Last Battle
24 Invasores inesperados
BOOM.
As janelas da biblioteca estremeceram com tanta força que algumas vidraças chegaram a vibrar dentro das molduras. O impacto fez livros despencarem das estantes e o anuário sobre a mesa deslizar alguns centímetros. Os seis se levantaram ao mesmo tempo.
Hailey sentiu o estômago se contrair. Conhecia aquele som. Não exatamente aquele estrondo, mas a sensação que vinha junto dele. Era o mesmo tipo de barulho que antecedera a batalha de Hogwarts, quando a tranquilidade havia sido destruída em questão de segundos.
— Isso não foi uma explosão comum — disse ela, já se afastando da mesa. Sua voz havia perdido qualquer traço da descontração de minutos antes. — Eu conheço esse tipo de barulho. Foi assim antes da batalha de Hogwarts. Tem alguma coisa acontecendo lá fora.
Gareth já havia puxado o machado, segurando-o com firmeza enquanto caminhava até uma das janelas. Tobias pegou sua arma, Draco fez o mesmo e Sara fechou a mão em torno da própria arma. Grace permaneceu imóvel por um segundo, os olhos fixos na direção da Floresta Proibida. Havia uma sensação estranha percorrendo seu corpo, uma espécie de pressão difícil de explicar, como se alguma coisa estivesse se aproximando e seus sentidos tivessem percebido aquilo antes de sua mente.
— Vocês estão sentindo isso? — perguntou Grace, olhando para os outros.
Hailey se aproximou da janela. Gareth ficou ao lado dela. Tobias, Draco e Sara fizeram o mesmo, e os seis olharam para a floresta.
À distância, entre as árvores, alguma coisa se movia.
Não era uma única criatura. Havia movimento demais entre os troncos. Árvores balançavam violentamente, galhos eram quebrados e, de tempos em tempos, uma nova parte da mata parecia ser derrubada.
— Tem alguma coisa vindo para cá — disse Tobias, estreitando os olhos.
— E não é pouca coisa — acrescentou Draco, observando a quantidade de árvores que se movimentavam. — Seja o que for, está avançando diretamente para Hogwarts.
Outro estrondo veio da floresta.
Dessa vez, nenhum dos seis precisou dizer mais nada.
Eles deixaram a biblioteca praticamente correndo. Como era sábado, os corredores de Hogwarts estavam cheios de alunos que aproveitavam o dia livre, mas o som havia mudado completamente o comportamento de todos. Alguns alunos mais novos começaram a recuar assustados, enquanto os mais velhos, principalmente aqueles que já haviam vivido a primeira guerra, imediatamente assumiram uma postura diferente. Varinhas foram erguidas, semideuses começaram a correr em direção aos terrenos e os Audaciosos se movimentaram com rapidez, tomando posições que já conheciam.
Não havia necessidade de alguém explicar o que estava acontecendo.
Todos que haviam enfrentado a guerra anteriormente reconheciam aquele tipo de silêncio entre um estrondo e outro.
Quando os seis chegaram à entrada principal, Hogwarts já não parecia uma escola.
Parecia uma fortaleza.
Os professores estavam espalhados pelo terreno, cada um assumindo uma função. Alguns reforçavam as proteções das entradas e dos muros, enquanto outros verificavam os limites mágicos que cercavam Hogwarts. Os Audaciosos já ocupavam as janelas e os pontos elevados do castelo, preparando suas armas e observando a floresta. Os semideuses se posicionavam na linha de frente, alguns com espadas desembainhadas, outros preparando seus próprios poderes. Os bruxos mais velhos permaneciam espalhados pelo jardim, varinhas erguidas, enquanto os mais jovens eram mantidos em posições mais protegidas.
Minerva caminhava pelo pátio com a expressão concentrada, observando cada grupo antes de erguer a voz.
— Bruxos, preparem feitiços de ataque e proteção! Não quero ninguém avançando sozinho e não quero ninguém esquecendo de proteger quem estiver ao lado! Semideuses, mantenham a linha de frente e usem seus dons conforme a situação exigir. Caçadoras, mantenham suas posições elevadas e preparem as flechas. Audaciosos, mantenham os alvos sob alcance e aguardem o momento certo para disparar. Professores, reforcem as proteções e estejam preparados para qualquer criatura que consiga ultrapassar a primeira linha!
Os comandos foram recebidos quase imediatamente.
