Last Battle

21 Grace e Poseidon


Aquela certeza permaneceu entre Grace e o homem que acabara de sair das águas. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. O Lago Negro continuava estranhamente quieto ao redor deles, como se até a água estivesse esperando para descobrir o que aconteceria a seguir. Grace sentia o próprio coração bater com força, não por medo, mas pela estranha sensação de finalmente estar diante de alguém que conhecia desde sempre sem jamais ter realmente conhecido. Ela sabia quem ele era. Sabia desde criança. Sabia que era filha de Poseidon, sabia que Percy era seu irmão, sabia que os deuses existiam e que aquela parte de sua vida não era uma fantasia. Mas saber não era a mesma coisa que olhar para o próprio pai pela primeira vez. E havia uma diferença ainda maior entre olhar para ele e perceber que ele havia escolhido aparecer naquele dia, depois de dezenove anos em que ela nunca tivera a oportunidade de encará-lo e perguntar tudo aquilo que vinha guardando.

Tobias apertou discretamente a mão dela. Não disse nada. Apenas ficou ali, ao lado dela, deixando que Grace decidisse o que fazer.

O homem desviou os olhos para ele por um instante, avaliando-o com uma atenção que fez Tobias endireitar ligeiramente os ombros. Não havia hostilidade explícita naquele olhar, mas havia algo muito paternal nele. Aquele tipo de avaliação silenciosa que dizia, sem precisar de palavras, que o homem diante dele não era apenas um rapaz qualquer. Era alguém que estava ao lado da filha.

Grace percebeu.

— Não começa — disse ela, antes mesmo que Poseidon abrisse a boca.

Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.

— Eu nem disse nada.

— Mas eu conheço essa cara.

— Você acabou de me conhecer.

Grace arqueou uma sobrancelha.

— Biologicamente, não.

O sorriso dele aumentou.

— Justo.

Tobias soltou uma risada baixa, e Grace lançou um olhar rápido para ele.

— Você não está ajudando.

— Eu não disse nada.

— Exatamente. Está se divertindo em silêncio.

Poseidon olhou novamente para Tobias e depois para Grace. Havia uma curiosidade genuína em seus olhos.

— Ele é sempre assim?

Grace soltou um suspiro exagerado.

— Certamente.

— Por isso você me ama — Tobias respondeu, tranquilo.

— Infelizmente, muito.

Poseidon riu. Foi uma risada baixa e genuína, muito diferente da imponência que carregava quando surgira do lago. Por um instante, parecia simplesmente um homem conhecendo a filha e tentando entender o tipo de pessoa que fazia sua garota sorrir daquele jeito.

Então ele voltou a olhar para Grace.

— Podemos conversar?

A pergunta veio simples, sem imposição. Grace olhou para Tobias. Ele entendeu imediatamente.

— Eu vou ficar por perto.

Poseidon assentiu.

— Eu imaginei.

Grace estreitou os olhos.

— Isso foi uma ameaça?

— Não. Foi uma constatação.

Tobias aproximou-se dela e beijou sua testa, demorando um pouco mais do que o necessário antes de se afastar.

— Se precisar de mim, chama. Eu vou ficar ali perto da cabana de Hagrid.

— Eu sei. E não precisa ficar se preocupando a cada cinco segundos.

— Eu não me preocupo a cada cinco segundos.

Grace sorriu.

— Você se preocupa a cada três.

Ele soltou uma risada e começou a caminhar na direção da cabana. Grace observou-o se afastar até vê-lo parar próximo à porta, exatamente onde prometera ficar. Perto o bastante para ouvi-la se chamasse, mas longe o suficiente para não invadir a conversa.

Ela voltou-se para Poseidon.

Os dois começaram a caminhar lado a lado pela margem do lago em silêncio. Grace não precisou perguntar para onde estavam indo. A presença de Poseidon parecia alterar a própria atmosfera ao redor deles. A umidade no ar aumentava, o vento trazia o cheiro de água e terra molhada, e até as folhas das árvores próximas pareciam se mover em uma direção que não obedecia completamente ao vento. Quando chegaram à orla da Floresta Proibida, a pequena cabana de Hagrid apareceu entre as árvores, isolada o suficiente para garantir privacidade.

Grace olhou para Tobias uma última vez. Ele fez um gesto com a cabeça, como quem dizia "fica tranquila".

Ela voltou a atenção para o pai.

