Last Battle
20 Sara e Hades
Sara não desviou os olhos do homem à sua frente. O frio que havia tomado a sala comunal já não parecia vir das paredes de pedra ou das águas escuras do lago. Vinha dele. Havia algo naquela presença que fazia Sara sentir que estava diante de uma coisa muito antiga, algo que existia antes de Hogwarts, antes da Audácia e antes de tudo o que ela julgava conhecer. As sombras pareciam se acomodar ao redor daquele homem como se o reconhecessem, e até o silêncio do ambiente parecia obedecê-lo.
Draco permaneceu ao lado dela, atento.
— Quem é você?
O homem finalmente voltou os olhos para ele.
— Alguém que veio falar com a filha.
A palavra atingiu Sara com uma força inesperada. Ela olhou para Draco e depois para o desconhecido.
— Então... é você.
— Sou.
Sara passou a língua pelos lábios, tentando organizar a quantidade absurda de pensamentos que surgiam ao mesmo tempo.
— Certo. Isso explica a entrada dramática.
O homem ergueu uma sobrancelha.
— Entrada dramática?
Sara apontou para a lareira apagada.
— Você podia ter batido na porta. Assustaria menos.
Por um instante, o rosto dele permaneceu completamente impassível. Então um movimento quase imperceptível apareceu no canto de sua boca.
— Você é exatamente como ela.
O sorriso de Sara desapareceu.
— Minha mãe?
— Sim.
A resposta foi suficiente para fazê-la esquecer qualquer tentativa de brincadeira.
— Eu quero saber mais dela.
Draco olhou para ela. Havia preocupação em seus olhos, mas também a compreensão de que aquela conversa pertencia a Sara. Hades percebeu e olhou diretamente para ele.
— Deixe-nos.
Draco não se moveu imediatamente.
— Eu vou ficar na escada.
Hades o encarou.
— Por quê?
— Porque, se ela precisar de mim, estarei perto.
Sara olhou para o namorado e sorriu de leve.
— Ele é teimoso.
— Percebi.
Draco aproximou-se dela, segurou seu rosto com delicadeza e beijou sua testa.
— Se precisar de mim, chama.
— Eu chamo.
Ele lançou um último olhar para Hades e então se afastou. Não havia hostilidade mas havia imposição independente de qualquer coisa. Ele subiu alguns degraus da escada que levava aos dormitórios e permaneceu ali, longe o suficiente para lhes dar privacidade, mas perto o bastante para que Sara soubesse que não estava sozinha.
Quando ficaram apenas os dois, Sara voltou-se para o homem que acabara de descobrir ser seu pai.
— Então você é Hades.
Dessa vez, ele não corrigiu nem confirmou. Apenas a observou, e Sara entendeu que não havia necessidade.
— Eu passei dezessete anos sem saber sequer seu nome.
— Foi uma decisão minha e da sua mãe.
Sara cruzou os braços.
— Então vamos começar por ela. Qual o nome dela? Os meus registros da Erudição foram apagados e nunca ninguém me contou. Eu tive que criar um sobrenome para mim.
Hades permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Amelia Veyne.
Sara repetiu o nome baixinho.
— Amelia Veyne.
Era estranho. Durante toda a vida, sua mãe havia sido apenas uma ausência acompanhada de meia dúzia de informações vagas. Nunca tivera um nome que pudesse pronunciar. Nunca tivera uma história.
— Como ela era?
Pela primeira vez, algo diferente atravessou a expressão de Hades. Não era exatamente tristeza. Era uma lembrança antiga, cuidadosamente guardada.
— Tinha cabelos ruivos acobreados, longos e levemente ondulados. Os olhos eram verde-acinzentados. A pele clara e os traços delicados faziam com que parecesse mais frágil do que realmente era. Não era. Amelia era inteligente, curiosa e tinha o hábito irritante de fazer perguntas para as quais já sabia que eu não queria responder. Mas eu respondia só para vê-la sorrir.
Sara sorriu.
— Então eu realmente puxei isso dela.
– Sim...
O sorriso dela cresceu, mas desapareceu quando Hades continuou.
— Ela era uma bruxa. Estudou aqui em Hogwarts vinte anos atrás.
Sara ficou séria.
