Last Battle

25 Cinco meses...


A noite havia caído sobre Hogwarts, mas o castelo estava longe de dormir.

Poucas horas haviam se passado desde a invasão e, ainda assim, parecia que dias inteiros haviam transcorrido. O cheiro de fumaça permanecia preso ao ar em alguns pontos dos terrenos, misturado ao odor úmido da grama e da terra recém-revolvida. Havia marcas de combate espalhadas pelos jardins, pequenas crateras abertas por feitiços, árvores quebradas e manchas escuras no chão onde criaturas haviam sido derrotadas. A visão era suficiente para lembrar a qualquer um que aquela tarde não fora um simples incidente.

Hogwarts havia sido atacada.

E, pela primeira vez, ninguém estava tentando fingir que aquilo poderia ser o último ataque.

Professores caminhavam pelos limites do castelo com as varinhas erguidas, lançando encantamentos sucessivos sobre as barreiras mágicas. Feitiços antigos eram reforçados, outros eram substituídos, e alguns pontos eram reconstruídos completamente depois da ruptura que permitira a entrada das criaturas. Flitwick trabalhava em conjunto com outros professores, concentrado na estrutura dos encantamentos de proteção, enquanto Minerva percorria os arredores supervisionando tudo com uma expressão severa.

Mais distante, no campo de Quadribol, outra equipe reforçava as proteções. O campo, que normalmente era tomado por gritos, vassouras e partidas durante os fins de semana, agora parecia uma extensão militar de Hogwarts. Barreiras invisíveis eram erguidas ao redor das arquibancadas e dos acessos, enquanto professores verificavam cada ponto por onde alguém poderia tentar entrar.

Os semideuses também não estavam parados.

Filhos de Deméter trabalhavam com a própria terra, fazendo raízes crescerem sob o solo e criando pontos de contenção que poderiam prender qualquer criatura que tentasse atravessar os terrenos. Filhos de Dionísio utilizavam a vegetação e a estrutura dos jardins de maneira semelhante, criando obstáculos que pareciam naturais à primeira vista. Os filhos de Hermes se movimentavam rapidamente entre os grupos, deixando pequenas armadilhas escondidas em lugares estratégicos, verificando rotas e pensando em possíveis caminhos de invasão.

Mais próximos das muralhas, alguns Audaciosos analisavam mapas e discutiam pontos de entrada e saída. Eles conheciam estratégias de combate e defesa de maneira diferente dos bruxos e dos semideuses, e ninguém mais parecia disposto a separar os conhecimentos de cada grupo. Se havia alguma coisa que a invasão daquela tarde ensinara, era que Hogwarts precisaria de todos.

Sara estava junto com Tobias, Draco e alguns professores, junto aos mapas. Grace e Percy haviam entrado no Lago Negro para desbravá-lo e encontrar tudo e todas as criaturas que pudessem ajudar nas defesas e ataques.

Hailey observava tudo de uma das escadarias externas, com os braços cruzados diante do corpo. O vento noturno movimentava seus cabelos, e seus olhos castanhos percorriam o terreno enquanto algumas faíscas quase imperceptíveis surgiam e desapareciam entre seus dedos. Ao lado dela, Gareth apoiava uma das mãos na cintura dela.

Ele ainda tinha marcas da batalha. Havia um curativo sobre o ombro direito e uma pequena faixa próxima à sobrancelha, além de fuligem que não desaparecera completamente de seu rosto. Mesmo assim, parecia mais interessado em observar Hailey do que qualquer uma das barreiras que estavam sendo construídas.

— Você está olhando para mim — ela comentou, sem sequer virar o rosto.

— Estou.

Hailey finalmente olhou para ele.

— E por que exatamente?

Gareth abriu um sorriso preguiçoso.

— Porque você é mais interessante do que uma parede invisível.

— Essa parede invisível pode salvar sua vida.

— Você também.

Ela tentou esconder o sorriso, mas não conseguiu.

— Você sempre precisa ter uma resposta?

— Quando é com você, geralmente.