— Então… você aparece do nada no lago, faz todos os animais aquáticos de Hogwarts parecerem parte de uma cerimônia de coroação e me traz até a floresta.

— Quando você coloca dessa maneira, parece exagerado.

— Porque foi exagerado.

Poseidon riu.

— Você se parece com sua mãe quando está fazendo isso.

Grace sorriu de canto.

— Minha mãe diria que você está se exibindo.

— Sua mãe sempre teve essa habilidade de pontuar minhas ações como exageradas.

Grace deixou o sorriso permanecer por alguns segundos, mas ele desapareceu lentamente quando a conversa inevitavelmente chegou ao ponto que ela vinha evitando.

— Por que agora?

Poseidon ficou em silêncio. Grace não desviou o olhar.

— Eu não estou perguntando por que você veio até Hogwarts. Estou perguntando por que veio até mim agora.

Ele respirou fundo.

— Porque algumas coisas estão mudando.

— Isso é exatamente o tipo de resposta que os deuses dão quando não querem respondera verdade.

— E você continua sendo exatamente o tipo de filha que faz perguntas que não posso responder.

— Então estamos empatados. Somos dois teimosos.

Poseidon sorriu, mas dessa vez havia tristeza em seus olhos.

— Grace, eu sabia que esse momento chegaria. Eu sabia que algum dia você teria perguntas demais para aceitar minhas respostas pela metade.

Ela desviou o olhar por um instante.

— Eu tenho perguntas demais há anos.

— Eu sei.

— Não. Você não sabe!

Poseidon permaneceu quieto.Grace respirou fundo.

— Você apareceu pro Percy. Mais vezes do que qualquer deus poderia.

O sorriso desapareceu completamente do rosto dele.

— Conversou com ele. Ajudou ele. Esteve presente em momentos importantes da vida dele.

— Grace…

— Eu sei que as coisas entre deuses e filhos são complicadas. Eu cresci sabendo disso. Eu sempre soube quem você era. Nunca precisei descobrir aos dezesseis anos que meu pai era um deus. Mas isso não significa que nunca tenha me perguntado por que você aparecia para ele e nunca para mim.

Poseidon abaixou os olhos por alguns segundos.

— Porque Percy estava no centro de coisas que poderiam tê-lo matado.

Grace soltou uma pequena risada sem humor.

— E eu não?

— Você também esteve.

— Então por quê eu fui deixada de lado?

Ele ergueu os olhos novamente.

— Porque você estava mais protegida.

Grace franziu a testa.

— Isso parece conveniente.

— Não é uma desculpa. É a verdade.

— Então me explica. Porque eu não consigo ver como eu estive mais protegida que o seu filho preferido.

Poseidon assentiu.

— Sua mãe fez uma escolha muito diferente de muitas outras mães de semideuses. Ela sabia quem eu era desde o início. Sabia o que significava você ser minha filha quando ela ficou grávida. E, principalmente, sabia que você não precisava crescer acreditando que era menos humana por ser uma semideusa. Ela quis que você tivesse uma infância. Uma vida. Amigos. Escola. Brigas adolescentes. Tudo aquilo que Percy nunca teve da mesma maneira. E te protegeu.

Grace ficou em silêncio.

— E você respeitou isso? Mesmo sem aparecer?

— Especialmente por isso.

Grace soltou o ar lentamente.

— Isso não melhora as coisas.

— Não precisa melhorar.

Ela franziu a testa.

— Não?

— Não. Você tem o direito de estar magoada comigo.

A resposta a pegou desprevenida. Grace esperava uma justificativa divina, alguma explicação grandiosa, alguma frase sobre destino. Não aquilo. Poseidon continuou:

— Eu não vou pedir que você finja que não sentiu minha falta só porque existia uma razão para eu permanecer distante.

Grace ficou alguns segundos olhando para ele.

— E eu tive ciúme do Percy.

Poseidon sorriu de leve.

— Eu também teria se fosse você.

Grace soltou uma risada.

— Você é sempre assim?

— Assim como?

— Irritantemente tranquilo.

— Não. Às vezes sou pior.

Grace finalmente riu de verdade. O peso no peito diminuiu um pouco. Poseidon observou a filha por alguns segundos antes de continuar.

— Há outra coisa que você precisa entender sobre a sua história.

Grace inclinou a cabeça.

— Eu tenho a impressão de que vem uma resposta que eu não vou gostar.

— Talvez seja uma resposta que você nunca soube que precisava.

Ele fez uma breve pausa.

