Last Memories
3 3 - Only Friend
- Você terminou o trabalho?
Já era de noite, mas não era possível ver as estrelas através da fumaça. Eu estava dentro de uma grande torre, conversando com meu superior. Ele sentava atrás da mesa como um rei que espera no seu trono pelas palavras de seu súdito. É engraçado vindo de alguém com uma cara tão feia como a dele (eu sequer consigo entender como eu ainda o levava a sério com aquele nariz enorme).- Mas é claro! – Respondi sorrindo.- Mesmo? Não achei que você conseguiria... – Comentou em desconfiança.- Com quem acha que está falando? Eu sou Alonzo Agnell! Nunca falhei em trabalho algum. – Comentei em tom orgulhoso, afinal eu era bom mesmo. Mas eu entendia o motivo da dúvida, afinal meu alvo aquela vez era...- Blake Water, ele está morto?Virei-me de costas e respondi em tom desleixado enquanto andava em direção a porta:- Sim, veja os noticiários amanhã se quiser provas. Eu já estou indo...Eu precisei virar de costas porque não poderia olhar ele nos olhos agora. Isso porque meus olhos naquele momento não eram os de um assassino, mas os de alguém que perdeu um precioso amigo. O elevador tomou certo tempo para chegar ao térreo. Logo eu saía pela porta da frente daquele prédio imenso. Quando olhei para cima, pude ver a neve negra caindo...- Parece que amanhã será um dia negro. – Uma lágrima desce pelo meu rosto pela primeira vez em muito tempo, um floco de neve negra cai na minha mão como que por destino. Eu o aperto até que se transforme em pó. – Blake, você...!-- -- -- -- -- --Bem, a vida nem sempre foi tão ruim. O importante é olhar pra trás e ver os erros que cometemos e ter certeza absoluta que não os cometeremos novamente. Era o início do ano letivo. Os dias eram calmos, claros, divertidos. Havia uma certa antecipação no ar. A maioria dos alunos ia para a escola a pé. Alguns grupos se formavam no caminho com conversas normais como “O que você fez nas férias” e “Ficou sabendo do aluno novo?”. Eram dias bons, em que nada era muito complicado. Algumas pessoas sofriam aflições ou dificuldades, mas não eu. A vida é curta demais para gastar preocupando-se com que roupa vestir e que palavras usar. Só havia uma coisa realmente mundana que realmente me importava. Sim, o calor, o amor, a paixão de...- Garotas!- É... Oi? — O guarda ficou me encarando como se eu houvesse dito algo errado. Ele estava concentrado em digitar minha ID no computador dentro da guarita até agora. Estávamos no hall de entrada de um grande prédio. Passar nos detectores de metal não seria uma boa idéia, então eu precisava entrar por outro meio. A sim, eu faltei o primeiro dia de aula. Digamos que eu tinha algo mais importante pra fazer...- Sim, garotas! Vamos, você é homem então deve entender o que eu digo certo? Você fica aqui o dia inteiro, será que não viu nenhuma gatinha nova entrando no escritório?- Bem, tem uma tal de Ana.- Finalmente! Ela é bonita?- Eu não diria bonita... como posso explicar...- A, então ela é feia. Que droga.- Ela é bonita, senhor. Mas é que...- Você não fala coisa com coisa amigo. A verificação já acabou?- Sim senhor.- Ok, até mais. Fique de olho nelas pra mim!- Eu vou!E é assim que você acaba com um clima profissional de trabalho. De qualquer forma, eu entrei no elevador. Demorou um pouco até chegar ao andar que eu queria, mas assim que eu cheguei lá as coisas foram bem rápidas. O elevador abria sua porta direto para o escritório. Não havia um corredor ou uma segunda porta, e nem precisaria haver, já que só algumas pessoas sabiam que botões apertar para chegar lá. Assim que a porta se abriu, me encontrei olhando para “aquele” rosto. Pode parecer exagero, mas aquele nariz não é deste mundo.- Então você chegou. – Disse ele com impaciência. Pra um velho gordo em sua cadeira, esse maldito tem culhões. – Demorou demais, quase dei o trabalho para outro.- Ora ora, senhor Van Haley. Não seja tão maldoso! Você sabe que eu preciso desse trabalho para sobreviver.- Isso é problema seu. Pegue logo a pasta aqui na mesa, as informações do alvo estão dentro.Sem hesitar, peguei a pasta e fui em direção ao elevador. Enquanto saía, comentei:- A propósito, parece que serei da sala de sua filha este ano. Talvez eu tente a sorte.