Last Battle

32 Do outro lado


Grace despertou lentamente, como se estivesse emergindo de um sono profundo demais para ser apenas sono. Durante alguns segundos, permaneceu imóvel, com os olhos fechados, tentando compreender a estranha sensação de leveza que percorria seu corpo. Não havia dor. Não havia peso em seus músculos, nem o ardor dos ferimentos, nem o cansaço que havia se acumulado durante a guerra. Não havia sequer aquela tensão permanente que, nos últimos dias, parecia ter se instalado dentro de seu peito e que a fazia esperar pelo próximo ataque mesmo nos momentos de silêncio. Quando finalmente abriu os olhos, esperava encontrar escuridão, talvez os destroços da propriedade dos Malfoy ou alguma lembrança fragmentada do ritual. Em vez disso, encontrou o céu azul sobre sua cabeça.


Ela se ergueu devagar, apoiando-se nos cotovelos, e olhou ao redor. Por alguns instantes, não conseguiu compreender o que estava vendo. Estava deitada sobre a grama do Acampamento Meio-Sangue. O lugar parecia exatamente como se lembrava, e, ao mesmo tempo, havia alguma coisa diferente. Não havia semideuses treinando na arena, nenhum campista atravessando os caminhos entre os chalés, nenhuma conversa distante, nenhum som de espadas se chocando ou de arco e flecha sendo disparado. O acampamento estava completamente vazio. Ainda assim, não havia naquela ausência nada de ameaçador. Era um silêncio tranquilo, quase acolhedor, como se o próprio lugar estivesse descansando. Grace olhou para si mesma e franziu o cenho ao perceber que não usava mais as roupas da batalha. Um vestido branco cobria seu corpo, simples e delicado, descendo até suas pernas. Ela passou os dedos pelo tecido, confusa, e então se levantou.


— Onde eu estou? — murmurou, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa.


Começou a caminhar sem direção definida. Seus olhos percorriam os chalés, a arena, os caminhos de terra e a paisagem que tantas vezes havia visto em seus dias no acampamento. Tudo estava no lugar. Perfeito demais. Não havia uma única marca da batalha, nenhum sinal de que o mundo estivesse mergulhado em guerra. Era como se aquele lugar tivesse sido preservado em uma memória particularmente bonita, uma versão do Acampamento Meio-Sangue em que nada de ruim jamais tivesse acontecido. Grace sentiu uma pontada estranha no peito. Conhecia aquele lugar. Não apenas fisicamente, mas emocionalmente. Havia alguma coisa ali que tocava uma parte dela que Hogwarts jamais alcançara da mesma maneira. O acampamento representava sua natureza como semideusa, sua ligação com Poseidon, seus primeiros passos naquele mundo e todas as pessoas que haviam lhe ensinado que ser diferente não significava estar sozinha.


Ela continuou caminhando até perceber uma pequena figura sentada próxima a um dos caminhos. Grace diminuiu o passo. A menina parecia ter pouco mais de onze anos. Tinha os cabelos cacheados, a pele clara, as bochechas naturalmente rosadas e os mesmos olhos verdes que Grace via no espelho todos os dias. Vestia roupas do Acampamento Meio-Sangue e balançava as pernas distraidamente, como se estivesse esperando por alguém. Quando percebeu a presença de Grace, levantou os olhos e sorriu.


Grace parou completamente.


— Você...


A menina inclinou a cabeça, divertida.


— Demorou bastante para perceber.


Grace sentiu o coração apertar de uma maneira que não conseguia explicar. Aproximou-se devagar e se ajoelhou diante dela, observando cada detalhe daquele rosto que conhecia tão bem. Era estranho olhar para si mesma daquela maneira. Estranho e, ao mesmo tempo, profundamente familiar.


— Você sou eu.


— Sou você — respondeu a menina, com um sorriso pequeno. — Só que antes de você descobrir um monte de coisas que provavelmente preferia não ter descoberto.


Grace soltou uma risada baixa, apesar da confusão.


— E onde exatamente estamos?