— Eu nunca soube disso... claro, pela lógica de você ser um deus faz sentido. Mas eu não tinha parado pra pensar...
— Essa era a intenção.
— E como vocês se conheceram?
Hades caminhou lentamente pela sala enquanto falava, como se reconstruísse uma história que havia passado anos evitando revisitar.
— Na Erudição. Eu estava naquele mundo por motivos próprios. Amelia trabalhava para k Ministério da Magia dos Estados Unidos e passou a fazer parte daquela sociedade como um disfarce para proteger o mundo bruxo e, inicialmente, não sabia quem eu era. Nós começamos conversando. Depois vieram os encontros. Ela queria entender por que eu parecia saber coisas que não deveria; eu queria entender por que uma mortal tinha tanta dificuldade em aceitar que algumas perguntas não precisavam de respostas.
Sara sorriu de lado.
— Ela não desistiu?
— Nunca. Ela era muito esperta. Ela sabia perguntar de formas que, quando eu percebia, já tinha falado mais do que devia
A resposta veio acompanhada de uma sombra de lembrança no rosto dele.
— Aos poucos, aquilo deixou de ser apenas curiosidade. Nós nos apaixonamos.
Sara ficou quieta. Hades raramente parecia vulnerável, mas havia alguma coisa na forma como pronunciara aquelas palavras que deixava claro que Amelia não tinha sido apenas uma passagem em sua existência.
— Quando você contou quem era?
— Quando percebi que não poderia continuar mentindo para ela.
— E ela ficou?
— Ficou.
Hades parou diante de uma das janelas.
— Amelia era uma bruxa muito inteligente. Sendo estudante da Corvinal, não era de se esperar menos. Aceitar que deuses existiam foi mais fácil para ela do que aceitar que eu pudesse desaparecer sem explicação.
Sara soltou uma pequena risada.
— Definitivamente sou filha da minha mãe.
Hades quase sorriu.
— Quando descobrimos que ela estava grávida, a realidade mudou. Eu sabia o que significava ter uma filha minha naquele mundo. Amelia também.
— Por causa dos deuses?
— Por causa de tudo que vem com a divindade.
Hades voltou-se para Sara.
— Você não era apenas filha de Amelia. Era filha de um deus. E, uma vez que sua existência fosse descoberta, não seriam apenas bruxos ou pessoas da Erudição que poderiam procurá-la. Monstros também poderiam encontrá-la.
Sara perdeu o sorriso.
— Semideuses atraem monstros. Alguns conseguem perceber a presença daquilo que há no sangue deles. Quanto mais sua natureza divina se manifestasse, maior seria o risco de ser localizada.
A compreensão atingiu Sara lentamente.
— Então, se alguém descobrisse quem eu era...
— Você poderia ser encontrada, atacada e morta...– Hades não suavizou a resposta — Amelia sabia disso. E, por ser bruxa, conhecia uma forma de esconder não apenas você, mas o próprio segredo da sua existência.
Sara franziu a testa.
— Que forma?
— O feitiço Fidelius.
O nome pareceu familiar. Hailey já havia mencionado aquele feitiço antes.
— O mesmo feitiço usado pelos Potter. Sua prima, Hailey, pode te explicar melhor como funciona.
Hades voltou a caminhar pela sala.
— Amelia lançou o feitiço e protegeu a sua existência. Fora outros encantamentos que ela não me explicou. Não era simplesmente esconder uma criança atrás de uma parede ou tornar uma casa impossível de encontrar. Enquanto o segredo permanecesse protegido, aqueles que não o conheciam não poderiam simplesmente encontrar você seguindo sua verdadeira identidade. E você usar outro sobrenome ajudou na discrição...
Sara permaneceu em silêncio, absorvendo aquilo.
— Então ela te escondeu do mundo. Do mundo que poderia destruí-la. Principalmente daqueles que poderiam sentir o que você era.
Sara passou os braços ao redor do próprio corpo.
— Pouquíssimas pessoas sabiam.
Sara ergueu os olhos.
— Então o feitiço não impedia você de me encontrar?
— Claro que não. Sou Hades. Um deus.
A resposta veio imediatamente.
— O Fidelius não apagava você de mim. Eu era o fiel do segredo. Eu sabia onde você estava. Sabia quem você era. E, enquanto permanecesse distante, podia observá-la sem quebrar a proteção que sua mãe havia criado.