Os alunos bruxos começaram a erguer barreiras e preparar feitiços ofensivos. Alguns mantinham escudos mágicos prontos enquanto outros seguravam as varinhas apontadas para a floresta. Nas janelas mais altas, os Audaciosos ajustavam suas armas, enquanto as Caçadoras de Ártemis e outros semideuses posicionados acima preparavam seus arcos.
Tobias olhou rapidamente para as janelas e depois para as armas que os Audaciosos seguravam.
— As balas que os semideuses fizeram vão fazer um estrago.
Draco girou a varinha entre os dedos e assumiu sua posição.
— Então faça bom uso delas.
Gareth olhou para Hailey. Ela já estava concentrada, os olhos castanhos fixos na floresta. Pequenos fios de eletricidade começaram a percorrer seus dedos.
— No que você está pensando? — perguntou ele.
— Estou pensando que, se o que está vindo de lá for o que estou imaginando, teremos uma tarde muito ruim.
Gareth apertou o machado com mais força, mantendo os olhos na floresta.
— Então vamos garantir que ela seja ruim para eles também. Seja lá o que estiver vindo, não vai encontrar seis pessoas despreparadas esperando para serem atacadas.
Hailey lançou-lhe um olhar rápido e sorriu antes de voltar a encarar a floresta. O sorriso durou apenas um instante, mas Gareth o percebeu. Havia algo naquela forma como ele falava com ela que sempre conseguia atravessar a tensão. E Hailey gostava disso mais do que admitiria em voz alta.
Os seis permaneceram juntos na linha de frente.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então as árvores começaram a se abrir.
A primeira criatura surgiu entre os troncos.
Era uma mulher apenas da cintura para cima. Da cintura para baixo, porém, havia duas caudas de serpente que se arrastavam pela terra, cobertas por escamas. Seu rosto tinha traços humanos, mas havia algo monstruoso em seus olhos e em sua expressão. Ela carregava uma espada nas mãos e avançava com uma postura de guerreira.
Outra surgiu atrás dela.
Depois outra.
E outra.
Em poucos segundos, dez criaturas serpenteavam para fora da floresta, espalhando-se pelo terreno.
Draco franziu o cenho.
— O que diabos são essas coisas?
Gareth, Grace e Hailey responderam praticamente ao mesmo tempo:
— Dracaenae.
Draco olhou para os três mas foi para Hailey qua lançou um olhar incrédulo enquanto mantinha a varinha apontada para a linha de criaturas.
— Você sabia que isso existia? Como é possível que você consegue saber tudo?
Hailey não desviou os olhos das criaturas.
— Eu estudo mitologia grega desde criança. Sei o que elas são. São guerreiras, perigosas e não costumam aparecer para conversar.
Uma das dracaenae ergueu a espada e soltou um grito agudo.
As outras avançaram.
A batalha começou.
Feitiços cortaram o ar enquanto flechas eram disparadas das posições elevadas. As flechas das Caçadoras de Ártemis e de outros semideuses cruzavam o campo, atingindo as criaturas que avançavam. Ao mesmo tempo, as balas dos Audaciosos atravessavam o terreno em direção às dracaenae, algumas atingindo seus corpos e fazendo-as recuar. Semideuses avançaram com espadas e lanças, enquanto os bruxos lançavam encantamentos de ataque e erguiam barreiras para proteger os combatentes próximos.
Não eram apenas os seis que estavam sendo atacados.
Uma dracaena avançou contra um grupo de semideuses, obrigando três deles a recuar enquanto flechas passavam sobre suas cabeças. Um Audacioso foi atingido no ombro por uma espada e caiu de joelhos antes que outro companheiro o puxasse para trás. Feitiços explodiam pelo terreno enquanto professores tentavam impedir que algumas criaturas alcançassem os alunos mais jovens.
As dracaenae eram rápidas. Suas caudas serpenteavam pelo terreno com uma velocidade surpreendente, permitindo que desviassem de alguns ataques e avançassem sobre os combatentes.
Uma delas investiu contra Hailey.
A garota ergueu a mão.
Um raio desceu do céu.
O impacto atingiu o chão diante da criatura, fazendo-a recuar com um grito. Hailey imediatamente avançou, a eletricidade ainda percorrendo seus dedos, mas outra dracaena surgiu pelo lado.
Gareth entrou no caminho.
O machado atingiu a espada da criatura com força suficiente para fazê-la cambalear.
Hailey sentiu o corpo de Gareth passar diante do seu por puro instinto, protegendo-a do golpe, e algo quente atravessou seu peito apesar da adrenalina. E, no instante seguinte, já estava deixando espaço para ela continuar lutando.
