Last Battle
8 Tem espaço pra mais um?
Sara continuou caminhando pelo corredor da esquerda, ainda sorrindo sozinha depois de ouvir Hailey e Grace rindo atrás dela. A conversa das três havia deixado sua cabeça mais leve, mas havia outra coisa ocupando seus pensamentos.
Draco.
Ela não sabia exatamente quando aquilo havia começado. Talvez nas conversas durante os treinamentos. Talvez nas caminhadas pelos corredores. Talvez naquela primeira noite em que ele a procurara para conversar. Só sabia que, nas últimas duas semanas, acabara procurando pela presença dele quase sem perceber.
Por isso, foi direto para seu canto preferido na facção: a rede por onde os calouros desciam pela primeira vez em direção à sua nova casa.
Ao chegar, encontrou a mesma ocupada por um rapaz alto de cabelos platinados que inundava os pensamentos da ruiva.
Ele estava deitado na rede, completamente concentrado em observar as estrelas.
Sara sorriu e se aproximou.
— Tem espaço pra mais um?
Draco desviou os olhos do céu e encontrou a garota. Um sorriso imediatamente apareceu em seus lábios. Ele se afastou um pouco e fez um gesto com a mão, chamando-a para se juntar a ele.
Sara entrou na rede e se acomodou ao seu lado.
— Como foi o treino? — ele perguntou, olhando para ela.
Sara manteve os olhos no céu.
— Muito bom... Hailey é uma boa professora. Estamos progredindo. E seu dia? Como foi?
Ela se virou para encará-lo, mas foi a vez dele de olhar para cima.
— Foi tranquilo. Relembrei umas azarações e fiquei conversando com os rapazes...
— Só isso?
Draco sorriu de canto.
— Você queria que tivesse acontecido alguma coisa interessante?
— Talvez.
Ele virou o rosto para ela.
— Talvez tenha acontecido.
Sara arqueou uma sobrancelha.
— E o que aconteceu?
— Você apareceu.
Ela soltou uma risada.
— Isso foi muito ruim.
— Eu achei bom.
Os dois sorriram.
Então ficaram em silêncio, apenas observando o céu.
Por alguns minutos, nenhum deles disse nada. Era um silêncio confortável, diferente daquele que normalmente existia entre pessoas que ainda estavam tentando se conhecer. Sara já havia percebido que Draco não precisava falar o tempo inteiro. Ele parecia gostar daqueles momentos em que simplesmente podia existir sem precisar explicar quem era.
Talvez fosse justamente por isso que ela gostasse tanto de ficar perto dele.
— Sara... — Draco disse, respirando fundo.
Ela virou o rosto.
O rapaz havia se sentado.
— Eu queria te contar uma coisa.
Sara continuou deitada por mais alguns segundos, mas logo se virou, ficando de frente para ele.
— Pode contar.
Draco demorou um instante.
— Eu era um Comensal da Morte...
Sara não respondeu.
O loiro suspirou e puxou a manga da jaqueta, mostrando a Marca Negra.
A garota se sentou e analisou a tatuagem gravada no braço do rapaz.
Draco observou atentamente sua reação.
— Era uma tradição de família, digamos assim — começou a explicar, baixando a manga. — No início, eu me senti importante. Afinal, eu era o Comensal mais novo a ser recrutado com uma missão importante. A mais importante de todas.
Ele fez uma pausa.
— Mas depois que presenciei o assassinato do diretor que era pra ser cometido por mim, eu vi que cometi um grande erro.
Sara permaneceu em silêncio.
— Depois da guerra, eu fui perdoado pelo Ministério, mas nunca me pareceu suficiente. Meses se passaram quando a atual diretora me ofereceu essa missão, em acordo com o Ministério, para que eu provasse de uma vez por todas que eu realmente estava arrependido...
Draco levantou os olhos.
As íris cinzentas encontraram as negras dela.
— Estou te contando isso porque você pode ouvir muitas coisas em Hogwarts e não quero que você ache que ainda sou assim. Sei que fiz coisas imperdoáveis, mas...
Antes que Draco pudesse continuar, Sara agarrou a frente de sua camisa e o puxou para perto. O movimento foi tão inesperado que ele mal teve tempo de reagir antes que os lábios dela encontrassem os seus. Draco ficou imóvel por uma fração de segundo, surpreso pela iniciativa, sentindo o coração disparar com a mesma intensidade com que a mão dela ainda segurava o tecido de sua camisa. Então correspondeu. A mão que estava apoiada ao lado do corpo dela se moveu quase por instinto, encontrando sua cintura e segurando-a com firmeza, aproximando-a ainda mais. O beijo que começara como um impulso ganhou intensidade assim que os dois perceberam que nenhum deles pretendia recuar. Aquela tensão vinha crescendo havia algum tempo, acumulando-se em cada olhar demorado, em cada provocação, em cada momento em que ficavam próximos demais e fingiam não perceber. Talvez nenhum dos dois soubesse exatamente quando aquilo aconteceria, mas ambos tinham imaginado aquele instante.
