Last Memories
5 5 - "Stoned"
- Alida!
- Irmão, não! Você não precisa ir!- Me desculpa Alida, eu não tenho escolha. Eu prometo que vou voltar tudo bem?- Irmão!O mesmo sonho. Eu digo sonho, pois chamar de pesadelo seria simplesmente pessimista demais, e eu não preciso de mais pessimismo. O mesmo sonho em que eu, três anos atrás, vi meu irmão saindo da Metrópole em direção a sua morte certa. Ao lembrar este sonho, lembro de como eu chorei e implorei para os meus pais adotivos, pedindo que eles o impedissem. Mas mesmo ele sendo o único filho biológico deles, nem mesmo uma única lágrima foi derramada. Eu me lembro de levar um tapa, lembro de quando meu pai me disse para que eu me calasse e limpasse o rosto, pois teríamos uma festa naquela mesma noite. O filho deles estava sendo banido para sempre, mas eles não conseguiram derramar uma única lágrima. O nome de meu irmão era Vult Van Haley, a única pessoa que me entendia e me aceitava por quem eu era. Mas... Ele era uma imperfeição neste mundo. Sim, ele não poderia viver com as outras pessoas, pois Vult Van Haley era um monstro, uma anomalia. E eu odeio monstros.Mesmo com tudo que a humanidade já passou, ainda há pessoas que nascem com o que quer que tenha transformado as pessoas em states antigamente. Assim como antes, o processo de contaminação é muito lento, diferente do processo de transformação. O vírus, ou seja, lá o que for, pode aparecer como uma característica externa bastante óbvia ou pode discretamente ir matando o afetado por dentro, como se fosse uma doença. Algumas vezes pode até se camuflar em uma doença que o afetado já possui. Porém, o vírus não foi tão complacente com o meu irmão. Todo o seu braço direito foi afetado, de forma que ele passou o resto da vida tendo de usar mangas longas e luvas, mas ele jamais reclamou. Nem por um instante. Nem mesmo quando as luzes na barreira apagaram e ele foi arrancado de sua própria casa e banido para sempre pro mundo lá fora, onde ninguém pode sobreviver mais de cinco minutos. Eu deixei meu irmão ir. Eu deixei meu irmão morrer. Agora eu me levanto desse mesmo sonho e percebo... Que estou deixando Black caminhar para sua morte também.------- Isso só pode ser...-... Um lindo milagre!Fizemos o teste para descobrir os grupos do Festival, e sinceramente eu comecei a me questionar sobre a forma como o mundo realmente funciona. Eu estava irritada, mas ao mesmo tempo intrigada quanto ao fato de que eu e Black estávamos no mesmo grupo. Após os acontecimentos com a professora Russeau, Black me era bastante interessante, mas isto não havia mudado tanto a imagem que eu já tinha dele e muito menos a que eu tinha de Alonzo. Ambos eram marginais, sempre tentando ir contra o sistema mesmo este funcionando tão perfeitamente. Mesmo assim, se eles fossem como todo mundo, a professora teria morrido naquele dia. Então, ao saber que estávamos no mesmo grupo toda essa confusão de sentimentos me deixaram nervosa de forma que eu não pude deixar de encarar os dois. A única coisa que eu podia esperar é que ele não achasse estranho. Alonzo como sempre fez algumas piadas idiotas, nada diferente do normal. Eu logo me sentei e olhei para frente, sem prestar muita atenção no quarto membro do grupo. Fiquei o resto da aula tentando organizar meus pensamentos e provavelmente fui a primeira a sair da sala assim que o sinal tocou.- Ufa... – Eu dizia a mim mesma, enquanto aguardava na biblioteca substituta. Alguns meses antes houve um grande incêndio na biblioteca do colégio, então eles abriram uma grande sala com uma janela de pelo menos quatro metros e meio de altura, que serviu de substituta até que a biblioteca fosse reparada. Agora a sala estava vazia, mas eu ainda usava a chave mestra do Conselho Estudantil para entrar lá organizar meus pensamentos enquanto olhava através da grande janela.- Perfeição, perfeição, perfeição...- Perfeição, certo?É engraçado. Não, na verdade não é. Não é nada engraçado. Quando você acha que o seu mundo perfeito está prestes a ser abalado, é quando você nota que os seus problemas sempre foram pequenos demais. O mundo não poderia ser perfeito sem a dor, a dor faz parte do aprendizado. Eu compreendo isso. Mas não significa que eu goste disso.- Sabe, senhorita foi bem difícil de achar, minha sorte foi que alguém te viu entrando nesta sala, ou eu teria problemas.