Hailey balançou a cabeça, mas se aproximou um pouco mais. Gareth passou o braço pelos ombros dela, puxando-a contra o peito. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Ao redor deles, Hogwarts se transformava em uma fortaleza. E aquilo era assustador. Não porque alguém precisasse dizer em voz alta o que estava acontecendo, mas justamente porque todos já haviam entendido. Aquela invasão não fora um acidente. Era um aviso de que eles estavam conseguindo ter acesso a eles. E Hogwarts estava se preparando para o próximo ataque.

— O tempo tá passando rápido... — Hailey murmurou.

Gareth baixou os olhos para ela. Ela respirou fundo.

— Eu sei.

Gareth apertou ligeiramente o braço ao redor dela.

— E, quando tudo isso acabar, nós vamos continuar aqui.

Hailey ergueu uma sobrancelha.

— Isso foi uma promessa?

— Foi.

Ela se virou completamente para ele e segurou a gola de sua camisa, puxando-o para mais perto.

— Então é melhor você cumprir.

Gareth sorriu antes de beijá-la. Quando se afastaram, ele permaneceu com a testa encostada na dela.

— Eu vou...

Um chamado vindo do outro lado dos terrenos interrompeu o momento.

— Gareth! — alguém gritou. — Precisamos de ajuda aqui!

Ele suspirou.

— Está vendo? Até a guerra tem péssimo senso de oportunidade.

Hailey riu.

— Vai. Eu vou ajudar ali.

— Você promete não se meter em perigo enquanto eu estiver longe?

Ela lhe lançou um olhar incrédulo.

— Gareth.

— Eu sabia que perguntar seria inútil.

— Exatamente.

Ele beijou rapidamente a testa dela antes de se afastar.

— Eu amo você, tempestade.

— Eu amo você também, incendiário.

E então os dois voltaram ao trabalho.

Quando finalmente terminaram, já era tarde. Os professores haviam reforçado as proteções do castelo, o campo de Quadribol estava cercado por novos encantamentos e os terrenos haviam sido transformados em uma espécie de labirinto de armadilhas cuidadosamente escondidas.

Todos estavam exaustos.

Ainda assim, quando entraram no Salão Principal para jantar, ninguém encontrou as antigas divisões entre as mesas das casas.

Aquela separação simplesmente parecia absurda depois de tudo o que acontecera.

Grifinórios estavam sentados ao lado de Sonserinos. Lufanos conversavam com alunos da Corvinal. Semideuses ocupavam os mesmos espaços que bruxos, e Audaciosos dividiam comida e histórias com estudantes que, semanas antes, talvez nem tivessem trocado uma palavra com eles.

Os seis amigos estavam juntos à mesa da Corvinal.

Hailey sentou-se ao lado de Gareth. Grace ficou no colo de Tobias, enquanto Sara estava ao lado de Draco. O restante dos amigos ocupava os lugares ao redor deles.

Por alguns minutos, a conversa foi quase normal.

Quase.

Ainda havia comentários sobre a batalha, sobre criaturas específicas, sobre os ferimentos e sobre os novos encantamentos. Alguns estudantes falavam animadamente sobre como haviam enfrentado determinados monstros; outros pareciam ainda estar processando o fato de que tinham participado de uma batalha dentro da própria escola.

Grace percebeu que algumas pessoas olhavam para ela, Hailey e Sara de maneira diferente. Não era apenas curiosidade. Era respeito. Depois de tudo que acontecera, ninguém mais podia fingir que as três eram apenas estudantes.

Minerva se levantou.

O burburinho foi diminuindo aos poucos até desaparecer completamente.

— Eu sei que todos estão cansados — começou ela. — E sei também que muitos de vocês ainda estão tentando compreender o que aconteceu hoje. Portanto, não pretendo prolongar este discurso mais do que o necessário.

Ela fez uma pausa.

— Hogwarts foi pega de surpresa. As proteções tradicionais que deveriam ter impedido aquela invasão não foram suficientes. E essa responsabilidade é minha e dos demais professores. Nós deveríamos ter previsto que nossos inimigos poderiam tentar uma abordagem diferente. Não podemos cometer o mesmo erro novamente.