A pequena Grace olhou ao redor.


— No seu céu.


Grace ficou em silêncio por alguns segundos.


— Meu... céu?


— Cada pessoa tem um céu diferente. O seu é este.


A menina abriu os braços, como se estivesse apresentando o acampamento inteiro.


— O Acampamento Meio-Sangue. É onde você se sente em casa. Ou pelo menos uma das partes mais importantes da sua casa. Você sempre gostou daqui.


Grace se levantou devagar e voltou a olhar ao redor. Aquelas palavras fizeram sentido de uma maneira que ela não esperava. O céu dela não era um lugar cheio de riquezas, nem um reino celestial, nem alguma paisagem impossível. Era aquele acampamento. O lugar onde aprendera a controlar aquilo que havia herdado de Poseidon, onde conhecera pessoas que se tornariam sua família e onde descobrira que havia um espaço no mundo para alguém como ela.


— Então eu estou morta? — perguntou finalmente.


A pequena Grace não respondeu imediatamente. Apenas a observou.


— Você acha que está?


Grace respirou fundo.


— Eu me lembro da mansão. Lembro do ritual. Lembro do sangue. Lembro de sentir que alguma coisa estava sendo arrancada de mim. Depois disso... nada.


— Talvez porque você tenha chegado perto demais de morrer.


Grace franziu o cenho.


— Isso não responde à minha pergunta.


— Talvez você não precise da resposta.


A Grace adulta ficou olhando para a menina por alguns segundos. Havia alguma sabedoria naquela criança que a incomodava justamente porque parecia vir de dentro dela mesma. Era como se estivesse diante de uma parte de sua própria consciência que não havia sido esmagada pelo medo, pela guerra ou pelas perdas.


— Você quer saber uma coisa? — perguntou a pequena.


— O quê?


— Se você estava feliz?


Grace sorriu de leve.


— Essa é uma pergunta estranha.


— Não para mim. Eu preciso saber se você conseguiu.


Grace sentiu os olhos arderem, embora não soubesse exatamente por quê.


— Consegui — respondeu depois de alguns segundos. — Não todos os dias. Nem o tempo todo. Mas sim. Eu fui feliz.


A menina sorriu.


— E você se tornou quem queria ser?


Grace pensou antes de responder.


— Não sei se alguém realmente se torna exatamente quem imaginava quando tinha a sua idade. Eu mudei muito. Passei por coisas que você nem consegue imaginar. Conheci pessoas que mudaram minha vida. Perdi algumas. Ganhei outras. Descobri coisas sobre mim que não sabia. E ainda estou descobrindo.


— Você tem medo?


Grace soltou uma pequena risada.


— Muito mais do que eu gostaria de admitir.


— Mesmo sendo adulta?


— Principalmente por ser adulta.


A menina ficou pensativa.


— E o Tobias?


O sorriso de Grace apareceu quase imediatamente.


— Tobias é uma das razões pelas quais eu quero viver.


— Você ama ele?


Grace olhou para a pequena versão de si mesma e sorriu de uma maneira diferente, mais suave.


— Amo. Muito. E é engraçado porque eu não sabia que era possível querer dividir uma vida inteira com alguém. Não apenas os momentos bons, mas também os dias difíceis, as responsabilidades, os medos, tudo. Eu quero acordar ao lado dele, brigar com ele por coisas idiotas, rir das coisas que só nós dois achamos engraçadas, ficar velha com ele. Quero ter a oportunidade de descobrir como é continuar amando alguém mesmo depois que a vida deixar de ser uma aventura e virar simplesmente... vida.


A pequena Grace sorriu.


— Então por que você ainda está aqui?


Grace voltou os olhos para o acampamento. Foi nesse momento que percebeu o que havia de diferente naquele lugar. Não havia guerra. Não havia inimigos escondidos. Não havia profecia ameaçando o futuro. Não havia necessidade de vigiar portas, preparar armas ou imaginar quem poderia morrer no próximo confronto. Pela primeira vez em muito tempo, ela não precisava lutar.