- Ora seu maldito, se você encostar um...!Não ouvi o resto, o elevador já descia e dentro dele eu me acabava em risadas. Após sair deste dei um olá e uma piscada para o guarda da entrada e saí.- Realmente está ficando claro estes dias. Agora entendo porque o trabalho era tão urgente.Meu trabalho é bastante singular neste mundo que vivemos agora. Faço parte da OPM, Organização de Proteção Metropolitana. Nós não somos uma organização secreta ou qualquer coisa assim, todos sabem o que a OPM faz... Mas ninguém sabe como ela faz.Quando o mundo se tornou como é agora, nós precisávamos de tecnologia. Um certo grupo de gênios, liderado por Vihctor Bulgardt, criou uma barreira capaz de não só destruir os states, mas também atraí-los e gerar energia no processo. Esse mesmo grupo criou o método de sintetização de alimentos que usamos hoje em dia. Toda a existência das metrópoles é baseada nas ações desse grupo, conhecidos por terem realmente salvado a humanidade, nos tornando completamente imunes aos states. Ou pelo menos é isso que o governo quer que a população pense.
A realidade é que muitas pessoas de várias descendências ainda carregam consigo parte do vírus (ou seja lá o que for) que causou o Apocalipse. Em geral, esse vírus permanece inativo permanentemente, mas há algo na barreira das cidades que é capaz de ativar o vírus novamente — isto é, o único real detrito deixado pela barreira, ou seja, a neve negra. Eu não sei como a Organização consegue descobrir que pessoas estão prestes a se tornarem states e, sinceramente, eu não ligo. Parece que não há como redirecionar a neve negra, mas eu também não sei porque e também não ligo para isso. Quanto mais states, mais trabalhos, mais dinheiro e mais chances de eu pegar algumas gatinhas. Bem, pelo menos era o que eu pensava e cometi alguns erros por pensar assim, mas não me arrependo de nada.- Lemon? Que diabos de sobrenome é Lemon? Bem, espero que ele não seja muito amargo.Pensando bem, talvez eu me arrependa dessa piada horrível. Eu andava rapidamente em meio a alguns becos escuros, olhando no meu celular enquanto lia uma folha que estava dentro da pasta, pasta esta que eu carregava na boca. – Maldito GPS que demora dois dias pra atualizar, desse jeito mal da pra ver onde o tal do Lemon... – Parei de falar ao olhar a minha frente. Eu havia entrado em um beco largo e sujo, onde um cara se contorcia pingando de suor e gemendo de dor. Ele se apoiava no que havia sobrado de um carro em decomposição que algum morador de rua deve ter usado como cama um dia.- A meu amigo, eu tenho que me desculpar. – O homem, ainda se contorcendo e gemendo, não parecia estar ouvindo. – Acontece que se eu esperar mais um pouco você vai ficar ainda mais feio, então não há muita escolha. – Eu continuava falando, enquanto pegava algo do bolso da minha jaqueta. Era uma pistola. Não parecia uma pistola comum, esta aqui era feita pra atirar praticamente qualquer coisa. Na Organização nós recebíamos uma bala azul e dois pentes de balas vermelhas por missão. A bala azul nunca havia sido usada, ela apressava o processo de infecção da doença ou algo do tipo. A bala vermelha causava uma minúscula explosão ao impacto, só um pouco maior que o tamanho da própria bala. Era perfeita para derrotar states, mas era necessária discrição, já que as pessoas não sabem sobre a existência deles dentro da cidade.- Bem, é isso. Desculpe pela demora pra carregar, eu não vou ficar aqui pra descobrir que tipo de monstro você vai virar. – E apontei a arma pra ele. E sem nenhuma hesitação, eu atirei. Não me julgue, eu não sou nenhum psicopata. Acontece que eu compreendo como aquilo era necessário e você também compreenderia se tivesse passado maus bocados nas mãos de um state. Eu tenho a péssima conduta de sempre me virar de costas quando acho que tudo acabou. Eu já pegava meu celular com a mão que não segurava nenhuma arma quando ouvi um barulho estranho vindo do beco.