Notas iniciais
O mundo que a fic engloba é um mundo pos-apocaliptico. Apesar de ser baseado no mundo em que vivemos, várias histórias, conspirações e etc. poderão ser criados ao longo da fic. Qualquer semelhança com a realidade deve ser ignorada. O gênero, tipo e classificação podem mudar ao longo da fic, se esta for feita até o final. A história será dividida entre a visão de vários personagens, estando em primeira pessoa e mudando o narrador a cada capítulo.

Dizem que quando você sabe que vai morrer, pode ver toda a sua vida passando na sua frente. Eu acho que o ser humano é extremamente masoquista, pois a única coisa que ele pode ganhar com isso é um amargo arrependimento; uma extrema vontade de sobreviver, mesmo sabendo que não irá. Neste momento, me lembro de onde tudo realmente começou. O início do fim.

Fazia um dia relativamente claro em Metrópole. Eu andava distraído com meu colega de classe e melhor amigo, Alonzo Agnelli . Ele sempre se gabava de seus cabelos e olhos castanhos, dizendo que as garotas adoravam homens de altura mediana e aparência comum. Apesar disso eu nunca o vi com garota alguma... Mesmo o único assunto sobre o qual ele conseguia falar sendo mulheres.

- Ora, vamos. Você tem que admitir que a Alida Van Haley é uma gatinha.

- Sério? Bem, se você diz... Eu sinceramente acho que não há motivo pra tanto estardalhaço em torno dela. Há garotas mais bonitas do que ela na escola...

- Garotas como Aya Tsuyameku?

- O que?! Não sei do que você está falando.

- Haha você ficou todo vermelho. Acha mesmo que pode mentir pra mim? Toda vez que ela sequer passa perto da nossa sala você a encara como se tivesse visto um fantasma...

- A, cale-se...

- Ora não precisa ficar envergonhado, senhor Black.

- Já falei para não me chamar disso! – Disse eu, levantando o punho.

- Calma não precisa ficar tão bravo. Afinal, de onde saiu esse apelido mesmo? Eu já nem me lembro muito bem... – Comentou, disfarçando o sorriso.

- Você lembra sim, foi você a causa! Naquele dia a neve negra tinha se acumulado em cima das árvores e foi porque você colocou o pé na minha frente que eu tropecei e bati contra a árvore. Já faz quase cinco anos, já passamos do Ensino Básico para o Intermediário mas ainda me chamam de Black até hoje por sua culpa!

- Bem, bem, pelo menos você ficou conhecido né? – Disse ele rindo enquanto batia de leve nas minhas costas.

- Conhecido uma ova... Eu já tinha bastante atenção desnecessária voltada para mim só por ser um dos poucos descendentes de americanos na escola e...

- Eita, falando do inferno!

Chegamos em frente ao portão de um grande muro, mais parecido com uma muralha. Aos lados ele se estendia tanto que não era possível ver o fim. Através dele era possível ver os prédios que eram tão grandes quanto os de fora do muro. Aquela era a “Escola Preparatória ARG”. Um lugar onde qualquer pessoa passaria 20 anos de sua vida, se preparando para todos os outros anos. Enquanto olhava para cima, pensei ter visto luzes vermelhas vindas da nuvem negra que sempre cobriu a cidade. Naquele tempo, eu não percebi o quão importante aquelas luzes eram de fato.

- Ei Black, você está sonhando com o que? Vamos entrar logo... – Disse Alonzo correndo na minha frente pelo grande portão de ferro que se abriu sozinho como mágica.

- Volte aqui maldito! Meu nome não é Black, meu nome é...!

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- Blake Water? Senhor Blake Water, responda agora mesmo! – Os gritos da professora ecoavam pela sala. Eu como sempre estava dormindo e não fazia a menor idéia do que acontecia a minha volta, mas se fosse para chutar, diria que todos estavam me olhando e provavelmente tentando esconder as risadas.

- Ahm? Oi? O que foi Lisa?

- Ora seu...! – Ela imediatamente me deu um tapa, tirando-me do estado semi-acordado em que me encontrava. Em seguida, me segurando pela gola do meu uniforme, começou a gritar: — Quantas vezes eu já lhe disse para não dormir na minha aula? Além disso, eu sou sua professora! Não me chame pelo primeiro nome dentro de sala, seu idiota!

- Vamos, pare de ser tão convencida Lisa. Você sabe que só te puseram como professora porque a senhora Russeau está no hospital.

- Blake seu, seu... Idiota! – Diz ela logo antes de sair chorando.

