Lauderdale

3 Capítulo 2: Afrodite


Claire abriu os olhos. O ambiente não estava claro o suficiente para que alguma luz os agredisse, mas, a pouca claridade fez sua cabeça latejar depois de algum tempo na plena escuridão do seu inconsciente. Quanto tempo – ela se perguntou – esteve dormindo? Demorou alguns segundos para que sua memória começasse a lembrar das coisas ruins pelas quais tinha passado.

Ruim. O que aconteceu não pode ser descrito com uma palavra simples como essa, cruel, talvez seja mais adequado. Apesar da sensação horrível que a consumia de dentro para fora e as dores por todo o corpo, Claire se sentou sobre os lençóis. Ela sentiu o leve atordoamento de quando se levanta rápido demais, e observou o pequeno cômodo a sua frente: quadrado com paredes claras e amadeiradas, o piso também de madeira – escuro e encerado recentemente – Apenas duas janelas pequenas, mas, que deixavam entrar luz o suficiente para iluminar a casa.

Sim, de fato, era uma casa extremamente pequena, porém aconchegante. Claire se deu conta disso depois de notar a porta de entrada ao lado das janelas, a lareira acesa na parede oposta a uma segunda porta que levava a outro cômodo – um banheiro talvez? — e a cama bagunçada com alguns cobertores, lençóis brancos e dois únicos travesseiros macios. Um guarda roupa antigo também enfeitava o lugar pacato e quente.

Seus olhos analisaram seu reflexo no espelho redondo acima da lareira a sua frente, ela já não se reconhecia mais. O rosto fino, as bochechas sem o tom rosado de sempre e sim, cheias de fuligem e marcas escuras, os olhos verdes cansados, confusos e tristes, o cabelo loiro bagunçado e a mesma blusa felpuda caída nos ombros. Arranhões avermelhados acima da clavícula se destacavam na pele pálida.

Claire tocou os arranhões e uma pontada de dor e ardência a percorreu. Os olhos, antes fixos nela mesma no espelho, agora encaravam o fogo crepitando e a madeira estalando dentro da lareira. Fogo. Talvez, não fosse o mesmo fogo que queimou toda sua casa e possivelmente matou seus pais e sua irmã, mas, com certeza, todas as emoções voltaram em um turbilhão, e ela engoliu as lágrimas presas na garganta assim que percebeu que a morte de sua mãe e de Davina não passavam de possibilidades e que ela faria de tudo para encontrá-las novamente. Preferiu não pensar em seu pai, pois, Claire sabia que ele não teve a mesma sorte, algo muito pior do que o fogo havia tirado a vida dele. Algo, que a garota não sabia dizer o que era, entretanto, sabia que não era humano.

Ela não tinha a mínima ideia de onde estava e de como chegou ali. Por mais que parecesse estar sozinha, era consciente de que não estava. A estranha sensação de que aquela garota ruiva que viu na noite do incêndio logo apareceria a fez colocar os pés descalços no chão e caminhar até a única porta que levava para fora. Claire tocou maçaneta arredondada, preta e fria contra a superfície quente da palma de sua mão e algo voou rente a sua bochecha, se fincando na parede ao lado do batente da porta. Uma faca aparentando estar muito bem afiada. Ela teve a impressão de um grito suave ter escapado de sua boca.

— Aonde você acha que está indo?

Uma voz um tanto quanto aveludada e inexpressiva veio de trás de Claire e um arrepio percorreu sua espinha. Alguém a pegou no flagra e ela atribuiu a voz á ruiva desconhecida que tinha arremessado o garoto – que também estava na rua de sua casa naquela noite fria e assustadora — a metros de distancia sem ao menos tocar nele.

Então, Claire se virou, dando as costas para a porta e olhando para a garota apoiada em uma das paredes com os braços cruzados sobre o colo. Ela vestia jeans com uma regata branca e uma espécie de jaqueta na altura da coxa no tom de um verde mais escuro, botas pretas e um cinto com algumas amarrações em sua coxa, onde mais facas estavam guardadas. Uma colar prateado pendia em seu pescoço, mas o pingente estava escondido sob o decote da blusa. O mesmo alaranjado do cabelo, do qual Claire se recordava se destacava na pele clara da garota e tornava seus olhos acobreados mais chamativos. Não havia expressão em seu rosto.

— Quem é você? – Claire juntou toda a coragem de dentro dela para perguntar, porém, sua voz saiu um pouco trêmula.

