Last Battle

22 Meu pai veio me visitar - parte 1


Notas iniciais
Devido à quantidade de informações, o capítulo ficou muito longo então precisei dividi-lo em duas partes.

O sol já estava alto no céu quando Atena, a coruja de Hailey, surgiu sobre as árvores da Floresta Proibida. A manhã avançava lentamente em direção ao meio-dia, e a luz dourada atravessava a copa das árvores, espalhando manchas luminosas pelo chão. Na orla da floresta, Grace e Tobias ainda estavam no mesmo lugar onde Poseidon havia deixado a filha, afastados do castelo, absorvendo tudo o que havia acontecido durante o encontro com o deus dos mares.

Era difícil simplesmente voltar à rotina depois de receber a visita de um dos deuses mais poderosos do Olimpo e pai de Grace.

Os dois estavam próximos, longe o suficiente do caminho principal para terem alguma privacidade. Grace permanecia diante de Tobias, ainda tentando organizar os pensamentos, enquanto ele mantinha uma das mãos apoiada delicadamente em sua cintura. A outra estava entrelaçada à dela. O modo como Tobias a observava deixava claro que, naquele momento, estava muito mais preocupado com Grace do que com qualquer resposta que pudesse receber sobre Poseidon.

— Ainda está meio confusa? — perguntou ele.

Grace soltou uma pequena risada e balançou a cabeça.

— Estou tentando entender como minha vida conseguiu ficar ainda mais complicada depois de eu achar que já tinha descoberto tudo o que precisava descobrir.

Tobias sorriu.

— Você sabe que pode passar o resto da manhã reclamando e eu vou continuar aqui, não sabe?

Ela ergueu os olhos para ele.

— Eu sei. Por isso eu ainda tô pendurada em você.

Grace descruzou os braços e passou as mãos pelo peito dele, ajeitando distraidamente a gola da camisa. O olhar de Tobias acompanhou o movimento antes de voltar para os olhos dela.

— Você está ficando confortável demais em me mimar.

— Eu gosto de cuidar de você.

Ela sorriu, e Tobias inclinou o rosto na direção dela.

Grace passou os braços ao redor do pescoço dele e o beijou. O beijo começou tranquilo, carregado do carinho que os dois já haviam desenvolvido, mas logo se tornou mais intenso. Tobias segurou sua cintura e a trouxe para mais perto, enquanto Grace mantinha uma das mãos em sua nuca. Havia desejo no modo como se aproximavam, mas também a intimidade de quem encontrava naquele contato um pequeno intervalo de paz depois de uma revelação capaz de mudar tudo.

Quando se afastaram, permaneceram próximos, as testas encostadas e a respiração ainda misturada.

Tobias passou o polegar delicadamente pela lateral do rosto dela.

— Você está linda.

Grace sorriu.

— Você fala isso como se tivesse acabado de descobrir.

— Não. Falo porque continuo admirado em como você tá sempre mais linda que o segundo anterior...

Ela abriu a boca para responder, mas um bater de asas chamou sua atenção.

Os dois olharam para cima.

Uma coruja negra surgiu sobre as árvores, voando diretamente na direção deles. Seus olhos azuis brilhavam sob a luz da manhã. Grace reconheceu imediatamente.

— Oi, Atena!

A coruja de Hailey desceu em um voo elegante e pousou em um galho baixo diante dos dois. Havia dois pergaminhos presos às suas pernas. Ela inclinou a cabeça por um instante, como se estivesse avaliando Grace e Tobias, antes de estender a perna direita na direção dela.

Grace se aproximou com cuidado, um pouco confusa, fazendo Atena soltar um pequeno som impaciente.

Grace desatou cuidadosamente o pergaminho. Assim que ficou livre, Atena abriu as asas e voltou a voar na direção do castelo, desaparecendo rapidamente entre as árvores.

Grace desenrolou o pergaminho.

A letra de Hailey, que costumava ser bastante elegante, estava escrita com pressa.

Grace, preciso que você e Tobias venham à biblioteca. Agora. É urgente. Encontrem a mim e Gareth lá. — Hailey.

O sorriso desapareceu do rosto de Grace. Tobias percebeu imediatamente.

— O que aconteceu?

Ela entregou o pergaminho a ele.

— Não sei. Mas ela não escreveria “é urgente” se não fosse alguma coisa séria.

