Lauderdale
4 Capítulo 3: A magia mora ao lado
Uma semana depois...
A casa de Katherine ficava no topo de uma colina. Muitas vezes parecia sombria com seus telhados pontiagudos e as janelas escuras, como se a mesma houvesse saído de um filme de terror. Porém, a floresta enorme e cheia de árvores que rodeava o lugar, deixava os dias mais suportáveis e de certa forma – um passarinho cantando ou o filho do vizinho brincando com seu cachorro – faziam escapar de Davina um sorriso ou dois.
Todos os dias o sol nascia a leste entre as montanhas no horizonte, mas seus raios quentes não penetravam as cortinas pesadas e escuras que cobriam as janelas da casa, tornando os cômodos frios e melancólicos o suficiente para ela passar horas e horas dentro da biblioteca. Ler tomava todo o seu tempo e fazia de suas tardes naquela casa um pouco mais felizes. Normais.
Mas, mesmo com todos aqueles livros, as memórias daquela noite – a pior de sua vida – continuavam vivas em sua mente. A noite na qual as estrelas e a lua haviam sumido do céu, o deixando sem graça e sem luz. Aquela noite em que o acidente que matou seus pais aconteceu. A garota se recordava de cada detalhe, de cada segundo que pareceram horas, de cada grito, de como a fumaça era sufocante e de como seu corpo quis desistir e de, principalmente, nunca mais ter visto Claire depois.
Davina encarou por alguns segundos os milhares de livros que preenchiam as estantes infinitas, todos encapados perfeitamente para não serem danificados quando tocados ou lidos. Sabia que a tia não gostaria que outros além dela e de Flora – a secretária do lar mais paciente e carismática que ela já havia conhecido — mexessem neles.
Latidos chamaram sua atenção fazendo-a voltar à realidade. Ao virar a cabeça na direção da janela, ela avistou o cachorro do vizinho, ele sempre o levava para passear as quatro da tarde, o mesmo horário que Flora a buscava para o chá.
Davina se levantou da aconchegante poltrona e ficou em pé, frente às janelas de aço e vidro que desciam do teto ao chão, dando uma vista ampla para a paisagem lá fora. A poucos metros havia outra casa feita com pedras e madeira, tornando-a simpática e alegre, e no jardim da mesma, um garoto — talvez um pouco mais velho ou mais novo, ela não saberia dizer de longe – arremessava um disco vermelho enquanto seu Golden Retriever o pegava no ar com a boca e o levava para seu dono mais uma vez.
A garota voltou a se sentar na mesma poltrona e a ler as poucas últimas páginas que restavam para que ela terminasse o seu quarto livro daquela semana. Davina sempre se orgulhou da sua capacidade de ler textos gigantes mais rápido do que todos que conhecia e também – segundo seu pai – sua capacidade enorme de raciocinar e pensar em estratégias e resoluções para tudo. Ao contrário dela, Claire sempre adorou romantizar as coisas, e por isso, se deixava levar facilmente pelas emoções e sempre perdia no xadrez ou em jogos de inteligência.
Uma gota de tristeza invadiu o coração de Davina momentos depois — tirando o pequeno sorriso feliz que estava em seu rosto – ao relembrar das noites de jogos em família que a mãe as obrigava participar, pois, segundo ela, era importante para todos se manterem unidos e para que as ligações entre pais e filhos não os abandonasse nunca.
— A família é o bem mais importante e precioso que alguém pode ter. – O senhor Malttoni costumava ressaltar sempre que tinha a oportunidade. Aquela frase era uma lei. Uma regra que nunca poderiam esquecer ou quebrar.
O barulho do vidro de umas das janelas se estilhaçando a fez despertar da pequena memória com o coração batendo a mil dentro de seu peito. Diferente de sua irmã, ela se assustava com mais facilidade, em alguma brincadeira de esconder ou assistindo um filme de terror.
Davina deixou o livro de lado e caminhou até a janela quebrada. O mesmo disco vermelho que o garoto lá fora brincava com seu cachorro estava em suas mãos naquele instante. Apenas um pensamento lhe causou arrepios: Katherine iria enlouquecer. Mal a deixava tocar nos livros, como seria quando ela descobrisse que seu vizinho havia quebrado sua janela?