A verdade é que Ana Luísa da Silva, ou Lisa, era três anos mais nova do que eu, ou seja, ela tinha somente quatorze anos de idade. Desde que entrou na escola ela foi considerada um gênio acima do normal em todas as matérias, principalmente em matemática e física. Pulou várias séries, porém ainda não pode estudar Ensino Avançado por ser jovem demais. Como se não bastasse a mente avançada para sua idade, Lisa também possuía uma baixa estatura mesmo em comparação com as garotas do Ensino Básico e sempre foi tratada como uma criança pelas pessoas a sua volta. Não que ela fosse feia, mas ela era bonita de um jeito mais “fofo” do que realmente “sensual”. Seus cabelos pretos eram longos e picotados, seus olhos eram verdes e brilhantes como os de um gato. A aparência dela era uma mistura cheia de contrastes, visto que sua pele não era branca ou pálida, mas sim parda. Logo ela estava de volta à sala, como se nada houvesse acontecido, acompanhada por dois alunos que foram buscá-la por pena.

- Não se preocupe Professora, é que o coração de Black é tão escuro quanto ele. – Disse Alida Van Haley, a garota mais popular do nosso ano, uma dos alunos que traziam a professora segurando-a pela mão. Alida era uma garota alta e de corpo muito bem desenvolvido para a idade... Quem eu estou querendo enganar? Ela tinha um grande par de peitos, é isso que eu quero dizer! Na realidade nós dois éramos brancos e loiros e, há quem diga, até mesmo parecidos, mas ela sempre me tratava como alguém inferior. Talvez porque é rica...

- Bem, senhor Blake. Como o senhor estava tão à vontade agora a pouco, não se incomodaria de responder a próxima questão, certo? – Disse a professora de queixo erguido, apesar dos olhos ainda vermelhos por causa do choro. Uma criança, não importa como se veja.

- Que seja Lisa...

- Seu...!

- Questão número dois: O que foi, onde e quando começou o grande desastre conhecido como Desunião e quais foram suas conseqüências?

Quando eu acabei de ler, todos reagiram da mesma forma, como que por reflexo. Recusaram-se a olhar pra mim, tentando disfarçar e fingirem estar pensando em outra coisa. Lisa fez o mesmo, escondendo-se por trás do livro com um olhar triste. A sala estava desconfortavelmente quieta naquele instante. Eu respondi mesmo assim:

- No início do século XXII, no antigo país conhecido como Estados Unidos da América. Não se sabem as causas, mas toda a população do país foi transformada em criaturas que nunca haviam sido vistas antes, hoje chamadas de states. O país estava em estado de emergência e era proibido sair do mesmo, o que fez com que praticamente toda a população dele fosse erradicada. Graças a isso, o mundo iniciou uma longa guerra contra os states, porém a humanidade foi derrotada e as pessoas que restaram foram obrigadas a se esconder em grandes cidades protegidas por barreiras de calor que afastam as criaturas, em uma ilha asiática onde os states ainda não haviam chegado. A essas cidades foi dado o nome de Metrópoles. – Notei que o silêncio se mantinha — Eu não estou certo, Lisa?

- Me desculpe, eu...eu não notei que essa era a questão. Eu... – Diz ela com a voz baixa, como se estivesse envergonhada.

- “Me desculpe” pelo que, Lisa?

- É... É só que...

- Pelo que, Lisa? – Pergunto mais alto, quase gritando.

Ela não me respondeu. O sinal bateu em seguida e Lisa correu para fora da sala, visivelmente aliviada. Eu talvez fosse um dos últimos descendentes americanos vivos. Os que existiam se tornaram, em grande parte, criminosos, levando a maioria pena de morte. Os outros também morreram de causas não naturais. Talvez se não tivessem sido tratados de forma tão diferente, eles não tivessem se tornado tão diferentes. Eu não tenho pais, nunca tive. Vivo em um apartamento dado a mim pelo governo e como com o dinheiro que recebo para estudar. A única coisa que me foi deixada é um sobretudo preto enorme com um “M” desenhado nas costas. Ele sempre esteve comigo desde que fui encontrado e só realmente deixou de ser um cobertor para se tornar um casaco há alguns anos atrás, quando eu ganhei altura suficiente. Para ser honesto pelo menos uma última vez na vida, devo admitir que eu gostava daqueles dias normais. Eu gostava deles, mas... Eu também sempre quis que algo mais acontecesse; algo interessante e diferente do normal. O problema é que quando as pessoas desejam que algo extraordinário aconteça, elas sempre acham que serão os protagonistas dessa história extraordinária. Elas sempre pensam que terão a capacidade de mudar alguma coisa, e é por isso que coisas extraordinárias nunca acontecem. Porque este mundo não é somente sobre uma coisa, nem sobre uma pessoa. Não se pode observar uma história de um só ângulo, pois aquela história foi diferente para cada pessoa envolvida. Cada pessoa tem seus próprios sentimentos, pensamentos e dores. Eu sei que ainda há muito que eu devo explicar. Eu sei que você deve querer saber como eu fui acabar em uma queda livre para a morte. Mas veja bem, mesmo que eu mostre tudo que me trouxe a esta situação, você ainda não irá entender o que realmente aconteceu.