Last Battle

19 Hailey e Zeus


O trovão distante pareceu responder à presença daquele homem.

Hailey permaneceu imóvel por alguns segundos, os olhos castanhos presos nos olhos azuis que pareciam carregar dentro deles a própria tempestade. Ela não precisava que Gareth terminasse a frase. Já sabia. Sabia desde o instante em que o homem surgira na Torre de Astronomia, sabia pela presença impossível de ignorar, pela maneira como Gareth havia ficado imediatamente sério e, principalmente, pela sensação que percorria seu corpo como uma descarga silenciosa.

Zeus.

Seu pai.

A palavra ainda parecia estranha dentro da própria cabeça. Não porque ela não soubesse quem ele era. Sabia. Havia passado os últimos tempos descobrindo coisas sobre a própria origem que jamais imaginara conhecer. Sabia que Zeus era seu pai. Sabia que sua mãe, Lucy, havia deliberadamente escondido aquela verdade dela. Sabia, inclusive, que a história de que seu pai havia morrido fora construída para que ela crescesse acreditando que aquele homem nunca poderia voltar para sua vida.

O que Hailey não sabia era o motivo.

E agora ele estava ali.

Vivo.

Diante dela.

Zeus avançou alguns passos, sem pressa. Não havia necessidade de demonstrar poder. Ele simplesmente o carregava consigo. Cada movimento parecia controlado, mas havia algo quase ameaçador na tranquilidade daquele homem. Zeus parou diante dela e a observou com uma atenção que fez Hailey sentir, pela primeira vez, o peso de estar sendo examinada pelo próprio pai.

— Hailey.

Ouvir seu nome na voz dele produziu uma sensação inesperada. Não era como ouvir alguém pronunciar o nome de uma figura das histórias que estudara. Era pessoal demais. Familiar de uma maneira que não deveria ser possível.

Gareth olhou para os dois. Havia respeito em sua postura, mas também uma tensão evidente. Ele sabia que aquele momento não lhe pertencia. Ainda assim, não conseguia simplesmente ignorar que estava diante de Zeus. O deus que Hailey havia acabado de descobrir ser seu pai. O mesmo homem que, minutos antes, provavelmente havia observado os dois no alto da torre.

Gareth pigarreou discretamente.

— Eu vou dar privacidade a vocês.

Hailey virou o rosto para ele. Gareth soltou um pequeno sorriso. Zeus arqueou uma sobrancelha.

— Só estou dando espaço para vocês conversarem — explicou Gareth.

— E pretende ficar onde? — Hailey perguntou.

Gareth apontou discretamente para a escada. Hailey sorriu. Ele se aproximou dela antes de descer os primeiros degraus, tocou de leve sua cintura e inclinou-se para beijar sua testa, num gesto carinhoso e silencioso. Depois lançou um último olhar para Zeus.

— Senhor.

Zeus o observou por um instante.

— Gareth.

O rapaz assentiu e desceu alguns degraus, permanecendo perto o suficiente para ouvir se Hailey precisasse dele, mas longe o bastante para não invadir aquele primeiro encontro.

Hailey acompanhou sua descida com os olhos.

— Ele está preocupado.

— Percebi — respondeu Zeus.

— E um pouco intimidado.

— Também percebi.

— Não precisa assustá-lo.

Zeus sorriu.

— Ele tem motivos para estar cauteloso.

Hailey soltou uma risada.

— Você apareceu no meio de um momento romântico. Não esperava que ele ficasse completamente tranquilo.

Um sorriso discreto surgiu no rosto de Zeus.

— Eu notei.

Hailey estreitou os olhos.

— Você viu?

— Até demais. É bom que ele esteja nervoso mesmo.

Ela levou a mão ao rosto, contendo uma risada. Depois respirou fundo, tentando recuperar a compostura.

— Então, já que você resolveu dar o ar da graça depois de dezessete anos, vamos começar. Quero saber de você e da minha mãe.

Zeus arqueou levemente uma sobrancelha.

— Imaginei.

— Como vocês se conheceram?

— No Rio de Janeiro. Eu estava lá por assuntos dos deuses e Lucy estava visitando familiares. Nós nos encontramos e, de alguma forma, uma conversa virou outra, depois outra... quando percebi, eu já estava apaixonado.

Hailey inclinou levemente a cabeça.

— Tão simples assim?

— Não. Sua mãe nunca tornou nada simples.

Hailey riu.

— Isso eu consigo imaginar.