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A garota se esforçou ao máximo para que a enorme e pesada porta da frente não fizesse nenhum ruído que chamasse a atenção de alguém da casa. Bem, a janela quebrada já fora chamativa o suficiente.
Ela desceu os degraus até tocar o chão de pedra rodeado por uma grama verde e cheia de vida, totalmente diferente do ambiente da casa da tia, escuro e pesado. O vento fresco de fim de tarde soprou seus cabelos castanhos escuros para trás, fez cócegas em suas bochechas e carregou algumas folhas alaranjadas das árvores para longe das mesmas. Era outono na Carolina do Norte e a paisagem estava mudando há várias semanas.
Davina olhou ao redor a procura do dono do disco sem encontrar ninguém além dela na colina. Logo, uma mão tocou seu ombro e ela saltou para trás, se assustando novamente. Era ele. O garoto do cachorro.
— Desculpe, não quis te assustar. – Ele disse sorrindo timidamente.
A garota o observou por alguns instantes: Jeans rasgado, uma camiseta escura e lisa, jaqueta de couro preta o cabelo bagunçado e comprido na altura dos ombros caindo em cachos escuros e os olhos verdes ressaltados sobre a pele bronzeada dele.
— Acho que isso é seu. – Davina respondeu girando o disco vermelho nas mãos e retribuindo o sorriso da mesma forma.
Os olhos dele se demoraram segundos demais sobre ela, fazendo com que as bochechas dela ficassem rosadas. Desviando o olhar, ele o voltou para a janela que tinha quebrado.
— De zero a dez, quanto você acha que eu estou encrencado?
Davina pensou por um momento e balançou a cabeça fingindo calcular, como se fosse muito difícil saber que Katherine o mataria.
— Onze talvez? – Ela brincou arqueando as sobrancelhas e ele deixou escapar uma risada curta.
— Kyle. – A mão dele se estendeu a frente dela e a garota a apertou sorrindo.
— Davina. – Apresentou-se.
Um latido anunciou a chegada do amigo peludo de Kyle. O cachorro correu em direção a eles e pulou em cima de Davina, quase a derrubando com seu peso e a fazendo quase engolir um monte de pelo.
— Ah... E esse – Kyle o puxou para perto de si, tirando-o de cima dela. – É o Max.
Ela o acariciou na cabeça levando uma lambida na mão em seguida. Os simpáticos olhos castanhos de Max estavam fixos no brinquedo dele, ainda nas mãos de Davina e sua língua balançava para fora. Por fim, ela o arremessou para longe e o animal correu a toda velocidade para pegar, desaparecendo entre as árvores.
A garota sentia que Kyle a observava e seu corpo queimou, envergonhada. Ela odiava ser analisada ou mesmo olhada por alguém, como se tivesse algo de errado com ela. Ele pareceu perceber e piscou, desviando sua atenção para a casa por alguns segundos.
— Então, nunca vi você por aqui. – O garoto comentou franzindo a testa e quase fechando os olhos devido a forte luz do por do sol. – Vivia aqui antes?
— Não, mas – Davina suspirou também olhando a casa. – Agora sim.
— De férias? – Ele insistiu nas perguntas, dessa vez, encarando-a novamente.
— Mais ou menos isso. – Ela respondeu concordando levemente com a cabeça.
Uma pequena mentira não faria mal, faria? Mesmo sabendo que ela moraria com a tia por muito tempo, ela ainda esperava que algum parente mais próximo, ou alguém de quem os pais gostassem ao menos, aparecesse e a levasse daquele lugar estranho. Los Angeles era sua casa... Todo aquele calor e pessoas alegres... A Carolina do Norte não aparentava ser amigável e era fria. Kyle foi a primeira pessoa legal com quem ela conversou nos últimos dias.
O clima estava ficando desconfortável devido ao silêncio que se seguiu depois disso. Porém, uma voz fina se aproximou conforme sua dona também avançava.