Tobias leu rapidamente, e seu semblante ficou mais atento.

— Então vamos.

Grace guardou o pergaminho.

— Acho que contar pra eles que Poseidon apareceu pra mim vai ter que esperar.

Tobias segurou a mão dela.

— Vamos. Não deve ser difícil chegar na biblioteca. Acho que eu sei onde é.

Grace assentiu, mas a preocupação já havia substituído parte da leveza que existia momentos antes.

— Tomara que não seja nada ruim.

Tobias apertou os dedos dela entre os seus.

Os dois começaram a correr em direção ao castelo, enquanto Atena já havia atravessado os terrenos de Hogwarts e seguido para a próxima missão dentro do castelo.

No interior do castelo, Sara e Draco acabavam de deixar o salão comunal da Sonserina quando algumas poucas pessoas começavam a aparecer no corredor, sem prestar atenção no casal, indo e vindo entre os espaços comuns antes do almoço. Apesar do movimento, os dois caminhavam próximos, completamente concentrados um no outro.

Sara estava distraída com os pensamentos ainda imersos no encontro com Hades. Saber quem havia sido sua mãe e tudo o que fora feito para que ela pudesse permanecer segura tinha um peso diferente. Ao mesmo tempo em que sentia raiva por ter passado tanto tempo no escuro, começava a aceitar que pais não eram perfeitos e que, às vezes, cometiam erros tentando acertar.

Draco permanecia em silêncio e mantinha uma das mãos entrelaçada à de Sara enquanto ela caminhava ao seu lado. Desde que haviam assumido o relacionamento, pequenos gestos de carinho tinham se tornado parte natural da rotina dos dois. Um toque na mão, um braço ao redor da cintura, um beijo roubado entre uma aula e outra. Nada precisava ser anunciado.

Naquele momento, porém, Draco parou no corredor.

Sara olhou para ele.

— O que foi?

Ele não respondeu imediatamente. Apenas levou uma das mãos ao rosto dela e afastou delicadamente uma mecha ruiva da testa.

— Nada. Eu só estava olhando para você.

Sara sorriu.

— Você faz isso bastante.

— Tenho bons motivos.

Ela passou os braços ao redor do pescoço dele.

— E quais seriam?

Draco aproximou o rosto.

— Você é perfeita.

O beijo veio naturalmente. Sara fechou os olhos quando os lábios dele tocaram os seus, envolvendo-o pela nuca. Draco a segurou pela cintura, mantendo-a próxima. O beijo se aprofundou por alguns instantes, carregado de carinho e desejo, até que os dois se afastaram apenas o suficiente para respirar.

Sara permaneceu próxima.

— Você sabe que fica insuportavelmente gato quando faz isso, não sabe?

— Sei.

— E continua fazendo.

Draco sorriu.

— Porque você gosta.

Ela riu baixinho.

— Talvez...

Ele beijou o canto da boca dela mais uma vez.

Foi então que um bater de asas chamou a atenção dos dois.

Sara olhou para o corredor.

Atena pousou alguns metros à frente.

Draco franziu a testa.

— É a coruja da Hailey.

Ele começou a se aproximar, mas a coruja imediatamente recuou e fez uma cara feia para ele.

Draco ficou olhando para ela, indignado.

— Sério? Ainda? Eu já pedi desculpas.

Sara soltou uma risada quando Atena virou o rosto, claramente enojada.

— Acho que ela nunca vai gostar de você.

— Eu percebi.

Atena inclinou a cabeça e, ignorando completamente Draco, esticou a pata esquerda na direção de Sara.

Sara se aproximou.

— Muito bem. Eu pego.

Ela desatou o pergaminho e, assim que o fez, Atena abriu as asas e saiu voando pelo corredor.

Draco acompanhou a coruja com os olhos e sacudiu a cabeça enquanto Sara abria o pergaminho. Sua expressão mudou quase imediatamente.

Draco percebeu.

— O que foi?

Ela entregou o bilhete a ele.

Sara, preciso que você e Draco venham à biblioteca. Agora. É urgente. Encontrem a mim e Gareth lá. — Hailey.

Draco leu uma segunda vez.

— “É urgente.” Hailey não é de falar assim...

Sara olhou para ele.

— Logo agora que nós estávamos indo contar o que aconteceu com Hades. Espero que eles estejam bem...

Draco dobrou o pergaminho. Sara apertou a mão dele.