Zeus sorriu.

— Ela não tinha medo de me contrariar, não aceitava uma explicação simplesmente porque eu havia dado e tinha uma maneira muito própria de transformar uma conversa comum em uma discussão que eu não queria terminar.

— Definitivamente minha mãe.

— E você herdou bastante dela.

— Só bastante?

— Seu sorriso, algumas expressões, seu senso de humor e, principalmente, essa mania irritante de não aceitar uma resposta incompleta.

Hailey apontou para ele.

— Essa última parte é sua também.

— Talvez.

— E vocês realmente se amaram?

A expressão de Zeus mudou ligeiramente.

— Sim. Muito.

A resposta simples foi suficiente.

Hailey ficou em silêncio por alguns segundos. Havia algo quase absurdo em ouvir aquilo diretamente dele. Durante tanto tempo, Zeus fora apenas uma ausência, uma mentira, uma história que sua mãe havia enterrado junto com a infância dela.

Agora havia um homem diante dela falando de Lucy como alguém que havia amado de verdade.

— Minha mãe está viva ainda. Você sabe, imagino.

— Está. No Rio de Janeiro.

Hailey tentou parecer pouco surpresa.

— Você a viu antes de vir aqui?

Zeus não respondeu imediatamente. O pequeno silêncio foi suficiente. Hailey estreitou os olhos.

— Você foi vê-la antes de vir aqui?

— Sim.

Hailey cruzou os braços.

— E como foi?

Zeus sustentou o olhar dela, mas não respondeu. Um sorriso apareceu no canto da boca dele. Hailey ficou alguns segundos olhando para o pai antes de começar a rir.

— Você foi lá matar a saudade, né?

Dessa vez, o sorriso dele foi impossível de esconder.

— Nós ainda temos uma relação, ao nosso modo. Eu não quero colocá-la em risco, mas também não a deixo ir muito longe.

Hailey arqueou uma sobrancelha.

— Você é do tipo ciumento?

— Sou.

Ela soltou uma risada.

Por alguns segundos, a situação pareceu quase engraçada.

Então Hailey lembrou do que realmente importava.

— E vocês conseguiram continuar assim durante todos esses anos?

Zeus percebeu imediatamente a mudança.

— Hailey...

— Não. Nem começa. Eu quero saber.

Ela não estava mais sorrindo.

— Vocês conseguiram continuar fazendo parte da vida um do outro. Conversando, se encontrando, mantendo uma relação. Enquanto eu... — Ela respirou fundo. — Enquanto eu nem sabia que você existia.

Zeus não tentou diminuir aquilo.

— Sim.

A resposta simples atingiu mais forte do que uma justificativa teria atingido.

— Isso é estranho para mim — admitiu Hailey. — Porque uma parte de mim fica feliz por vocês ainda se amarem. Mas outra parte pensa que vocês dois tinham uma coisa que eu nunca tive. Vocês sabiam. Vocês tinham escolha. Eu não tinha nem a verdade.

Zeus permaneceu em silêncio.

— Você tem razão.

Hailey apertou os braços contra o corpo.

— Minha mãe me contou que você morreu.

— Decidimos que seria melhor assim.

— Eu já entendi essa parte. O que eu quero entender é por quê. Foi ideia dela? Sua? Dos dois?

— Dos dois.

A eletricidade percorreu discretamente os dedos de Hailey.

— Decidimos que seria mais seguro que você não soubesse que era filha de Zeus.

A honestidade da resposta fez Hailey ficar em silêncio.

— Lucy sabia que criar você como uma filha de Zeus colocaria um alvo sobre sua cabeça. Eu também sabia. Minha presença teria atraído atenção demais. Se você tivesse crescido sabendo quem era, provavelmente teria sido enviada para um caminho que não estava preparada para enfrentar. Então nós tomamos a decisão de esconder minha existência.

Hailey soltou uma risada curta, amarga.

— “Esconder minha existência” parece muito mais cruel quando você coloca nesses termos.

— Porque foi cruel.

Ela ergueu os olhos rapidamente. Zeus não recuou.

— Nós acreditávamos que era necessário. Isso não significa que tenha sido fácil, nem que todas as consequências tenham sido previstas.

— Mas você aceitou.

— Aceitei.

— Você ficou sabendo de mim durante todos esses anos?

— Sim.

— Você sabia como eu estava?

— Na medida em que me era possível saber.

— Quando eu estava feliz? Quando estava triste?

