Last Battle
33 O retorno
Grace voltou à vida como quem emergia de uma profundidade tão escura que, por alguns instantes, não conseguiu compreender se realmente havia retornado ou se apenas estava presa entre dois mundos. A primeira coisa que sentiu foi dor. Uma dor pesada, espalhada pelo corpo inteiro, acompanhada pela dificuldade de respirar e pela sensação de que cada inspiração precisava ser conquistada. Seus pulmões pareciam pequenos demais para o ar que tentava puxar, e a garganta ardia como se tivesse sido rasgada. Ela abriu os olhos devagar, mas a luz foi forte demais, obrigando-a a fechá-los outra vez. Durante alguns segundos, tudo o que conseguiu perceber foram vozes distantes, passos apressados e o próprio coração batendo com violência dentro do peito.
Quando tornou a abrir os olhos, a primeira pessoa que viu foi Evelyn.
A mãe de Grace estava inclinada sobre ela, os cabelos cacheados caindo ao redor do rosto e os olhos castanhos completamente tomados pelas lágrimas. Havia uma expressão naquele rosto que Grace nunca tinha visto antes, uma mistura tão profunda de medo, incredulidade e alívio que por um instante ela não conseguiu dizer nada. Evelyn parecia ter esquecido como respirar. Durante aqueles segundos, apenas encarou a filha, como se precisasse confirmar que aquilo diante dela era realmente Grace e não uma esperança cruel criada pelo desespero.
— Grace... meu amor... você consegue me ouvir? — a voz de Evelyn saiu trêmula, quase quebrada, enquanto ela tocava cuidadosamente o rosto da filha. — Olha para mim, por favor. Só olha para mim. Eu preciso saber que você está aqui. Eu preciso saber que você voltou.
Grace tentou responder, mas a garganta doeu tanto que apenas conseguiu soltar um som rouco. Evelyn levou imediatamente uma das mãos à boca, chorando em silêncio. Grace piscou algumas vezes, tentando organizar as lembranças. Lembrou-se da batalha, do sangue, da voz que ouvira naquele lugar impossível, da própria decisão de voltar. Lembrou-se de Tobias chamando por ela. Lembrou-se de si mesma escolhendo a vida. Mas ainda não entendia como havia chegado ali.
— Eu... estou viva? — perguntou finalmente, com a voz quase inaudível.
A pergunta pareceu quebrar alguma coisa dentro de Evelyn. Ela fechou os olhos por um instante e, quando os abriu novamente, não tentou conter as lágrimas. Inclinou-se sobre a filha com todo o cuidado possível e a abraçou, evitando pressionar os ferimentos, mas envolvendo-a com os braços como se tivesse medo de que, se a soltasse, Grace desapareceria outra vez.
— Está, filha. Você está viva. Está aqui comigo. Eu não consigo nem explicar o que significa ouvir você me perguntar isso depois de tudo o que aconteceu. Eu vi você coberta de sangue, imóvel, e por alguns minutos achei que tinha perdido minha menina. Eu não sabia se conseguiria ouvir sua voz novamente, não sabia se teria outra oportunidade de tocar seu rosto, de abraçar você, de dizer que eu amo você. Então, por favor, não me peça para fingir que estou calma agora, porque eu simplesmente não consigo. Você voltou, Grace. É só isso que importa para mim.
Grace fechou os olhos contra o ombro da mãe e sentiu as lágrimas escorrerem pelo rosto. O abraço de Evelyn era quente, real, diferente de tudo o que experimentara naquele lugar silencioso que havia visitado antes de retornar. Ela respirou com dificuldade, deixando que a realidade se assentasse dentro dela.
Então percebeu que havia alguém ao lado da mãe.
Tobias estava alguns passos atrás, parado como se tivesse esquecido completamente como se mover. O rosto dele estava pálido, os olhos vermelhos e o cabelo desarrumado. Havia sangue seco em suas roupas e nas mãos, marcas da batalha que ainda não tivera tempo de desaparecer. Ele parecia ter envelhecido anos desde a última vez que Grace o vira. Durante todo o tempo em que ela permanecera inconsciente, ele não havia conseguido se afastar.
Quando os olhos dos dois se encontraram, Tobias levou uma das mãos ao rosto, tentando esconder a emoção, mas não conseguiu. Grace estendeu os dedos na direção dele, e aquele pequeno movimento foi suficiente para fazê-lo se aproximar.