— Vamos logo. Além de curioso, eu fiquei preocupado...

Draco entrelaçou os dedos aos dela.

Ele conhecia o caminho da biblioteca mesmo nunca tendo entrado lá, então não houve necessidade de perder tempo procurando corredores ou escadas. Os dois seguiram rapidamente pelo castelo, enquanto a manhã avançava e os sons das atividades de Hogwarts ficavam cada vez mais presentes.

A biblioteca estava praticamente vazia.

As duas únicas pessoas que estavam lá eram Hailey e Gareth, sentados em uma mesa próxima à seção reservada. A luz do fim da manhã entrava pelas altas janelas, iluminando parte das estantes e deixando o ambiente claro e silencioso.

Mas era Hailey quem estava chamando mais a atenção.

Ela estava diferente.

Seu rosto parecia mais iluminado, os olhos brilhavam e um sorriso insistia em permanecer em seus lábios. Havia uma felicidade quase impossível de esconder nela.

Gareth parecia incapaz de olhar para qualquer outra coisa.

Sentado ao lado dela, mantinha uma das mãos sobre a mesa, entrelaçada à dela, enquanto a observava com uma expressão de fascinação evidente. Era como se estivesse absorvendo cada detalhe daquele novo estado de espírito de Hailey e quisesse guardar aquilo na memória.

Ela percebeu o olhar.

— O quê?

Gareth sorriu.

— Nada.

Hailey arqueou uma sobrancelha.

— Você está olhando para mim há uns cinco minutos sem piscar.

— Talvez eu esteja tentando entender como alguém consegue ficar ainda mais bonita quando está feliz.

Hailey desviou os olhos, sorrindo.

— Gareth...

— Estou falando sério.

Ela aproximou-se um pouco e tocou o rosto dele.

— Você fica muito convencido quando começa com essas coisas.

— E você gosta.

Gareth segurou a mão dela e beijou seus dedos.

— Você está realmente feliz?

Hailey olhou para ele.

— Estou... Por várias coisas. Algumas ainda são complicadas, outras continuam me deixando com raiva, mas... pela primeira vez desde que tudo começou, parece que algumas peças estão finalmente se encaixando.

Gareth levou a mão dela novamente aos lábios.

— Então eu estou feliz por você.

Hailey ficou alguns segundos olhando para ele antes de se inclinar e beijá-lo.

Gareth correspondeu imediatamente, levando uma das mãos à cintura dela. O beijo foi demorado e intenso, mas ainda carregava a ternura que havia se tornado característica dos dois. Quando se afastaram, Gareth manteve a testa encostada na dela.

— Eu amo quando você olha para mim assim — murmurou Hailey.

— Como?

— Como se eu fosse a coisa mais interessante que você já viu.

Gareth sorriu.

— E você é.

Hailey riu baixinho.

Foi nesse momento que a porta da biblioteca se abriu.

Sara e Draco entraram primeiro.

Draco caminhava com segurança pelo corredor entre as estantes, claramente conhecendo o caminho. Sara vinha ao lado dele, ainda segurando sua mão.

Assim que os dois viram Hailey e Gareth, perceberam que havia alguma coisa diferente.

Hailey praticamente irradiava felicidade.

E Gareth continuava olhando para ela como se não conseguisse evitar.

Sara sorriu.

— Certo. Pelo jeito aconteceu alguma coisa muito boa com você. Fiquei preocupada à toa.

Hailey abriu um sorriso ainda maior.

Draco puxou uma cadeira para Sara antes de se sentar.

— Então talvez você possa começar explicando por que convocou todo mundo no meio da manhã como se Hogwarts estivesse prestes a explodir.

Hailey soltou uma risada.

— Eu precisava que vocês viessem rápido. Vamos só esperar a Grace e o Tobias. Tadinhos, devem ter se perdido...

Sara ergueu o pergaminho.

— Isso nós percebemos. Mas você parecia bastante feliz para alguém que escreveu “urgente”.

Gareth lançou um olhar divertido para Hailey.

— Eu tentei convencer ela a escrever alguma coisa menos assustadora.

— E eu disse que vocês só viriam rápido se achassem que alguma coisa horrível tinha acontecido.

Draco arqueou uma sobrancelha.

— Funcionou.

— Eu sei.

Antes que pudessem continuar, passos apressados ecoaram pelo corredor.

