caos, Claire não sabia o que estava acontecendo. A fumaça a rodeava, impedindo seu campo de visão em todos os lados. O ar bloqueando sua respiração e a sensação de estar desnorteada a relembrou, pela segunda vez naquele mesmo dia, do incêndio em sua casa.

Cada passo que a garota dava era cheio de insegurança e medo de pisotear alguém ou pisar em falso e cair, pois, se caísse, não conseguiria levantar. Parecendo uma barata tonta e guiada pelas próprias mãos ao tatear o ar em busca de algo sólido, Claire encontrou a parede. Ela precisava sair dali a qualquer custo, não aguentaria passar por aquela situação novamente.

Mais gritos ecoaram pela sala e os sons dos passos acelerados aumentaram de um segundo ao outro. A nuvem de fumaça diminuiu parcialmente e a loira conseguiu enxergar o que se passava, mesmo que ainda não compreendesse. Vultos passaram por ela e a garota reconheceu o ruivo do cabelo de Afrodite. Então, Claire fez a única coisa que achou que deveria fazer.

Assim, como as pessoas que correram para fora, ela deixou o ambiente quente e sufocante, sem seque olhar para trás. O ar limpo e leve do corredor encheu seus pulmões e seus olhos se ajustaram até que sua visão estivesse clara. O corredor iluminado pelas tochas estava cheio de fadas assustada e histéricas se dirigindo ás diversas bifurcações dos caminhos para sair daquele lugar o mais breve que podiam. Algumas delas flutuavam – voavam – e pela primeira vez, Claire conseguiu ver suas asas de diferentes cores e formatos. Porém, não havia tempo para que elas fossem admiradas como deveriam.

A garota seguiu Afrodite com os olhos, mas a perdeu entre a multidão desesperada. Mesmo assim, ela continuou empurrando as pessoas e se desculpando às vezes, até chegar à primeira bifurcação. Ela não conseguia se guiar pelos outros, já que iam para todos os lados. Para onde ir? Para onde?

Claire dobrou a direita. Direita sempre. A garota se lembrou da primeira vez que ficou presa em um labirinto num parque de diversões aos oito anos. Davina dissera que se virassem sempre na mesma direção encontrariam a saída e foi assim que ambas saíram mais rápidos que todos os outros lá dentro. Seguindo esse pensamente, ela seguiu por tantas direitas, que perdera a conta e concluiu que não deveria ter tentado seguir Afrodite. A ruiva vivia ali, conhecia o lugar, ela não. A corte era sim um labirinto, mas não era um labirinto normal, pois, Claire teve a sensação de ver as paredes se moverem vez ou outra. Não se sai de um lugar onde a direita pode virar esquerda num piscar de olhos.

A loira parou bruscamente. Um amontoado de tecido branco iluminado se amontoava no chão sobre o corpo de uma feérica. O vestido alaranjado da Guardiã do Sul se espalhava pelo piso, se misturando ao sangue escarlate formando uma poça viscosa e larga. Grandes e redondos buracos esbranquiçados encararam Claire. Aqueles olhos, aquela luz quase angelical... A mesma mulher que matara seu pai estava diante dela novamente, desta vez, segurando o coração de Gwen. Em um gesto simples, ela o apertou, transformando o órgão em cinzas, que escorreram por entre os dedos dela. Os olhos da feérica estavam queimados, como se tivessem pegado fogo. Claire só conseguia imaginar se seu pai teria ficado assim.

Um passo de cada vez, a garota se afastou da mulher angelical, desejando mentalmente que ela não resolvesse persegui-la para matá-la. Mas, a mulher avançou e logo a loira já estava correndo na direção contrária a que veio. Ela não sabia se estava voltando para o Salão Dourado ou para onde estava indo, e sim, que foi bloqueada ao trombar com alguém que quase a derrubou. Realmente, Claire haveria caído se mãos fortes e ágeis não a tivessem segurado.

Um arrepio a percorreu como uma corrente elétrica ao ver o rosto de quem a manteve em pé. Um tanto familiar. Familiar demais para causar um certo incomodo e uma sensação estranha que a garota não sabia descrever, principalmente quando seus olhos encontraram os dele. Ela já os vira, mas não se recordava, como se houvesse uma barreira em sua mente. Uma barreira que quase se quebrou se um brilho incandescente não chamasse a atenção de ambos e de todos que corriam por ali para a mulher de branco, muito mais próxima que antes.