— Sim.

— Quando eu estava em perigo?

Zeus demorou um pouco mais.

— Algumas vezes.

Hailey apertou a mandíbula.

— E mesmo assim não veio.

— Não.

A resposta doeu mais do que qualquer tentativa de justificativa teria doído.

— Você sabia que eu existia. Sabia quando eu estava em perigo. Sabia que eu estava crescendo. Então por que não veio? — A voz dela falhou por um instante, mas Hailey não desviou o olhar. — Eu passei dezessete anos acreditando que meu pai tinha morrido. Você não sabe como foi descobrir que ele estava vivo e que, pior, ele sabia de mim o tempo inteiro.

Zeus não tentou interrompê-la.

— Eu sei que isso não é uma coisa que eu possa consertar agora — disse ele. — E não vou tentar transformar proteção em desculpa. Eu tomei uma decisão. Lucy tomou uma decisão. Nós acreditávamos que estávamos fazendo o que era necessário. Eu sabia que você tinha que aprender a desenvolver seu dom que herdou de mim mas também sabia que te enviar lara o acampamento seria muito arriscado. Voce iria para missões muito arriscadas. Hogwarts era mais segura. E sua mãe, do jeito wue ela faz magia sem esforço, conseguiu te proteger. E essa escola tem encantamentos muito específicos. Você ficou muito segura dessa forma, mas você foi quem viveu as consequências.

Hailey respirou fundo.

— Você se arrepende de alguma coisa?

Zeus demorou alguns segundos.

— De ter tentado proteger você, não. De não ter encontrado uma maneira diferente de fazer isso, sim.

Ela voltou a olhá-lo.

— Você poderia ter deixado alguma coisa. Uma carta. Algum sinal. Qualquer coisa que me dissesse que você existia. Eu não precisava saber tudo, mas vocês sabem que eu sou suficientemente inteligente para compreender o necessário.

A expressão de Zeus se tornou mais pesada.

— Eu deveria ter entendido isso antes.

Hailey ficou alguns segundos em silêncio.

— E vocês continuaram se falando?

— Sim.

Aquilo doeu de uma maneira diferente.

— Então vocês continuaram sendo parte da vida um do outro enquanto eu não sabia nem que você existia?

— Lucy também sofreu com essa decisão.

— Mas ela não precisava me deixar totalmente no escuro.

Zeus não tentou negar.

— Não.

Hailey passou a mão pelos cabelos.

— Isso é muito injusto.

— É.

A honestidade dele fez com que ela parasse.

— Você não vai tentar justificar?

— Posso explicar, mas nada do que eu falar poderá desfazer o que aconteceu.

Hailey ficou olhando para ele. Pela primeira vez desde que Zeus aparecera, percebeu que ele não estava tentando convencê-la de que tinha feito tudo certo.

Ele estava aceitando que havia errado com ela.

— E você ainda ama minha mãe?

Zeus sorriu, dessa vez com algo quase melancólico.

— Sim.

Hailey respirou fundo.

— Vocês tiveram uma história de verdade, então.

— Tivemos. Sua mãe nunca foi uma aventura passageira na minha vida.

Hailey abaixou os olhos por um instante.

— É estranho ouvir isso. Eu passei tanto tempo pensando em você como uma pessoa que morreu antes de eu poder conhecer.

— Eu sei.

Ela voltou a encará-lo.

— Minha mãe sabia que você viria falar comigo?

— Sabia. Ela meio que ordenou isso mesmo eu já tendo dito que viria. Ela semlre tem que dar a palavra final.

Hailey estreitou os olhos.

— Então vou ter uma conversa séria com a dona Lucy Cipriano.

Zeus riu.

— Ela está esperando seu contato.

— E vocês vão me contar tudo?

— Aos poucos.

Ela soltou um suspiro.

— Eu sabia...

— Algumas respostas precisam de contexto e tempo certo.

— E algumas já têm os dois, mas você ainda não quer dar.

Zeus sorriu de lado.

— Nada escapa de você...

— Pelo menos isso você admite.

— Aprendi que mentir para você não funciona muito bem. Nunca funcionou com sua mãe.

Hailey sorriu, mas logo percebeu que Zeus a observava de maneira diferente. Ele parecia procurar pequenos detalhes em seu rosto, em seus gestos, como se tentasse guardar aquela imagem.

— O quê? — perguntou ela.

— Você faz isso quando está irritada.

— O quê?