Draco agarrou a garota pela cintura, aprofundando o beijo enquanto ela se lançava numa missão com as mãos em seu cabelo. Ele não se importou em ser delicado quando levantou a barra da blusa da garota, suas mãos entrando em contato com a pele da barriga de Sara, a fazendo se arrepiar. Ela também não se importou. Sara deslizou os dedos pela nuca dele, prendendo-se aos fios de seu cabelo. Havia desejo naquele gesto, mas também uma intimidade que nenhum dos dois havia experimentado antes.
Para Sara, aquele beijo carregava uma certeza simples: ela não estava beijando o garoto que Draco havia sido. Estava beijando o rapaz que estava diante dela naquele momento. O garoto que havia escolhido mudar, que estava tentando reparar seus erros e que acabara de confiar nela o suficiente para mostrar uma parte de seu passado que provavelmente preferia esconder. E talvez fosse justamente aquela vulnerabilidade que tornava Draco ainda mais atraente naquele instante. Sem a arrogância habitual, sem a máscara de indiferença, ele parecia simplesmente Draco.
Para ele, entretanto, aquele beijo significava algo que não sabia explicar. Pela primeira vez em sua vida, não sentiu que alguém estava interessado no sobrenome Malfoy, na família, no sangue ou na reputação. Sara estava ali por ele. E, naquele momento, quando sentiu os dedos dela ainda presos à sua nuca e a respiração quente dela misturada à sua, Draco percebeu o quanto desejava que aquele instante durasse.
Sara aproveitou para levar as próprias mãos às costas de Draco, enfiando-as por baixo da blusa e arranhando com gosto aquela área. O garoto murmurou contra a boca dela, as mãos dele apertando sua cintura.
O beijo só terminou quando o ar começou a faltar. Mesmo assim, nenhum dos dois se afastou de verdade. Permaneceram próximos, os rostos separados por poucos centímetros, respirando mais rápido. Os lábios de Sara estavam vermelhos e ligeiramente entreabertos, e Draco ainda mantinha uma das mãos em sua cintura. Por alguns segundos, eles apenas se encararam, como se tentassem entender o que acabara de acontecer.
Sara desviou os olhos primeiro.
— Desculpa. Eu...
Ela começou a sair da rede, mas Draco foi mais rápido. Seus dedos encontraram a mão dela, a seguraram e ele a colocou sentada em seu colo antes que ela pudesse se afastar completamente. Sara mal teve tempo de levantar os olhos antes que Draco a beijasse novamente.
Dessa vez, não havia surpresa.
Sara correspondeu imediatamente. Suas mãos voltaram para o corpo dele, uma repousando sobre seu peito e a outra alcançando sua nuca. Ela apoiou as mãos no ombro dele e enlaçou suas pernas no corpo do garoto, ele a segurando pela bunda enquanto aproveitava para passar suas mãos pela região. O beijo se prolongou, mais confiante, como se os dois estivessem descobrindo aos poucos aquilo que haviam tentado ignorar durante semanas. Sara sentiu a pressão da mão dele e um arrepio percorreu seu corpo. Quando Draco se afastou apenas o suficiente para respirar, ela permaneceu perto, os olhos ainda fechados por um instante, como se não quisesse que o momento terminasse.
Quando finalmente abriu os olhos, encontrou Draco olhando para ela.
Ela sorriu.
— Por que você me beijou?
Um sorriso discreto apareceu nos lábios dele.
— Por que você me beijou?
— Eu perguntei primeiro.
— E eu quero saber primeiro.
Sara soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.
— Bem... eu não queria que você se achasse tão asqueroso. Sabe, Draco, as pessoas mudam, mas o passado não. Tudo bem que você seguiu o lado errado algum dia. O que importa é que você se encontrou. Obrigada por ter compartilhado isso comigo.
Draco ficou olhando para ela por alguns segundos. A expressão brincalhona desapareceu pouco a pouco, dando lugar àquela vulnerabilidade que Sara começava a reconhecer.
— Por isso que eu te beijei.
Ela franziu a testa, confusa.
— Te beijei porque você não teve medo ou repulsa de mim pelas coisas que eu fiz. Você me entendeu e me aceitou.
Sara sorriu. Levou a mão até o rosto dele e passou os dedos suavemente pela lateral de sua mandíbula.
— É claro que sim. Você merece uma segunda chance, mesmo que ache que não é digno.