— Sua mãe era uma bruxa.

Grace parou de andar. O coração pareceu dar um salto. Durante alguns segundos, ela apenas encarou Poseidon.

— Então é verdade?

Ele franziu levemente a testa.

— Você já sabia?

Grace soltou o ar devagar. Ela passou a mão pelos cabelos, ainda tentando organizar os pensamentos.

— Quíron me contou que eu tenho sangue mágico. Antes dessa missão, eu nunca tinha desconfiado. Nunca soube que havia alguma coisa além do sangue de semideusa em mim. Então comecei a pensar. Se existe sangue mágico em mim e você é meu pai… e você não é bruxo... só tinha uma possibilidade...

Poseidon sorriu de leve.

— Sua mãe.

— Exatamente.

Ela soltou uma pequena risada.

— Eu queria perguntar para ela. De verdade. Mas descobri isso uma hora antes de sair em missão e não tive tempo. Depois tudo aconteceu tão rápido que eu simplesmente não consegui voltar ao assunto.

Poseidon assentiu. Grace ficou olhando para ele.

— Por que ela nunca me contou?

Poseidon não respondeu imediatamente.

— Porque sua história é mais complicada do que simplesmente ter sangue mágico.

Grace franziu a testa.

— O que isso significa?

— Significa que há coisas sobre a sua mãe e sobre a família dela que você nunca soube.

— Como o quê?

Poseidon voltou a caminhar lentamente, e Grace o acompanhou.

— Primeiro, existe algo que você precisa saber sobre o sobrenome Vance que você conhece.

Grace franziu a testa. Ela parou.

— O que tem ele?

Poseidon a encarou por alguns segundos.

— Vance não é o verdadeiro sobrenome da sua mãe.

Grace ficou completamente imóvel.

— O quê?

— Seu sobrenome verdadeiro é Blackthorn.

Grace ficou em silêncio.

— Blackthorn?

— Sim. Você cresceu conhecendo o nome Vance, e é assim que ela precisava ser conhecida.

Grace estreitou os olhos.

— Você está dizendo que...

— Que Vance foi uma identidade criada para proteger você – a expressão de Grace mudou completamente – É um nome de proteção. Um nome criado para que ninguém pudesse rastrear facilmente a sua verdadeira linhagem.

Grace passou a mão pelos cabelos.

— Eu nunca soube disso.

— Era justamente esse o objetivo.

— Então minha mãe mentiu para mim durante toda a minha vida?

— Sua mãe escondeu uma verdade para manter você segura. Existe uma diferença.

Grace não pareceu convencida.

— E por que eu precisava ser escondida dessa forma?

Poseidon respirou fundo.

— Porque os Blackthorn não são uma família bruxa comum. É uma linhagem antiga. Muito antiga. Uma das famílias mágicas que preservaram sua tradição durante gerações. Uma família poderosa, respeitada, rica e, em alguns círculos, temida.

Grace ficou ainda mais séria.

— Poderosa quanto?

— O suficiente para que o sobrenome carregasse peso por si só. Cinco gerações inteiras da Sonserina. Quase tão antigos quanto o próprio Salazar Sonserina.

Grace cruzou os braços.

— Minha mãe era da Sonserina?

— Não exatamente.

— Então era ou não era?

— Sua mãe foi uma exceção dentro da própria família.

Grace franziu a testa.

— Como assim?

— Os Blackthorn tinham uma tradição muito forte de Sonserina. Gerações da família passaram por aquela casa. O sobrenome praticamente caminhava de mãos dadas com a Sonserina. Mas ela era diferente. Ela era curiosa, espontânea, generosa, extremamente leal e tinha uma necessidade quase irritante de questionar tudo. Não tinha interesse em seguir as expectativas da família simplesmente porque eram expectativas.

Grace soltou uma risada.

— Isso definitivamente parece com ela...

— O Chapéu Seletor viu isso nela.

Grace arregalou os olhos.Poseidon sorriu.

— Evelyn Blackthorn foi para a Lufa-Lufa.

Grace ficou de boca aberta por alguns segundos.

— Minha mãe?

— Sua mãe.

— De uma família praticamente inteira da Sonserina?

— Sim.

— E ela foi para a Lufa-Lufa?

— Foi.

Grace começou a rir, incrédula.

— Isso é maravilhoso.

Poseidon riu também.

— Sua família provavelmente não achou. Ela foi muito hostilizada dentroda própria casa. Como aconteceu com Sirius Black...