Ele apontou para a mão dela. Hailey percebeu que havia cravado as unhas na própria palma, e um pequeno fio de sangue escorria pela pele.

— Eu faço isso desde criança...

— Sim... Desde muito pequena.

Ela ficou imóvel.

— Você sabia?

— Algumas vezes eu conseguia ver. O choque que você sentia na mão era eu fazendo você parar de se ferir.

Hailey sentiu uma pontada estranha no peito.

— Então você realmente estava ali.

— Sempre que podia.

— Você me viu crescer?

Zeus respirou fundo.

— Não como eu gostaria. Mas sim.

Hailey sustentou o olhar dele.

— Você sabia quando eu estava sofrendo?

— Algumas vezes.

— E mesmo assim não veio.

Ele desviou o olhar.

— Isso torna tudo mais difícil.

— Eu sei.

Zeus se aproximou um pouco.

— Porque é reconfortante pensar que meu pai sabia que eu existia. Mas também é doloroso saber que ele podia saber de mim e ainda assim escolher ficar longe.

Ele não tentou se defender.

— Eu deveria ter encontrado outra maneira.

Hailey não respondeu. Por alguns segundos, os dois ficaram apenas se olhando.

Então Zeus sorriu de leve.

— Você é muito parecida com sua mãe.

Hailey arqueou uma sobrancelha.

— Você fala isso como se fosse uma coisa ruim.

— De maneira nenhuma. Mas também há muito de mim em você.

— Como o quê?

— A maneira como você entra em uma situação procurando entender onde está a vantagem. A necessidade de descobrir o que ninguém está contando. E essa tendência de agir quando alguém está em perigo, mesmo sabendo que a decisão pode custar caro.

Hailey sorriu de canto.

— Então você admite que somos parecidos.

— Mais do que você gostaria.

Ela soltou uma pequena risada.

Por alguns instantes, a tensão diminuiu. Não havia profecia, guerra ou monstros naquela conversa. Apenas dois desconhecidos tentando descobrir como ocupar o espaço de pai e filha depois de dezessete anos.

Zeus olhou para a escada.

— Ele realmente não pretende ir embora.

Hailey acompanhou seu olhar.

— Não.

— Gosto disso.

— Você gosta?

— Ele respeitou o momento. Não foi embora por completo porque quer ter certeza de que você está bem.

Hailey sorriu.

— Ele é assim.

Zeus assentiu.

— Isso é bom.

Depois de alguns segundos, ele perguntou:

— E o rapaz?

Hailey acompanhou seu olhar.

— Gareth?

Um sorriso apareceu no rosto dela.

— O que tem ele?

Zeus cruzou os braços.

— Ele faz você feliz?

A mudança no tom fez Hailey perceber imediatamente que a conversa havia entrado em território paternal.

— Você está fazendo o famoso interrogatório de pai protetor agora?

— Sou seu pai. Tenho algumas perguntas skbre sua vida lrivada e tenho total direito de fazê-las depois da cena que presenciei.

Hailey riu.

— Ele faz sim...

— Respeita você?

— Sempre.

— Escuta quando você diz não?

— Sem discutir.

— Confia na sua capacidade de lutar?

— De olhos fechados.

— E quando você não consegue lutar?

Hailey pensou por um instante.

— Ele fica e me defende. Você, que adora fuxicar, deve ter visto o que aconteceu mais cedo.

Zeus assentiu lentamente.

— Isso é importante.

— Ele ficou na Audácia quando poderia ter ido embora. Mesmo eu tendo expulsado ele.

— Eu sei.

Hailey estreitou os olhos.

— Você realmente estava observando tudo. Por que me pergunta se sabe?

— Eu queria saber quem estava ao seu lado pelos seus olhos.

Hailey sorriu.

— E qual é o seu veredito?

Zeus arqueou uma sobrancelha.

— Não dou vereditos tão rápido.

— Você é meu pai. Pode admitir que está fazendo avaliação de namorado.

— Estou fazendo avaliação de namorado.

Hailey riu.

— Muito melhor.

Zeus voltou a olhar para a escada.

— Ele parece amar muito você.

— Sim.

— E você ama muito ele.

Hailey sorriu.

— Muito.

Zeus ficou em silêncio por um momento.

— Então eu espero que ele saiba a responsabilidade que isso representa.

Hailey inclinou a cabeça.

— Está ameaçando ele?

— Estou conversando como pai.

— É exatamente isso que um pai ameaçador diria.