A percepção veio acompanhada de uma paz tão profunda que quase doeu.


— Porque aqui não existe nada para eu temer — disse.


— Exatamente.


Grace respirou fundo.


— E também não existe nada para eu perder.


A pequena Grace a observou.


— Isso parece bom.


— Parece.


Grace caminhou alguns passos, sentindo a grama sob os pés descalços. O Acampamento Meio-Sangue era perfeito. Não havia barulho, não havia perigo, não havia sofrimento. Era a paz que ela havia desejado tantas vezes, especialmente depois de tudo o que enfrentara. Por um instante, compreendeu por que alguém poderia simplesmente se sentar ali e nunca mais querer partir.


A menina se aproximou.


— Você poderia ficar.


Grace olhou para ela.


— Eu poderia.


— Então por que não fica?


Grace demorou para responder.


— Porque paz não é a mesma coisa que felicidade. E eu demorei muito para entender isso.


A criança permaneceu em silêncio.


Grace se ajoelhou novamente diante dela.


— Eu quero paz. Claro que quero. Depois de tudo o que aconteceu, eu daria qualquer coisa por alguns dias sem medo, sem sangue, sem precisar lutar. Mas eu não quero uma paz que só existe porque eu desisti da minha vida. Eu ainda quero viver. Quero voltar para o Tobias. Quero estar com a Hailey e com a Sara. Quero descobrir o que acontece depois de tudo isso. Quero ter a chance de errar de novo, de acertar, de amar, de envelhecer, de viver coisas que ainda nem consigo imaginar. Minha vida não terminou só porque eu estou cansada dela por alguns minutos.


A pequena Grace sorriu, e havia algo quase orgulhoso naquele sorriso.


— Então você já sabe o que precisa fazer.


Grace assentiu.


— Sei.


As duas ficaram alguns segundos em silêncio. Grace olhou para aquela menina e sentiu uma emoção difícil de nomear. Não era apenas nostalgia. Era como se estivesse diante da última lembrança de uma versão de si mesma que ainda acreditava que o futuro seria simples. Ela passou a mão delicadamente pelos cabelos cacheados da criança.


— Você sabe que eu ainda sou você, não sabe?


— Sei.


Grace sorriu, emocionada.


— Obrigada por me lembrar de quem eu sou.


A menina abraçou Grace. Ela fechou os olhos e apertou aquela pequena versão de si contra o peito, sentindo uma ternura que quase a fez chorar novamente.


— Vai viver — sussurrou a criança.


Grace se afastou devagar. Então começou a caminhar em direção à saída do acampamento. Cada passo parecia afastá-la daquele lugar perfeito e aproximá-la de algo muito menos seguro, mas muito mais real. Quando já estava perto do limite, uma voz chegou até ela, distante, quase como um eco carregado pelo vento.


— Grace...


Ela parou. A voz veio novamente.


— Grace, volta para mim...


Era Tobias. Grace fechou os olhos e sorriu. Não precisava saber de onde vinha aquela voz. Não precisava de mais nenhuma confirmação. Ela sabia exatamente para onde queria ir. Abriu os olhos e atravessou o limite.


Tudo escureceu.


---


Hailey despertou em Hogwarts.


A primeira coisa que percebeu foi o silêncio. Não havia gritos, explosões ou passos apressados. Não havia o cheiro de fumaça, sangue ou magia queimada. Quando abriu os olhos, encontrou o teto de pedra que conhecia tão bem e, por alguns segundos, ficou imóvel, tentando entender por que o coração parecia tão pesado quando seu corpo, ao contrário, não sentia dor alguma. Levantou-se lentamente e olhou ao redor. Hogwarts estava intacta. Os corredores estavam limpos, as paredes não apresentavam qualquer marca da batalha e as tochas queimavam tranquilamente, lançando uma luz dourada sobre as pedras antigas. Não havia ninguém. O castelo inteiro parecia ter sido abandonado, mas não havia nada de assustador naquele abandono. Era como se Hogwarts tivesse sido devolvida a uma versão anterior de si mesma, antes de a guerra alcançar seus corredores.