— Eu cuido dessa. Você termina aquela — disse ele, mantendo a criatura ocupada. — Não precisa se preocupar comigo.
— Fica tranquilo! — respondeu Hailey, já se virando para a outra. — Eu só estava calculando quanto tempo levaria para você se meter em confusão.
— Então estamos os dois fazendo exatamente o que sabemos fazer de melhor.
Hailey sorriu de canto antes de voltar a atenção para a batalha.
Gareth desviou de outro golpe, mas, quando passou perto dela novamente, o ombro dos dois se chocou. Foi um contato rápido, quase insignificante diante do caos, mas ambos olharam um para o outro por um segundo a mais do que deveriam. Havia uma tensão elétrica entre eles que não vinha apenas dos poderes de Hailey. A proximidade, a respiração acelerada, o calor do fogo de Gareth e a descarga de adrenalina tornavam cada olhar mais intenso. Eles estavam lutando lado a lado, mas havia alguma coisa quase palpável e física entre os dois que a guerra não conseguia apagar.
Hailey ergueu as duas mãos.
Nuvens começaram a se formar e escurecer acima do campo de batalha. Gareth percebeu o que ela pretendia e abriu um sorriso.
— Agora!
Gareth lançou uma onda de fogo contra o terreno, criando uma barreira em chamas diante de três dracaenae. As criaturas recuaram instintivamente, desviando para a única passagem que permanecia aberta.
Hailey já estava esperando. Um raio caiu exatamente naquele ponto. As três criaturas foram atingidas ao mesmo tempo. O clarão iluminou todo o terreno. Quando a fumaça se dissipou, uma delas estava caída.
Gareth correu até a outra enquanto Hailey avançava sobre a terceira. Ele golpeou com o machado, desviou da espada e lançou fogo diretamente contra a criatura. Hailey aproveitou a abertura criada por ele e disparou uma descarga elétrica que atravessou o corpo da dracaena.
Ela se desintegrou em pó dourado.
— Isso foi bonito — Gareth comentou, respirando pesadamente.
Foi quando uma terceira criatura surgiu de lado, rápida demais. Gareth percebeu o movimento tarde demais e Hailey virou o corpo para tentar acompanhar.
A lâmina passou pela lateral de seu braço esquerdo.
A dor veio imediatamente. Hailey recuou com um arquejo e levou a mão ao ferimento. O corte havia aberto o tecido da roupa e começava a sangrar, o vermelho contrastando com os fios de eletricidade que ainda percorriam sua pele.
Gareth virou-se para ela.
Por um instante, toda a expressão dele mudou.
— Hailey.
Ela ergueu os olhos.
— Estou bem. É só um corte.
Ele aproximou-se, os olhos descendo para o sangue que escorria pelo braço dela. A preocupação era evidente.
— Eu ainda posso odiar ver você sangrar, não posso?
— Então fica perto — respondeu ela. — Assim você não precisa ficar preocupado de longe.
Gareth sorriu.
Ele se colocou ao lado dela novamente, tão perto que o calor de seu corpo se misturava ao calor das chamas. Hailey sentiu o olhar dele sobre seu rosto por um instante antes de ambos voltarem para o combate.
Ela gostava daquilo. Gostava de saber que ele a protegeria quando precisasse, mas gostava ainda mais de saber que ele confiava nela o bastante para deixá-la lutar.
Do outro lado do campo, Grace e Tobias lutavam juntos.
Uma dracaenae tentou atingir Grace pelas costas, mas Tobias percebeu o movimento antes dela. Ele agarrou Grace pela cintura e a puxou para o lado no instante em que a espada passou onde seu corpo estivera.
O toque durou apenas o necessário para tirá-la da trajetória da lâmina, mas, quando Grace se virou, encontrou Tobias perto demais. O rosto dele estava a poucos centímetros do seu, a respiração acelerada pela luta e os olhos fixos nela com uma intensidade que fez seu coração acelerar por razões que nada tinham a ver com a criatura.
— Você está bem?
Grace se virou imediatamente.
— Estou. Mas não faz isso de novo.
— Tirar você da frente de uma espada?
— Me puxar sem avisar. Eu quase ataquei você.
Tobias soltou uma risada.
— Da próxima vez eu grito seu nome antes. Mas talvez eu devesse simplesmente continuar perto o suficiente para impedir que uma espada chegue perto de você.
Grace sorriu e ergueu as mãos. A água começou a se formar no ar, puxada do lago negro. O líquido se reuniu ao redor dos braços dela, girando com força e uma rapidez cortante.