— Eu ouvi você — Grace murmurou.
Tobias se ajoelhou ao lado dela.
— O quê?
— Sua voz. Eu ouvi você me chamando.
A respiração dele falhou por um instante.
— Eu estava chamando você porque não sabia o que mais fazer. Eu não conseguia aceitar que você pudesse ter ido embora daquele jeito. Eu fiquei ao seu lado o tempo inteiro, Grace. Eu não sabia se você conseguia me ouvir, não sabia se alguma parte de você ainda estava aqui, mas eu continuei falando porque precisava acreditar que, de alguma maneira, você encontraria o caminho de volta.
Grace sorriu fracamente.
— Eu encontrei.
Ele segurou a mão dela com extremo cuidado, entrelaçando os dedos.
— Então foi por isso?
— Eu não sei explicar tudo ainda. Eu estava em um lugar que parecia perfeito, Tobias. Não havia dor, medo ou guerra. Eu poderia ter ficado lá. Por alguns momentos, achei que aquilo era o que eu deveria querer depois de tudo o que aconteceu. Mas percebi que paz não significava felicidade para mim. Eu queria você. Queria Hailey, Sara, minha mãe, nossa vida, mesmo com todos os problemas que ainda existem. Eu escolhi voltar porque ainda quero viver. Só não sei como voltei.
Tobias abaixou a cabeça até encostar a testa na mão dela.
— Então nunca mais faça isso comigo.
Grace deixou escapar uma risada fraca.
— Eu não planejava.
— Eu sei. Mas eu precisava dizer. Porque eu passei tempo demais achando que nunca mais ouviria você reclamando de alguma coisa, nunca mais veria você me olhando daquele jeito quando acha que estou fazendo alguma coisa idiota, nunca mais teria a oportunidade de discutir com você. E eu descobri que a ideia de um mundo sem você é muito mais assustadora do que qualquer batalha que eu já enfrentei.
Grace apertou os dedos dele.
— Eu voltei para você.
Tobias ergueu os olhos.
— E eu vou passar o resto da minha vida agradecendo por isso.
Foi apenas então que Grace percebeu que havia algo errado.
Seu olhar percorreu o espaço ao redor e encontrou Hailey ainda inconsciente. Gareth estava sentado ao lado dela, segurando-a nos braços. Ele não parecia sequer perceber que alguém o observava. O rosto estava molhado de lágrimas, e uma das mãos permanecia apoiada sobre os cabelos de Hailey, enquanto a outra segurava a mão dela com tanta força que os dedos estavam quase brancos.
Mais adiante, Draco permanecia ao lado de Sara.
Ele estava completamente imóvel.
Grace sentiu o peito apertar.
— Elas ainda não acordaram?
Evelyn não respondeu imediatamente. Foi Tobias quem apertou a mão dela.
— Não.
Grace olhou para Hailey e depois para Sara.
— Quanto tempo?
— Não sabemos — Tobias respondeu, a voz mais baixa. — Para nós, pareceu uma eternidade.
Grace tentou se levantar, mas a dor a fez recuar imediatamente.
— Não, não tente — Evelyn pediu, apoiando a mão em seu ombro. — Você ainda está muito fraca.
Grace respirou fundo e voltou a olhar para as duas amigas.
— Elas precisam voltar também.
Ninguém respondeu, porque todos pensavam exatamente a mesma coisa.
Hailey foi a segunda a retornar.
Seu corpo reagiu antes mesmo de sua consciência compreender o que estava acontecendo. Ela abriu os olhos abruptamente e puxou uma respiração tão profunda que acabou tossindo. A garganta ardia. O corpo inteiro parecia pesado, dolorido, como se tivesse sido esmagado e reconstruído de maneira imperfeita. Por alguns segundos, a visão permaneceu embaçada. Ela procurou instintivamente pela arquitetura familiar de Hogwarts, esperando encontrar os corredores de pedra, as janelas altas, as velas e a sensação estranhamente reconfortante que havia experimentado no lugar para o qual sua mente a levara.
Mas não estava em Hogwarts.
Quando sua visão finalmente se ajustou, encontrou Lucy ao lado esquerdo.
A mãe de Hailey estava chorando.