Sara ficou alguns segundos em silêncio.
— Você me observava?
— Quando podia. Sem interferir.
— Por quê?
Hades sustentou o olhar dela.
— Porque a proteção dependia de você permanecer escondida. Se eu me aproximasse, se outras pessoas percebessem minha ligação com você, se sua existência começasse a circular novamente, o risco aumentaria. Eu não podia permitir que aquilo que Amelia havia feito antes de morrer perdesse o sentido. Fora que eu era o fiel do segredo. Então, só através de mim alguém te encontraria.
Sara baixou os olhos.
De repente, aqueles dezessete anos pareciam diferentes. O abandono continuava doendo, mas agora havia uma explicação por trás da distância. Hades não estivera ausente porque não sabia onde ela estava. Ele estivera longe justamente porque sabia.
— Então... Decidimos que você teria a oportunidade de crescer sem ser procurada por pessoas que poderiam usar sua existência contra mim. Para isso, era preciso que ninguém soubesse quem você era.
Sara ficou alguns segundos em silêncio.
— Nem eu.
— Principalmente você.
A resposta doeu mais do que ela esperava.
— E ela concordou com isso?
— Foi uma decisão dos dois.
Hades demorou antes de continuar. O silêncio tomou a sala. Sara já sabia que sua mãe havia morrido no parto, mas ouvir aquilo dele fazia a informação parecer diferente. Mais próxima. Mais real.
— Ela me viu antes de morrer?
— Sim.
— Sabia que eu estava viva?
— Sabia.
Sara desviou os olhos.
— E você estava lá?
— Estava.
Sara ficou imóvel por um instante. A pergunta seguinte surgiu quase sem que ela conseguisse impedi-la.
— Se você é o deus dos mortos... então ela está no Submundo?
Hades sustentou o olhar da filha. Por alguns segundos, não respondeu, como se escolhesse cuidadosamente o quanto deveria revelar.
— Está.
Sara sentiu o peito apertar.
— Ela está bem?
A expressão de Hades suavizou-se de maneira quase imperceptível.
— Amelia está bem, Sara.
Ela respirou fundo, mas ainda parecia precisar de outra resposta.
— Ela... sabe de mim?
— Sabe.
A voz dele ficou mais baixa.
— E ama muito você.
Sara sentiu os olhos arderem.
— Ela nunca me esqueceu?
— Nunca.
Hades não acrescentou mais nada. Havia algo na maneira como encerrou a resposta que deixava claro que ainda existiam muitas coisas sobre Amelia que ele não estava disposto a revelar.
Sara desviou os olhos, tentando controlar a emoção.
— Depois da morte dela, você foi embora.
Hades não tentou negar.
— Depois eu fiz o que havia prometido a ela.
Sara ergueu os olhos.
— Me esconder.
— Sim. Sobretudo depois da morte dela.
Sara riu sem humor.
— Deve ser fácil chamar isso de proteção quando não é você quem está crescendo sem saber de onde veio.
Hades recebeu a acusação em silêncio.
— Não disse que foi fácil — disse por fim. — Foi necessário.
Sara ficou quieta. Hades se aproximou um pouco.
— Depois da morte de Amelia, algumas pessoas que conheciam sua origem continuaram responsáveis por mantê-la protegida. Poucas pessoas na Erudição sabiam que ela era uma bruxa. Menos ainda sabiam quem era seu pai. Essas pessoas cuidaram para que você fosse levada a um orfanato e para que sua verdadeira origem permanecesse escondida. Por isso seus registros foram apagados
Sara sentiu um arrepio.
— Eles me desprezavam.
— Algumas delas tinham medo de você.
A resposta veio sem rodeios.
— Elas sabiam que você era filha de uma bruxa. Algumas conheciam apenas a parte mágica da história; outras sabiam quem eu era. Para elas, você não era somente uma criança órfã. Era alguém cuja existência poderia atrair coisas que elas não compreendiam.
Sara abaixou os olhos.
De repente, lembranças antigas começaram a adquirir outro significado. Os olhares que nunca entendera. O cuidado exagerado para que ela não fizesse perguntas. A maneira como certos adultos pareciam desconfortáveis quando ela falava sobre a própria mãe. O desprezo que, durante anos, acreditara ser simplesmente crueldade.