— Traz ela para mim.
Tobias entendeu imediatamente.
Ele avançou contra duas dracaenae, bloqueando seus golpes e obrigando-as a concentrar-se nele. Grace esperou o momento certo. Quando Tobias conseguiu fazê-la recuar alguns passos, ela lançou lâminas de água contra as criaturas.
A água as atingiu com tanta força e precisão que elas caíram cheias de cortes profundos. Ao mesmo tempo que as lâminas as antingiam, Tobias aproveitou que sua arma ainda possuía balas e descarregou o pente nas duas dracaenae. Em segundos, elas viraram pó dourado.
Grace respirou fundo.
— Está vendo? Nós funcionamos bem juntos.
Tobias sorriu.
— Eu nunca tive dúvida disso. Você só precisava de alguém que soubesse acompanhar seu ritmo.
— E você precisava de alguém que soubesse mandar você parar de tentar fazer tudo sozinho.
— Isso também parece justo.
Os dois ficaram próximos por um instante, ainda ofegantes. Grace percebeu que Tobias continuava olhando para ela, e havia algo diferente naquele olhar. Uma mistura de orgulho, desejo e preocupação que fez sua própria respiração ficar um pouco mais pesada. Ela passou a mão rapidamente pelo ombro dele, verificando se não havia nenhum ferimento ali, e Tobias segurou seus dedos por um segundo antes de soltá-los.
Era um gesto pequeno, mas carregado de intimidade.
Então outra criatura avançou.
Tobias se virou imediatamente.
Grace sorriu de canto.
Aquele era o tipo de proteção que ela queria. Não alguém que a colocasse atrás de si, mas alguém que lutasse ao lado dela.
Uma terceira dracaenae surgiu pela lateral e conseguiu atingir Tobias abaixo das costelas. A lâmina abriu um corte comprido em seu lado.
Ele recuou, levando a mão ao ferimento.
Grace percebeu imediatamente.
— Tobias!
Ele respirou fundo, mantendo-se de pé.
— Vai! Não para!
Grace olhou para o sangue escorrendo entre os dedos dele e depois para seus olhos.
— Você não vai me dar ordens agora. Não espere que eu finja que não estou vendo você sangrar.
Um sorriso cansado apareceu no rosto dele.
— Não era uma ordem. Era confiança.
Aquilo bastou. Grace se virou e voltou à luta, mas permaneceu tão perto dele que os dois continuaram se cobrindo mutuamente.
Mais adiante, Sara e Draco lutavam lado a lado.
Draco lançou um feitiço que fez uma das criaturas perder o equilíbrio. Sara aproveitou a abertura e avançou com sua nova espada, atingindo uma dracaenae antes que ela pudesse recuperar a postura.
Outras duas surgiram imediatamente atrás deles.
Draco se virou.
Sara já havia percebido.
Ela ergueu a mão e sentiu algo escuro se mover sob a terra. As sombras começaram a se espalhar pelo chão.
Aa dracaenae perceberam e pararam como se tivessem tomado um tapa na cara de tão perturbadas que ficaram ao sentir a força de Hades.
Por um instante, pareceu hesitar.
Sara percebeu a mudança dentro de si no mesmo instante. O poder de Hades despertou com força, e seus olhos perderam completamente a aparência humana. O preto das íris se estendeu por toda a extensão dos olhos sem espaço branco visível. Não havia íris, pupilas ou qualquer parte branca discernível; seus olhos pareciam duas extensões da própria escuridão do Submundo.
— Draco, me cobre.
Ele recuou ficando atrás dela e conjurou um escudo mágico para proteger a retaguarda.
As sombras se ergueram como mãos saindo da terra e agarraram primeiro as caudas das criaturas, depois os braços e os pescoços. Elas se desesperaram para tentar respirar, mas Sara fechou os dedos sem piedade.
— Vocês não vão a lugar nenhum. Draco, AGORA!
— REDUCTO!
As criaturas se desintegraram diante deles. Draco olhou para Sara.
— Está começando a controlar isso melhor. Você não hesitou nem por um segundo.
Sara observou as próprias mãos, ainda envoltas por uma tênue camada de sombra.
— Acho que estou começando a entender o que meu pai quis dizer.
Antes que Draco pudesse responder, um rugido atravessou o campo.
Não era o som de uma dracaenae.
Era muito mais grave.
Os dois se viraram.
Do interior da floresta, cinco figuras enormes começaram a surgir.