Os cabelos loiros estavam desalinhados, os olhos verdes vermelhos e inchados, e as pequenas sardas que sempre atravessavam seu rosto pareciam ainda mais evidentes diante da palidez. Lucy levou as duas mãos ao rosto quando percebeu que a filha havia aberto os olhos.
— Meu Deus... Hailey.
Hailey tentou falar, mas a primeira coisa que saiu foi apenas um sussurro.
— Gareth?
Lucy olhou para o outro lado.
Hailey acompanhou o movimento e só então percebeu que estava nos braços dele.
Gareth estava ali.
Vivo.
O rosto dele estava marcado por lágrimas, os olhos castanhos fixos nela e um sorriso trêmulo surgia apesar do desespero que ainda não havia desaparecido. Hailey levou a mão até o rosto dele, tocando sua bochecha como se precisasse confirmar que era real.
— Você está mesmo vivo?
Gareth fechou os olhos por um segundo diante daquele toque.
— Estou. Estou aqui. Eu estou vivo, Hailey.
Ela começou a chorar.
— Eu achei que você tivesse morrido.
— Eu sei.
— Eu vi você cair. Eu vi quando aquilo acertou você e achei que... — A voz dela falhou. — Eu achei que tinha perdido você.
Gareth segurou a mão dela e beijou seus dedos.
— Eu também achei que tinha perdido você. Quando vi o que estavam fazendo com você, eu achei que nunca mais ouviria sua voz. Eu não conseguia aceitar. Eu continuei lutando porque precisava chegar até você, mas depois tudo ficou escuro. Quando acordei e não te vi do meu lado eu quase pirei. E ai... chegamos aqui e você tava sangrando muito... Você abrir os olhos agora é como se alguém tivesse devolvido meu próprio coração.
Hailey chorou ainda mais e se agarrou a ele. Gareth a envolveu com cuidado, escondendo o rosto nos cabelos dela. Lucy permaneceu ao lado, chorando também, mas com um sorriso entre as lágrimas. Ela observou os dois por alguns instantes antes de colocar uma mão sobre o ombro de Gareth.
— Obrigada por ter ficado com ela.
Gareth ergueu o rosto.
— Eu não conseguiria fazer outra coisa.
— Eu sei. E talvez você não entenda agora, porque ainda está tentando acreditar que ela voltou, mas como mãe eu preciso que você saiba que eu vi o jeito como segurou minha filha. Você estava aterrorizado, mas não a soltou. Então obrigada.
Gareth assentiu, incapaz de responder imediatamente. Lucy o abraçou, e ele fechou os olhos por um instante, permitindo-se sentir o alívio que finalmente começava a vencer o medo.
Do outro lado, Zeus observava a cena em silêncio. Seus olhos permaneceram em Hailey por alguns segundos, mas depois encontraram Lucy. Havia uma ternura em seu olhar que quase ninguém além dela conseguiria provocar. Lucy percebeu e sustentou o olhar dele, ainda chorando.
— Ela voltou — Lucy murmurou.
Zeus assentiu.
— Voltou porque ainda havia uma parte dela que se recusava a abandonar este mundo.
Hailey respirou fundo e, ainda apoiada em Gareth, olhou para a mãe.
— Eu vi Hogwarts.
Lucy acariciou seus cabelos.
— O quê?
— Antes de voltar. Eu estava em Hogwarts. Tudo estava intacto. Não havia guerra. Não havia sangue. Era como se nada tivesse acontecido. Eu achei que tinha morrido.
Gareth apertou sua mão.
— E então?
Hailey olhou para ele.
— Eu percebi que não queria ficar lá.
A voz de Gareth falhou.
— Por quê?
Ela sorriu entre as lágrimas.
— Porque você não estava lá.
Ele encostou a testa na dela.
— Então eu vou passar o resto da vida tentando garantir que você nunca mais precise me procurar em outro lugar.
Enquanto Grace e Hailey finalmente conseguiam respirar com a certeza de que haviam retornado, Sara permanecia imóvel.
Draco não havia saído do lado dela.
Não havia conversado com ninguém. Não havia desviado os olhos do rosto de Sara por mais do que alguns segundos. Desde que ela fora encontrada, ele segurava sua mão entre as próprias, como se aquele contato fosse a única coisa que ainda o mantinha de pé. Hades permanecia próximo, silencioso, observando a filha com uma expressão que misturava uma dor antiga e um medo que ele jamais admitiria diante de ninguém.
