Last Friday Night
1 Nunca brinque com um velhinho com uma espingarda
Notas iniciais
Acordei com o barulho ensurdecedor de um trator. Peraí, trator? O que um trator estava fazendo no meio da avenida mais movimentada de Nova York? Dei um pulo da cama, e cambaleei pelo quarto, tropeçando em umas coisas que eu nem imaginava que tinha. Minha cabeça parecia explodir, e a luz do sol ofuscava os meus olhos. Me inclinei na janela, para contemplar a vista dos prédios pela manhã e repirar a minha cota de poluição diária. Mas eu vi uma coisa muito, mais muito diferente.
Tinha verde, e muitas, muitas árvores. Aquela com certeza não era a minha cidade. Cadê a poluição? O barulho das buzinas? O céu sempre cinzento? Esfreguei meus olhos para espantar uma possível miragem, mas tudo continuou do jeito que estava. Limpo, verde e fresco. O barulho do trator vinha de fora, de um trator que passava pela estradinha de terra em direção ao Oeste. Ou seria o Sul? Droga, eu não sabia onde estavam os pontos cardeais.
Eu não sabia onde estava. Eu não sabia onde estava! Olhei para o quarto, que parecia um típico quarto do interior com fotos de vacas na parede e um papel de parede de listras verdes e brancas. Soltei um grito, ao perceber que não estava sozinha. Tinha um cara na cama que eu estava deitada antes. Ele se assustou com o grito e acabou caindo da cama.
— Mas que droga, para de gritar, minha cabeça tá um caco! – ele falou esfregando a cabeça. Acho que tinha batido ela em algum lugar. De repente seus olhos se arregalaram e ele olhou para mim espantado.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – gritamos ao mesmo tempo, eu me escondendo atrás da cortina e ele do lado da cama. Coloquei a cabeça para fora, na esperança de estar tendo miragens apenas. Mas ele tiver a mesma ideia e nós acabamos gritando ao mesmo tempo outra vez.
— Ok, calma Lindsay. Isso é só um sonho. Você vai fechar os olhos, contar até dez e quando abrir, vai estar na sua casa novamente. – falei, respirando fundo, na tentativa de me acalmar e perceber que tudo isso não estava passando de um sonho.
— Você fala com você mesma? Garota, você deve ter sérios problemas. – ouvi a voz do cara falando e quando eu abri os olhos, continuava tudo do mesmo jeito.
— Isso não pode ser verdade, isso não pode ser verdade. – repeti como um mantra para tentar me acalmar, andando de um lado para outro do quarto. O cara foi na janela e olhou a paisagem.
— Me diz que você mora aqui, por favor. – ele falou calmamente como se tentasse manter a calma.
— Não eu não faço a mínima ideia de onde estamos. – falei massageando as minhas têmporas.
— Eu acho melhor você vestir as suas roupas e rápido. – ele falou, ainda olhando para a janela. Parecia com medo.
— Mas eu estou com minhas roup.... – olhei para baixo e vi que estava apenas com minhas peças íntimas. Puxei o primeiro pano que vi pela frente e tentei me cobrir.
— Vamos, se veste rápido – ele me jogou a minha saia preta e eu apanhei a minha blusa roxa no chão. Vi que ele não estava muito diferente de mim, apenas de cueca, e vestia a sua calça com pressa.
— Porque? – o fitei de braços cruzados enquanto ele procurava os sapatos.
— Porque tem um velhinho vindo aí com uma espingarda e duvido que seja para dar as boas vindas.
Droga, o que estava acontecendo? Vesti minha saia e blusa, sem me preocupar de ensacar a camisa como costumo fazer. Peguei meu sapato de salto e o cara me puxou para fora do quarto, ainda abotoando a camisa. Mas nos deparamos com um dilema. Esquerda ou direita? Ambos os corredores eram idênticos, mas apenas um levava à saída.
— Direita.
— Esquerda . – falamos ao mesmo tempo e cada uma deu um passo na direção que tinha dito.
— Vamos pela direita, deve ser o caminho certo. – ele falou, continuou andando, mas parou quando viu que eu não o acompanhava.
— Por que não pela esquerda? Eu acho que é por ali – apontei para o caminho atrás de mim.
— Claro que não, vamos pela direita.
— Porque eu deveria confiar em você? – falei cruzando os braços.
— Porque eu sou homem e meu senso de direção é melhor que o seu.
— O que você disse? – falei arqueando uma sobrancelha. Mal ele sabia que estava na companhia de uma feminista ativa. Eu não movi um músculo e ele bufou.
— Pode por favor, ir pela direita? O cara tá armado e precisamos sair daqui rápido!