— Quem?

– Pergunte à sua prima, Hailey. Ela vai te explicar melhor. Mas voltando ao assunto. A Evelyn nunca deixou que isso mudasse quem ela era.

Grace ainda estava processando a informação.

— Então eu sou descendente de uma família bruxa antiga, extremamente poderosa, ligada à Sonserina por gerações, minha mãe foi uma exceção e acabou na Lufa-Lufa...

Poseidon assentiu.

— E você acabou na Lufa-Lufa também. Sua mãe vai ficar orgulhosa quando souber.

Grace abriu um sorriso.

— Talvez o Chapéu tenha reconhecido alguma coisa.

Ela ficou alguns segundos em silêncio antes de voltar ao que realmente importava.

— E por que esconder isso de mim?

Poseidon ficou sério novamente.

— Porque, quando você nasceu, havia duas partes da sua herança que poderiam colocar sua vida em perigo. Sua magia e seu sangue de semideusa.

Poseidon explicou que Evelyn sabia que a filha carregava uma linhagem mágica importante, mas também sabia que Grace era filha de um dos Três Grandes. Isso tornava sua existência particularmente perigosa. Se pessoas do mundo bruxo descobrissem a verdadeira linhagem Blackthorn e, ao mesmo tempo, alguém do mundo semideus descobrisse que aquela garota era filha de Poseidon, Grace poderia se tornar alvo de pessoas e criaturas que jamais deveriam saber de sua existência.

— Então Vance escondia o quê exatamente?

— Você.

A resposta foi simples.

— Seu nome. Sua família. Sua origem. Tudo que pudesse levar alguém até você.

Grace abaixou os olhos.

— E funcionou?

— Durante dezesseis anos.

— Por isso eu não fui tratada como alguém importante quando cheguei em Hogwarts.

— Você não deveria ser importante para eles. Deveria ser apenas Grace Vance. A semideusa filha de Poseidon

Ela absorveu aquilo lentamente.

— Uma garota comum.

— Uma garota protegida.

Grace respirou fundo.

— E Percy não teve isso.

— Não.

— Porque ele não tinha a mesma proteção mágica?

— Não da mesma maneira. Sua mãe era bruxa, Grace. Ela tinha acesso a uma forma de proteção que os pais de semideuses jamais teriam. Ela te protegeu com magia. Desde muito cedo.

Poseidon explicou que Evelyn havia usado feitiços de ocultação e proteção ao redor da filha. Encantamentos para esconder manifestações incomuns dos poderes, barreiras para afastar ameaças e, principalmente, maneiras de impedir que a presença divina de Grace fosse facilmente detectada.

— E eu nunca soube porque eu precisava viver normalmente?

— Porque sua mãe queria que você tivesse a chance de crescer antes de precisar carregar o peso das duas linhagens.

Grace assentiu lentamente.

— Mas então seus poderes de Poseidon começaram a ficar mais fortes. Muito mais fortes. Mais fortes que a magia.

— Então foi por isso que eu fui para o Acampamento?

Poseidon assentiu.

— Evelyn e eu percebemos que os feitiços dela não seriam suficientes para sempre. Seu sangue de semideusa estava se tornando cada vez mais evidente. A água respondia a você. Seus poderes estavam crescendo. E quanto mais forte você ficava, mais difícil era esconder o que você era.

Grace ficou pensativa.

— Então decidimos que era melhor eu aprender a controlar os poderes de semideusa primeiro em vez de te enviar para Hogwarts. Porque o Acampamento era mais importante para a sua segurança e porque você precisava aprender a dominar aquilo que poderia denunciar sua presença aos monstros.

Grace assentiu.

— E ninguém precisava saber que eu tinha sangue mágico.

— Não naquele momento.

— Então minha linhagem bruxa ficou escondida.

— Durante toda a sua vida.

— Até essa profecia...

Grace ficou em silêncio.

Era estranho pensar que a resposta estivera tão perto durante tanto tempo. Ela sempre acreditou que sabia sua história. Sempre soubera quem era sua mãe. Sempre soubera que era filha de Poseidon. Mas havia peças inteiras de sua identidade que tinham sido cuidadosamente escondidas.

— Então eu realmente sou Grace Blackthorn.

Poseidon assentiu.

— Você foi Grace Vance porque esse foi o nome que sua mãe escolheu para proteger você. Mas seu sangue materno vem dos Blackthorn.