Draco aproximou-se um pouco mais de Sara.
— Eu não sei se você consegue me ouvir, Sara, mas eu vou continuar falando mesmo assim. Talvez seja egoísmo, talvez seja desespero, talvez seja simplesmente porque eu não consigo ficar sentado esperando sem fazer nada. Eu preciso que você saiba que eu estou aqui. Eu preciso que você saiba que ainda existe uma vida esperando por você. Você pode estar cansada. Pode estar com medo. Pode até achar que já lutou o suficiente. Mas você não pode desistir agora.
Ele apertou delicadamente os dedos dela.
— Eu sei que você perdeu sua mãe. Sei que carrega coisas que eu provavelmente nunca vou compreender completamente. Sei que parte de você pode querer descansar, principalmente depois de tudo o que aconteceu. Mas, por favor, não confunda descanso com fim. Você ainda tem coisas para viver. Tem pessoas que amam você. Tem pessoas que precisam de você. Eu preciso de você. Não porque eu não consiga existir sozinho, mas porque a minha vida ficou melhor desde que você entrou nela, e eu não quero imaginar um futuro em que você não esteja. Você ainda me deve discussões, ainda precisa me irritar, ainda precisa me olhar daquele jeito quando eu faço alguma coisa idiota. Ainda temos lugares para conhecer, coisas para descobrir e uma quantidade absurda de tempo para perdermos juntos.
Draco respirou fundo, tentando conter o choro.
— Então, se existe qualquer parte de você capaz de me ouvir, encontre o caminho de volta. Não precisa ser forte agora. Não precisa lutar contra tudo sozinha. Só precisa voltar para mim.
Draco permaneceu ao lado dela, segurando sua mão, enquanto Hades observava em silêncio.
Foi nesse momento que Sara puxou uma respiração violenta.
Draco levantou o rosto imediatamente.
— Sara?
Ela abriu os olhos.
Por alguns segundos, não conseguiu enxergar direito. A primeira coisa que percebeu foi Draco. Depois, lentamente, reconheceu Hades ao lado dele. O rosto do deus estava imóvel, mas os olhos denunciavam tudo aquilo que ele tentava esconder.
Sara piscou algumas vezes.
— Draco...
Ele soltou uma risada que se transformou em choro e apertou a mão dela.
— Eu estou aqui. Eu estou aqui, Sara.
Ela respirou com dificuldade e olhou para Hades.
— Eu conheci minha mãe.
Hades ficou completamente imóvel.
Aquelas palavras atravessaram o deus com uma força que nenhuma batalha teria conseguido reproduzir. Por um instante, ele não encontrou resposta.
— Amélia? — perguntou finalmente.
Sara assentiu, e as lágrimas começaram a escorrer.
— Eu estava na Audácia. Estava tudo inteiro, como antes. E ela estava lá. Ela parecia exatamente como eu lembrava. Eu queria ficar com ela. Queria tanto ficar que, por alguns instantes, pensei que não conseguiria voltar.
Hades fechou os olhos.
Sara continuou, segurando a mão de Draco.
— Mas ela me mandou voltar. Disse que eu ainda precisava viver. Disse que uma mãe não mandaria a filha para a morte enquanto houvesse uma vida esperando por ela. Ela morreu aos vinte e um anos e... eu acho que finalmente entendi que ela não me deixou porque quis. Ela simplesmente não teve escolha.
Hades aproximou-se da filha.
— Então ela fez exatamente aquilo que uma mãe faria.
Sara olhou para ele.
— Ela mandou você de volta para mim?
— Ela mandou você de volta para a vida — Hades respondeu. — E eu acredito que isso é mais importante do que qualquer coisa que ela pudesse ter pedido. Se Amélia teve a oportunidade de falar com você uma última vez e escolheu devolver você ao mundo, então ela fez uma escolha de amor. Ela não abandonou você, Sara. Ela amou você o suficiente para deixá-la partir outra vez.
Sara chorou.
Draco passou um braço cuidadosamente ao redor dela, e Hades permaneceu próximo, respeitando aquele momento.
— Eu queria ter tido mais tempo com ela — Sara confessou.
— Eu sei.
— Mas agora eu não sinto que ela foi embora da mesma maneira.