Hailey olhou para a entrada.

Grace surgiu primeiro, puxando Tobias pela mão. Os dois pararam por alguns segundos, claramente tentando recuperar o fôlego depois de atravessarem boa parte do castelo.

Grace olhou ao redor da biblioteca.

— Eu odeio o labirinto que são as escadas de Hogwarts.

Tobias soltou uma risada.

— Não odeia. Você só não sabe chegar à biblioteca.

— É exatamente por isso que eu odeio.

Sara começou a rir.

Hailey levantou-se.

— Vocês chegaram mais rápido do que eu esperava.

Grace apontou para Tobias.

— Culpa dele. Da próxima vez, manda um mapa junto.

— Minha?

— Você disse que sabia o caminho.

— Eu disse que devia ser fácil achar e que eu talvez soubesse onde é.

Grace respirou fundo, recuperando o fôlego. Hailey riu, e por alguns segundos a tensão pareceu desaparecer completamente.

Mas os seis estavam ali por um motivo.

Cada casal carregava uma revelação que ainda não havia contado aos outros.

Hailey havia descoberto coisas que mudaram completamente a maneira como enxergava a própria história. Grace ainda precisava contar sobre Poseidon. Sara carregava consigo a verdade sobre Hades e a existência de Amelia.

E agora, finalmente, os seis estavam reunidos.

Hailey olhou para cada um deles, ainda com aquele brilho nos olhos.

— Certo. Agora que todo mundo chegou... temos muita coisa para conversar.

Ela respirou fundo e se ajeitou na cadeira. Gareth manteve uma das mãos sobre os cabelos dela, acariciando-os distraidamente, enquanto Hailey olhava para os amigos.

— Zeus veio me visitar.

Os olhos de todos se arregalaram.

— Poseidon/Hades também! — Grace e Sara disseram ao mesmo tempo, fazendo Hailey e Gareth arregalarem os olhos.

Por alguns segundos, ninguém disse nada. Então Sara balançou a cabeça, recuperando a compostura.

— Você chamou a gente aqui primeiro, Hailey. Você começa.

Hailey assentiu e começou a contar tudo o que havia acontecido.

Falou sobre Zeus surgindo em meio aos trovões, sobre a presença imponente do deus e sobre a conversa que tiveram. Contou as perguntas que fizera, as respostas que recebera e, principalmente, as coisas que ainda não conseguira descobrir. Também falou sobre Lucy Cipriano e sobre a relação que Zeus ainda mantinha com ela, explicando que era mais fácil protegê-la em Hogwarts do que no Acampamento Meio-Sangue, já que ser filha de Zeus naquele ambiente seria muito mais arriscado e Hogwarts possuía uma proteção a mais.

Hailey contou tudo com uma mistura difícil de definir. Havia indignação em sua voz quando falava sobre as coisas que haviam sido escondidas dela, mas também existia uma felicidade que ela não conseguia esconder. Por mais estranho que fosse descobrir que os pais ainda mantinham algum tipo de relação, havia algo reconfortante em saber que aquela ligação não havia simplesmente desaparecido com o tempo.

— Então você está feliz com tudo isso? — Grace perguntou.

Hailey pensou por alguns segundos.

— Eu estou feliz por eles ainda terem algum tipo de relação. Acho que estou. Só não sei se algum dia vou me acostumar com a ideia de que meus pais continuam se encontrando e eu descobri isso praticamente por acidente.

Sara soltou uma risada.

— Você ainda está indignada.

— Muito.

Gareth, que permanecera em silêncio durante boa parte da explicação, levantou uma mão.

— Você também tá esquecendo de falar que seu pai quase lançou um raio na minha cabeça.

Hailey virou o rosto para ele.

— Ele está exagerando – ela olhou para a expressão horrorizada dos amigos e acrescentou — Meu pai gostou dele.

Gareth arregalou os olhos.

— Seu pai viu a gente num momento íntimo! Eu ouvi ele me ameaçar...

A reação foi imediata.

Todos começaram a rir, e Hailey, ainda rindo, se inclinou para beijar os lábios do namorado.

— Você sobreviveu.

— Por pouco.

— Dramático.

— Realista.

Ela voltou a sorrir e então olhou para Grace e Sara.

— Certo, meninas. Agora vocês.

Grace tomou a frente.