Alguns estudantes trocaram olhares. Minerva continuou.

— Entretanto, se hoje aprendemos alguma coisa, foi que Hogwarts não está indefesa. E isso se deve, em grande parte, às pessoas que lutaram ao nosso lado. Eu gostaria de parabenizar e agradecer tanto aos nossos alunos quanto aos semideuses, aos Audaciosos e às Caçadoras.

O Salão Principal explodiu em aplausos. Os semideuses sorriram, alguns constrangidos com a atenção. Os Audaciosos bateram palmas entre si. As Caçadoras permaneceram mais contidas, mas algumas sorriram discretamente.

Minerva esperou os aplausos diminuírem.

— E isso nos leva ao próximo ponto. As aulas práticas serão intensificadas. Todos vocês precisarão continuar treinando. E os bruxos aprenderão algo que, em circunstâncias normais, talvez não fizesse parte da formação tradicional de Hogwarts — ela fez uma pausa. — Combate corpo a corpo — alguns alunos se entreolharam. — E combate com armas. Espadas, lanças, arco e flecha e outras armas estarão disponíveis durante os treinamentos. Uma varinha é uma ferramenta extraordinária, mas nenhum de vocês pode presumir que sempre conseguirá utilizá-la. Se forem desarmados, se estiverem feridos, se estiverem em um local onde a magia não possa ser usada adequadamente, não podem simplesmente aceitar a própria derrota — a expressão de Minerva tornou-se ainda mais séria. — Precisamos que cada um de vocês seja capaz de continuar lutando.

Dessa vez, o silêncio foi absoluto.

— Os filhos de Hefesto e os ferreiros da Audácia continuarão trabalhando juntos para produzir armas suficientes para todos. Espadas, lanças, arcos, flechas e outros equipamentos serão forjados utilizando bronze celestial e aço. Precisamos garantir que cada pessoa aqui tenha alguma forma de defesa além da própria magia.

Tobias assentiu discretamente. Draco observou os estudantes ao redor. Até mesmo alguns dos bruxos mais tradicionais pareciam compreender a gravidade daquilo.

— E os conhecimentos de todos serão compartilhados — Minerva continuou. — Os semideuses aprenderão com os bruxos. Os bruxos aprenderão com os semideuses. Os Audaciosos ensinarão estratégia e combate. As Caçadoras compartilharão sua experiência. Não haverá mais espaço para grupos isolados. Se quisermos sobreviver, precisaremos agir como um único exército.

Ela deixou a frase pairar no ar.

— Temos cinco meses... Cinco meses até o ataque que esperamos que venha. Não sabemos o dia exato. Não sabemos como nossos inimigos tentarão entrar novamente. Não sabemos quantas criaturas virão, nem quantos estarão atrás delas. Mas sabemos que eles virão.

Hailey sentiu Gareth entrelaçar os dedos aos seus sob a mesa.

— Portanto, teremos cinco meses para transformar Hogwarts em uma fortaleza.

Minerva então respirou fundo. E, de maneira quase inesperada, seu rosto suavizou.

— Mas existe algo mais — alguns estudantes ergueram as sobrancelhas. — Dentro de duas semanas, Hogwarts realizará um baile.

Por um segundo, ninguém reagiu. Parecia que todos estavam tentando compreender se tinham ouvido corretamente. Então o Salão Principal explodiu em murmúrios. Minerva levantou uma mão, tentando recuperar a atenção.

— O baile acontecerá daqui a quatorze dias. Isso lhes dará tempo suficiente para se organizarem sem interferir no treinamento e, ao mesmo tempo, garantirá que não se afastem das atividades de preparação durante tempo demais.

Alguns estudantes começaram a sorrir.