Grace respirou fundo.

— Isso é muito diferente de descobrir que minha mãe é bruxa.

— Eu sei.

— Eu achei que a grande revelação seria “Evelyn é uma bruxa”... E acabou sendo bem maior.

— Muito maior.

Poseidon sorriu.

— Você puxou a capacidade de fazer perguntas demais.

— De quem será que eu herdei isso?

— Com certeza da sua mãe.

Grace sorriu. Ela ficou quieta por alguns segundos.

— Você sabia disso tudo desde o começo?

— Sim.

— Sobre os Blackthorn?

— Sim.

— Sobre Vance?

— Sim.

— Sobre a proteção?

— Sim. Nós dois decidimos tudo juntos.

Grace estreitou os olhos.

— E você ficou me observando de longe durante tudo isso?

— Algumas vezes.

— Quantas?

Poseidon sorriu.

— O suficiente.

— Essa não é uma resposta.

— É a que posso dar.

Grace suspirou.

— Claro...

Poseidon observou a filha por alguns segundos antes de falar novamente.

— Eu nunca quis que você pensasse que precisava escolher uma parte de si.

Grace franziu a testa.

— Como assim?

— Você é filha de uma bruxa e de um deus. Tem sangue Blackthorn e sangue divino. Nenhuma dessas partes anula a outra.

Grace ficou olhando para ele.

— Você acha que eu vou precisar escolher?

— Não deixe ninguém convencer você de que precisa.

Grace estreitou os olhos.

— Isso foi propositalmente misterioso.

— Foi.

Ele sorriu. Grace soltou um suspiro, mas acabou sorrindo também.

— Você é impossível.

— E você é minha filha.

Ela ficou alguns segundos olhando para ele antes de se aproximar.

— Pai.

A palavra saiu baixa. Poseidon ficou imóvel por um instante. Era a primeira vez que Grace o chamava assim. O rosto dele suavizou.

— Sim?

Grace respirou fundo.

— Você deveria ter vindo antes.

— Eu sei.

— Eu ainda estou um pouco brava.

— Você tem esse direito.

— Mas estou feliz que tenha vindo agora.

Poseidon sorriu.

— Eu também.

Então Grace o abraçou.

Por um instante, ele pareceu surpreso, como se não tivesse certeza de que ela permitiria aquela proximidade. Então seus braços envolveram a filha, e Grace sentiu algo estranho e familiar ao mesmo tempo. O cheiro de mar. O calor. A sensação de que, apesar de tudo que havia faltado, aquele homem ainda fazia parte dela.

Quando se afastou, Poseidon tocou de leve seus cabelos.

— Você cresceu bem.

Grace sorriu.

— Minha mãe ajudou.

— Eu sei.

— Ela vai ter muito o que me explicar.

— Provavelmente.

— Principalmente sobre Blackthorn.

Poseidon sorriu.

— Principalmente. Mas sua prima pode te ajudar a descobrir algumas coisas. Acredito que na bibljoteca deva ter algo sobre eles.

Poseidon olhou para a direção da cabana de Hagrid.

— E Tobias?

Grace acompanhou seu olhar.

— Agora você quer mudar de assunto?

— Quero saber mais sobre o homem que você escolheu como namorado.

Grace riu.

— Não faça isso.

— Por quê?

— Porque eu gosto dele.

Poseidon ficou sério.

— Ele faz você feliz?

Grace respondeu sem hesitar.

— Muito.

— Ele respeita você?

— Sim.

— Seus poderes?

— Sim.

— Suas escolhas?

— Sempre.

— E quando vocês discordam?

Grace sorriu.

— A gente discute.

— Isso parece saudável.

— Às vezes é.

Poseidon riu.

— Ele tenta controlar você?

— Não.

— Tenta decidir por você?

— Nunca.

Poseidon assentiu lentamente.

— Então eu gosto dele.

Grace arqueou uma sobrancelha.

— Você nem conheceu ele direito.

— Eu conheço você.

— Isso não significa que você conhece ele.

— Significa que sei reconhecer quando alguém olha para minha filha da maneira certa.

Grace sorriu.

— Então estamos bem?

— Estamos.

Ela se aproximou e beijou a bochecha dele.

— Ótimo.

Poseidon caminhou alguns passos em direção ao lago. Grace observou.

— Você vai embora?

— Preciso.

— Vai voltar?

Ele demorou um pouco antes de responder.

— Provavelmente.