Contou que Poseidon havia aparecido pessoalmente e que, de certa maneira, continuava sendo um pouco exibido, principalmente pelo modo como havia feito um verdadeiro cortejo para ele no meio do Lago Negro.

Os amigos riram, e até Grace não conseguiu conter o sorriso ao lembrar da situação.

Depois, ela explicou que Poseidon precisava mantê-la escondida no Acampamento Meio-Sangue, porque os dons divinos dele estavam muito mais presentes nela do que o sangue mágico, e ela precisava aprender a controlar aquilo. Além disso, o Acampamento seria um lugar mais seguro para ela.

Tobias permaneceu ao lado dela durante toda a explicação, segurando sua mão por baixo da mesa e, sempre que percebia alguma hesitação, apertando seus dedos de maneira discreta.

Foi então que Grace chegou à parte sobre sua família.

Contou sobre a linhagem Blackthorn e sobre sua mãe, Evelyn Blackthorn, que havia sido enviada para a Lufa-Lufa, quebrando uma tradição familiar que remontava a gerações.

Hailey deu um pulo da cadeira e ficou de pé.

— Eu conheço a história dessa família!

Grace riu.

— Meu pai disse que você saberia...

— Eu não só li sobre eles como minha mãe era amiga da Evelyn Blackthorn.

Os olhos de Grace se iluminaram, mas ela permaneceu calada, esperando Hailey continuar.

Hailey parecia ter esquecido por alguns segundos que todos estavam esperando uma explicação. A descoberta parecia ter puxado alguma lembrança antiga para a superfície.

— Cassian e Isolde Blackthorn viveram quase na mesma época que o próprio Salazar Sonserina. Eram próximos à família, e umas cinco gerações de Blackthorn foram para a Sonserina. Igual às famílias Black, Malfoy, Lestrange... eram uma família antiga, e seus avós, Grace, só tiveram uma filha. A Evelyn.

Grace escutava atentamente.

— Mas ela era diferente de todos eles — continuou Hailey. — Os Blackthorn eram conhecidos por serem maus e frios, mas ela era diferente. Era carinhosa, atenciosa, cuidadosa, amorosa... tanto que o Chapéu Seletor a colocou na Lufa-Lufa. A sua família não ficou contente e, depois que ela se formou em Hogwarts, ela foi embora e ninguém mais soube dela. Nem minha mãe sabia para onde ela tinha ido...

Grace abaixou os olhos por um instante.

— Meu pai disse que aconteceu com ela a mesma coisa que com Sirius Black... o que houve com ele?

Hailey assentiu lentamente.

— A família Black também tem linhagem Sonserina, e ele foi para a Grifinória. Ele adorava ser rebelde e era melhor amigo de Tiago Potter. Tanto que era padrinho do Harry. Ele e a Evelyn eram desprezados dentro da própria família. Quando ele se formou, foi morar com os Potter e a Evelyn sumiu. Os Blackthorn disseram por anos que a filha deles tinha morrido e que a linhagem deles estava finada.

Todos estavam muito quietos.

Hailey fez um aceno com a varinha, e um livro veio voando até suas mãos. Era um anuário escolar, datado de vinte anos atrás.

Ela o abriu na letra B e passou os olhos pelas páginas até encontrar o que procurava. Então virou o livro para os outros e apontou para uma mulher de cabelos cacheados, olhos castanhos, pele clara e bochechas rosadas, vestindo o uniforme da Lufa-Lufa.

A fotografia estava se mexendo.

A menina deveria ter aproximadamente a idade de Grace e sorria com gosto, como se alguém tivesse acabado de lhe contar alguma coisa engraçada.

Logo abaixo estava o nome dela.

BLACKTHORN, EVELYN — LUFA-LUFA.

Grace ficou imóvel. Por alguns segundos, não conseguiu dizer nada. Aquele rosto tão familiar. Familiar demais. Era o rosto que conhecia por toda a sua vida, mas havia alguma coisa profundamente estranha em vê-lo acompanhado de outro sobrenome.

Sua mãe.

Evelyn.

Uma Blackthorn.

A mesma mulher que havia desaparecido da própria família. A mesma mulher que havia escolhido uma vida completamente diferente daquela que esperavam dela.

Grace passou os dedos pela borda da página, sem tocá-la diretamente. Seus olhos permaneceram presos à fotografia, acompanhando cada pequeno movimento de Evelyn dentro daquele retrato antigo. Ela sorriu quando a garota na fotografia riu, quase sem perceber que estava fazendo aquilo.