— Todos vocês estão sob uma pressão que poucos deveriam conhecer nesta idade — continuou Minerva. — E, embora a preparação para a guerra seja necessária, vocês também precisam de uma noite para respirar. Uma noite para conversar, dançar, rir e lembrar que ainda existe uma vida além daquilo que está esperando por nós — ela sorriu discretamente. — Portanto, arrumem seus pares. Organizem suas roupas. Estão liberados para ir a Hogsmeade ou ao Beco Diagonal, mas com prudência e cuidado e sempre em grupos. E, por uma noite, permitam-se esquecer da guerra.

O Salão Principal explodiu em comemorações. Hailey começou a rir. Gareth olhou para ela.

— Você está animada.

— Eu estou achando engraçado.

— Por quê?

— Porque há cinco minutos Minerva estava falando sobre espadas e agora está mandando todo mundo arrumar par para um baile.

— Eu posso lidar com as duas coisas.

Ela virou-se para ele.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Então você já sabe com quem vai?

Gareth sorriu.

— Ainda não.

Hailey estreitou os olhos.

— Gareth.

— O quê?

— Se você está pensando em convidar outra pessoa, eu vou providenciar pra você uma morte muito criativa.

Ele gargalhou, vendo sua provocação surgir efeito.

— Eu estava esperando você dizer isso.

Assim que foram liberados, o Salão Principal praticamente se transformou em um caos organizado. Alunos se levantavam ao mesmo tempo, chamando uns aos outros pelos corredores. Alguns corriam atrás de seus amigos, outros já discutiam roupas, e havia grupos inteiros especulando sobre decoração, música e comida.

Gareth segurou a mão de Hailey antes que ela pudesse se afastar.

— Espere.

Ela olhou para ele.

— Sim?

Ele se aproximou.

— Você vai comigo.

Não foi exatamente uma pergunta. Hailey sorriu.

— Achei que você fosse mais tradicional.

— Estou tentando ser romântico.

— Está?

— Estou.

— Então faça direito.

Gareth passou um braço pela cintura dela.

— Hailey Cipriano, amor da minha vida, você quer ir ao baile comigo?

Ela fingiu pensar.

— Não sei.

— Não sabe?

— Talvez eu tenha que consultar minha agenda.

Ele aproximou o rosto do dela.

— Posso ajudar a convencer você.

— Como?

— Tenho algumas ideias.

O olhar que ele lançou para ela fez Hailey sorrir.

— Você é impossível.

— E você gosta.

— Eu amo.

Ele a beijou. Hailey passou os braços ao redor do pescoço dele, correspondendo ao beijo com um sorriso que não conseguiu esconder. Quando se afastaram, Gareth permaneceu perto demais para que qualquer um dos dois fingisse que aquilo tinha sido apenas um beijo casual. A mão dele continuava na cintura dela, o polegar fazendo um movimento lento sobre o tecido da roupa.

— E então?

— Sim — ela respondeu. — Eu vou com você.

Ele comemorou, levantando-a do chão e rodando com ela no ar, fazendo-a rir. Hailey sorriu antes de beijá-lo novamente. O beijo foi mais demorado dessa vez. Gareth segurou a cintura dela com firmeza, enquanto Hailey passou os dedos pelos cabelos bagunçados dele. Quando se afastaram, os dois estavam sorrindo.

Grace e Tobias não demoraram muito para encontrar um canto mais tranquilo do castelo depois do jantar. Eles caminhavam pelos corredores quando Tobias segurou a mão dela e a fez parar.

— Então?

Grace sorriu.

— Então o quê?

— Você vai ao baile comigo?

Ela fingiu surpresa.

— Nossa. Você finalmente perguntou.

— Finalmente?

— Você levou tempo demais. Achei que eu que teria que perguntar. Ia ser uma vergonha.

— Eu achei que estivesse implícito.

— Eu gosto que as coisas sejam ditas.

Tobias aproximou-se.

— Então vou dizer claramente. Quero passar a noite do baile com você.

A expressão dela suavizou.

— Eu também quero.

Ele sorriu e passou o braço ao redor da cintura dela.

— Ótimo.

— Você está feliz demais.

— Talvez porque eu tenha conseguido a garota mais bonita do castelo.

Grace revirou os olhos.

— Você fala isso como se eu não soubesse que outras garotas ficam olhando para você.