Draco abaixou os olhos por um instante, como se aquelas palavras tivessem atingido um lugar que ele normalmente mantinha protegido. Quando voltou a encará-la, havia uma vulnerabilidade que Sara ainda não tinha visto nele.
— Eu estou gostando de você, Sara.
Ele ergueu a mão e acariciou o rosto da audaciosa, passando o polegar suavemente por sua bochecha.
— Você é a única que me chamou a atenção de verdade e a única que realmente conseguiu ver em mim algo bom.
Sara sustentou o olhar dele, sentindo o próprio coração acelerar novamente. Havia algo perigosamente íntimo naquele momento. A maneira como Draco a tocava, o cuidado inesperado de seus dedos contra sua pele, a proximidade entre os dois. Ela inclinou o rosto levemente contra a mão dele, sem quebrar o contato visual.
Os dois permaneceram assim por alguns segundos.
Então Sara se aproximou.
Draco também.
O beijo aconteceu novamente, dessa vez sem qualquer hesitação. Draco agarrou a cintura dela, enquanto Sara passou os braços ao redor do pescoço dele. O corpo dos dois se aproximou mais ainda, e o beijo ganhou uma intensidade que fez ambos esquecerem, por alguns instantes, onde estavam. Não havia pressa, mas havia vontade. Uma vontade crescente de permanecerem juntos, de prolongar cada segundo daquele contato.
Quando finalmente romperam o beijo para respirar, Sara permaneceu com a testa encostada na dele.
Ela passou alguns segundos observando seu rosto antes de sorrir.
— Ei... posso ver sua marca de novo?
Draco pareceu surpreso.
— Minha marca?
— Quero olhar melhor.
Ele hesitou por um instante, mas assentiu.
— Claro.
Draco puxou a manga da jaqueta novamente e expôs o antebraço. Com a varinha, lançou um pequeno feitiço de iluminação, fazendo a Marca Negra ficar mais visível. Sara se aproximou para observá-la. Seus olhos percorreram cuidadosamente o desenho da serpente saindo do crânio, reparando nos detalhes da criatura e no brilho dos olhos.
— Eu sempre gostei de cobras...
Ela então puxou a blusa ligeiramente para cima, revelando a lateral esquerda da barriga. Ali estava sua própria tatuagem: uma serpente preparada para dar o bote, os olhos vermelhos destacados contra a pele.
Draco olhou primeiro para a tatuagem.
Depois, para Sara.
Um sorriso lento apareceu em seu rosto.
— Você realmente gosta de cobras.
— Eu falei.
— Eu sei.
Ele se inclinou e deixou um beijo rápido próximo à tatuagem, fazendo Sara se contrair imediatamente e soltar uma risada.
— Faz cócegas, Draco!
Ele ergueu o rosto, rindo.
— Me desculpe.
Sara balançou a cabeça, ainda sorrindo, e puxou-o novamente pela gola da camisa.
— Você não parece arrependido.
— Não estou nem um pouco.
Ela estreitou os olhos, divertida.
— Convencido.
— Você continua aqui.
Sara tentou esconder o sorriso.
Não conseguiu.
Pouco depois, os dois voltaram a se beijar. O ritmo era mais tranquilo agora, mas a atração continuava evidente em cada aproximação, em cada toque demorado e em cada vez que um deles parecia prestes a se afastar e acabava permanecendo exatamente onde estava. Até que, finalmente, perceberam que precisavam ir dormir. Teriam um longo dia de treino pela frente.
Os dois saíram da rede de mãos dadas. Os dedos permaneceram entrelaçados enquanto caminhavam pelo corredor, e nenhum dos dois parecia disposto a soltar primeiro. Chegaram ao corredor oeste, onde ficava o dormitório de Sara, enquanto Draco precisaria seguir para o corredor leste, onde dividia o quarto com Quatro e Gareth.
Quando chegou o momento de se separarem, Sara soltou lentamente a mão dele.
Draco, porém, segurou-a novamente.
A mão livre encontrou a cintura dela e a puxou de volta, fazendo Sara parar diante dele.
— Te vejo amanhã?
Ela sorriu.
— Com certeza...
Draco se inclinou e a beijou mais uma vez. Foi um beijo mais breve, mas ainda carregado daquela mesma tensão que parecia existir entre os dois desde o primeiro instante em que perceberam que havia algo diferente acontecendo.
Quando se afastaram, permaneceram próximos por alguns segundos.
— Boa noite.
— Boa noite, Draco.
Sara finalmente entrou no quarto.
Draco permaneceu parado no corredor por um instante, observando a porta se fechar. Um sorriso surgiu em seu rosto antes que ele passasse a mão pelos cabelos e seguisse pelo corredor oposto, levando consigo a sensação daquele beijo e a certeza de que, a partir daquela noite, alguma coisa entre os dois havia mudado.
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