Era estranho.

Durante toda a sua vida, Grace havia conhecido Evelyn apenas como sua mãe. Uma nova iorquina comum. A mulher que a criou, que cuidou dela, educou... Mas aquela fotografia mostrava outra coisa. Mostrava uma Evelyn que existira antes de Grace. Uma garota que tivera colegas, amigas, uma casa em Hogwarts, uma família que esperava que ela seguisse determinado caminho e, ainda assim, escolhera ser diferente.

Grace inclinou um pouco mais o rosto para a fotografia.

— Eu nunca tinha visto ela assim...

Tobias aproximou-se por trás dela, sem interromper aquele momento. Grace continuou olhando.

— Eu conheço o rosto dela, claro. Afinal, ela tá viva. Mas... — Ela respirou fundo, procurando as palavras. — É diferente ver uma foto dela aqui. Saber que ela caminhou por esses mesmos corredores. Que teve a idade que eu tenho agora. Que provavelmente sentou nessas mesmas salas e viveu uma vida que eu nunca soube que existiu.

Hailey observou a amiga com atenção. Grace tocou delicadamente a borda da fotografia.

— E ela era uma Blackthorn. Não só alguém que mudou de sobrenome. Ela realmente nasceu naquela família. Foi criada para ser uma deles e, mesmo assim, acabou sendo completamente diferente.

Havia emoção na voz dela agora. Não exatamente tristeza. Era algo mais profundo. Uma espécie de saudade por uma parte da vida da mãe que ela nunca poderia conhecer diretamente.

— Ela realmente não parecia pertencer àquela família...

Hailey sorriu de leve.

— Minha mãe sempre falou isso.

Grace continuou olhando para a fotografia.

— Talvez seja por isso que ela tenha conseguido ser minha mãe do jeito que foi.

Tobias permaneceu ao lado dela, observando-a em silêncio. Conhecia aquela força de Grace, a maneira como ela costumava enfrentar as coisas de cabeça erguida, mas havia uma delicadeza que aparecia justamente nos momentos em que algo realmente importava para ela. Vê-la diante daquela fotografia fazia Tobias perceber mais uma vez que a mulher por quem havia se apaixonado não era apenas a garota forte que encarava qualquer desafio sem recuar. Havia ternura nela também, uma sensibilidade que nem sempre deixava os outros enxergarem. E ele gostava de conhecer justamente essas partes que ela não mostrava para qualquer pessoa.

Grace finalmente desviou os olhos da fotografia e olhou para ele.

— Eu acho que estou começando a entender um pouco melhor por que ela fez todas aquelas escolhas.

Hailey assentiu.

— E ainda tem muita coisa que a gente não sabe.

Grace respirou fundo.

— Eu sei. Mas pelo menos agora eu consigo entender melhor uma parte dela que eu nunca tive antes.

Ela voltou a olhar para Evelyn. Por alguns segundos, ninguém falou nada. Foi então que Grace desviou os olhos do anuário.

— Sara... falta você falar como foi encontrar com Hades.

Sara, que parecia ter sido despertada de um transe, respirou fundo antes de começar a falar.

Contou como Hades era sombrio. Como ele apareceu na sala comunal da Sonserina, ignorando completamente os olhares críticos de Hailey por ela ter entrado em uma sala comunal que não pertencia a ela. Contou sobre a presença dele, sobre a maneira como parecia carregar consigo a própria escuridão e sobre as coisas que descobrira durante aquela conversa.

Mas, quando contou que sua mãe havia sido estudante de Hogwarts vinte anos atrás e que seu nome era Amélia Vanye, Hailey deu outro pulo.

Ela puxou o anuário das mãos de Grace tão rápido que todos se assustaram. Ninguém falou nada mas Sara percebeu o que a amiga estava fazendo e seu coração começou a acelerar. Hailey passou rapidamente algumas páginas até chegar ao final do anuário. Seus olhos percorreram a página e, pouco a pouco e, quando acharam o que procuravam, ficaram marejados.

Então ela olhou para Sara. Havia alguma coisa naquele olhar. Alguma coisa que fez Sara sentir o peito apertar antes mesmo de receber o livro de volta.

Hailey estendeu o anuário.

Quando Sara o pegou seus olhos se arregalaram...

(Continua...)