Hailey baixou os olhos e percebeu que usava um vestido branco. Passou os dedos pelo tecido, sentindo uma estranha familiaridade com a situação. Não sabia quanto tempo havia passado desde a mansão dos Malfoy. Sua última lembrança era o sangue, a dor, a magia atravessando seu corpo e a imagem de Gareth caindo diante dela. Aquela lembrança voltou com tanta força que Hailey levou a mão ao peito. O rosto dele apareceu em sua mente, imóvel, e a culpa veio imediatamente depois.


Ela começou a caminhar.


Cada corredor despertava uma lembrança. Uma sala onde havia estudado. Uma escada onde havia discutido com alguém. Um canto onde havia rido com os amigos. Uma janela diante da qual passara horas pensando. Hogwarts não era apenas uma escola. Era o lugar onde Hailey havia crescido, onde construíra relações que jamais imaginara ter e onde se tornara a pessoa que era. Mesmo agora, diante daquele castelo vazio, sentia que havia algo profundamente reconfortante em estar ali.


Foi quando ouviu passos.


Hailey parou.


Virou-se lentamente. Por alguns segundos, seu cérebro se recusou a aceitar o que seus olhos estavam vendo.


Um rapaz estava parado no corredor.


Cabelos loiros.


Olhos azuis.


Uniforme da Corvinal.


Andrew.


Hailey sentiu o ar desaparecer de seus pulmões.


— Andrew...


A voz saiu tão baixa que quase não parecia sua.


Ele sorriu.


Foi o suficiente.


Hailey correu até ele e o abraçou com força. As lágrimas vieram antes que pudesse impedir. Durante todos aqueles meses, havia sentido sua ausência de maneiras diferentes. Às vezes como culpa. Às vezes como saudade. Às vezes como uma dor silenciosa que surgia nos momentos mais inesperados. Mas nada havia preparado Hailey para a sensação de tê-lo novamente nos braços.


Andrew a abraçou de volta.


— Eu senti tanto a sua falta — ela conseguiu dizer entre lágrimas. — Mais do que eu queria admitir. Eu achei que, depois de tudo, essa parte de mim ia aprender a conviver com a saudade, mas acho que algumas pessoas simplesmente deixam um espaço dentro da gente que nunca desaparece.


Andrew acariciou os cabelos dela.


— Eu sei.


Hailey se afastou um pouco, ainda segurando os braços dele, como se tivesse medo de que desaparecesse.


— Por que você está aqui?


Andrew olhou para o castelo ao redor antes de responder.


— Porque este é o seu céu.


Hailey ficou imóvel.


— Meu céu?


— Hogwarts. O lugar onde você construiu uma parte enorme de quem é. O lugar onde encontrou pessoas que se tornaram sua família. O lugar onde você amou, brigou, sofreu, cresceu e descobriu coisas sobre si mesma que nunca teria descoberto em outro lugar.


Hailey olhou ao redor.


— Então eu morri?


Andrew não respondeu imediatamente mas sua expressão era serena. Hailey sentiu o estômago se contrair.


— Eu vi o Gareth cair — disse, com a voz começando a falhar. — Eu vi ele ser atingido e cair no chão. Eu tentei chegar até ele, mas tudo aconteceu tão rápido. Ele morreu, Andrew... eu perdi ele também. Do mesmo jeito que perdi você...


Andrew segurou as mãos dela.


— Hailey, olha para mim.


Ela obedeceu.


— O Gareth está vivo.


Ela piscou.


— Que?


— Está.


— Eu vi ele cair.


— Eu sei.


— Eu vi o corpo dele no chão.


— Eu sei.


— Então como você pode me dizer que ele está vivo?


Andrew apertou suavemente as mãos dela.


— Porque você não viu Gareth morrer. Você viu Gareth ser atingido e ficar desacordado. Você estava no meio de uma batalha, cercada por inimigos, com seu próprio corpo sendo destruído pelo ritual e acreditando que tudo estava acabando. Você viu aquilo que mais temia ver e sua mente fez o resto. Você não teve tempo, nem condições, de descobrir se ele ainda estava respirando. Você simplesmente acreditou que o tinha perdido.