Grace estreitou os olhos.

— Essa resposta não me tranquiliza.

— Algumas coisas estão mudando, Grace.

— Por causa da profecia?

Poseidon ficou em silêncio por alguns segundos.

— Por causa de tudo que está se movendo ao redor de vocês.

— Hailey e Sara também?

— Entre outras coisas.

Grace percebeu imediatamente que ele estava escondendo algo.

— Você sabe mais do que está me contando.

— Sei.

— E não vai contar.

— Ainda não.

Ela soltou um suspiro.

— Vocês realmente precisam parar de fazer isso.

Poseidon sorriu e entrou na água. Antes de desaparecer, olhou para ela uma última vez.

— Cuide de si mesma, Grace.

— Você também.

— E cuide dele.

Grace olhou para Tobias.

— No caso, é ele que cuida de mim.

Poseidon sorriu. Então desapareceu entre as águas.

Grace ficou alguns segundos olhando para o lago, tentando absorver tudo o que acabara de descobrir. Sua mãe era uma bruxa. Uma Blackthorn. Descendente de uma família antiga e poderosa, ligada à Sonserina por gerações. Mas Evelyn havia sido diferente de todos eles. Tão diferente que o Chapéu a colocara na Lufa-Lufa. E, quando Grace nasceu, sua mãe escolhera esconder aquela linhagem, criar para ela o sobrenome Vance e protegê-la de dois mundos ao mesmo tempo.

Ela sempre acreditara que era uma Vance.

E, de certa forma, era.

Porque Vance não era uma total mentira.

Era o nome que havia mantido Grace segura.

O nome que permitira que ela crescesse sem ser perseguida pelo peso da família Blackthorn ou pelo perigo de ser reconhecida como filha de Poseidon.

Por dezesseis anos, aquele segredo funcionara.

Até agora.

— Ele foi embora?

Grace virou-se.

Tobias estava caminhando em sua direção, com as mãos nos bolsos e uma expressão cuidadosamente casual que não enganava ninguém.

— Foi.

Ele olhou para o lago e depois para ela.

— E?

Grace sorriu.

— Ele perguntou sobre você.

Tobias parou.

— Sobre mim?

— Sobre nós.

— Ah.

— Queria saber se você me respeita.

— Espero que eu tenha respondido certo.

Grace riu. Ele se aproximou.

— E o que você disse?

Grace passou os braços ao redor do pescoço dele.

— Que você me faz feliz.

Tobias sorriu.

— E ele não tentou me matar?

— Não.

— Ótimo.

— Por enquanto.

Tobias soltou uma risada.

— Eu sabia que havia uma pegadinha.

Grace o puxou para mais perto.

— Ele gostou de você.

— Isso é bom.

— Muito.

Tobias beijou sua testa.

— E você?

Grace olhou para o lago uma última vez antes de voltar os olhos para ele.

— Eu estou feliz.

— Mesmo depois de descobrir tudo isso?

— Principalmente depois.

— Então está tudo bem.

Grace sorriu.

— Ainda não. Tenho uma mãe para interrogar.

Tobias riu.

— Sobre a família Blackthorn?

— Sobre absolutamente tudo.

— Boa sorte para ela.

— Ela vai precisar.

Ela se aproximou e o beijou.

Tobias envolveu sua cintura, puxando-a para perto, e por alguns segundos o resto do mundo pareceu distante. Não havia profecias, deuses, linhagens antigas ou segredos. Apenas os dois, juntos, exatamente como sempre estiveram.

Quando se afastaram, Grace encostou a testa na dele.

— Você está com medo do meu pai?

— Um pouco.

Ela sorriu.

— Ele gostou de você.

— Isso ajuda.

— E disse que você me faz feliz.

— Isso ajuda muito.

Grace riu.

— Então pare de se preocupar.

— Vou tentar.

— Não vai conseguir.

— Provavelmente não.

Ela o beijou novamente.

E, enquanto os dois caminhavam de volta pelos terrenos de Hogwarts, Grace ainda carregava dentro da cabeça o nome que acabara de descobrir.

Blackthorn.

Um nome que havia sido escondido dela por dezenove anos.

Um nome que pertencia à sua mãe.

Um nome que pertencia à sua linhagem.

E um nome que, durante toda a sua vida, alguém fizera questão de manter longe dela para que pudesse simplesmente ser Grace.

Até que chegasse o momento em que estivesse pronta para descobrir quem existia por trás desse nome.