— Kyle? Onde você está? O que você fez dessa vez? Deu para ouvi de longe...
Uma garota surgiu por entre as mesmas árvores pelas quais Max havia sumido, empurrando os galhos para abrir passagem. Ela era parecida com Kyle, um pouco mais baixa talvez, vestindo uma saia justa azul escura até o meio das coxas, uma bota preta de cano alto até os joelhos – Davina se perguntou como ela conseguia andar na grama com aqueles saltos altos – e uma blusa decotada na cor preta. O cabelo e os olhos iguais aos de Kyle.
A loira pareceu notar que não estava somente ela e o garoto e parou de andar tentando entender o que acontecia ali.
— Quem é essa? – Ela perguntou com as mãos na cintura. O cabelo curto estava preso em duas tranças finas, uma de cada lado da cabeça, ambas amarradas para trás, o resto, permanecia solto. O batom vermelho queimado destacava seus lábios.
— Irmãzinha, essa é Davina, nossa nova vizinha. – Kyle respondeu puxando a irmã para mais perto de ambos e sorrindo mais uma vez.
— Oh! Olá! Sou Olivia. – A loira ergueu a mão e Davina a apertou sorrindo.
— Muito prazer! – Respondeu educadamente.
A força com que Olivia a cumprimentou aumentou assim que sua pele tocou a da garota. Seus olhos pareciam olhar para o vazio e estavam sem foco algum. Davina se esforçou para não fazer uma careta com tamanha força. As unhas compridas de Olivia cravaram no pulso da garota e se soltar era impossível sem que saísse machucada, então, ela apenas esperou que a loira a soltasse.
— O que foi? – Davina perguntou um tanto assustada.
— Não é nada... – Kyle começou, mas foi interrompido pela irmã.
— Ela é diferente. – Olivia murmurou baixinho, mas não o bastante para que Davina não ouvisse. Ela lançou um olhar preocupado e confuso para o garoto um pouco incomodado com a situação.
— Diferente como? – A garota questionou a loira, ainda agarrando seu punho e encarando o vazio.
De repente, os olhos castanhos de Olivia encontraram os dela. Havia um certo brilho neles... Felicidade com curiosidade? Poderia até ser.
— É uma de nós! – A loira respondeu sorrindo de orelha a orelha.
Davina estava pronta para questiona-la sobre o que tinha dito. Do que ela estava falando e o que queria dizer como aquilo? "É uma de nós?", o que aquilo significava? Mas, ela não teve chance de perguntar absolutamente nada, pois a voz de Katherine na entrada da casa chamou por ela.
— Davina? – A tia a chamou a encarando com uma mistura de irritação e curiosidade. – Entre, por favor! Está na hora do chá!
A garota suspirou e voltou os olhos para os Kyle e Olivia, lamentando ter que voltar para a escuridão infinita da casa da tia. Eles já deveriam conhecer Katherine por serem vizinhos dela, mas Davina sentiu como se a conhecessem mais do que ela mesma, pois, nenhum dos dois insistiu para que ela ficasse.
— Não me disse que a diret... – Kyle começou, mas Olivia pisou em seu pé na tentativa de que o irmão parasse de falar. Mesmo sabendo que Davina viu o seu pequeno e indiscreto gesto, a garota abriu mais um de seus sorrisos largos.
— Que é parente da senhorita Wallins? – Ela completou a frase do irmão com algumas mudanças.
— Ela é minha tia. — Davina respondeu franzindo a testa um pouco confusa com o que ocorreu ali. – É melhor eu ir. Bom conhecer vocês.
Ela já estava no segundo degrau da escada quando a voz de Olivia a fez parar.
— A propósito, ela está viva. – A loira disse.
Davina parou de supetão e virou a cabeça rapidamente na direção da garota.
— O que disse? – Perguntou tentando compreender se tinha escutado certo.
— Sua irmã. Claire, não é? – Olivia completou esperando uma confirmação.
A resposta não veio, pois Katherine já estava puxando-a pelo braço para dentro da casa e fechando a porta depois disso.