As lágrimas de Hailey escorreram novamente.


— Ele está mesmo vivo?


— Está.


Hailey levou as mãos à boca e fechou os olhos. O alívio foi tão violento que quase se transformou em dor. Andrew sorriu. Hailey abriu os olhos.


— O que foi?


— Ainda existe uma coisa que você precisa entender.


Ela franziu o cenho.


— O quê?


Andrew olhou para ela com uma ternura que Hailey conhecia muito bem.


— Você ainda se culpa pela minha morte.


Hailey desviou os olhos.


— Andrew...


— Não precisa fingir comigo. Eu conheço você.


Ela respirou fundo.


— Eu penso nisso. Às vezes. Mais do que deveria. Eu penso que talvez, se tivesse feito alguma coisa diferente, se tivesse ficado, se não tivesse fugido, talvez você ainda estivesse vivo. E depois eu conheci o Gareth e comecei a amá-lo, e uma parte de mim sentia que estava fazendo alguma coisa errada. Como se amar outra pessoa significasse que eu estava deixando você para trás.


Andrew balançou a cabeça.


— Hailey, você precisa entender que continuar vivendo nunca foi uma traição contra mim.


Ela ergueu os olhos.


— Mas eu queria ter podido salvar você.


— Eu sei. E eu queria que você não tivesse precisado passar pelo que passou. Mas não existe um caminho em que você possa voltar atrás e mudar tudo. E passar o resto da sua vida imaginando versões diferentes de uma história que já terminou não vai me trazer de volta nem vai fazer você mais feliz.


Hailey permaneceu em silêncio. Andrew continuou:


— E existe outra coisa que você precisa saber. O Gareth não tomou o meu lugar. Ele nunca tomou. Você não precisa escolher entre amar a memória que tem de mim e amar o homem que está esperando por você. Eu tive um lugar na sua vida. Um lugar que foi real, importante e que sempre será parte da sua história. Mas aquilo terminou. E você continuou. Você encontrou alguém que ama você profundamente, alguém que você ama também, e eu não estou triste por isso. Eu estou feliz por você, Hailey. Talvez mais feliz do que você imagina.


Hailey chorou silenciosamente.


— Eu senti medo de que, quando eu seguisse em frente, estivesse abandonando você.


Andrew tocou o rosto dela.


— Você não me abandonou. A vida continua mesmo quando alguém que amamos morre. É isso que a vida faz. Ela continua. E você não precisa se sentir culpada porque conseguiu continuar com ela.


Hailey fechou os olhos por um instante. Então ouviu.


— Hailey...


Ela abriu os olhos. A voz era distante, quase um sussurro atravessando os corredores.


— Amor, por favor...


Hailey olhou ao redor.


— Gareth...


Andrew sorriu. A voz veio novamente.


— Volta para mim. Por favor...


Hailey respirou fundo, sentindo o peito apertar.


— Eu preciso ir.


— Precisa.


Ela olhou para Andrew.


— Quando eu voltar, você vai desaparecer?


— Talvez eu deixe de existir diante dos seus olhos. Mas isso não significa que deixarei de existir na sua história.


Hailey abraçou-o novamente. Ela chorou contra o ombro dele. Andrew acariciou seus cabelos.


— Não transforme essa despedida em uma coisa triste. Eu quero que você vá embora daqui sabendo que eu estou bem e que estou muito feliz por você. E quero que você volte sabendo que você também vai ficar bem.


Hailey afastou-se e enxugou as lágrimas. Andrew sorriu.


— Agora vai. Ele está esperando.


Hailey assentiu. Começou a caminhar pelo corredor. A voz de Gareth ficava mais clara a cada passo.


— Hailey, volta...


Ela acelerou. As lágrimas ainda escorriam pelo rosto, mas agora havia esperança misturada à dor. Quando chegou diante das grandes portas de Hogwarts, parou e olhou para trás.