— Então elas tinham medo de mim.
— Tinham medo daquilo que sua existência significava.
Sara ergueu os olhos.
— E você me observava?
— Quando podia.
— Sem se aproximar.
— Sem interferir.
— Por quê?
Hades sustentou o olhar dela.
— Porque, se eu quebrasse o acordo, tudo o que havíamos feito para protegê-la perderia o sentido.
Sara respirou fundo. Aquela explicação não apagava os anos de abandono, mas pela primeira vez ela conseguia enxergar a lógica por trás deles.
— Você se arrepende?
Hades demorou um instante.
— De não ter podido ser seu pai? Sim. De ter mantido você viva e longe de tudo aquilo? Não.
A sinceridade da resposta a desarmou. Ele levantou a mão e tocou de leve o rosto da filha. O gesto era tão diferente da figura sombria que havia surgido minutos antes que Sara ficou imóvel.
— Você cresceu forte — disse ele.
Sara soltou um pequeno sorriso.
— Acontece.
— Sua mãe tem orgulho de você.
Sara baixou os olhos.
— Você sente falta dela?
Hades ficou em silêncio por alguns segundos.
— Todos os dias.
Sara percebeu que havia coisas naquele silêncio que ele não diria.
— Me conta mais sobre ela.
— Ainda não.
Ela o encarou.
— Por quê?
— Porque não.
Sara franziu a testa. Hades não respondeu.
Foi a primeira vez que Sara não insistiu imediatamente. Havia alguma coisa diferente na maneira como ele dissera aquilo. Não parecia uma simples lembrança dolorosa. Parecia um aviso.
— Você está escondendo alguma coisa?
— Estou.
A honestidade inesperada a fez estreitar os olhos.
— Pelo menos você admite.
— Algumas verdades não podem ser entregues de uma vez.
— E quando eu puder saber?
— Quando souber o suficiente para entender o que está perguntando.
Sara soltou o ar pelo nariz.
— Isso foi irritantemente misterioso.
— Foi intencional.
Ela quase riu.
— Claro que foi.
Por alguns segundos, permaneceram em silêncio. Então Sara olhou para a escada.
— E o Draco?
A expressão de Hades mudou imediatamente.
— O que tem ele?
— Você já sabe sobre, né?
— Sei.
Sara cruzou os braços.
— E está preocupado comigo?
Hades não respondeu, mas seu olhar foi suficiente.
— Ele é um Malfoy — disse por fim – Uma família perigosa. Já perdi muito de você pra te proteger pra alguém perigoso entrar na sua vida deliberadamente
— Eu entendo sua preocupação.
Hades a encarou por alguns segundos.
— Ele trata você bem?
— Trata.
— E você está feliz?
A pergunta não carregava julgamento. Havia preocupação genuína nela, quase desconfortável para alguém que parecia tão pouco acostumado a demonstrá-la.
— Estou. Eu me sinto bem com ele. Draco não tenta decidir por mim, não me trata como se eu fosse frágil e não tem medo da parte complicada da minha vida. Ele sabe quem eu sou e, mesmo assim, escolhe ficar.
Hades lançou outro olhar para a escada.
— Então ele terá a oportunidade de provar que merece continuar.
Sara arqueou uma sobrancelha.
— Isso foi uma ameaça?
— Foi.
Ela soltou uma risada.
— Você realmente é meu pai.
Pela primeira vez, Hades sorriu de verdade. Foi pequeno e rápido, mas existiu.
— Infelizmente para ele.
Sara riu.
— Pai...
A palavra saiu naturalmente. Hades ficou imóvel. Sara percebeu o que havia feito, mas não recuou.
— Desculpa. Foi automático.
— Não precisa se desculpar – voz dele estava mais baixa — Eu esperei muito tempo para ouvir isso.
Sara engoliu em seco.
— Então aproveita.
Hades tocou novamente seu rosto.
— Eu perdi dezessete anos.
— Ainda dá para recuperar alguns.
Ele a observou por um longo instante.
— Talvez.
Dessa vez, porém, não pareceu uma promessa vazia. As sombras começaram a se mover pelo chão. Sara olhou para elas.
— Você vai embora?
— Sim.
— E eu vou ver você de novo?
Hades caminhou até a parte mais escura da sala.