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Os braços de Davina ardiam nos pontos onde as unhas da tia afundavam em sua pele. Ela foi arrastada escadaria a cima até o quarto recentemente dado a ela devido aos acontecimentos. Por mais que lutasse e tentasse escapar das mãos de Katherine, a garota não teve êxito, apenas, se livrou quando a tia resolveu soltá-la.
— O que eu disse sobre sair desta casa? – A mulher a questionou cruzando os braços sobre o colo e a fuzilando com os olhos.
— Não pode me manter presa aqui para sempre! E eu não estava fazendo nada demais... – Davina respondeu sentindo a irritação surgir dentro de si e inundar todo seu corpo.
— Você me desobedeceu, Davina. – Katherine completou. A sobrinha separou os lábios para começar uma série de palavras protestando, mas foi impedida. – Não. Não tenho tempo para insubordinações. Está proibida de sair desse quarto, entendeu?
— Ou o que? O que você vai fazer... – A garota retrucou provocando-a. Em sua última palavra, ela adicionou um pingo de ironia na voz. – Katherine?
A senhorita Wallins contraiu o maxilar, segurando o pequeno sentimento de raiva, mas, não foi o suficiente. Ela avançou em direção da sobrinha e segurou seu rosto com uma das mãos, aproximando-as e a apertando cada vez mais.
— Eu sou a sua tia e você me deve respeito. – Falou sem mexer muito os lábios. – Caso tenha se esquecido, sou a única parente viva e agora, minha querida sobrinha, você pertence a mim.
Num gesto abrupto, Davina se livrou da tia e se afastou o quanto o tamanho do cômodo permitiu, quase esbarrando na penteadeira antiga ao lado da lareira acesa naquele dia mais cedo.
Ela odiava o fato de Katherine estar certa sobre ser a única pessoa com quem poderia viver e no mesmo instante, desejou ter alguma avó ou até mesmo primos mais velhos com quem pudesse ter ido viver. Sabia também, que Claire odiaria. A senhora Malttoni quase nunca falava da irmã e agora Davina sabia o por quê. A tia era uma pessoa cruel, fria e apática a tudo.
— E quanto a Claire? – Perguntou a menina.
— Não sei do que está falando. – A mulher respondeu indiferente, virando-se para deixar o ambiente.
— Sei que ouviu o que Olivia disse! – A garota insistiu agarrando o braço da tia da mesma forma que ela tinha feito minutos atrás. – Ela pode estar viva...
Katherine soltou-se trazendo os braços para mais junto de si, como se os estivesse protegendo de algo muito pior que somente um simples puxão.
— Sua irmã está morta, da mesma forma que a minha também está. – retrucou engolindo em seco depois de falar alto e claro, esperando que Davina entendesse de uma vez por todas. – E Olivia? Puf... Ela é uma garota perturbada, acredite em mim.
— Agora eu entendi por que a mamãe nunca falou de você. – A garota disse e se preparou para mais uma bronca. Nada. Parecia que a tia estava esperando ela mesma responder. – É uma pessoa ruim, Katherine.
A mulher permaneceu quieta por alguns segundos. Bem, somente por fora, pois, olhando em seus olhos, a garota notou como os pensamentos giravam dentro da mente dela, prontos para atacar logo em seguida.
— Bom... – Katherine começou com um sorriso um tanto quanto sarcástico. – Eu estava pensando em voltar e ficar uma temporada em Los Angeles para deixar que terminasse o colégio com seus amigos e as pessoas que gostam de você... – Ela caminhou até a penteadeira e passou os dedos levemente sobre o veludo da cadeira à frente, voltando os olhos para a sobrinha. – Mas, já que eu sou tão ruim assim, eu mudei de ideia. Você vai para uma nova escola e suas aulas começam amanhã. – Terminou com o mesmo sorriso de antes.
Katherine deu as costas e foi em direção da porta em passos largos e determinados, reforçando o peso da sua sentença sobre Davina a cada centímetro mais perto da saída do quarto. Por fim, completou:
— Tenha bons sonhos minha querida.
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