— Eu salvei sua vida Claire. Um obrigado já é o suficiente. – A ruiva respondeu, permanecendo onde estava ainda com os olhos em Claire e esperando seu agradecimento.

— Obrigada. – A loira falou envergonhada e confusa. – Mas, como sabe o meu nome? Onde eu estou?

A garota ruiva se mexeu, aproximando-se de uma das janelas e para mais perto de Claire, puxou um pouco a cortina de seda branca para o lado e espiou lá fora. Aquilo durou segundos o bastante para que um simples e perigoso pensamento surgisse na mente perdida e inquieta da loira. Se agisse rápido, ela giraria a maçaneta e tentaria correr para fora e, depois, se tivesse sorte, conseguiria fugir.

Foi exatamente o que tentou fazer. Ao se virar, sua mão buscou a esfera fria que era a maçaneta, mas nada encontrou. Se seus olhos não a estivessem enganando, não existia mais nenhuma porta ali. De alguma forma, aquela casa não tinha mais uma saída. O coração acelerou e o medo junto ao nervosismo a percorreu. Seu plano falhou.

Claire, temendo o que aconteceria e apesar de não saber como era possível algo sumir do nada, olhou para a garota. Ela a encarava, ainda sem expressão – o que dificultava saber se a ruiva estava com raiva ou não.

— O que fez com a porta? – Perguntou novamente, a voz trêmula.

— Não vai sair daqui, Claire. Não até me escutar. – A garota disse e depois caminhou até a lareira, observando fixamente o fogo consumir a madeira. – Eu estava lá naquela noite. Com todo aquele fogo... – Ela fez uma pausa para suspirar – Não vi ninguém sair da casa além de você. – Seus olhos dourados pousaram em Claire, congelada no mesmo lugar, apenas ouvindo – Eu sinto muito. Eles estão mortos.

Claire sentiu o coração apertar, como se quisesse engolir a si próprio. Pela primeira vez, ela imaginou a dor da faca cravada na parede cortando sua pele. Não... O que sentia era mil vezes pior. Por mais que acreditasse que sua irmã e sua mãe tivessem escapado das chamas, havia alguma coisa que não a deixava ter certeza. O medo. Medo de ter perdido as pessoas que mais amava para sempre.

— Não... Você não tem certeza disso! – Claire só percebeu que tinha elevado a voz quando terminou a frase, pois, a garota arrumou a postura perfurando-a com um olhar irritado. Era a primeira expressão que demonstrara desde então. – Me deixe sair, por favor.

— Não. Você não sair e correr para a morte depois do que eu tive que fazer para te salvar! – A garota respondeu depois de respirar profunda e impacientemente. – Além do mais, eu ainda não terminei.

— Eu não me importo! Não pedi para me salvar! Eu nem ao menos conheço você! – Claire falou se aproximando da garota e ficando frente a frente com ela, de modo que sua respiração roçava em seu rosto.

— Acha que eu queria te salvar? Os planos mudaram. – A ruiva retrucou com a voz mais aveludada e calma do mundo, deixando os nervos da loira a flor da pele, cada vez mais a irritando. – Eu não tive escolha. Eu precisei.

— Que planos? Do que você está falando? – Claire voltou a questionar.

A paciência da garota dos cabelos alaranjados nunca foi das melhores e todas aquelas perguntas já estavam fazendo sua cabeça explodir, como se Claire não soubesse do que ela estava falando... Será? Mas, por que os pais da garota não contaram a ela sobre o mundo ao qual pertencia de verdade? Respirando profundamente para acalmar os nervos e retomar o tom de voz, suas próximas palavras saíram de sua boca:

— Não tem importância, ele não vai te encontrar aqui.

— Ele? — Claire perguntou franzindo a testa, logo depois de soltar o ar dos pulmões na tentativa de acalmar os nervos e as milhares de questões que começaram a aparecer em sua mente. Ela encontrou os olhos da ruiva e, mesmo não tendo a certeza de que obteria uma resposta, terminou: — Quem é ele?

A lembrança do garoto naquela noite do incêndio voltou à cabeça da loira. Ele. Quais eram as chances de ser Ele a quem a menina a sua frente se referia? E por que Ele a queria tanto? Para que, talvez seja a pergunta mais adequada. Porém, Claire não se recordava da cor do cabelo ou de algum detalhe do rosto, somente as roupas pretas e o caminhar decidido em sua direção.