Zeus riu.

— Melhor ele cuidar de você.

— Ele cuida.

— Melhor que continue cuidando.

Hailey começou a rir.

O céu começou a clarear lentamente, embora as nuvens ainda permanecessem pesadas sobre Hogwarts. Zeus deu um passo para trás. Hailey percebeu que o encontro estava chegando ao fim.

— Você já vai embora?

— Por enquanto.

— E depois?

— Depois eu volto.

Ela o encarou.

— Para responder minhas perguntas?

— Para responder algumas. Outras você terá que descobrir sozinha.

Hailey sorriu de lado.

— Então você está perdido.

— Por quê?

— Porque eu tenho muitas.

Zeus riu.

— Eu sei.

Ele se aproximou mais uma vez e, por um instante, pareceu hesitar. Então ergueu a mão e tocou de leve o rosto da filha, num gesto simples e cuidadoso.

— Você cresceu muito longe de mim, Hailey. Sei que perdi momentos que nunca vou recuperar. Mas você nunca foi esquecida. Nunca deixou de existir para mim.

Os olhos dela ficaram marejados.

— Eu ainda estou com raiva de você.

— Você tem esse direito.

— E ainda tenho muitas perguntas.

— Eu sei.

— Algumas são bem difíceis.

— Eu não esperaria menos de você.

Ela sorriu.

— Até breve, pai.

A palavra saiu quase sem que ela percebesse.

Zeus ficou imóvel por um instante. O sorriso que surgiu em seu rosto foi pequeno, mas verdadeiro.

— Até breve, filha.

Um trovão ressoou ao longe e um clarão tomou conta da Torre de Astronomia fazendo com que Hailey fechasse os olhos. Então, quando ela tornou a abri-los, ele havia desalarecido da torre.

Hailey ficou imóvel por alguns segundos, tentando organizar o que acabara de acontecer. Ela ainda estava com raiva. Ainda existiam perguntas demais. Ainda havia uma parte dela que queria encontrar Lucy e exigir cada detalhe que havia sido escondido durante aqueles dezessete anos.

Mas agora havia algo diferente.

Ela tinha visto o pai.

Tinha ouvido sua voz.

Tinha descoberto como Zeus conheceu sua mãe, como os dois se amaram, por que sua origem foi escondida e, principalmente, que Zeus nunca havia deixado de saber que ela existia.

E então Gareth surgiu pela escada.

Dessa vez, não havia nenhuma tentativa de fingir que ele não estivera ouvindo. Ele subiu os últimos degraus devagar, as mãos nos bolsos e os olhos imediatamente procurando Hailey. Assim que a encontrou, a expressão brincalhona dele havia desaparecido por completo. Havia preocupação genuína em seu rosto.

— Hailey.

Ela ergueu os olhos para ele. Gareth se aproximou com pressa e parou diante dela, observando-a por alguns segundos antes de tocar delicadamente seu rosto.

— Você está bem?

Hailey respirou fundo.

— Não sei. Acho que sim. É muita coisa para processar.

Ele passou o polegar de leve pela maçã do rosto dela.

— Então não precisa fingir que está tudo bem.

A voz dele era baixa e firme. Não havia cobrança, apenas cuidado.

— Eu ainda estou com raiva dele — murmurou Hailey.

— Você tem todo o direito.

— E ainda tenho perguntas demais.

— Então você vai fazer todas elas. Quando estiver pronta.

Hailey o encarou.

— Você não vai tentar me dizer o que eu deveria sentir?

Gareth balançou a cabeça.

— Claro que não. Você acabou de conhecer seu pai depois de dezessete anos. Eu não vou dizer como você deveria reagir a isso. Só quero ter certeza de que você não vai carregar tudo sozinha. Você não tá sozinha. Eu to aqui...

Ela ficou em silêncio por um instante.

Gareth a puxou para os braços. Hailey encostou o rosto no peito dele e permaneceu ali, sentindo os braços dele se fecharem ao redor de seu corpo com firmeza. Uma das mãos deslizou lentamente por suas costas, enquanto a outra permaneceu em sua nuca, num gesto protetor e carinhoso.

Ele não tentou apressá-la. Apenas ficou ali, Depois de alguns segundos, Hailey respirou fundo.

— Obrigada.

Gareth beijou o topo de sua cabeça.

— Nada, linda.

Ela ergueu o rosto e encontrou os olhos dele.

— Você estava preocupado?