Ciclopes.
Eram gigantescos, com um único olho no centro do rosto, corpos largos e musculosos e armas enormes nas mãos. Alguns carregavam árvores arrancadas do chão como se fossem porretes. Outros seguravam pedras e pedaços de troncos que arremessavam contra as defesas de Hogwarts.
— Ciclopes! — gritou Grace do outro lado do campo.
Os Audaciosos abriram fogo imediatamente. As balas atingiram os gigantes, mas não eram suficientes para derrubá-los. Um dos ciclopes rugiu e arrancou uma parte de uma árvore, arremessando-a contra o castelo.
Os professores ergueram as varinhas ao mesmo tempo.
— Protego!
Uma barreira surgiu diante do castelo ao mesmo tempo que o tronco batia contra ela e se partia em vários pedaços.
Minerva não esperou.
— Agora!
Uma sequência de feitiços atingiu o ciclope juntamente com flechas e balas de aço e bronze celestial. Ao mesmo tempo, semideuses avançaram sobre os outros.
O campo virou um caos.
As Dracaenae restantes continuavam lutando. Ciclopes avançavam derrubando árvores. Flechas das Caçadoras de Ártemis e de outros semideuses voavam das posições elevadas. Balas dos Audaciosos atravessavam o ar. Feitiços explodiam sobre o terreno.
Os seis continuavam lutando no meio de todos os outros combatentes, mas a batalha havia se espalhado por toda a extensão dos terrenos. Semideuses eram obrigados a recuar diante dos ciclopes, Audaciosos disparavam das janelas para cobrir aqueles que estavam na linha de frente e professores avançavam para conter as criaturas que conseguiam atravessar as primeiras defesas.
E foi nesse momento que os seis acabaram separados.
Uma explosão atingiu o chão entre Hailey e Grace. Gareth puxou Hailey para longe enquanto Tobias segurava Grace. Draco e Sara foram obrigados a recuar quando um dos ciclopes avançou diretamente contra eles.
Quando Hailey olhou novamente para os outros, Tobias, Grace, Sara e Draco já estavam alguns metros adiante. Gareth viu que a namorada ficou preocupada e a acalmou.
— Eles estão bem. Olha para mim — respondeu ele, segurando o braço dela por um instante. — Eles sabem lutar e estão juntos. Se tentarmos atravessar o campo agora, só vamos abrir espaço para outro monstro nos derrubar.
Hailey assentiu. Os dois correram juntos em direção a um ciclope.
Gareth concentrou fogo nas mãos. Hailey ergueu os braços e o céu respondeu.
Seus olhos castanhos já haviam se transformado completamente em cinza elétrico, carregados pelo brilho frio dos dons de Zeus. Ela não abandonou a magia; ao contrário, manteve a varinha em uma das mãos enquanto reunia eletricidade na outra, pronta para usar qualquer um dos dois poderes — ou os dois juntos — conforme a batalha exigisse.
Um raio atingiu o chão diante do gigante, fazendo-o recuar. Gareth lançou uma torrente de chamas contra suas pernas. O ciclope cambaleou.
Hailey então puxou a eletricidade do próprio ar. O fogo de Gareth iluminou o campo enquanto os raios dela desciam sobre o monstro.
— Agora! — Hailey gritou.
Gareth lançou todo o fogo que conseguia reunir. A combinação atingiu o ciclope em cheio. Ele rugiu e caiu de joelhos. Hailey respirou fundo, reuniu mais uma descarga e lançou o golpe final. O gigante se desintegrou.
Gareth olhou para ela, ofegante.
— Acho que estamos começando a ficar perigosos juntos.
Hailey ergueu uma sobrancelha.
— Começando?
O sorriso dele aumentou. Gareth se aproximou por um curto instante, tão perto que Hailey sentiu o calor que vinha de seu corpo misturado à eletricidade que ainda percorria sua pele. Os olhos dos dois se encontraram e, durante um segundo, o caos pareceu desaparecer. Havia sangue, fogo e destruição ao redor, mas também havia aquela atração quase impossível de ignorar.
Gareth passou os dedos rapidamente pelo rosto dela, retirando uma pequena marca de fuligem próxima à têmpora.
— Você está linda até coberta de cinzas.
Hailey soltou uma risada baixa, ainda ofegante.
— E você está lindo para alguém que acabou de quase ser esmagado por um ciclope.
— Talvez seja porque você estava olhando para mim.
Ela aproximou-se o suficiente para que seus ombros se tocassem.