— Eu vou, assim que você admitir que o seu senso de direção é tão bom quanto o meu. – ouvimos o cara gritar “Quem está aí?” e pelo volume deduzi que ele estava bem perto da casa agora. O cara passou a mão pelos cabelos, pensando e depois olhou para mim como se uma ideia tivesse lhe ocorrido. Ele veio até mim e me pegou pela cintura, me levantando no ar e me colocando por cima do seu ombro.
— Como você ousa? Me põe no chão! – tentei dar socos nas suas costas mas não adiantou nada. Pareceu apenas fazer cosquinhas nele. Ele apenas me ignorou e continuou andando normalmente. Mas não ia ficar assim, comecei a me mexer de um lado para o outro, tentando chutá-lo, arranhá-lo, sei lá, qualquer coisa que fizesse ele me largar.
— Eu tou tentando te salvar aqui, será que dá para ficar quieta? Você não é tão leve quanto parece!
— Você está me chamando de gorda seu machista idiota? Me ponha no chão imediatamente. – ele começou a assobiar, ignorando completamente o que eu estava dizendo.
— O que vocês dois estão fazendo aqui?
Ops, o velhinho tinha achado a gente. A cena era no mínimo suspeita. Um homem com a roupa toda amarrotada, com cara de ressaca carregando uma mulher nos ombros com a roupa toda dessarumada, e ainda mais batendo em suas costas pedindo que a soltasse. No mínimo não, totalmente suspeita.
— Nós, ér.. nós... – o cara se virou para o velhinho, me fazendo encarar um armário de vidro onde se via várias peças de porcelana dentro e dando ao velho uma boa visão do meu traseiro. Mas ele me paga, ah se paga.
— Eu não quero saber, cês dois vão dar o fora agora mermo! – ouvi o velhinho engatilhar a arma e engoli em seco.
— Calma, nós só queríamos um lugar para passar a noite.
— Mas aqui ninguém invade a casa do capitão enquanto eu tiver de guarda. Chispem daqui, seus dois depravados!
— Será que pode nos indicar a saída, senhor?
— Ué, e cês não sabe sair pelo buraco que entraram não?
— Eu quero falar com ele, vira. – falei e logo fui atendida. – É que nós não lembramos absolutamente nada da noite passada, senhor...
— Joe. Podem me chamar de Joe. Ficaram brincando até tarde não foi? – o velho deu uma olhadela maliciosa para nós e riu, expondo os quatro únicos dentes que tinha na boca. Velho tarado. – Pela esquerda, ali vocês vão encontrar a porta da frente. Se conseguirem sair antes de eu terminar de contar até dez eu não estouro os miolos de vocês.
— Muito obrigado – o cara falou e saiu me levando junto.
— 1.
— Ei, desse jeito você nunca vai chegar até lá a tempo, me coloca no chão!
— 2. – Ele me colocou no chão e eu endireitei a minha blusa, que tinha subido até metade da minha barriga.
— 3.
— 4. Já dei tempo demais. 10! – Saímos os dois correndo daquela casa, enquanto ouvíamos a risada do velhinho que agora estava na varanda.
Corremos até não podermos mais. Tá foi até a gente chegar perto de uma árvore grande e uma cerca de arame farpado. Nem foi tão longe assim. Mas serviu para demonstrar o quanto eu era sedentária. Me apoiei nos joelhos, respirando com dificuldade enquanto o meu querido companheiro se sentava à sombra à sombra da árvore. Ele não estava muito diferente de mim.
— O que diabos foi isso? – explodi.
— Não faço a mínima ideia – ele falou, ainda com dificuldades de repirar normalmente.
— Onde nós estamos? – falei o pânico presente na minha voz. Eu estava perdida no meio do nada com um cara que eu jamais tinha visto na vida. – Porque eu estou aqui com você? O que eu vou fazer? Eu preciso de um telefooone! – cada frase que eu dizia, eu ficava mais em pânico.
— Calma, a gente vai achar um jeito. – ele se levantou e colocou as mãos nos meus ombros, tentando me acalmar.
— Como? A gente tá no meio do nada! Nem animal tem por aqui! Eu nem conheço você! – falei gritando e ele suspirou.
— Se controla mulher! – ele falou me balançando freneticamente para frente e para trás pelos ombros. É, eu estava tendo um ataque de pânico. – Você tá agindo que nem uma louca, fica calma.
— Não me mande ficar calma! Eu estou calma! – gritei na cara dele e depois me dei conta que sim, eu estava agindo mesmo como uma louca.
— Meu nome é Andrew. Pronto, agora você já me conhece. Dá para parar de agir como uma louca e pensar junto comigo um modo da gente voltar para casa?
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