— Muito. Eu queria subir antes. Eu só não vim porque era uma conversa que você precisava ter com ele. E eu sabia que, se aparecesse antes da hora, poderia tirar de você um momento que nunca vai voltar. Eu estava preocupado com você. Depois de tudo o que aconteceu, eu não sabia como você ia sair dessa conversa – ele acariciou novamente o rosto dela — Eu só precisava ter certeza que você estava bem.

Hailey passou os braços ao redor da cintura dele. Gareth a apertou um pouco mais contra si. Ela permaneceu alguns segundos abraçada a ele antes de estreitar os olhos.

— Você estava ouvindo tudo, não estava?

A expressão dele mudou imediatamente.

— Eu estava estrategicamente posicionado.

Hailey começou a rir.

— No meio da escada?

— Eu prefiro chamar de ponto de observação estatégico.

— Você é impossível.

— Eu estava tentando respeitar a privacidade de vocês.

— E falhou completamente.

Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo.

— Meu pai gostou de você.

Gareth ficou sério.

— Ele disse isso?

— Disse.

Um alívio visível atravessou o rosto dele.

— Ótimo.

Hailey percebeu.

— Você realmente estava preocupado com isso?

— Eu estava preocupado com várias coisas.

— Inclusive isso?

Gareth soltou o ar.

— Inclusive com a possibilidade de seu pai decidir que eu não era bom o suficiente para você e lançar um raio na minha cabeça. Agora estou um pouco mais tranquilo. Só um pouco.

— Por quê?

Gareth olhou para ela por alguns segundos.

— Porque ele viu a gente se beijando de um jeito nada bíblico.

Hailey mordeu o lábio para conter o sorriso.

— E você tem certeza de que foi só isso que ele viu?

Ela arqueou uma sobrancelha. Gareth passou a mão pelo rosto, visivelmente constrangido.

— Estou tentando descobrir se existe alguma possibilidade de ter visto... outras coisas.

O sorriso dela aumentou.

— Outras coisas?

— Você sabe.

— Quero ouvir você dizer.

Hailey começou a rir quando viu que ele ficou vermelho

— Gareth Travers! Você está com vergonha?

— Estou tentando preservar o pouco de dignidade que ainda me resta.

— Depois de ficar escondido na escada, acho que essa dignidade já estava comprometida.

Gareth soltou uma risada.

— Muito engraçado. Mas, admito, não me deixa exatamente confortável imaginar seu pai tendo conhecimento detalhado demais da nossa vida íntima. Não quero falar mais do que o necessário pra não morrer antes de casar com você...

Hailey se aproximou, passando os braços ao redor do pescoço dele.

— Casar, é?

— Claro. Ou você achou que eu ia me contentar de ter um mulherão desses comigo só com o título de namorada?

Hailey riu.

– Gostei...

Gareth segurou a cintura dela e a puxou para mais perto.

— Eu respeito seu pai. Muito. Só preferia que certas partes da nossa vida continuassem sendo exclusivamente nossas.

Hailey sorriu.

— Acho que nisso nós concordamos.

— Ótimo.

— Mas você está com vergonha.

— Um pouco.

— Você fica lindo assim.

— Não conta isso para ninguém.

Ela riu.

Gareth passou os braços novamente ao redor dela, dessa vez puxando-a contra o peito.

— Só me promete uma coisa.

Hailey ergueu os olhos.

— O quê?

— Se essa conversa com Zeus deixar alguma coisa pesada demais na sua cabeça, você fala comigo. Não precisa resolver tudo hoje. Não precisa fingir que está forte o tempo inteiro comigo.

Hailey ficou séria.

— Eu prometo.

Gareth beijou sua testa demoradamente.

— É tudo o que eu quero.

Ela segurou o rosto dele entre as mãos. Ela se aproximou para beijá-lo, mas Gareth ainda lançou um olhar rápido para o céu que tinha voltado a ficar limpo.

— Só por segurança.

Hailey riu contra os lábios dele antes de beijá-lo.

Dessa vez, quando se afastaram, Gareth manteve a testa encostada na dela e as mãos firmes em sua cintura.

Hailey ainda tinha raiva. Ainda tinha perguntas. Ainda havia coisas que precisava descobrir.

Mas, naquele momento, havia também alguém ao seu lado que não tentava apagar sua dor, não tentava decidir por ela e não exigia que estivesse bem.

Gareth simplesmente permanecia ali.

E, para Hailey, isso bastava