— E eu ignoro todas...

— Mas mesmo assim eu tenho ciúmes.

Tobias soltou uma risada.

— Eu gosto quando você fica com ciúmes.

— Não se acostume.

Ele aproximou o rosto do dela.

— Tarde demais.

Grace segurou a camisa dele e o beijou.

Tobias imediatamente passou os braços ao redor dela, trazendo-a para mais perto. O beijo começou suave, mas ganhou intensidade à medida que os dois se esqueceram do corredor e de qualquer pessoa que pudesse passar por ali. Quando finalmente se afastaram, Grace ficou alguns segundos com a testa apoiada no peito dele.

— Isso é ridículo.

— O quê?

— Nós estamos falando de um baile depois de passarmos o dia lutando contra monstros.

Tobias beijou os cabelos dela.

— Justamente por isso que é uma ótima ideia.

Ela levantou o rosto.

— Você realmente acha que precisamos disso?

— Acho que precisamos lembrar por que estamos lutando.

Grace ficou em silêncio. Tobias tocou o rosto dela.

— Se tudo que fizermos nesses cinco meses for pensar na guerra, vamos esquecer o que estamos tentando proteger.

Ela sorriu.

— Então eu vou com você.

— Eu estava contando com isso.

— Convencido.

— Apaixonado.

Grace beijou o canto da boca dele.

— Isso eu aceito.

No corredor do dormitório da Corvinal, o movimento já começava a diminuir. Draco e Sara chegaram ali. Eles caminhavam de mãos dadas, mas Sara estava mexendo nos cabelos, enrolando algumas mechas. Draco a observava como se aquela fosse a coisa mais graciosa que ela estava fazendo.

— Você está fazendo suspense de propósito? — ela perguntou.

— Talvez.

Sara estreitou os olhos.

— O que você quer?

Draco se virou e ficou de frente para ela, segurando a mão dela entre as suas.

— Um baile.

Ela olhou para a mão dele, depois para o rosto dele.

— Está me convidando?

— Estou.

Sara sorriu.

— Pensei que você faria algo mais elaborado.

— Posso voltar pelo corredor e tentar novamente.

— Não.

Ela segurou a mão dele e se levantou.

— Eu gostei.

Draco sorriu.

— Então você vai?

— Claro.

Ele a puxou para perto, envolvendo-a pela cintura.

— Ótimo.

Sara passou os braços ao redor do pescoço dele.

— Mas existe uma condição.

— Qual?

— Você não vai passar a noite olhando para outras garotas.

Draco soltou uma risada baixa.

— Você realmente acha que eu faria isso?

— Eu conheço você.

— Então deveria saber que, desde que comecei a amar você, não existe muita coisa no mundo capaz de prender minha atenção quando você está por perto.

Sara sorriu.

— Isso foi surpreendentemente fofo.

— Não conte para ninguém.

— Tarde demais. Vou usar isso contra você pelo resto da vida.

Ele a beijou. O beijo foi carinhoso, demorado e cheio daquela intimidade que os dois haviam construído nos últimos meses. Quando se afastaram, Sara permaneceu perto dele, brincando com a gola de sua camisa.

— Meu pai ainda deve estar te observando em algum lugar.

Draco ergueu uma sobrancelha.

— Hades?

— Quem mais?

— Espero que ele saiba que estou cuidando bem de você.

— Acho que ele sabe.

— E o que ele acha de mim?

Sara sorriu.

— Provavelmente ainda está decidindo se gosta de você. Não acho que ele seja do tipo que gosta de gente num geral.

— Excelente.

— Você não parece muito preocupado.

— Eu já enfrentei criaturas mitológicas, guerras e você. Acho que consigo sobreviver ao seu pai...

Ela deu um tapa leve no braço dele.

— Eu sou tão perigosa assim?

Draco a puxou novamente pela cintura.

— Você é a mais perigosa de todos.

Sara sorriu.

— Boa resposta.

— Eu aprendo rápido.

Ela encostou a testa na dele.

— Eu amo você, Draco.

A expressão dele suavizou imediatamente.