— Talvez eu estivesse.
O momento terminou quando outro rugido atravessou o campo. Os dois trocaram um olhar e voltaram à luta.
Grace e Tobias estavam cercados por duas dracaenae.
Grace puxou a água do lago novamente, criando uma corrente tão forte que atingiu uma delas e a lançou contra uma árvore fazendo-a partir ao meio. Tobias aproveitou a oportunidade para enfrentar a segunda.
Ele desviou de um golpe, girou o corpo e atingiu a criatura com sua faca de bronze. Grace criou uma parede de água atrás dele. A dracaenae ficou presa entre Tobias e a corrente.
— Agora! — Grace gritou.
Tobias atacou. A criatura desapareceu em pó dourado. A outra tentou se levantar, mas Grace já estava diante dela. A água ao redor de seus braços se transformou em uma espécie de chicote líquido que atingiu a espada da criatura, arrancando-a de sua mão.
— Está vendo? — disse Grace, recuperando o fôlego. — Nós realmente funcionamos bem juntos.
Tobias sorriu.
— Eu estava tentando te dizer isso antes. Você só estava ocupada demais me dando ordens.
— Alguém precisa fazer isso.
— E esse alguém sempre vai ser você.
Grace se aproximou para verificar o ferimento nas costelas dele. Seus dedos tocaram de leve o tecido rasgado perto do corte, e Tobias prendeu a respiração.
— Isso está pior do que você está fingindo.
— Eu poderia dizer o mesmo sobre você.
Ela ergueu os olhos.
— Eu não estou fingindo.
— Nem eu.
Os dois ficaram em silêncio por um instante. Tobias segurou delicadamente o pulso dela, mantendo os olhos nos dela. A tensão entre os dois era quase absurda diante da batalha. Não havia espaço para qualquer distração, mas havia uma atração evidente no modo como se olhavam, na proximidade dos corpos, na respiração acelerada e na maneira como nenhum dos dois parecia disposto a se afastar primeiro.
Grace sorriu.
— Depois dessa guerra, você vai ter que aprender a parar de me olhar assim.
Tobias soltou uma risada baixa.
— Depois dessa guerra, talvez eu finalmente possa fazer isso do jeito certo sem ter um ciclope tentando nos matar.
Grace aproximou-se mais um pouco.
— Então sobreviva porque eu vou cobrar.
— Pode deixar.
Do outro lado, Draco e Sara enfrentavam um ciclope. Draco lançava feitiços sucessivos para distraí-lo enquanto Sara procurava uma abertura.
— Sara, à esquerda!
Ela se abaixou no instante em que o gigante passou o porrete sobre sua cabeça.
— Eu vi!
— Eu sei. Estou tentando manter você viva mesmo assim!
Sara riu, apesar da situação.
— Que romântico!
Ela estendeu as mãos. As sombras do Submundo se espalharam pelo chão e subiram pelas pernas do ciclope. Seus olhos permaneceram completamente negros, sem qualquer vestígio de branco, enquanto o poder de Hades se manifestava ao redor dela.
O gigante rugiu e Draco aproveitou.
— REDUCTO!
O impacto atingiu o rosto do monstro ao mesmo tempo que Sara usava as sombras como facas. O ciclope caiu.
— Termina isso! – Draco gritou
Sara reuniu toda a energia que conseguia sentir dentro de si. As sombras esmagaram o ciclope que desapareceu. Sara respirou profundamente. Draco segurou seu braço.
— Você está bem?
— Estou. Só estou começando a entender que meu pai deixou algumas coisas bastante interessantes para mim.
Draco sorriu.
— Desde que elas não tentem nos matar, eu aprovo.
Foi então que um novo movimento chamou a atenção de Grace. Uma garota estava caída perto de uma das laterais do campo. Parecia uma estudante. Ela tentava se levantar, segurando o braço. Grace franziu a testa.
— Hailey!
Hailey olhou na direção indicada. Havia alguma coisa errada. A garota levantou o rosto. Os olhos eram estranhos. Hailey sentiu um arrepio.
— Não cheguem perto dela! – ela gritou quando viu alguns estudantes se aproximarem
A suposta estudante sorriu. O rosto começou a mudar. A aparência humana desapareceu e deu lugar a uma criatura monstruosa. Uma perna era de bronze e a outra parecia a de um animal. Os olhos brilhavam com uma malícia sobrenatural. A empousa mostrou os dentes.
— Vocês estão aprendendo rápido demais.
Hailey ergueu a mão.