Hades assentiu.
— Porque ela não foi. Parte dela está em você.
Sara fechou os olhos e apoiou a cabeça no ombro de Draco.
Pela primeira vez desde que acordara, seu rosto pareceu encontrar alguma paz.
Quando as três estavam conscientes, ainda que fracas, machucadas e incapazes de permanecer muito tempo sentadas sem sentir dor, Hailey olhou para Grace e Sara. Grace segurava a mão de Tobias. Sara permanecia apoiada em Draco. Gareth continuava ao lado de Hailey. As mães estavam próximas, e os três deuses observavam as filhas.
Foi Hailey quem finalmente perguntou aquilo que todos pareciam evitar.
— Como nós sobrevivemos?
Ninguém respondeu imediatamente.
Ela olhou para Zeus.
— O ritual falhou?
Apollo, que permanecera até então examinando os ferimentos das três, ergueu os olhos.
— Não.
A palavra fez o silêncio pesar ainda mais.
Grace franziu a testa.
— Então como estamos vivas?
Tobias olhou para Apollo, e Gareth e Draco fizeram o mesmo.
Foi Zeus quem começou a explicar.
— O ritual não falhou. Nós o interrompemos.
Hailey ficou imóvel.
— Vocês?
Zeus assentiu.
— Seus três companheiros conseguiram chegar até nós. Quando perceberam que não conseguiriam alcançar vocês a tempo, Gareth, Tobias e Draco foram até o Olimpo. Eles chegaram desesperados, feridos e sem saber se ainda havia alguma possibilidade de salvá-las. Não nos trouxeram uma informação completa. Trouxeram apenas o suficiente para nos fazer compreender que algo muito maior estava acontecendo. E então nos levaram até o local do ritual.
Gareth baixou os olhos.
— Eu só conseguia pensar que vocês precisavam de nós.
Tobias completou:
— Nós não sabíamos se chegaríamos tarde demais.
Draco permaneceu em silêncio, ainda segurando a mão de Sara.
Apollo assumiu a explicação.
— Quando chegamos, o ritual já estava no estágio final. As três estavam presas no centro do círculo. As runas estavam alimentando uma conexão que não deveria existir entre o mundo dos vivos e aquilo que estava sendo chamado de volta. Os responsáveis pelo ritual já haviam preparado tudo. Faltava apenas concluir a última etapa. O sacrifício.
Grace sentiu um arrepio. O rosto de Hailey perdeu a cor.
— Eles iam nos matar. Precisavam do nosso sangue quente e dele todo.
— Sim.
A voz de Apollo permaneceu firme, mas havia algo sombrio em seus olhos.
— E foi exatamente nesse momento que chegamos.
Ele explicou que os deuses haviam atravessado o espaço até o local do ritual enquanto os vilões iniciavam a etapa final. Zeus percebeu primeiro as runas que mantinham a estrutura mágica de pé e lançou sua força contra elas, fazendo a energia do círculo explodir em uma sucessão de clarões. Poseidon atingiu a área central com uma onda violenta que rompeu a geometria do ritual e destruiu parte dos símbolos que mantinham as três presas. Hades atacou a ligação que os feiticeiros haviam criado com o mundo dos mortos, cortando-a antes que pudesse ser completada. Athena identificou os pontos essenciais da estrutura e orientou os outros deuses sobre onde atingir para impedir que o ritual se reconstruísse. Ares avançou contra os inimigos que tentavam proteger o círculo, enquanto Hermes e Artemis impediram que alguns deles fugissem. Hefesto destruiu os mecanismos mágicos usados para conduzir e armazenar o sangue.
Mas, naquele momento, nada disso teria importância se Apollo não tivesse alcançado as meninas.
— Nós chegamos quando as lâminas já estavam nas gargantas de vocês — explicou ele. — E os responsáveis pelo ritual conseguiram fazer o corte.
Hailey levou a mão à garganta por instinto.
Grace fechou os olhos.
Sara apertou os dedos de Draco.
Apollo continuou:
— As gargantas de vocês foram cortadas no mesmo instante em que interrompemos o ritual. Foi por isso que conseguimos salvá-las. Não porque o ritual estivesse incompleto por vontade própria, mas porque chegamos exatamente no último momento possível. Se tivéssemos chegado alguns segundos depois, o resultado teria sido diferente.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Quando chegamos, vocês três já estavam no limite. O corte havia sido feito e vocês estavam sangrando. Eu consegui interromper a perda imediatamente. Fechei as feridas, estabilizei os corpos e impedi que o ritual continuasse utilizando o sangue de vocês.