— Eu amo você, Sara.

Na manhã seguinte, o castelo já parecia outro. Ainda havia marcas da batalha espalhadas pelos terrenos, mas os estudantes tinham retomado uma parte da rotina. As aulas práticas continuavam e os treinamentos estavam sendo reorganizados. Nas áreas externas, os semideuses trabalhavam junto aos ferreiros da Audácia, discutindo armas e materiais.

Mas o baile havia se tornado o assunto favorito de praticamente todos. Hailey enviou Atena até as primas para que as três se encontrassem antes do café da manhã. Quando se aproximou da biblioteca, encontrou Grace e Sara já ali. Assim que entrou, encontrou as duas conversando.

— Então — Hailey disse, sentando-se. — Vamos falar sobre o assunto mais importante de Hogwarts.

Sara ergueu uma sobrancelha.

— A guerra?

— O baile! — a bruxa respondeu, indignada.

Grace riu.

— Você não presta.

— Eu estou apenas tentando manter nossas prioridades organizadas.

Sara cruzou os braços. As três riram. Grace se acomodou melhor na cadeira. Hailey ficou alguns segundos em silêncio, olhando pela janela.

— É estranho.

— O quê? — Sara perguntou.

— Eu fui a um baile aqui quando tinha quatorze anos. Naquela época, a coisa mais assustadora que eu conseguia imaginar era tropeçar na frente de todo mundo ou meu vestido rasgar.

Grace riu.

— E agora?

Hailey olhou para as duas.

— Agora eu estou escolhendo um vestido sabendo que, daqui a cinco meses, vamos estar no meio de uma guerra.

O sorriso das três diminuiu. Por alguns segundos, nenhuma delas falou. A realidade voltou a ocupar o espaço entre elas. Cinco meses. Era tempo suficiente para treinar. Tempo suficiente para se preparar. Tempo suficiente para criar novas armas, fortalecer as proteções e aprender a lutar de maneiras que nenhum deles jamais imaginara. Mas também era pouco.

— Eu não quero passar esses cinco meses pensando só nisso — Grace disse finalmente.

Sara assentiu.

— Nem eu.

Hailey olhou para as duas.

— Então não vamos.

Ela estendeu as mãos sobre a mesa. Grace colocou a dela por cima. Sara fez o mesmo.

— Vamos treinar — Hailey continuou. — Vamos lutar. Vamos nos preparar. Mas também vamos viver.

Grace sorriu.

— E vamos ao baile.

— E vamos ao baile.

Sara apertou as mãos das amigas.

— E vamos ficar lindas e gostosas!

Hailey riu.

— Isso nem precisava ser discutido.

As três começaram a rir novamente. Do lado de fora, Hogwarts continuava se transformando. Professores reforçavam encantamentos. Semideuses treinavam. Audaciosos forjavam armas. Bruxos aprendiam a lutar sem varinhas. As Caçadoras permaneciam em alerta. Cinco meses. Era o tempo que tinham. Mas, por enquanto, faltavam apenas quatorze dias para o baile. E talvez fosse exatamente disso que precisassem.

Uma noite para esquecer a guerra.

Uma noite para dançar.

Uma noite para rir.

Uma noite para amar.

Porque, enquanto Hogwarts se preparava para sobreviver ao que estava por vir, seus estudantes ainda precisavam se lembrar de uma coisa simples e profundamente humana: eles não estavam lutando apenas para continuar vivos. Estavam lutando para continuar tendo uma vida para viver.

E, naquela noite, enquanto as primeiras ideias sobre vestidos, músicas e decoração começavam a se espalhar pelo castelo, Hogwarts parecia determinada a provar que ainda havia espaço para felicidade mesmo à sombra da guerra.

As proteções estavam erguidas. As armadilhas estavam escondidas. As armas estavam sendo forjadas. O treinamento começaria novamente. Mas, por algum curto tempo, todos poderiam pensar em outra coisa.

O baile aconteceria em quatorze dias. A guerra, em cinco meses. E, entre uma coisa e outra, Hogwarts ainda respirava.