— Você vai me ver quando chegar a hora.
— Você poderia, pelo menos uma vez, dar uma resposta normal?
Ele lançou um olhar por cima do ombro.
— Não sou exatamente conhecido por isso.
Sara sorriu. Hades parou diante da escuridão. Antes de desaparecer, voltou-se para ela le lançando a sombra de um sorriso. E então desapareceu.
Não houve explosão de magia. Nenhum clarão. Apenas escuridão. As sombras subiram por seus pés, envolveram seu corpo e o levaram para algum lugar que Sara não conseguia ver. Por um último segundo, os olhos negros dele permaneceram visíveis no meio da penumbra.
E então a sala comunal voltou ao normal.
Sara ficou parada diante do espaço vazio, tentando organizar tudo o que acabara de descobrir. Amelia Veyne. Uma bruxa da Erudição. Uma mulher que amara Hades. Uma mãe que morrera ao dar à luz. Uma mulher que, sabendo que a filha carregava sangue divino e que isso poderia atraí-la para o mundo dos monstros, usara o próprio conhecimento mágico para escondê-la. O Fidelius havia protegido a existência de Sara durante dezenove anos, mantendo-a fora do alcance daqueles que poderiam encontrá-la por aquilo que corria em suas veias. Pessoas que conheciam parte da verdade a levaram para um orfanato e mantiveram o segredo. Hades, que já conhecia a verdade, conseguira observá-la de longe sem quebrar a proteção. E agora ele havia aparecido depois de dezenove anos justamente quando Sara começava a descobrir que sua existência estava ligada a muito mais do que imaginava.
Sara ainda estava olhando para o lugar onde Hades desaparecera quando ouviu os passos de Draco descendo a escada.
— Ele foi embora?
Ela se virou.
— Foi.
Draco aproximou-se sem fazer perguntas. Apenas abriu os braços, e Sara foi até ele, envolvendo sua cintura e apoiando o rosto em seu peito. Ele a abraçou imediatamente e beijou seus cabelos.
— Está tudo bem?
— Não sei.
Draco não pressionou.
— Quer conversar?
Sara permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Depois.
— Tudo bem.
Ela ergueu o rosto.
— Descobri o nome da minha mãe. Amelia Veyne.
Draco assentiu.
— E descobri que ela era uma bruxa. Que meu pai a conheceu na Erudição, que eles se apaixonaram, que ela engravidou de mim e que os dois decidiram me esconder para me proteger.
Draco acariciou seus cabelos.
— E Hades?
Sara olhou novamente para o lugar onde ele havia desaparecido.
— Ele não me contou tudo.
— Você esperava que contasse?
— Não.
Sara entrelaçou os dedos nos dele.
— E teve outra coisa.
— O quê?
— Ele disse para eu não escolher entre as partes de quem eu sou.
Draco ficou pensativo.
Sara olhou para as próprias mãos.
— Acho que Hades sabe que alguma coisa está acontecendo. Alguma coisa que envolve a minha origem. Talvez até Amelia.
Draco apertou sua mão.
— E você vai descobrir.
Sara sorriu de leve.
— Com certeza.
Os dois começaram a caminhar pelo corredor. Dessa vez, porém, Sara não olhou para trás.
Ela ainda não tinha todas as respostas. Havia lacunas na história de Amelia, informações que Hades havia deliberadamente escondido e um motivo desconhecido para ele ter escolhido aquele momento para finalmente se revelar. Mas agora os mistérios estavam conectados. Sua mãe não havia sido apenas uma bruxa esquecida pela Erudição. Ela sabia que a filha, por ser semideusa, poderia ser encontrada e atacada por monstros, e por isso havia usado o Fidelius para esconder a própria existência de Sara. Perguntaria de Hailey como o feitiço funcionava quando a visse. O segredo havia sobrevivido à morte de Amelia e protegido a garota durante todos aqueles anos. As pessoas que a criaram sabiam mais do que disseram. Hades ainda sabia mais do que contou.
E, se ele finalmente decidira sair das sombras dezessete, alguma coisa deveria ter mudado.
Sara só não sabia ainda o quê.
Atrás deles, na sala comunal vazia, uma última sombra passou pela parede.
Por um instante, uma chama negra surgiu na lareira.
E então desapareceu.
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