Apollo fez uma pausa antes de continuar, e sua expressão suavizou.
— Enquanto eu trabalhava para manter as três vivas, Zeus e Poseidon perceberam que havia outra coisa que precisava ser feita. Vocês tinham mães que, naquele momento, provavelmente nem sabiam se as filhas estavam vivas. Zeus foi buscar Lucy pessoalmente no Rio de Janeiro. Poseidon partiu para Nova York para encontrar Evelyn. Eles não poderiam saber quando vocês acordariam, mas ambos entenderam que, se houvesse uma chance de vocês voltarem, as mães deveriam estar aqui para recebê-las.
Grace olhou para Evelyn.
Evelyn segurou a mão da filha.
Apollo continuou:
— Eu permaneci com vocês enquanto eles foram buscá-las. Continuei fechando as feridas, estabilizando os corações e mantendo seus corpos vivos. Quando Zeus e Poseidon retornaram com Lucy e Evelyn, vocês ainda não tinham acordado. Foi por isso que suas mães estavam aqui quando vocês abriram os olhos.
Hailey olhou para Lucy, compreendendo finalmente por que ela estava ali. Lucy passou a mão pelos cabelos da filha.
— Seu pai apareceu no meio da noite e me disse que você estava quase viva. Eu nem sabia se devia acreditar. Mas eu vim.
Zeus permaneceu atrás dela, em silêncio.
Evelyn apertou os dedos de Grace.
— Poseidon fez a mesma coisa comigo. Ele me encontrou em Nova York e me disse que você estava viva, mas que ainda não havia acordado. Eu não pensei duas vezes antes de vir.
Grace sentiu as lágrimas surgirem.
Apollo então voltou à explicação que realmente importava.
— Vocês não morreram só porque conseguimos impedir que a perda de sangue terminasse o que havia começado. Salvar o corpo não era o mesmo que obrigar vocês a voltar. Nós conseguimos impedir a morte física — continuou Apollo. — Conseguimos fechar as feridas, estabilizar seus corações e interromper a ligação que os inimigos haviam criado. Mas havia uma parte de vocês que estava além do alcance de qualquer deus naquele momento. Vocês estavam na fronteira. E, quando alguém chega tão perto da morte, existe um caminho que ninguém pode escolher por essa pessoa.
Hailey entendeu primeiro.
— Nós precisávamos escolher voltar.
Apollo assentiu.
— Exatamente. O caminho de volta precisava ser escolhido por cada uma.
Grace sentiu as lágrimas surgirem novamente.
Ela pensou no acampamento vazio, na menina que havia encontrado e na tranquilidade que quase a convenceu a permanecer. Hailey pensou em Hogwarts e em Andrew. Sara pensou na Audácia e em Amélia.
Nenhuma delas precisou explicar.
Elas tinham escolhido a vida.
Os vilões haviam sido derrotados. O círculo ritualístico fora destruído. A passagem que tentavam abrir jamais chegara a se completar, e os mortos que pretendiam trazer de volta continuavam onde estavam. Voldemort não retornara. Os Titãs não haviam atravessado para o mundo dos vivos. O plano havia fracassado não porque o ritual tivesse simplesmente perdido sua força, mas porque, no último instante possível, os deuses haviam chegado e destruído aquilo que poderia tê-lo completado.
Lucy olhou para Zeus finalmente entendendo o ponto central de tudo aquilo.
— Então tudo isso... a batalha em Hogwarts... o sequestro das meninas...
— Foi planejado — respondeu ele. — Eles precisavam de uma guerra grande o suficiente para reunir pessoas poderosas em um único lugar. Precisavam que vocês estivessem cercadas por aliados, porque sabiam que isso produziria uma batalha em escala suficiente para gerar mortes. Quanto mais pessoas morressem, menos haveria para enfrentá-los depois que os mortos fossem trazidos de volta.
Lucy levou a mão à boca. Evelyn fechou os olhos. Tobias apertou a mão de Grace. Gareth olhou para Hailey como se finalmente compreendesse a dimensão daquilo que quase havia acontecido.