Uma lamina afiada a atravessava e apesar de nenhum sangue jorrar para fora, ou sequer existir dentro dela, raios surgiram do buraco em seu ventre, lançando uma luz extremamente forte e agressiva, iluminando todos os corredores da corte. Quando Claire finalmente abriu os olhos novamente, apenas as tochas acesas traziam claridade ao locar e Afrodite estava parada, segurando firme a espada que perfurou a mulher angelical. Ela a destruiu completamente. Do pó ao pó. O caos havia parado e todos os olhares estavam sobre a ruiva.

— O espelho! Peguem o espelho! – Endaria ordenou gritando com a voz desesperada e trêmula no meio da multidão, fazendo a atenção de todos pairarem sobre a loira e o garoto que a segurou.

Os olhos de Claire notaram o espelho que a Guardiã do Sul exibiu na cerimônia, grande e oval. O objeto estava no chão ao lado dos pés dela. Ao olhar para o garoto, ela percebeu. Ele queria o espelho, ele o roubou e provavelmente causou o incêndio e toda aquela confusão e acima de tudo, não era um feérico.

Os reflexos dele foram mais rápidos que os dela, permitindo que ele o pegasse e corresse para a abertura de um dos corredores, desaparecendo depois disso. Afrodite o perseguiu, mas passou reto pelo portal, que sumiu assim que o intruso passou por ele. Um portal. É claro, que ele entrou na corte por um portal. Por onde mais entraria sem a consciência da rainha?

As expressões nos rostos de toda a corte eram as mesmas. Assustados, desnorteados, chocados. Até mesmo Endaria, a inexpressiva e insensível rainha das fadas deixou escapar suas emoções naquele momento.

— Voltem para suas casas e fiquem lá até que seja seguro sair... Apenas fiquem os soldados do Norte e todos os curandeiros! – Endaria ordenou encarando o vazio, perdida nos próprios pensamentos. Depois que ninguém obedeceu devido ao choque, ela gritou: — Saiam! Agora!

Claire sabia o que era aquilo. A rainha se sentiu ameaçada. Um invasor passou despercebido por ela, roubou um objeto da corte, interrompeu sua cerimônia e implantou o caos. Se até Endaria estava com medo naquela hora, por que a loira não deveria estar? Ela não se sentia mais segura ali.

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— É triste, mas Thomas foi só mais um dos meus soldados. – Endaria falou, olhando de cima os corpos enfileirados pelo chão do Salão Dourado, onde outrora, havia pessoas dançando e rindo. Entre eles, estavam Samuel — o guardião do Leste que carregava o espelho roubado no início da cerimônia – com uma ferida em seu abdômen e Thomas, o Segundo de Afrodite. O incêndio e a mulher de branco deixaram um número considerável de baixas para o reino. – Bem, tem três dias para escolher seu Segundo!

Os ouvidos de Afrodite captaram aquela frase e um sinal de alerta soou em sua mente. Seria impossível selecionar qualquer pessoa em tão pouco tempo, nada se passa em três dias, nem mesmo um soldado experiente poderia ser apto para lidar com o que Thomas lidava.

— O que? Como posso ensinar tudo a alguém em três dias? – Afrodite questionou atônita. – Não se aprende nem a segurar uma espada em três dias!

Não levou muito tempo para que a rainha controlasse suas emoções e se recomposse do ataque de fúria de minutos antes, ela continuava impassível e indiferente, não importasse o que sua guardiã dissesse. Endaria não queria saber como a garota iria fazer, só queria que fizesse e logo. Ela tinha assuntos mais importantes do que as preocupações de Afrodite, por exemplo, os quarenta soldados mortos pela mulher de branco e pelo fogo ou o roubo de um de seus objetos mágicos mais preciosos e antigos.

— Eu não tenho tempo. Afrodite e você também não. – A rainha respondeu repousando as mãos a frente do corpo e endireitando a postura. – Quando decidir, e vai decidir – Ressaltou arqueando as sobrancelhas. – Me avise. Agora, pode ir.

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A lembrança voltou a sua mente como uma enxurrada, trazendo o medo e os calafrios, inundando todo o corpo de Claire. Era assim que era quase morrer? Ela se perguntou, mesmo sabendo a resposta certa — um alto e claro “Sim!” – devido a suas duas experiências de quase morte, ambas, ironicamente muito similares: Alguém a perseguindo para matar. A mesma mulher angelical vestida de branco que havia tirado a vida de seu pai e Ele. Aquele rosto familiar era, de fato, muito familiar. O ser sem nome que a queria a todo custo e que por poucos segundos, não a conseguiu graças, mais uma vez, a garota de cabelos acobreados que aparecera novamente para salvá-la.