— E você está no lugar errado.
A empousa avançou.
Grace lançou água contra ela, obrigando-a a desviar. Hailey aproveitou e lançou uma descarga elétrica. A criatura saltou para o lado e correu em direção ao castelo.
Gareth surgiu em seu caminho.
— Não tão rápido. Se você pretende chegar até o castelo, vai precisar passar por nós primeiro.
Ele lançou fogo contra o chão. A empousa recuou. Sara chegou pelo outro lado. As sombras se espalharam ao redor dos pés da criatura. Draco e Tobias se aproximaram. Os seis voltaram a estar juntos.
Por alguns segundos, lutaram como uma única unidade.
A empousa tentou atacar Gareth, mas Hailey lançou um raio que a obrigou a recuar. Tobias avançou e a fez mudar de direção. Grace fechou a passagem com uma parede de água. Draco lançou um feitiço que a derrubou. Sara prendeu suas pernas com as sombras.
A criatura gritou e tentou se libertar.
Hailey reuniu eletricidade nas mãos. Gareth fez o fogo surgir ao redor dos braços. Grace puxou a água uma última vez. Sara trouxe as trevas ao seu alcance novamente. Os quatro trocaram um olhar e não precisaram dizer nada. No segundo seguinte, chamas, raios, corrente de água e trevas foram lançados
A combinação atingiu a empousa em cheio. A criatura gritou antes de se transformar em pó.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Ao redor deles, a batalha também chegava ao fim.
As últimas dracaenae foram derrotadas pelos semideuses e pelos bruxos. Os ciclopes restantes caíam depois de uma combinação de feitiços, flechas, armas, balas e poderes. Audaciosos continuavam disparando das janelas até que não houvesse mais alvos.
Então o silêncio começou a retornar. Os seis permaneceram parados, ofegantes. Todos estavam machucados.
Hailey tinha um corte profundo na lateral do braço esquerdo e outro próximo à sobrancelha. Gareth tinha um ferimento no ombro direito e o rosto coberto de fuligem. Grace tinha um corte no lábio e sangue escorrendo por um dos braços. Tobias estava com vários arranhões no peito e o corte profundo abaixo das costelas. Sara tinha um corte na lateral do rosto e outro na coxa direita, fazendo-a mancar levemente. Draco sangrava no ombro e tinha um ferimento aberto no antebraço.
Por alguns segundos, os seis apenas se olharam. Tinham sobrevivido. E, mesmo machucados, ainda estavam de pé.
Gareth foi imediatamente até Hailey.
— Você está sangrando.
Ela olhou para o próprio braço.
— É só um corte, amor...
— Você sempre diz isso quando está tendo uma hemorragia.
Ele passou os dedos cuidadosamente perto do ferimento, sem tocar diretamente. Hailey observou o rosto dele e, apesar da dor, sentiu um sorriso surgir.
— E você sempre fica preocupado demais.
— Porque você sempre se coloca no meio de coisas que podem te matar.
— Você também estava lá.
— Eu sei. Essa é a parte que me preocupa.
Hailey segurou o pulso dele antes que ele afastasse a mão.
— Fica calmo...
Ele sustentou o olhar dela.
— Você sabe que eu confio nas suas habilidades. Eu sei que você consegue. Eu só quero ser a pessoa que fica ao seu lado e te protege.
A resposta fez o olhar dela suavizar. Gareth aproximou-se e encostou a testa na dela por um instante. O contato foi breve, mas carregado de tudo o que os dois não podiam dizer naquele momento. O sangue, a fuligem, a respiração acelerada e a adrenalina ainda correndo pelos corpos tornavam a proximidade quase vertiginosa.
Grace se aproximou de Tobias e observou o braço dele.
— Você também está machucado.
— Eu estou ótimo, amor...
Ela levantou uma sobrancelha.
— Você acabou de dizer que eu estava ótima quando claramente não estava. Então agora vai ficar quieto e aceitar quando eu disser que você está ferido.
Tobias soltou uma risada.
— Está ficando difícil discutir com você.
— Finalmente percebeu.
Ela levou a mão até o corte abaixo das costelas, mas parou antes de tocar diretamente, percebendo a dor no rosto dele.
Tobias segurou a mão dela.
— Eu vou ficar bem.
— Eu sei que vai. Ainda assim, eu não gosto de ver você machucado.
Ele aproximou-se um pouco, os olhos presos aos dela.
— E eu não gosto de ver você sangrando. Parece que temos um problema.
Grace sorriu.