Andrew permanecia no corredor.


Ele sorriu para ela.


Hailey sorriu de volta.


Então abriu as portas e atravessou.


A escuridão a envolveu.


---


Sara despertou na Audácia.


Por alguns segundos, permaneceu imóvel, tentando compreender por que o silêncio daquele lugar parecia tão diferente. A Audácia nunca havia sido silenciosa daquela maneira. Sempre existiam passos, vozes, risadas, música, treinos, gritos, o som metálico das armas ou simplesmente a sensação constante de que alguma coisa estava acontecendo. Agora, porém, os corredores estavam completamente vazios.


Sara se levantou devagar.


Não havia sangue.


Não havia ferimentos.


Não havia marcas da guerra.


As paredes estavam intactas, as luzes acesas e os caminhos que conhecia desde que chegara à Audácia pareciam exatamente como se lembrava. Ainda assim, havia alguma coisa estranha. Era a Audácia, mas uma Audácia sem medo, sem violência e sem morte.


Sara olhou para si mesma e percebeu que usava um vestido branco.


Passou os dedos pelo tecido e caminhou lentamente pelos corredores.


Reconheceu cada caminho.


Cada curva.


Cada espaço.


A sensação de familiaridade foi crescendo até se tornar quase dolorosa.


Então ela compreendeu.


Aquele era o céu dela.


A Audácia representava uma parte fundamental de quem Sara havia se tornado. Era onde havia aprendido a lutar, a sobreviver, a enfrentar seus medos e a descobrir que coragem não significava ausência de medo. Era onde havia encontrado pessoas que se tornaram sua família.


Mas havia alguém que não deveria estar ali.


Sara parou ao vê-la.


Uma mulher estava alguns metros adiante.


Os cabelos eram ruivos.


Os olhos, cinza esverdeados. Ela vestia o uniforme da Erudição. Sara sentiu o coração parar por um instante.


— Mãe?


Amélia sorriu. Foi o suficiente para destruir qualquer tentativa de Sara de permanecer forte.


Ela correu.


As duas se abraçaram.


Sara chorou imediatamente, escondendo o rosto no ombro da mãe enquanto Amélia a envolvia nos braços. Durante anos, Sara havia carregado perguntas sobre aquela mulher. Perguntas que nunca tiveram respostas simples. Havia saudade, mágoa, amor, raiva, confusão e uma necessidade quase infantil de saber como seria simplesmente ter a mãe de volta.


Agora ela estava ali.


Real.


Ou quase real.


E Sara não queria pensar em mais nada.


— Eu senti tanta falta de você — sussurrou.


Amélia beijou os cabelos da filha.


— Eu também senti, minha menina.


Sara afastou-se apenas o suficiente para olhar para ela.


— Por que você está aqui?


Amélia sorriu com tristeza.


— Porque este é o seu céu.


Sara olhou ao redor.


— Então eu morri?


— Não exatamente.


A resposta fez Sara franzir o cenho.


— O que isso significa?


Amélia segurou as mãos dela.


— Significa que você chegou muito perto da morte. Mais perto do que deveria ter chegado. Mas ainda existe uma parte de você ligada à vida. O ritual tentou romper essa ligação, mas não conseguiu completamente.


Sara ficou em silêncio. Então percebeu que não queria saber mais. Não naquele momento. Porque Amélia estava ali.


— Eu posso ficar?


Amélia imediatamente compreendeu o que havia por trás da pergunta.


— Não.


Sara sentiu a garganta fechar.


— Por quê?


— Porque ainda não é a sua hora.


— Mas eu finalmente encontrei você.


— Eu sei.


— Passei a vida inteira querendo isso. Passei anos imaginando como seria se eu pudesse conversar com você, se pudesse perguntar as coisas que nunca consegui perguntar, se pudesse simplesmente... ter minha mãe. E agora que eu finalmente tenho, você está me dizendo que eu preciso ir embora?


Amélia tocou o rosto dela.


— Estou dizendo que quero que você viva.


Sara balançou a cabeça.


— Eu não quero deixar você novamente.