Claire baniu a sensação ruim e os próprios pensamentos, não por que queria tentar esquecer ou ignorar, mas pelo mesmo motivo que todos ao seu redor o faziam: A invasão á corte e o roubo de um objeto mágico pertencente à mesma.

— O que está acontecendo? Aonde vamos? – Perguntou, guiada pela curiosidade e confusão, seguindo Afrodite pela saída em uma das montanhas que cercavam e protegiam a corte, chegando ao ar livre.

A noite tomou conta de tudo, deixando o céu escuro e sombrio. Os soldados de Endaria corriam para cima e para baixo, agitados e eufóricos. O que aconteceu, claramente nunca tinha ocorrido antes. Ninguém nunca ousou roubar alguma coisa da rainha – foi o que a loira ouviu de dois guardas ao passarem por eles na direção contrária ao Salão Dourado.

Ambas percorriam os caminhos de pedra, subindo para o vale, onde as cabanas das fadas ficavam. Claire não se recorda de ver a de Endaria, talvez, ela vivesse mais distante de seu povo, isolada da plebe em seu castelo. Ou, a garota apenas não tivesse visto em meio tanta correria.

— Não é da sua conta. – A ruiva disse caminhando com passos largos e apressados demais para a garota acompanhar, pelos mesmos caminhos que haviam percorrido antes, voltando de onde vieram, para a tediosa cabana de madeira. – Entre! – Ela completou abrindo a porta rapidamente.

— Eu não vou ficar aqui dentro o tempo todo! – Claire protestou, mas, mesmo assim, entrou na cabana. – Além disso, se estão tentando me matar, eu não deveria saber me defender? – Concluiu virando-se para olhar Afrodite.

— Sim. – Afrodite respondeu fechando a porta atrás de si. – Mas, você tem centenas de caçadores ao seu redor, não precisa proteger a si mesma.

— Ele roubou um objeto mágico protegido – A loira fez aspas com os dedos, ironizando sua frase. – Pelas fadas há séculos bem debaixo dos narizes de vocês, então eu acho que eu preciso. – Ela argumentou cruzando os braços sobre o colo. A pele ainda estava fria, o que causou calafrios por todo seu corpo.

— Já disse que não! – Afrodite falou procurando o fecho do broche que prendia a capa para soltá-la.

— Não estou pedindo para me escolher como sua Segunda agora que Thomas se foi... – Claire disparou sem medir as consequências e esquecendo completamente do conselho de Nate.

— Como sabe sobre isso? – A garota a questionou antes mesmo que a loira pudesse terminar com a última palavra. A capa escorregou por entre os dedos da ruiva, se espalhando sobre o piso amadeirado, devido ao choque causado pelo que escutara.

— Não importa! – Claire retrucou começando a se irritar com tudo aquilo e se colocando entre a jaqueta sobre a cama e uma Afrodite tensa e agitada quando a mesma tentou alcança-la. – Não quero saber tudo o que você sabe, eu só não quero sentir medo e saber como segurar uma faca quando precisar!

— Não vai precisar. – A ruiva ressaltou, pegando e vestindo sua jaqueta verde escura, um gesto familiar depois de horas de acontecimentos inesperados.

— Afrodite, por favor! – Claire insistiu mais uma vez. Dessa vez, alcançou uma das mãos da garota, agarrando e impedindo-a de deixar o lugar quando tentou sair.

O olhar da guardiã do Norte a perfurou, como se ela houvesse cometido um erro, quebrando uma regra ou esquecendo-se de uma lei importante. Afrodite recuou ao toque de Claire, como alguém ferido recua do machucado quando o tocam. Como se ela fosse tóxica. Como se não devesse tê-la tocado.

— Primeiro... – As palavras da ruiva foram seguidas por um golpe ágil sobre as pernas de Claire, derrubando-a no chão. – Nunca se esqueça do equilíbrio! Segundo... – Ela estendeu uma mão para a loira, ajudando-a a se levantar. – Se contar isso para alguém, eu mesma mato você! Terceiro... – Afrodite encarou a garota, que tocava o próprio cotovelo arroxeado depois de batê-lo na queda brusca. – Vai me ajudar com uma coisa.