— Você não sabe? – A ruiva questionou com a expressão um tanto confusa. E então se deu conta. Claire realmente não sabia de nada daquilo. – Você não sabe. – Ela mesma respondeu por fim.

— Não sei o que? Você pode me responder alguma coisa, por favor?!

A irritação de não saber das coisas que aparentemente deveria saber estava começando a tomar conta de Claire. Ela queria respostas, respostas que não receberia tão fácil. O pequeno sorriso que a garota desconhecida esboçou a incomodou de uma forma estranha. Por que ela estava sorrindo como se tivesse ganhado alguma coisa? Um sorriso convencido e confiante demais para a loira.

A ruiva deu as costas e caminhou alguns passos até se aproximar o bastante da lareira para que apoiasse o cotovelo sobre ela. O fogo formava sombras do corpo dela no teto e nas paredes. Claire, por sua vez, não se conseguiu se mexer.

— Existe um mundo, Claire. Um antigo mundo bem debaixo de seus olhos. Um mundo que você nunca viu – Ela parou por um segundo e refletiu suas próximas palavras. — Ou não permitiram que tivesse visto. – Concluiu.

Claire permaneceu no lugar. Ela não tinha ideia do que a garota estava tentando dizer com tudo aquilo, ou, será que ela mesma não estava entendo direito? Resolveu apenas continuar ouvindo.

— Tudo ao seu redor. A energia, o ar que respira, a terra em que pisa, o que fala, vê ou escuta... – A garota falou enquanto conferia as unhas pintadas de preto. Ela encarou Claire por alguns segundos, observando sua linguagem corporal que era uma mistura de confusão e medo. Quando Claire finalmente parou de olhar para o vazio e retribuiu seu olhar, concluiu a frase: — É tudo magia, Claire.

Entorpecida. O modo que a descrevia perfeitamente. Tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, informações demais para a mente da loira associar. A possibilidade de ter perdido Davina e a mãe, estar em um lugar com uma pessoa que nunca viu na vida, e essa conversa sobre... Magia? Loucura. Sim, definitivamente era loucura.

— Está bem, já chega! Você é maluca! – Claire finalmente falou, gesticulando com os braços e correndo para onde a porta de saída deveria estar. A ruiva foi mais rápida e a puxou pelo braço, sentando-a na cama com uma força um tanto anormal para uma garota do tamanho dela.

— Agora eu cansei! Eu vou ser direta, está bem? – Ela disse irritada perfurando Claire com os brilhantes e profundos olhos dourados. Os dedos das mãos firmes segurando ambos os braços da loira. – Você, sua mãe, sua irmã e não me importa quem mais da sua família, todas são bruxas. Descendentes da magia mais antiga que já existiu e tem alguém lá fora te caçando para te matar. – A ruiva respirou, puxando o ar que perdera de volta para dentro de seu corpo. Claire, mais imóvel do que nunca. – Então, se não quiser ser morta, você vai ficar aqui dentro bem quietinha, até que esteja segura novamente, entendeu?

Os segundos que se seguiram foram os piores da vida de Claire. Tensos e confusos. A garota tinha apedrejado ela com todas aquelas palavras tão rápido, que a loira mal conseguia respirar e pensar ao mesmo tempo. Ela queria gritar, ela queria se esconder, fugir e fechar os olhos e desejar que tudo aquilo não passasse de um sonho muito estranho, daqueles que se desperta suando e tremendo e que instantes depois já estivesse tudo bem de novo.

Claire seguiu cada movimento da ruiva: O respirar profundo, o ajeitar do cabelo e os passos até a porta que aparecera do nada, do mesmo modo que desaparecera antes.

— Espera! Onde está indo? – A loira forçou a frase a sair de sua boca junto com uma voz trêmula enquanto levantava da cama e sentia as pernas bambearem. – Não pode me deixar aqui sozinha depois de me dizer essas coisas!

— Pegue. — A garota a ignorou e retirou a faca fincada na parede jogando-a para Claire, que a pegou, mesmo com a sutil tremedeira. – Tente não se matar, por favor.

— Uma faca? – Claire questionou observando o objeto afiado em sua mão.

— A vida não da segunda chance, Claire, mas eu te dei. Não desperdice. – A ruiva abriu a porta e antes de sair, disse: — A propósito, meu nome é Afrodite.