— Você não está me deixando.


— Parece exatamente isso.


Amélia puxou a filha para perto.


— Sara, escuta o que estou dizendo. Eu não quero que você venha para cá. Eu não quero receber você porque você morreu. Eu quero que você volte para o mundo dos vivos. Quero que você tenha aquilo que eu não tive tempo de ter. Quero que você conheça os anos que eu nunca conheci.


Sara chorou.


— Eu tenho medo de perder você de novo.


— Você nunca vai me perder. Eu sou sua mãe... Estarei sempre com você.


Sara fechou os olhos.


Amélia continuou:


— Eu tinha vinte e um anos quando minha vida terminou. Você ainda é tão jovem. Ainda tem tantos anos pela frente que nem consegue imaginar. Quero que você chegue aos trinta e reclame de ter dores nas costas. Quero que chegue aos quarenta e descubra que ainda existem coisas que não aprendeu. Quero que chegue aos cinquenta, sessenta, oitenta, e olhe para trás percebendo que viveu uma vida inteira. Quero que você ame, que construa uma família, que faça escolhas erradas e tenha a oportunidade de corrigi-las. Quero que tenha histórias suficientes para passar horas contando quando estiver velha. Eu não quero que sua história termine agora.


Sara soluçou.


— E se eu não souber viver sem você?


Amélia sorriu.


— Você já sabe. Só não percebeu.


Sara olhou para ela.


— Você está dentro de mim. Está nas coisas que eu lembro, nas coisas que você me ensinou, nas partes de mim que são parecidas com você e até nas coisas que eu faço diferente. Você não desapareceu porque morreu. E eu não preciso morrer para continuar amando você.


Uma voz distante atravessou os corredores.


— Sara...


Ela ficou imóvel. Amélia percebeu.


— Draco.


Sara fechou os olhos. A voz veio novamente, mais desesperada.


— Sara, por favor. Volta para mim.


Uma lágrima escorreu pelo rosto dela.


— Eu queria tanto ficar com você, mãe...


— Eu sei.


— Então por que está me mandando embora?


Amélia segurou o rosto da filha com as duas mãos.


— Porque eu sou sua mãe. E uma mãe não manda a filha para a morte quando ainda existe vida esperando por ela.


Sara começou a chorar novamente.


— Eu amo você.


— Eu sei.


— Eu não quero esquecer você.


— Você nunca vai.


— E se um dia eu esquecer alguma coisa?


Amélia sorriu.


— Então você vai lembrar de outras. É assim que funciona. As pessoas que amamos não permanecem dentro de nós porque conseguimos lembrar de cada detalhe para sempre. Elas permanecem porque mudaram quem somos.


Sara abraçou a mãe mais uma vez. Dessa vez, o abraço não tinha o desespero de antes. Ainda havia tristeza, mas havia também compreensão.


— Eu vou poder ver você outra vez?


Amélia sorriu.


— Quando chegar realmente a sua hora, eu estarei esperando. Mas não agora, Sara. Agora você tem uma vida para viver.


A voz de Draco voltou a ecoar.


— Amor, por favor...


Sara olhou na direção do som. Então voltou os olhos para a mãe. Amélia sorriu.


— Vai.


Sara deu alguns passos para trás.


— Eu te amo.


— Eu também te amo.


Sara começou a caminhar.


Quanto mais se afastava, mais forte ficava a voz de Draco. Ela atravessou os corredores da Audácia entre lágrimas, mas não correu. Pela primeira vez, não estava fugindo de alguma coisa. Estava indo em direção a alguém. Quando chegou ao fim do corredor, olhou para trás.


Amélia ainda estava ali. Ruiva, com os olhos cinza esverdeados e o uniforme da Erudição, exatamente como Sara queria se lembrar dela.


A mãe sorriu.


Sara sorriu de volta.


Então se virou e continuou caminhando.


A luz começou a crescer diante dela, envolvendo tudo ao redor até que a Audácia desaparecesse pouco a pouco.


Sara fechou os olhos.


E sua visão escureceu.