- Obviamente, seus pais não te educaram muito bem não é? Já que você parece não entender que é falta de educação começar uma conversa sem se apresentar.Pode parecer que eu fui rude com ele, mesmo sendo um desconhecido, mas há um motivo pra isso. A pessoa que entrava na sala e dirigia sua palavra a mim era um homem extremamente pálido e alto. Ele devia ter uns dois metros de altura, motivo pelo qual ele teve que se abaixar pra passar pela porta da sala. Não obstante, ele usava um jaleco de laboratório, como aqueles de farmacêuticos, mas por baixo não usava qualquer camisa, deixando à mostra toda a região da barriga que era bastante magra com poucos músculos. Ele tinha um cabelo ruivo picotado bastante bagunçado e, sem dúvida a parte mais assustadora, usava um tapa olho cobrindo seu olho esquerdo. Claro que sendo Alida Van Haley eu jamais poderia demonstrar medo, mas naquele momento eu sentia como se devesse gritar por ajuda. Eu até pensei em fazê-lo, mas foi quando ele falou, sempre com uma voz calma e até amigável:
- Ei, quer saber uma coisa interessante sobre esta construção? Em todo o colégio, esta é a construção que fica mais distante de todas as outras construções do campus, e este é o horário com menos funcionários e estudantes.Eu gelei na hora. Mas Alida Van Haley não pode se dar por vencida. Eu não sou qualquer garota, eu...- Nã-não seja precipitado. Esta construção está longe demais das saídas, você não tem por onde escapar.Ele sorriu.- É aqui que você se engana.Vi sua perna movendo como se ele fosse se aproximar. Como que por instinto, me virei de costas pra ele esperando ficar de frente pra janela e tentar ser vista por alguém. Ao mesmo tempo tirei meu celular do bolso o mais rápido possível, mas antes que eu pudesse terminar qualquer uma das ações, ele rapidamente segurou meu braço e tampou minha boca. Eu ainda deveria poder mover meu corpo, mas eu não consegui. Era como se eu estivesse completamente paralisada, eu não podia mover um único dedo.- Ir...mão...Foi aí que aconteceu. Um vulto passou pela janela, caindo de algum lugar. Aquele vulto era sem dúvida uma pessoa. “O que está acontecendo?”, foi o que eu pensei. Eu pude ouvir até mesmo o som do impacto. Não tinha como ela ter sobrevivido, fosse quem fosse. Mas o homem ruivo, ao olhar pela janela, sorriu ainda mais e disse:- Incrível, incrível, incrível, incrível! Quem diria? Você terá a chance de ver uma coisa realmente incrível, garotinha!E ele simplesmente chutou a janela pra fora. Deixe-me explicar melhor: ele chutou a janela inteira pra fora da parede, sem quebrar um único vidro, simplesmente arrancando-a com o chute. E a janela então caiu, e mesmo depois de cair ela fincou no chão sem se quebrar. O que ele fez desafiou tantas leis da física que sua próxima ação pareceu menos absurda: ele simplesmente me pegou no colo e pulou do segundo andar. Lá embaixo, porém, não havia um ser humano... Havia um state, ou quase isso. Uma garota levemente familiar se debatia no chão. Metade de seu corpo estava tomado por algum tipo de escama ou rocha negra, eu não tinha certeza e ainda era difícil me mover.- Como eu pensei! Hahaha! Parece que esta aqui tem o que é preciso! Isso vai ser divertido...Ele me deixou no chão como uma boneca, eu não podia fazer nada além de observar enquanto ele tirava do seu jaleco uma pistola de aparência antiga e uma cápsula verde que ele colocou dentro da pistola, a qual ele apontou para a garota que se debatia.- Vai doer só um pouqui...- Espere aí!Alonzo apareceu gritando, com uma expressão confusa e apressada no rosto. Ele tirou algo que parecia uma pistola de dentro da roupa, mas antes que sequer mirasse para o homem de jaleco, este, sorrindo, apertou o gatilho. O que aconteceu em seguida me deixou tão atordoada, que em questão de segundos eu esqueci que meu colega de classe acabara de pegar uma arma de dentro da roupa, ou até mesmo que um homem de jaleco foi capaz de desafiar todas as leis da física de uma vez. O que aconteceu a seguir, foi de longe muito, muito mais magnífico.- Não pode ser. Ela é só um monstro, não pode ser... – Meus olhos se enchiam de lágrimas enquanto eu me lembrava do meu irmão. Eu me lembrava de como eu desisti dele, como eu disse que o que aconteceu com ele foi só o justo, parte do perfeito. Todas essas memórias me vinham a cabeça, ao assistir a cena a minha frente. – Você... Quem é você? – Falei ao homem de jaleco, que continuava sorrindo. Enquanto isso Alonzo só podia assistir, atordoado. Meus olhos se encontravam em tamanho fascínio que eu nem mesmo fui capaz de notar que de longe, Black observava tudo, tão atordoado quanto eu.
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