— Então vamos resolver juntos.
Tobias inclinou a cabeça, aproximando o rosto do dela até que a distância entre os dois diminuísse perigosamente.
— Isso parece uma solução que eu posso aceitar.
Os dois permaneceram próximos por alguns segundos antes de, finalmente, se beijarem.
Sara se aproximou de Draco e tocou cuidadosamente o ombro ferido.
— Isso parece pior do que o meu.
— E ainda assim você está mais preocupada comigo do que com você mesma.
— Porque você sangra de um jeito muito dramático.
Draco sorriu.
— Eu sou um Malfoy. Nós fazemos tudo dramaticamente.
Sara riu, mas seu olhar voltou para a floresta. O sorriso desapareceu. Aquele silêncio não era normal.
Minerva caminhava pelo terreno acompanhada de outros professores. Eles não estavam apenas verificando os feridos. Observavam o chão, as árvores destruídas e, principalmente, os limites das proteções mágicas.
O Professor Flitwick se ajoelhou perto da borda do terreno e passou a varinha sobre a terra. Minerva se aproximou.
— Encontrou alguma coisa, Filio?
— Uma ruptura — respondeu ele concentrado — Não foi uma falha natural. Alguma coisa exerceu pressão sobre a proteção até conseguir atravessá-la.
Minerva estreitou os olhos.
— E não foi um ataque direcionado ao castelo?
— Não. Foi uma abertura nos terrenos. Pequena, mas suficiente para permitir a passagem das criaturas.
Outro professor chegou, ainda segurando a varinha.
— E alguém sabia exatamente onde pressionar.
Minerva ficou em silêncio por alguns segundos. Os seis ouviram.
Hailey olhou para Gareth.
Grace olhou para Tobias.
Sara apertou a mão de Draco.
Os três rapazes imediatamente responderam ao gesto. Gareth entrelaçou os dedos aos de Hailey; Tobias passou o polegar sobre a mão de Grace; Draco manteve a mão de Sara firme entre a sua.
Eram gestos pequenos, mas diziam mais do que qualquer discurso.
Eles haviam protegido aquelas três garotas durante a batalha, mas tinham confiado nelas quando precisaram avançar, confiado nos poderes delas e, principalmente, confiado que cada uma saberia quando era hora de atacar e quando era hora de recuar.
E elas gostavam disso.
Gostavam de saber que, quando um golpe vinha rápido demais, aqueles três homens não pensariam duas vezes antes de se colocar entre elas e o perigo. Gostavam de saber que seus corpos reagiriam antes mesmo que suas cabeças processassem o risco. Mas gostavam ainda mais de saber que, depois disso, eles voltariam para seus lados e continuariam lutando com elas.
Minerva finalmente se levantou.
— Isso significa que não estamos lidando apenas com criaturas que encontraram Hogwarts por acaso. Alguém encontrou uma brecha em nossas defesas. E, se conseguiu fazê-lo uma vez, devemos presumir que tentará novamente.
Os professores começaram imediatamente a reforçar os encantamentos. Feitiços eram lançados ao redor do terreno, um após outro, enquanto outros docentes analisavam os pontos onde a barreira havia sido comprometida. Os Audaciosos ajudavam os feridos e recolhiam suas armas. Os semideuses verificavam os companheiros, enquanto os bruxos mais velhos ajudavam a reconstruir parte das proteções.
Hogwarts havia vencido aquela batalha.
Mas ninguém comemorava totalmente.
Os seis permaneceram juntos diante dos terrenos destruídos, observando a Floresta Proibida.
As árvores ainda balançavam lentamente com o vento.
Não havia mais monstros.
Não havia mais gritos.
Apenas silêncio.
Hailey passou os dedos pelo sangue seco próximo à sobrancelha.
Gareth segurou sua mão, aproximando-se o suficiente para que os dois permanecessem lado a lado.
— Eu não gosto desse silêncio.
Gareth olhou para a floresta e depois para ela.
— Nem eu. Depois de tudo o que aconteceu hoje, eu não consigo acreditar que isso tenha sido simplesmente um ataque aleatório.
Tobias observou a floresta por mais alguns segundos.
— Então... Eles encontraram uma maneira de chegar até nós antes da hora.
Sara olhou para o lugar onde os monstros haviam surgido.
Draco apertou sua mão.
Nenhum dos seis disse mais nada.
Porque todos haviam entendido a mesma coisa.
A batalha tinha terminado. Mas a guerra acabara de encontrar uma nova porta para entrar em Hogwarts.
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