— Eles queriam matar todo mundo para garantir que ninguém sobrasse para lutar depois — ele disse.
Athena assentiu.
— E o sangue híbrido das três meninas eram a chave. Mas eles não conseguiram.
— Não — disse Apollo. — Não conseguiram.
Depois disso, os reencontros aconteceram com uma delicadeza que contrastava brutalmente com tudo o que haviam acabado de descobrir. Poseidon aproximou-se de Grace, e ela o encarou durante alguns segundos antes de permitir que ele a abraçasse. Não havia entre os dois a intimidade de uma relação construída ao longo de anos, porque ainda havia muitas coisas que precisavam ser descobertas, mas havia naquele abraço a consciência de que ele estivera ali quando ela quase partira.
— Sua mãe foi quem esteve ao seu lado durante toda a sua vida — Poseidon disse, olhando para Evelyn. — Eu posso ter sido ausente de maneiras que não podem ser apagadas, mas jamais vou ignorar o que ela fez por você.
Evelyn sustentou o olhar dele.
— Eu não fiz por obrigação. Grace é minha filha. Sempre foi.
Poseidon assentiu. Grace sorriu entre as lágrimas. Tobias aproximou-se, e Poseidon voltou o olhar para ele.
— Você ficou com ela. Quando ela estava mais vulnerável.
Tobias assentiu.
— Eu amo sua filha. E pretendo continuar ao lado dela pelo resto da minha vida, se ela também quiser.
Grace segurou a mão dele.
— Eu quero.
Poseidon sorriu.
Do outro lado, Zeus aproximou-se de Hailey. Ela ainda parecia exausta demais para iniciar as perguntas que sabia que um dia faria.
— Nós ainda precisamos conversar — ela disse.
Zeus assentiu.
— E eu ainda tenho muitas perguntas.
— Eu sei.
Hailey respirou fundo.
— Hoje eu não tenho força para todas elas.
— Então não precisa fazê-las hoje.
Lucy aproximou-se da filha e segurou sua mão. Gareth permaneceu ao lado delas.
— Obrigada por ficar com ela — Lucy disse encarando o rapaz.
Gareth sorriu, cansado.
— Eu amo a sua filha. Eu jamais ficaria longe.
Lucy o abraçou. Hailey fechou os olhos ao observar os dois.
Sara permaneceu mais quieta. Hades não tentou pressioná-la a falar sobre Amélia. Apenas permaneceu próximo. Draco continuava segurando sua mão, e Sara percebeu que, pela primeira vez desde que encontrara a mãe naquele lugar entre a vida e a morte, a lembrança não parecia apenas uma ferida.
Amélia a havia mandado voltar. E Sara havia obedecido.
Apollo finalmente se levantou.
— Vocês precisam descansar. Sobreviveram, mas isso não significa que estejam cem por cento recuperadas. Seus corpos ainda estão extremamente debilitados e a cura que receberam foi suficiente para mantê-las vivas, não para apagar tudo o que aconteceu.
A viagem de volta aconteceu em silêncio. Apollo os levou em um carro vermelho, e pela primeira vez desde o início da guerra ninguém parecia ter pressa. Hailey acabou adormecendo apoiada em Gareth, que permaneceu imóvel para não acordá-la. Grace descansou contra Tobias, os olhos fechados e a mão entrelaçada à dele. Sara permaneceu acordada por mais tempo, segurando a mão de Draco enquanto observava a paisagem passar pela janela. Ela pensava em Amélia.
Quando finalmente chegaram a Hogwarts, o castelo surgiu diante delas iluminado pelas primeiras luzes da manhã. As três ficaram alguns segundos olhando para o castelo.
Havia sido o campo de batalha. O lugar de onde foram sequestradas. Mas também era o lugar para onde haviam escolhido retornar.
Nenhuma delas precisava fingir que a dor havia desaparecido. Elas sabiam que haveria feridas para tratar, perguntas para responder e lembranças que talvez nunca deixassem de acompanhá-las. Também sabiam que haviam chegado muito perto de perder tudo.
Mas estavam ali.
Vivas.
Dessa vez, quando atravessaram juntas as portas de Hogwarts, não havia medo do que encontrariam do outro lado.
Havia apenas a certeza de que ainda tinham uma vida inteira para viver.
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