- Maldito azar...Eu reconheci aquele barulho. O barulho de água batendo contra uma frigideira quente, deixando explícito que um state estava se formando. Eu olhei para trás e vi um tipo de casulo feito com uma rocha preta. Essa rocha chama-se statenito (eu concordo, é um nome ridículo), uma pedra tão resistente que se um meteoro feito dela caísse na Terra ele permaneceria intacto após bater contra o chão. O statenito só aparece quando um state está para se formar, protegendo o que quer que aconteça lá dentro. Ele aparece rápido e acaba rápido. Mesmo em estado de choque, eu me obriguei a pular para trás de um tanque de lixo feito de metal. Acontece que o que ocorre após a formação do statenito é sua destruição, que por acaso do destino é uma explosão que atira vários pedaços da pedra para todos os lados. Foi exatamente isso que ocorreu logo atrás de mim. Um dos destroços bateu contra a minha mão enquanto eu pulava, me machucando um pouco e destruindo meu celular. – A, você não fez isso. – Olho por trás do tanque de lixo e vejo o monstro que se formara próximo à carcaça do carro. Era um Imp, um tipo de state pequeno, do tamanho de um cachorro grande se este ficasse de pé, porém com a habilidade perigosa de criar dentro de si um líquido extremamente inflamável e atirá-lo nos seus inimigos. Naquele momento, estaria tudo bem se eu fosse julgado como psicopata, pois meu sorriso mostrava exatamente isso enquanto eu saía descuidadamente de trás do tanque. – Você sabe quantos de você eu tive que destruir pra comprar aquele celular? Não foi barato sabia? O que eu vou fazer se uma garota pedir meu número? Agora a p**** ficou séria!Apontei a arma para o Imp e dei dois tiros rápidos para ter certeza de que mataria o desgraçado. É claro, graças as minhas balas vermelhas o Imp seria destruído imediatamente. Porém no calor do momento, você esquece de algumas coisas importantes. – Toma isso seu...! – Não pude terminar. A explosão enorme que se sucedeu do contato das balas com o Imp me lançou para a parede como um foguete. Porém, mais importante era o carro que ia para a direção oposta. Tudo estaria bem, se a direção oposta não fosse a saída do beco para uma rua movimentada. Se os states fossem descobertos, tudo estaria acabado. Após me levantar com certa dificuldade, corri para fora do beco. Porém, pra o que eu encontrei lá eu não estava preparado.----Os momentos seguintes foram confusos. Desde o instante em que escondi minha arma desesperadamente ao avistar meu melhor amigo e colega de escola, Blake Water, até a hora em que, avistado por ele, fui obrigado a mover uma parede de metal que tampava o beco e provavelmente havia sido atirada para a rua junto com o carro. Aparentemente, alguém havia sido acertado. Um inocente. Alguém que não tinha qualquer relação com toda aquela história. E era culpa minha. Fechei-me em pensamentos assim que o corpo foi deixado dentro da ambulância. Meus olhos estavam arregalados, meu corpo tremia. Será que minha inconsequência havia matado alguém inocente? Foi aí que eu o ouvi.- Será que ela está bem? Acho que está tudo bem agora não é? Afinal, fizemos tudo que podíamos... Ou não?O que diabos eu estava pensando? Eu não podia ter dúvidas. Aquele garoto... Eu era o único amigo dele. Blake Water, meu melhor amigo. Ele dependia de mim para suportar o peso de sua vida, e eu precisava dele para suportar o peso das minhas duas vidas. Aquela não era hora pra ser egoísta e me fechar em pensamentos.- Do que você está falando, Black? Não me venha com essa depois de me fazer empurrar aquela coisa pesada só por sua causa! – Respondi sorrindo, enquanto colocava meu braço em volta do pescoço dele.- Eu não te obriguei a nada! E qual é a desse corte na sua mão?- Escorreguei no Box do banheiro.- É uma anta mesmo...- Ora, fique você sabendo que as garotas adoram homens com cicatrizes!- Claro, claro...E foi isso. Só mais um dia comum em minhas vidas. Quero dizer, pelo menos foi minha impressão naquele tempo. Acontece que este mundo é divertido e vive pregando peças em você. Quando se menos espera, um acontecimento aparentemente normal pode ser o início de uma grande catástrofe.
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